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Terça-Feira 01.dez.2020

Ano IX - Nº 421

Coluna

Jean-Claude Carrière e o discreto charme do roteirista

Um tributo ao cinema e sua capacidade de penetrar em nossa noção de tempo e modificá-la naqueles minutos de mergulho em um filme

Postado em 22 de Julho de 2020 - Clayton Sales

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Histórias projetadas para se encaixar nos quadros em movimento de um filme são a especialidade do roteirista. Em qualquer gênero, do drama à comédia, da ação ao terror, das superproduções de orçamentos gigantescos às realizações independentes, o papel dessa figura é vital para que um filme ou outro produto audiovisual ganhe sua forma e conteúdo. Como o cinema tem múltiplas funções, a dinâmica do mercado, as transformações como forma de expressão e as evoluções tecnológicas contribuem para que roteiristas também se empenhem em dirigir seus próprios projetos, a produzir e atuar em seus trabalhos. 

Alguns profissionais, porém, se consagram e até se tornam referências como expoentes nessa atribuição que não angaria tanta fama quanto diretores, atores e atrizes. No entanto, são fundamentais, afinal, o segredo de converter uma ideia em filme é a complexa engrenagem técnica e trabalho meticuloso a partir de um roteiro bem construído. Em diferentes conjunturas e métodos, vale para obras audiovisuais diversas, do cinema ao documentário, do rádio à televisão. Quem demonstra isso é o roteirista e escritor francês Jean-Claude Carrière no pequeno livro "A Linguagem Secreta do Cinema" (2014), em que ele mostra os processos envolvidos na elaboração de obras da sétima arte, sob a perspectiva dos mestres com quem trabalhou.

O roteirista utiliza principalmente sua vivência com o cineasta espanhol Luis Buñuel para desvelar códigos que compõem a linguagem cinematográfica e suas nuances, limites, contradições e mudanças ao longo dos anos. E colocar no papel as ideias de um realizador como Buñuel, marcadas pelo surrealismo, com seu mosaico alucinatório extraído das profundezas do inconsciente, exigiu de Jean-Claude Carrière um equilíbrio entre a dose de imersão que a liberdade exige e a contenciosa racionalidade para organizar e estruturar bons roteiros, sem se desviar da alma de Buñuel, mas com apuro do cinema de qualidade. A indicação ao Oscar de melhor roteiro original por "O Discreto Charme da Burguesia" (1972), filme que venceu o BAFTA nessa categoria, demonstra isso. 

Corroteirista de "A Bela da Tarde" (1967), curiosamente, Jean-Claude Carrière afirma no livro ser um crítico mordaz das premiações para roteiristas. Para ele, o roteiro organiza e planeja os percursos pelos quais a equipe se guiará para realizar a produção cinematográfica, como peças que vão culminar no produto final, inclusive, sujeito a modificações ao longo da realização do filme. Na sua visão, de certa forma, seria como premiar a planta de uma casa. O roteirista merece o mesmo respeito e a noção de sua relevância que os demais envolvidos na elaboração de um filme ou série televisiva, mas o roteiro perde seu sentido quando a obra é finalizada, portanto, estatuetas são dispensáveis para Carrière. 

"A Linguagem Secreta do Cinema" (2014) é uma leitura saborosa, com histórias ricas que revelam esse aspecto do funcionamento da sétima arte. É a partir dos seus relatos do dia a dia da produção cinematográfica que Jean-Claude Carrière descortina movimentos de câmera, ângulos, iluminação, cenografia e elenco. A obra também nos brinda com análises sobre trabalhos de iluminados como Akira Kurosawa, Alfred Hitchcock, Jean-Luc Godard, Orson Welles, Federico Fellini, além de Buñuel. É um tributo ao cinema e sua capacidade de penetrar em nossa noção de tempo e modificá-la naqueles minutos de mergulho em um filme. Além disso, é leitura para quem se interessa pelas coxias do cinema, pela semiótica dessa arte, como ela se torna uma poderosa mídia e como seu aspecto industrial pesa na confecção do que assistimos nas telas. Tudo isso, a partir do desempenho de gente como Jean-Claude Carrière e seu discreto charme de roteirista.


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