Semana On

Terça-Feira 22.set.2020

Ano IX - Nº 411

Mato Grosso do Sul

Número de queimadas no Pantanal cresce quase sete vezes mais do que a média para julho

Dados do Inpe mostram que foi o pior índice em uma década

Postado em 31 de Julho de 2020 - Renato Grandelle (O Globo), Semana On – Edição Semana On

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A proliferação de queimadas que se alastram pelo Pantanal está muito acima da média histórica do bioma. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que os focos de calor deste mês (1.669) foram quase sete vezes maiores do que a média registrada nos meses de julho de 2009 a 2019 (244).

A devastação notificada desde o dia 1º é o triplo da registrada em 2017 — que, até agora, era o mês de julho mais ardente da década, com 449 notificações de fogo. E o avanço é ainda mais avassalador se comparado à taxa vista em 2019. Neste caso, em apenas um ano, as queimadas cresceram 382%.

O rio Paraguai, principal responsável por banhar o Pantanal, está dois metros abaixo da média — seus afluentes também passam por uma situação crítica. É o resultado de um ano anormalmente seco, onde choveu apenas metade do esperado entre janeiro e maio. Áreas que deveriam estar inundadas não passam de capim seco. A prolongada estiagem permitiu o avanço das queimadas, que antes eram inibidas pela vegetação encharcada.

“Ficamos impressionados com a propagação do fogo, porque ele não está mais confinado a áreas úmidas. É difícil ter acesso a algumas regiões com registro de incêndio, porque precisamos atravessar a sinuosidade dos rios, que dobram nosso tempo de viagem até os lugares onde precisamos trabalhar”, afirma Carlos Alberto Gomes, sargento do Corpo de Bombeiros do Mato Grosso do Sul, que participa de uma força-tarefa para conter as queimadas.

Líder da Iniciativa Pantanal do WWF-Brasil, Júlio César Sampaio assinala que as queimadas estão avançando exponencialmente a cada semana de julho. No início do mês, havia 114 focos de fogo. Na terceira semana, eram 254 e, na seguinte, 835. As queimadas se multiplicaram mesmo após o governo federal decretar uma moratória que impediria incêndios no bioma.

“Se o fogo ainda está surgindo, mesmo após decretos federais e estaduais, é porque estamos diante de ações criminosas. São pessoas que usam as queimadas para renovação da pastagem e, além do dano ambiental, põem em risco a saúde pública. Estamos em um período de seca, o que já ocasiona o aumento de doenças respiratórias, como a asma. Até o desmatamento da Amazônia nos afeta, já que a floresta funciona como uma bomba d’água que leva uma corrente úmida e contribui para a formação de chuvas no Centro-Sul do país”, lamenta.

Autoridades de saúde temem que esses pacientes tomem leitos de hospital destinados a pessoas com coronavírus. Corumbá (MS), epicentro das queimadas, já registrou 1.208 casos de Covid-19.

Baixo orçamento

Diretor presidente da ONG Ecologia e Ação (Ecoa), André Luiz Siqueira destaca que o aumento das queimadas é amparado, em primeiro lugar, pela política do governo federal simpática aos ruralistas, alegando existir no país uma “indústria de multas”.

“Há uma relação direta entre essa narrativa e a fragilização dos órgãos de comando e controle ambiental, que perderam uma parcela significativa de seu orçamento no ano passado. Neste ano o contingenciamento poderia ser ainda maior, se não fosse a pressão internacional. Todo ano precisamos apagar fogo no Pantanal. Então, por que o Ibama não monta uma brigada de incêndio permanente no bioma, em vez de contratar uma que atuará apenas em alguns meses? Por que a sociedade e setores do governo praticamente não se reúnem para discutir ações que possam evitar essa tragédia?”, questiona.

Há, também, componente climático. Siqueira lembra que o Rio Paraguai, que vivia momentos de cheia desde a década de 1970, começou o ano com uma grande área queimada, e sem chuva para compensar o estrago:
“Começamos 2020 com 40% a mais de queimadas, que são um hábito cultural dos produtores rurais, e nenhuma chuva. Os incêndios se alastraram e destruíram o Parque Nacional do Pantanal Matogrossense. Foi difícil conter o fogo nesta unidade, porque sua gestão foi transferida para outro estado em uma reforma do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade). Seus servidores não conhecem mais a realidade local”, afirma.

Combate aos focos de calor é um novo desafio a cada dia no Pantanal

Empregando um aparato de guerra, com centenas de homens e aeronaves, a Operação Pantanal II intensifica os combates aos focos de calor em Corumbá, onde há vários dias queima uma extensa área em um raio de 6km a 12km do porto-geral da cidade.  A cada investida dos bombeiros, brigadistas e marinheiros um novo desafio é superado, às vezes a densa fumaça, ventos fortes, as dificuldades de acesso por terra ou o encontro com grandes incêndios.
A chegada de ventos Sul livrou Corumbá e Ladário da fumaça que incomodou a população com fuligem e problemas respiratórios, além de prejudicar voos dos helicópteros e do Hércules C130 que estão dando suporte aéreo a força-tarefa coordenada pelo Governo do Estado, por meio do Corpo de Bombeiros, e Marinha. Ao Norte, no entanto, não se vê o horizonte e a planície pantaneira por conta da fumaça. Na região ocorrem focos em pelo menos cinco áreas.

