Semana On

Sábado 28.nov.2020

Ano IX - Nº 421

Saúde

Sem transparência, Brasil passa de 91 mil mortes e 2,6 milhões de casos de covid-19

O efeito do charlatanismo: as pessoas não querem saber de pesquisa científica, só do que o Bolsonaro tomou

Postado em 31 de Julho de 2020 - O Globo, Estadão - Edição Semana On

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O Brasil ultrapassou nesta semana as 9 mil mortes pela covid-19. O número de casos confirmados está acima dos 2.6 milhões. O Estado com o maior número de mortes é São Paulo, seguido pelo Rio de Janeiro, Ceará e Pará.

O país continua como o segundo país do mundo com maior número de casos e mortes na pandemia do novo coronavírus, depois apenas dos Estados Unidos, que tem mais de 4,4 milhões de casos e 151 mil mortes pela covid-19, segundo levantamento da Universidade Johns Hopkins.

Em meio a crise, o governo federal ficou em penúltimo lugar no ranking que avalia a transparência na divulgação dos contratos emergenciais feitos durante a pandemia de covid-19 e que analisa o desempenho dos governos dos 26 estados brasileiros e do Distrito Federal e também das prefeituras de todas as capitais brasileiras. A lista divulgada hoje pela ONG Transparência Internacional traz pela primeira vez a avaliação em nível federal.

O ranking começou a ser divulgado em maio. A escala vai de 0 a 100, em que os mais transparentes são aqueles que mais se aproximam da nota máxima. A lista atual avalia como foram divulgadas as informações dos contratos firmados no período de 20 a 23 de julho.

O governo federal registrou 49,3 pontos. A nota é considerada regular e só ficou na frente de Roraima, última colocada entre os estados com 40,51 pontos. A ONG explica que o motivo da nota baixa é a falta de detalhamento das contratações emergenciais e o fato de os dados estarem espalhados por vários portais diferentes.

Três estados dividem o primeiro lugar com 100 pontos: Ceará, Espírito Santo e Rondônia. São Paulo, estado com o maior número de casos da covid e mortes provocadas pela doença no Brasil ocupa a 12ª colocação, com 91,1 pontos, classificada como "ótimo". Já o Rio de Janeiro aparece em 20º, com 79,7 pontos, avaliado como "bom".

Entre as capitais, as três mais bem colocadas são Vitória e João Pessoa, com 100 pontos as duas, na primeira posição, e Rio Branco e Goiânia, na terceira posição, com 98,7 pontos.

Belém, Porto Velho e São Luís aparecem como as três últimas, sendo a capital do Maranhão a única a ser avaliada como "regular", com 50,6 pontos — ainda assim, supera a avaliação do governo federal.

Ministério da Saúde tem 9,8 milhões de testes parados por falta de insumos

Quase seis meses após decretar o estado emergência pela covid-19 no País, o Ministério da Saúde ainda guarda em seus estoques 9,85 milhões de testes. O número é quase o dobro das cerca de 5 milhões de unidades entregues até agora pelo governo federal aos Estados e municípios. O exame encalhado é do tipo PT-PCR, considerado “padrão-ouro” para diagnóstico da doença.

O principal motivo para os testes ficarem parados nas prateleiras do ministério é a falta de insumos usados em laboratório para processar amostras de pacientes. Isso porque, segundo secretários de saúde locais, não adianta só enviar o exame, mas também é preciso distribuir reagentes específicos.

O governo federal comprou os lotes de exames, mas sem ter garantia de que haveria todos esses insumos, indispensáveis para usar os testes. Estes produtos não são entregues “com regularidade” pela pasta, afirma o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass).

Questionado pela reportagem, o Ministério da Saúde disse que não recebeu alertas de Estados sobre falta de produtos para os exames. Relatórios internos da pasta, no entanto, já apontavam o problema. A ministério afirmou que teve dificuldades para encontrar todos os insumos no mercado internacional, mas que está estabilizando a distribuição conforme recebe importações de fornecedores, sem informar quantos reagentes foram entregues.

A escassez causa uma espécie de efeito cascata nos Estados, que ficam com seus locais de armazenamento lotados com os testes recebidos à espera dos demais produtos. “No primeiro momento não tínhamos testes porque estavam escassos. A Fiocruz  começou a produzir, além de laboratórios privados. Aí começou a faltar tubo, material de extração, depois de magnificação”, afirma o professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) Gonzalo Vecina. “Agora está faltando só competência. Falta só disposição do Estado para distribuir, coletar e processar”, acrescenta ele, ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Dados apresentados pelo ministério mostram que o Brasil realizou 2,3 milhões de testes do tipo RT-PCR para a covid-19, sendo 1,4 milhão na rede pública e 943 mil, na privada. No mesmo período, o País fez outros 2,9 milhões de testes rápidos, que localizam anticorpos para a doença, mas não são indicados para diagnóstico.

