Semana On

Quinta-Feira 06.ago.2020

Ano IX - Nº 404

Coluna

Primavera entre os dentes

As Medicinas Indígenas seguem construindo e sustentando modos de vida plenas, apesar da desqualificação de seus saberes

Postado em 22 de Julho de 2020 - Ricardo Moebus

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Seguimos no meio desta dramática pandemia que afeta a todos em todo o mundo.

Porém, afeta de modo bastante diferenciado, afetando mais alguns países que se encontram desgovernados, sem nenhuma prioridade sanitária, sem seguir as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), como o Brasil em especial.

Além disso, a pandemia afeta ainda mais os grupos economicamente desfavorecidos, como a imensa maioria da população brasileira, com precariedade de moradia, precariedade de vínculos trabalhistas, precariedade de saneamento básico, precariedade de acesso a serviços públicos, precariedade de acesso à internet, precariedade de transporte público, precariedade de garantia dos próprios direitos constitucionais, precariedade de acesso à água potável e à alimentação saudável, vida precarizada.

E também, afeta ainda muito mais os grupos que além de economicamente desfavorecidos, são também socialmente desconsiderados e historicamente brutalizados, como os negros e os povos indígenas no Brasil.

Sendo assim é que os povos indígenas no Brasil se encontram, neste momento, mais uma vez, diante do gigante desafio de serem o grupo humano mais vulnerável do mundo ao novo coronavírus. E fazer da própria vulnerabilidade brotar a força de re-existir, segurando, como nos últimos quinhentos anos, a primavera entre os dentes.

E tem sido sobretudo com seus saberes, conhecimentos e práticas tradicionais que estão exercitando as estratégias de cuidado coletivo, que agora passaram a ser utilizadas também por alguns grupos não indígenas, práticas como:

1 - Para sobreviver todos cuidam de todos.

2 - Manter o resguardo, o retiro, o conjunto de práticas de auto-recolhimento que vários povos indígenas chamam de “dieta”, como processo de afastamento reflexivo para fortalecimento interno, pessoal e comunitário.

As Medicinas Indígenas sem dúvida tem muito a somar e contribuir no enfrentamento desta pandemia.

Em primeiro lugar, por ensinar a considerar a saúde de forma integral e integrada, em vários sentidos. O primeiro deles, no sentido de que não existe uma saúde que seja mental e outra que não seja, o que parece que estamos aprendendo ao constatar uma pandemia de sofrimento mental na pandemia viral.

Na perspectiva das Medicinas Indígenas saúde é o conjunto dos processos vitais, e isto vai bem além da soma dos fatores, não é na lógica matemática bio+Psico+social, mas, sim, sem passar pelo esquartejamento cartesiano, sem passar pelo fatiamento da vida, retendo um olhar que integra e não se entrega.

Em segundo lugar, por considerar a saúde como, não apenas resultante dos chamados “determinantes sociais” ou “macro-sociais”, mas também como saúde relacional, na perspectiva de um laço e lastro solidário comunitário que continua afirmando: o que acontecer a um de nós, afetará a todos nós, inevitavelmente.

Em terceiro lugar, por apostar sempre no fortalecimento do conjunto eco-sistêmico, tanto externamente quanto internamente, ou seja, alimentando a qualidade das condições em que a vida acontece e se fortalece, tanto no território externo, com água limpa e floresta em pé, quanto no território interno, apostando sempre na produção do fortalecimento imunitário, da imunidade comunitária, e nunca na fabricação de venenos, que possam matar os micróbios ou eliminar formas de vida que sejam ameaçadoras. Sustentando modos de viver fora da pasteurização da vida.

Em quarto lugar, e essa lista é apenas um comentário geral, sem nenhuma pretensão de ser exaustiva, as Medicinas Indígenas colocam em cheque a leitura “natural” do que estamos vivendo, de que existiria uma natureza fora de nós, de que de alguma maneira pudéssemos estar fora ou ao lado do “natural”, cindidos em um mundo que pudesse ser dividido entre o que é “natural e o que é “humano”. Essa mesma cissão que poderia dividir a experiência entre um “natural” de um lado, e outro “sobrenatural”.

No sentido mesmo de um “multinaturalismo”, como bem definido por Eduardo Viveiros de Castro, as Medicinas Indígenas apontam que outras naturezas são possíveis, que o que chamamos “natural”, nasce no nosso olhar, de um modo tal que tem definido uma triste relação de afastamento e utilitarismo, que descambou do “natural” para os “recursos naturais”, conseguindo deformar uma conexão de integração e retroalimentação, em um saque permanente.

As Medicinas Indígenas seguem construindo e sustentando modos de vida plena, mas, além do imenso desafio do novo coronavírus em si, os povos indígenas enfrentam também, neste momento, um recrudescimento da desqualificação de seus saberes.  

Com a pandemia ganha nova autoridade, novo impulso, o discurso médico e higienista, que sem dúvida tem seu lugar, sua função, sua eficácia, mas nesse momento ganha uma dimensão tal que corre o risco do absolutismo, correndo o risco de jogar no descrédito total outras racionalidades, como os saberes ancestrais.

Isto só aumenta a necessidade de reinventarmos nossas saídas, buscando estratégias para “libertar o futuro”, como indica Eliane Brum e vários outros.

O desafio diante de nós talvez seja também libertar o presente, libertar o passado e também o futuro.

Libertar o futuro através da reinvenção de nossos modos de vida para que possam ser mais cuidadosos e respeitosos com o conjunto da vida planetária.

Libertar o passado tentando escapar de uma mentalidade colonial, buscando reconsiderar e respeitar outras racionalidades e modos de ler o mundo.

Libertar o presente, capturado nesta pandemia e afastamento social, buscando a reinvenção contínua de nosso cotidiano, desde nosso território corpo-casa-família-comunidade.

Cada um agora segure a primavera entre os dentes.

Primavera nos Dentes

Secos e Molhados

Quem tem consciência para ter coragem

Quem tem a força de saber que existe

E no centro da própria engrenagem

Inventa contra a mola que resiste

 

Quem não vacila mesmo derrotado

Quem já perdido nunca desespera

E envolto em tempestade, decepado

Entre os dentes segura a primavera


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