A Operação Pantanal II foi iniciada no dia 24, com a decretação pelo Estado de estado de emergência ambiental no Pantanal. Mais de 3.200 militares e civis estão envolvidos na tarefa de disseminar os focos de calor que se propagam com maior intensidade este ano devido a prolongada estiagem e um período de seca castigando o bioma. A operação tem o apoio das Forças Armadas, com aeronaves deslocando a tropa e lançando água nos incêndios.

“No momento em que fizemos o decreto o governo tinha a clareza da emergência da situação, e como não conseguimos fazer o combate individualmente era necessária uma articulação institucional”, disse Jaime Verruck, titular da Semagro (secretaria estadual de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Produção e Agricultura Familiar). “O governador Reinaldo Azambuja imediatamente conseguiu agregar esse conjunto de instituições, coordenadas pelos Ministérios do Meio Ambiente e Da Defesa, para que a gente pudesse fazer uma ação muito rápida.”
Controle dos focos

O combate aos focos de calor se inicia logo pela manhã, com o deslocamento dos bombeiros e brigadistas para as áreas previamente definidas após sobrevoos de reconhecimento, trabalho este feito pela manhã e ao final do dia pelo tenente-coronel bombeiro Huesley Paulo da Silva. Os combatentes do fogo permanecem em campo por pelo menos oito horas ininterruptas, mas sempre de sobreaviso no retorno a cidade. A Sala de Situação fica em alerta por 24h.
“É uma situação desafiadora”, afirma o capitão-de-mar-e-guerra Alexandre José Gomes Doria, chefe do Estado-Maior do Comando do 6º Distrito Naval, com sede em Ladário. Integrando a coordenação da operação, ele avalia a ação como positiva, com a extinção direta de 19 dos 25 focos de calor monitorados em cinco dias. “A mudança da direção do vento, agora soprando ao Norte, foi benéfica tanto para os moradores locais como para as ações de campo”, explicou.

PMA orienta e autua ribeirinhos por fogo na beira do Rio Paraguai

A Polícia Militar Ambiental (PMA) iniciou em Corumbá um trabalho de orientação e fiscalização nas comunidades ribeirinhas do Rio Paraguai, onde, por tradição, a queima da vegetação para limpeza do terreiro da casa ou áreas de coleta de iscas e mel é apontada como uma das causas pela propagação de incêndios de grandes proporções no Pantanal.

Em uma investida por algumas horas nas áreas que margeiam o rio, próximas a cidade, os policiais ambientais constataram uma série de irregularidades, as quais tem sido recorrentes ao longo dos anos, embora os moradores argumentem desconhecer as leis de proteção ambiental. Sinais de queima na vegetação próxima à barranca do rio são comuns.

A ação da PMA, que deve perdurar enquanto ocorrer focos de calor, faz parte da Operação Pantanal II, deflagrada no último domingo pelo Governo do Estado com o apoio das Forças Armadas para combater os incêndios no bioma pantaneiro. Além do monitoramento das áreas com finalidade repressiva, a corporação iniciará um trabalho de conscientização dos ribeirinhos.

“O trabalho de conscientização é fundamental, pode evitar muitos danos ambientais, como os que estão ocorrendo agora”, afirmou o comandante da unidade da PMA em Corumbá, capitão Diego Ferreira. Segundo ele, muitos focos de calor não se consegue identificar a origem, contudo observa que os modos tradicionais dos ribeirinhos no uso do fogo é um forte indicativo de uma das causas destes acidentes florestais.

Campanhas educativas

O 6º Distrito Naval da Marinha, com sede em Ladário, apoia a iniciativa da PMA, colocando lancha e fuzileiros navais em ações conjuntas. Para o comandante da unidade, contra-almirante Sérgio Guida, somente com um trabalho preventivo, envolvendo e conscientizando estas populações tradicionais, será possível controlar a incidência de incêndios florestais.

“A meteorologia não está a nosso favor, com previsão de uma longa estiagem, e somente vamos vencer e controlar os incêndios com a conscientização das pessoas”, disse o comandante. “Estamos em um ano atípico, o Pantanal está bastante seco, então é muito importante que as pessoas façam sua parte, pois pequenos focos podem fugir do controle e causar grandes danos”, alertou.

A campanha de conscientização dos ribeirinhos deve envolver também os órgãos ambientais de Corumbá e Ladário e se estender durante todo o ano, sugere o tenente-coronel Huesley Paulo da Silva, que está à frente da coordenação operacional da força-tarefa de combate os focos de calor no Pantanal. “É crucial que façamos uma campanha educativa nas escolas rurais pantaneiras”, observou.

Queimada generalizada

Durante a fiscalização realizada nas margens do Rio Paraguai, a uma distância de 10 km do porto-geral de Corumbá, os policiais ambientais verificaram uma aglomeração de novas moradias, por conta da pandemia do novo coronavírus e a facilidade de acesso com a seca na região. A maioria dos moradores está usando o fogo para limpar os terrenos e fazer plantações, apesar da proibição de queima.

