Semana On

Terça-Feira 01.dez.2020

Ano IX - Nº 421

Coluna

O profeta do terraplanismo

O jornalista Victor Barone resume a semana política, com humor e acidez

Postado em 22 de Julho de 2020 - Victor Barone

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Num dia em que o número de mortos da pandemia ultrapassou a marca de 84 mil pessoas, Jair Bolsonaro fez declarações controversas —"Não tem como evitar morte no tocante a isso"—, trocou o isolamento por um passeio de moto na área externa do Alvorada, retirou o capacete e, sem máscara, conversou com garis. Tudo isso um dia depois de receber o terceiro exame positivo para o coronavírus. Quando se imaginava que o comportamento do personagem havia atingido o platô da esquisitice, Bolsonaro foi fotografado exibindo uma caixa de cloroquina para emas nos jardins do palácio residencial. As aves fugiam do inquilino do Alvorada. Alguém precisaria trocar o medicamento do presidente. A cloroquina, claramente, não está surtindo efeito. Outra alternativa é recomendar a Bolsonaro que não tome remédio. No seu caso, nada pode ser remediado.

Por Josias de Souza

Jair Bolsonaro parou para conversar com garis que faziam a limpeza da área externa do Palácio do Alvorada, sem máscara e sem respeitar o distanciamento social, na quinta (23). Ou ele vem mentindo e não está com covid-19 ou realmente é incapaz de sentir empatia, chegando ao ponto de colocar em risco a vida das pessoas que para ele trabalham deliberadamente. Talvez se fossem grandes empresários, ele ainda se prestaria a usar máscara antes de começar uma conversa neste momento em que é vetor de transmissão da doença. Mas, eram garis - um dos grupos de trabalhadores mais essenciais e, ao mesmo tempo, menos respeitados. Seguidores do presidente nas redes sociais disseram que, pelo contrário, ele respeita tanto esses profissionais que parou para falar com eles. Mentira. Bolsonaro ama o som da própria voz ecoando em plateias, mesmo que ela carregue apenas vírus.

O mandatário não vê problema pois, em último caso, uma caixa de cloroquina resolve - como ele mesmo disse, "não tem comprovação científica que não seja eficaz". E, assim, vai normalizando o contato entre doentes e sãos e, ancorado em um medicamento que não funciona para covid, segue empurrando a população de volta ao trabalho.

Se considerasse que a vida dos brasileiros é importante, levaria em consideração a ampla pesquisa liderada pelos hospitais Albert Einstein, Sírio-Libanês, HCor, Oswaldo Cruz e Beneficência Portuguesa, Moinhos de Vento, entre outras instituições, que mostrou que a hidroxicloroquina não melhora a vida de pacientes com sintomas leves e moderados de covid. Colocaria um ponto final em sua carreira como garoto-propaganda de remédio.

Mas ele não está preocupado em salvar vidas, nunca esteve. Quer uma retomada rápida da economia para garantir sua reeleição. Para tanto, sua tática negacionista se adapta. Primeiro, era fantasia. Depois, gripezinha. Daí, criou a fake dos caixões vazios. De lá, inventou uma tal conspiração contra a cloroquina. Aí começou o "todo mundo morre um dia". Para depois fazer cálculos de óbito/habitante e tentar convencer que não estamos tão mal.

Dessa forma, esconde o fato que nos enfiou na lama tanto ao se omitir em liderar o país quando ao menosprezar o vírus para convencer a população a continuar trabalhando.

Na quinta (23), ouvimos o ministro interino da Saúde, general Eduardo Pazuello, copiar o presidente ao tirar o corpo fora sobre a aplicação de políticas de isolamento social. Como o chefe, repetiu a mentira de que isso é responsabilidade apenas de prefeitos e governadores. Não admira, portanto, que informado pela área técnica da necessidade de distanciamento social sob risco de extensão da pandemia por dois anos, passou por cima da informação e, como bom bolsonarista, fomentou o retorno à normalidade.

A partir do momento em que levantou a caixa de cloroquina para uma multidão de fãs como se erguesse uma Copa do Mundo, Bolsonaro mostrou que não se preocupa mais se as mentiras que conta parecem desconjuntadas. O que importa é a performance. "No Brasil ninguém morreu, que eu tenha conhecimento, por falta de atendimento médico. Todos os recursos o governo repassou para estados e municípios", disse na quinta (23). Em cidades como Manaus, onde o sistema de saúde colapsou, brasileiros morreram esperando um leito de UTI. Um monte de ninguém, portanto.

Reportagem na Folha de S.Paulo mostrou que auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) apurou que seu governo desembolsou menos de 30% dos recursos emergenciais que havia prometido para combater o coronavírus até o final de junho. Ou seja, o "todos os recursos" de Bolsonaro tem um déficit de realidade de mais de 70%.

Os seguidores fanáticos do presidente absorvem a cloroquina como uma cura que, na visão deles, vem sendo escondida por uma conspiração da imprensa, de comunistas e de chineses a fim de manter a população com medo e deprimir a economia através de bloqueios desnecessários. Mas ela é também a representação palpável da negação ao conhecimento e a todos os que usam a ciência para dizer a eles o que é melhor para suas vidas. Com isso, o apoio à cloroquina torna-se um repúdio a cientistas e intelectuais que impõem regras de isolamento, mas são incapazes de explicar suas dúvidas, resolver suas inseguranças e acabar com suas angústias.

É compreensível que a pandemia gere um sentimento de impotência na população diante da falta de informação sobre os efeitos e o tratamento da covid-19, uma doença nova e que ainda está em estudo. Contudo, isso abre espaço para que líderes demagógicos preencham as lacunas, mesmo com mentiras, e apontem soluções que não resolvem. Parte da população abraça essas soluções em busca de alguma coerência para suas vidas. E se colocam ao lado dos líderes na luta contra o razão e em nome da convicção.

