Semana On

Terça-Feira 01.dez.2020

Ano IX - Nº 421

Cultura e Entretenimento

Brasileiros refazem rotas da escravidão e ressignificam memória africana

O fotógrafo César Fraga e o historiador Maurício Barros de Castro visitaram nove países para conhecer as origens africanas dos povos negros do Brasil

Postado em 28 de Julho de 2020 - Beatriz Lourenço – Galileu

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Entre os séculos 16 e 19, milhões de africanos foram transportados para o Brasil para serem escravizados pelos portugueses. Mulheres, homens e crianças viajavam em condições precárias, e a maioria morria no percurso. Os que conseguiam chegar até aqui viviam diversas formas de violência e, até hoje, seus descendentes lutam contra as desigualdades geradas por esse período.

A escravidão conectou nosso país à África para sempre e, por isso, é tão importante o resgate da cultura e da vivência dos povos africanos. Esse passado também faz parte da história do fotógrafo carioca César Fraga, de 47 anos. Designer de formação, Fraga teve pouco contato com sua bisavó, que só não foi escravizada por conta da Lei do Ventre Livre, promulgada em 1871 e que concedia liberdade a filhos e filhas de mulheres escravizadas. Sua mãe, que tem orgulho da negritude, o ensinou a amar sua cor e sua trajetória. "Eu sei que a minha bisavó viveu um conflito muito grande por estar livre e ver os pais sendo escravizados. Imagino a dor que isso deve ter causado a ela", conta Fraga.

Para ele, o ensino sobre a África é limitado ao sofrimento dos povos que vieram em navios negreiros e isso faz com que crianças e jovens não queiram se associar ao seus ancestrais. Quando ministra palestras em escolas, por exemplo, poucos alunos negros levantam a mão quando perguntados se são afrodescendentes. "Não há referências de uma África feliz, colorida e que mostre sua verdadeira força. É claro que ninguém quer estar ligado a pessoas acorrentadas em um barco", afirma.

Foi essa necessidade de novos cenários que o levou a buscar suas raízes: junto com o historiador Maurício Barros de Castro, professor do Instituto das Artes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Fraga viajou por nove países do continente africano em dois meses. Por lá, produziu 4 mil fotografias de templos sagrados, manifestações culturais, além de símbolos locais que lembram a dor da escravidão: correntes, celas, troncos... O resultado foi seu primeiro projeto como fotógrafo.

"O meu desejo era capturar a memória material, como pelourinhos, fortalezas e lugares importantes; e a imaterial, ou seja, a forma como a escravidão está presente no coração dos africanos até hoje" explica. "A terceira meta era registrar a contemporaneidade: como eles vivem hoje, quais são as roupas que usam e sua cultura". A pré-produção foi baseada em pesquisa e planejamento. No entanto, os dois viajantes não sabiam o que encontrariam pela frente.

As quatro rotas do tráfico 

César e Maurício refizeram as quatro rotas do tráfico: Guiné (Cabo Verde, Guiné-Bissau e Senegal), Mina (Gana, Togo, Benim e Nigéria), Angola e Moçambique. Foi graças ao olhar curioso que a dupla viveu momentos inesquecíveis — conheceram celas onde os escravizados eram guardados antes do embarque transatlântico, participaram de cerimônias religiosas e jogaram capoeira.

Para o historiador, a memória mais marcante ocorreu em Guiné-Bissau, quando visitou um local em que as correntes usadas na época da escravidão permaneciam em cima das árvores. Lá, as crianças brincavam e se penduravam nos objetos. "Me disseram que as correntes não eram importantes. Por outro lado, se uma árvore cai, outra é plantada no lugar para que elas continuem lá", relembra Castro. "A população local ressignificou a dor em uma espécie de instalação artística onde a liberdade é celebrada".

O resultado da expedição são imagens que mostram uma África diversa, colorida e contemporânea. Elas deram origem ao livro Do Outro Lado (Editora Olhares), a uma exposição de fotografia e a uma série documental sobre herança da escravidão e suas influências culturais. Intitulada Sankofa – A África que Te Habita, a produção conta com 10 episódios e estreou em maio deste ano no canal pago Prime Box Brazil.

"Fico feliz de ter conseguido trazer um pouco da vida dessas pessoas para o Brasil. Acredito que essa viagem, que foi muito importante para mim, possa inspirar e dar orgulho aos afrodescententes", ressalta Fraga. 

O momento é para reflexão

Em junho de 2020, manifestações tomaram o mundo todo motivadas pela morte de George Floyd, um homem negro morto asfixiado por um policial branco em Minneapolis, nos Estados Unidos. No Brasil, esse tipo de situação também é recorrente: em 2018, a polícia brasileira matou 6220 pessoas, das quais 75% eram negras, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

Para o fotógrafo, esse momento é de reflexão. "Precisamos pensar quantos Floyds nós temos aqui todos os dias. As manifestações mostram um momento importante nas ruas, nas empresas e em diversos outros ambientes", afirma. "Quero viver em uma sociedade em que essa discussão não faça o menor sentido. Não é possível que em 2020 ainda estejamos lutando por igualdade racial, isso é muito primitivo".

Para Mauricio, o trabalho de resgate da memória africana é fundamental para mostrar o protagonismo negro na construção do Brasil. "Essa pode ser uma das maneiras de avançar contra o racismo na sociedade — seja ele estrutural ou não", pontua o historiador.


Voltar


Comente sobre essa publicação...