“A gente só recolheu as folhas e botou fogo”, justificou o pescador profissional Alfredo Ernesto dos Reis, 60, que mora há cinco anos em um casebre próximo à captação de água da cidade. Ele foi multado pela PMA e alega não ter conhecimento da proibição. Em outras moradias, a queima da vegetação é visível, com o fogo atingindo inclusive uma casa de madeira.

“São áreas de preservação permanente e serão todos autuados”, adiantou o sargento ambiental Antônio César Alves, que coordena a operação juntamente com o sargento Divino Morais e o soldado Jonys Leite Oliveira. “É comum fazer fogueira na beira do rio para espantar pernilongo e esse fogo se torna um grande incêndio. Muitos agem intencionalmente, mas outros por má fé e negligência”, comentou.

Queimadas são o novo fator de risco para a saúde das populações

Mato Grosso do Sul está enfrentando duas situações complicadas na área de saúde. Além da pandemia de Coronavírus que vem aumentando, o advento das queimadas no Pantanal, pode agravar a crise e fragilizar ainda mais a população de Corumbá, Ladário e região.

O aumento na procura por atendimentos nas unidades básicas de saúde, por causa de doenças relacionadas à qualidade do ar, e os indicadores climáticos que preveem piora na estiagem, foram inclusive alguns dos motivos que levaram o governador Reinaldo Azambuja a decretar Estado de emergência.

A fumaça das queimadas eleva os problemas respiratórios e, consequentemente, faz crescer a procura por serviços de saúde por causa de complicações respiratórias. Ao analisarmos este contexto ele se torna ainda mais delicado ao se levar em conta a pandemia do novo coronavírus.

Sem especialistas na área de pneumologia na rede pública de saúde na região, os pacientes em estado crítico normalmente são encaminhados para Campo Grande. O problema é que a situação dos leitos hospitalares na capital já está numa situação bastante delicada.

Todos os anos neste período de seca e queimadas, Corumbá tem um aumento de 25 a 30 por cento de doenças respiratórias, explicou o secretário de saúde do município, doutor Rogério Leite. “A cidade fica coberta de uma nuvem de fuligem”, conta. Com dois eventos graves ao mesmo tempo, além da seca própria do período, a situação pode ficar complicada.

“Nenhum município está cem por cento preparado para enfrentar dois eventos desta natureza, mas faremos tudo que puder para proteger a população”, declarou o secretário de saúde.

Segundo a médica pneumologista, Eliana Setti Albuquerque Aguiar, quando inalada, a fumaça provoca irritação das vias aéreas principalmente porque ela contém materiais poluentes.

A população mais afetada são os extremos de idade: crianças, idosos além de pessoas com problemas cardíacos. Mas isto, segundo ela, não significa que ela não agrida outras pessoas, mesmo estando saudáveis.

“Quanto mais perto da fuligem, maior é o perigo”, explica a médica, lembrando inclusive o risco que correm os bombeiros e os agricultores que moram próximo aos locais dos incêndios. De acordo com Eliana, a fuligem pode bloquear o sistema de filtragem do ar que respiramos (que são os pelos das narinas). E este bloqueio, que comumente chamamos de nariz entupido, leva as pessoas a respirar pela boca levando o ar poluído diretamente para os pulmões.

O agravamento das doenças respiratórias pode levar o paciente a necessitar do mesmo equipamento usado no tratamento da Covid 19: os essenciais respiradores. Alguns sintomas também são parecidos: dor na garganta, tosse seca, cansaço, falta de ar, dificuldade para respirar, dor de cabeça, rouquidão e lacrimejamento e vermelhidão nos olhos. São sintomalogias que se misturam, explicou a infectologista.

No caso das queimadas, os sintomas variam de pessoa para pessoa e dependem do tempo de contato com a fumaça. “A tendência é que ela afete mais aqueles que estão mais próximos como bombeiros e agricultores que vivem na região”, atesta. Pessoas com doenças prévias como rinite, asma, bronquite e Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) são os mais sensíveis e propensos a quadros mais agudos.

Não há como se prevenir contra as queimadas – que apesar de fazer parte do manejo na região, estão sendo feitas sem o devido cuidado e controle – mas existem formas de prevenir contra as doenças respiratórias. A médica pneumologista recomenda o uso intermitente de umidificadores, principalmente onde há crianças. Isto porque a criança não pede para beber água e o nosso organismo está muito seco. Beber bastante água e, se possível, se afastar de lugares afetados pelo calor do fogo.

Outras providências, de acordo com Eliana é tomar cuidado para não colocar fogo no lixo, ficar atento às bitucas de cigarros. “Mais do que nunca a população precisa ter consciência da situação que estamos enfrentando”, diz referindo-se também a Pandemia. “É preciso ter o distanciamento social, usar máscaras e aguardar a vacina”, aponta. São cuidados que podem salvar a vida, principalmente, das pessoas que moram nas regiões afetadas pelas queimadas.


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