A entrega incompleta do kit faz o Brasil se distanciar da meta de exames para a covid-19. Além da falta dos reagentes, o ministério entregou poucos equipamentos para coletar e armazenar amostras de pacientes. Dados da pasta mostram que só 1,6 milhão de cotonetes (swab) e 873,56 mil tubos de laboratórios foram enviados até a semana passada - número bem abaixo dos 5 milhões de testes.

Secretário executivo do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde, Mauro Junqueira reforça que os testes ficaram estocados pelo Brasil pela falta de todo o equipamento para a análise. “Não tinha o material de extração. Chegou incompleto. Foi feito um acordo e (a compra) está sendo centralizada. Já melhorou muito nas últimas semanas”, disse.

Técnicos do ministério chegaram a projetar que o País realizaria 110,5 mil testes por dia, mostra ata do Centro de Operações de Emergência (COE) da pasta, de 4 de junho. A média diária em julho, porém, foi de 15,5 mil exames, segundo último boletim epidemiológico da Saúde.

Em ata do COE, de 4 de junho, técnicos da pasta colocaram como “pontos críticos” a falta de insumos para coleta e processamento das amostras.

Apesar do atraso nos diagnósticos, o ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello, já minimizou a falta de testes. “Criaram a ideia de que tem de testar para dizer que é coronavírus. Não tem de testar, tem de ter diagnóstico médico para dizer que é coronavírus. E, se o médico atestar, deve-se iniciar imediatamente o tratamento”, afirmou em entrevista à revista Veja no último dia 17.

A falta de testagem se reflete no alto número de casos sem diagnóstico adequado. Até 18 de julho, o Brasil registrou 441.194 internações por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), sendo 213.280 para covid-19. Há ainda mais de 80 mil internações em investigação e 141,6 mil classificadas como síndrome "não especificada".

Na opinião da presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva, Gulnar Azevedo, os exames encalhados no ministério evidenciam a falta de integração entre governo federal, Estados e municípios.

De acordo com dados do ministério, obtidos pelo Estadão, a União já fechou contratos para receber 23,54 milhões de testes RT-PCR, por R$ 1,58 bilhão. A pasta ainda espera a entrega de 8,65 milhões de unidades para depois repassar a Estados e municípios. Sobre o estoque de kits parados, o Ministério da Saúde disse que os Estados “não possuem capacidade para armazenar uma grande quantidade de insumos de uma só vez”. E portanto, “os testes em estoque são distribuídos à medida que os Estados demandam”.

Rastreamento de contatos

Atas do COE revelam ainda orientações ao ministério para criar formas de rastrear quem teve contato com pacientes do vírus. Em 29 de maio, técnicos sugeriram criar um aplicativo para monitorar quem está contaminado e dez de seus contatos próximos. No mesmo encontro foi feito o alerta de que, sem distanciamento social, os efeitos da pandemia duram até 2 anos, como revelou o Estadão.

O aplicativo jamais saiu do papel. Em 4 junho, o centro de operações tratou da necessidade de realizar "inquérito de acompanhamento do perfil sorológico da população" e rastreamento de quem teve contato com infectados nas últimas 48 horas. A ideia também não prosperou e o ministério não confirma a continuidade do financiamento da Epicovid19-BR, principal pesquisa sobre a incidência do coronavírus na população brasileira, conduzido pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel).

A escassez de exames dificulta a continuidade de programas de municípios para diagnóstico da covid-19 e rastreio de contatos de pacientes. Em São Caetano do Sul (SP), pessoas com sintomas da doença podem buscar atendimento por uma plataforma online. O primeiro contato é feito de forma remota com estudantes estudantes de medicina e, se for o caso, uma equipe de saúde realiza uma visita ao morador da cidade.

O próprio paciente coleta amostras para o exame RT-PCR. Se confirmada a infecção, ele é acompanhado remotamente por 14 dias e orientado a buscar o hospital, caso os sintomas se agravem. “É de se estranhar que haja mais de 9 milhões de testes em estoques, quando diversas cidades estão sofrendo com a falta de recursos para manutenção de seus programas”, afirma o médico Fábio Leal, professor da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS) e um dos idealizadores do projeto.

