Semana On

Quarta-Feira 21.out.2020

Ano IX - Nº 415

Coluna

Road movies

Cinema no trecho, estrada no coração

Postado em 29 de Julho de 2020 - Clayton Sales

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É uma experiência quase sempre imersiva e autorreflexiva. Ou uma diversão para quem deseja transformar a viagem de carro, moto ou caminhão em parte do programa e não apenas o itinerário para se alcançar o destino. Percorrer estradas, sentir o vento acelerado pela velocidade afrontar o rosto, avistar paisagens pouco povoadas ou mesmo desérticas, parar o veículo em lugares onde se conhecem pessoas que nunca mais serão reencontradas são algumas sensações para quem escolhe mergulhar numa saga rodoviária. A doce demora em chegar ao lugar planejado é o alimento para esse tipo de aventura, que desencadeia desde o desprendimento sabático do mundo rotineiro até digressões de autodescoberta. Pegar o trecho e perceber nos olhos, olfato e pele cada quilômetro trafegado pela natureza, com o céu, montanhas, desertos, fazendas ou praias como cenário, é um exercício sublime.

A viagem acompanha a expressão artística da humanidade há séculos. Desde os contos orais e publicações escritas em que as jornadas épicas são desenvolvidas, algo que remonta o século 15, as obras que se baseiam em trajetos se tornaram um gênero com interessante personalidade. Aproveitando-se da capacidade que viajar tem de desencadear ondas de sentimentos, a literatura deixou ao mundo obras como "As Vinhas da Ira" (1939) de John Steinbeck e "On The Road" (1957) de Jack Kerouac. Não é difícil imaginar por que ambas despertaram o interesse dos realizadores do cinema. As características imagéticas e sensoriais de uma demorada viagem jamais escapariam do olhar de roteiristas e diretores, o que, ao longo do tempo, levou aos chamados road movies. A estrada acrescentou à sua função espacial nas estruturas narrativas dos filmes o poder de causar tormentas emotivas e transformadoras. A estrada virou personagem com forte atributo catalisador. 

Então, já que a tônica é a viagem, que tal um pequeno roteiro cinematográfico pelo mundo por meio dos longas-metragens de estrada? Um trajeto no espaço e no tempo que começa na Itália com "A Estrada da Vida" (1954) de Federico Fellini, clássico do Neorrealismo Italiano, sobre uma menina de rua que foge com um circo para escapar dos maus tratos do homem que a comprou. Depois, nosso roteiro segue até a Suécia com "Morangos Silvestres" (1957) de Ingmar Bergman, sobre um professor que viaja de carro para outra cidade com o intuito de receber um prêmio e no caminho, relembra sua vida, conhece novas pessoas e convive com a iminência da morte. Nossa rota tem sequência na França com "O Demônio das Onze Horas" (1965) de Jean-Luc Godard, obra fundamental da Nouvelle Vague, sobre um homem que se cansa do tedioso casamento, foge com a babá do filho e o casal é perseguido por mafiosos. Estradas pavimentadas com história. 

Após o roteiro europeu, nosso trajeto pelos road movies atravessa o Atlântico e desembarca nas estradas americanas. A primeira atração é "Easy Rider - Sem Destino" (1969) de Dennis Hopper, sobre motoqueiros que viajam pelos EUA para assistir ao carnaval de Nova Orleans com dinheiro das drogas que vendem. Ainda em território estadunidense, o itinerário nos leva até "Paris, Texas" (1984) de Wim Wenders, sobre um homem com amnésia que inicia uma viagem em busca do seu passado. Encerrando o roteiro americano, "Thelma & Louise" (1991) de Ridley Scott é sobre duas mulheres de vidas engessadas que decidem largar tudo e viver a liberdade, com suas delícias e perigos, a bordo de um velho conversível. Em nova travessia oceânica, nosso itinerário vai para a Austrália com o colorido e contrastante "Priscila, a Rainha do Deserto" (1994) de Stephan Elliot, sobre uma trupe de drag queens que percorre o deserto do país para se apresentar num resort a bordo do reluzente ônibus de nome Priscila. Estradas cobertas de aventura. 

Finalmente, retornamos ao nosso continente com "Diários de Motocicleta" (2004) de Walter Salles, sobre um jovem médico argentino que trafega de moto, de carona e a pé pelas veias abertas da América do Sul, descobre a miséria do povo e questiona o progresso econômico que deixa as pessoas pobres desamparadas. Esse rapaz era Ernesto "Che" Guevara, antes de se tornar o famoso líder comunista revolucionário. Nossa turnê pelos road movies termina no Brasil com "Viajo porque preciso, volto porque te amo" (2009) de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes, sobre um geólogo que pega carona na cabine de um caminhão e atravessa o Nordeste para um trabalho, relembrando a mulher amada que o abandonou e interagindo com gentes e paisagens em sua solidão. Estradas asfaltadas com alma. 

Embora geralmente desenvolvam tramas dramáticas, humorísticas ou aventureiras, os road movies adquiriram uma configuração estética e temática bastante peculiar. São produções que procuram valorizar a influência da atmosfera solitária, liberta e misteriosa das estradas nos sentimentos e ações. Viagens de automóvel, motocicleta, carreta ou mesmo longas e vagarosas caminhadas nos levam a lugares normalmente interditados pela monotonia e estaticidade da rotina. O destino? O inóspito interior do coração, os inexplorados porões do espírito. Se pegar o trecho e cair na estrada são a liberdade em movimento, os road movies são a expressão cinematográfica da solitude necessária para se desvendar os espaços ocultos de nossa inconstante condição humana.


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