Procurado para explicar o elevado estoque de exames, o Ministério da Saúde disse que os Estados "não possuem capacidade para armazenar uma grande quantidade de insumos de uma só vez". "Portanto, por questões logísticas, os testes em estoque são distribuídos à medida que os estados demandam”, diz a pasta em nota.

O ministério disse ainda que a média diária de exames passou de 1.148 em março, mês da primeira morte pela covid-19 no País, para 15,5 mil em julho. Sem dar detalhes, a pasta argumenta que está "finalizando" uma política para o rastreamento de contatos de pessoas infectadas.

O efeito do charlatanismo

Pesquisa da Associação Paulista de Medicina mostra que 48,9% dos quase 2 mil profissionais de saúde entrevistados em todo o País disseram ter sofrido pressão de pacientes ou de parentes de internados para receitar remédios sem comprovação científica contra a covid-19. Os médicos também reclamam de intimidação nas redes sociais quando descartam o uso desses remédios, em especial da cloroquina, cuja eficácia no combate à pandemia já foi amplamente desqualificada. Há quem relate ter sofrido até ameaças de morte, como o presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, Clóvis Arns.

Assim, como se não bastasse toda a pressão inerente ao enfrentamento da pandemia, que inclui o risco pessoal de contaminação, os médicos que lidam com milhares de doentes têm sido obrigados a encarar a hostilidade de pacientes e familiares que insistem em tratamentos que, ao contrário de salvar vidas, podem colocá-las em risco.

É compreensível que pacientes e seus familiares tentem se agarrar a qualquer esperança ante a terrível perspectiva de sofrimento trazida pela pandemia – que só no Brasil já deixou quase 90 mil mortos. Ninguém haverá de condenar quem, após o temido diagnóstico, exige dos médicos a aplicação de todos os tratamentos disponíveis, se houver a mais remota possibilidade de um deles salvar o paciente. Quando tudo o mais falta, resta a fé.

O problema é que essa fé está sendo estimulada pelo governo federal, a começar pelo presidente Jair Bolsonaro, justamente a autoridade que deveria se empenhar mais em orientar a sociedade com dados realistas e cientificamente comprovados para combater a doença. Quando um presidente da República – ouvido com atenção por toda a Nação pelo cargo que ocupa – insiste em fazer propaganda a respeito dos supostos efeitos benéficos da cloroquina contra a covid-19, mesmo depois que esse medicamento foi considerado ineficaz por vários estudos, reina uma perigosa confusão.

Para quem está para entrar em uma UTI ou está angustiado porque um parente acabou de ser internado com covid-19, as palavras do presidente, já naturalmente relevantes, são entendidas como prescrição médica – aos profissionais de saúde, portanto, bastaria assinar a receita. Explica-se assim que um a cada dois médicos ouvidos na pesquisa da Associação Paulista de Medicina relate ameaça ou constrangimento por parte de parentes ou de doentes.

“Sei que é um momento complicado, entendo a agonia e a angústia das pessoas, mas começaram a me chamar de assassina porque eu não tinha usado cloroquina no tratamento”, disse ao Estado a médica intensivista Bruna Lordão, de São Paulo. “As pessoas não querem saber de pesquisa científica. Elas só querem saber o que o Bolsonaro tomou. Foram certamente os piores momentos da minha carreira.” Depois desse episódio, a médica pediu demissão do hospital.

Esse é o resultado da politização da pandemia por parte de Bolsonaro. Preocupado com os efeitos da crise sobre sua popularidade, o presidente agarrou-se à cloroquina como panaceia – e passou a tratar os médicos e as autoridades que questionaram a eficácia da droga como adversários políticos.

Como consequência disso, os médicos e as autoridades que decidem seguir a ciência e não o palpite presidencial são acusados de fazê-lo por oposição ao presidente e, no limite, porque esperam o agravamento da crise para prejudicar Bolsonaro. É o charlatanismo elevado à categoria de política de Estado para a área da saúde, o que complica sobremaneira o trabalho de quem deve lidar com a doença real, na linha de frente da longa batalha contra o coronavírus.

Como bem lembrou a Associação Médica Brasileira em nota, os médicos são autônomos para receitar medicamentos ainda que não haja comprovação de que funcionem no caso, mas, graças ao presidente Bolsonaro, muitos estão sendo constrangidos a fazê-lo, inclusive sob ameaça, no caso da cloroquina – mesmo ante o risco de efeitos colaterais perigosos. Nada disso é ciência, muito menos o pleno exercício da medicina; é, apenas, irresponsabilidade. A cloroquina, é bom que se lembre, provoca efeitos secundários que podem levar à morte.


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