Por Leonardo Sakamoto

BOLSONARO DERROTADO NO FUNDEB

"Alguém quer saber sobre Fundeb aí?", indagou Jair Bolsonaro às margens do espelho d'água do Alvorada. Postados na borda oposta, os devotos do mito tinham várias demandas. Mas ninguém, exceto Bolsonaro, parecia interessado em conversar sobre o fundo de financiamento da educação básica, que a Câmara aperfeiçoara na véspera. "O governo conseguiu ontem mais uma vitória, aprovamos o Fundeb", ele insistiu. "O Senado deve seguir o mesmo caminho." Para sorte de Bolsonaro, seus adoradores não estavam informados sobre a surra que o governo levara no plenário da Câmara. Do contrário, poderiam imaginar que o vírus lhe tivesse subido à cabeça.

"Uma negociação que levou anos", disse o confinado aos visitantes. De fato, a discussão sobre o Fundeb arrastava-se desde 2015. Intensificara-se no ano passado, no alvorecer da gestão Bolsonaro. Durante um ano e meio, o governo tratou o debate como parte da guerra ideológica que instalou na Educação. A certa altura, Bolsonaro soou como uma espécie de anti-Napoleão, um imperador se descoroando: "Foi uma votação quase unânime." Ele se queixava desde cedo de ter sido chamado de "derrotado" pela "maldita imprensa". Bolsonaro esticou a prosa: "Seis ou sete votaram contra." Absteve-se de mencionar que os gatos pingados que se opuseram ao aperfeiçoamento do Fundeb na votação da Câmara são justamente os bolsonaristas mais fieis. "Se votaram contra devem ter seus motivos", afirmou o capitão, antes de condenar os proto-bolsonaristas a um inusitado isolamento social: "Precisa perguntar pra eles por que votaram contra. Alguns dizem que a minha bancada votou contra. A minha bancada não tem seis ou sete. A minha bancada é bem maior do que isso daí."

A deputada Bia Kicis (PSL-DF), uma das vozes ultra-bolsonaristas que votaram contra a emenda constitucional que vitaminou o Fundeb, foi destituída do posto de vice-líder do governo na Câmara. Não é a primeira destituição. Não será a última. Bolsonaro vem renovando seu quadro de vice-líderes. Troca aliados de primeira hora por soldados do centrão, tratados como heróis da resistência. Na votação do Fundeb, o deputado Arthur Lira (PP-AL), principal voz do centrão e novo líder informal do governo, tentou adiar a sessão. Foi ignorado pelos próprios pares.

Ficou entendido que a bancada fisiológica pró-Bolsonaro, embora seja potencialmente "bem maior do que isso daí", está acorrentada aos interesses do Planalto por grilhões de barbante. "A verdade vos libertará", anota o versículo preferido do capitão, extraído do evangelho de João. "A esquerda não engole mais uma derrota", disse Bolsonaro na encenação do Alvorada, vinculando-se a uma mentira.

A emenda constitucional aprovada pela Câmara tornou o Fundeb permanente, elevando de 10% para 23% a fatia da União no fundo. O governo tentou adiar para 2022 a vigência das novas regras. Foi derrotado. Quis transferir 5% do fundo para um novo Bolsa Família, em fase de gestação. Não colou.  Pleiteou a destinação de 5% do fundo turbinado para o ensino infantil. Para conseguir, teve de pagar um pedágio, elevando de 20% para 23% a fatia da União no novo Fundeb. Propôs que a verba do salário dos professores fosse desviada para o pagamento de aposentadorias. Foi ignorado. "Eu queria dar 200%, mas não tem dinheiro", afirmou o anti-Napoleão do Alvorada. "Então, foi negociado. Passou para 23%, de comum acordo. (...) O PT passou 14 anos no poder e não fez nada..."

A ficha de Bolsonaro demora a cair. Mas a lição a ser extraída pelo presidente da votação que revitalizou o Fundeb é a seguinte: a maneira mais rápida de acabar com a guerra ideológica na Educação é perdê-la. Juntaram-se no plenário da Câmara para derrotar o governo: o presidente da Casa, Rodrigo Maia, os neo-aliados do centrão e toda a oposição. Ao tentar converter em vitória uma derrota tão acachapante, Bolsonaro transformou os jardins do Alvorada numa Waterloo de hospício, ornamentada por emas.

Por Josias de Souza

TUCANOS SEM PENAS

Aécio Neves, José Serra, Geraldo Alckmin, um a um foram caindo os bastiões do PSDB que capitanearam nos últimos 18 anos as tentativas do partido de voltar ao poder exercido durante oito anos sob o comando de Fernando Henrique Cardoso. Todos enredados na Justiça por força do entrelaçamento malsão de doações ilegais de campanha com atos de governo que resultam em acusações de corrupção e ilícitos correlatos.

Sobraram na tribuna FH na simbólica condição de conselheiro cujos conselhos são ignorados e o governador João Doria, pretendente a candidato presidencial de um partido que de modo geral não nutre por ele um grande apreço, mas já não tem escolha. Ou vai com Doria ou não vai. Se consegue chegar lá são outros quinhentos a serem confrontados com o anseio do eleitorado.

Isso os tucanos terão de enfrentar de ninho vazio e já sem contar com a velha dicotomia com o PT que durante anos, mais de 20, garantiram vaga competitiva na disputa eleitoral às duas forças partidárias. Os tempos mudaram e podemos dizer, num trocadilho apenas razoável, que foram lavados a jato por eles.

Por Dora Kramer

CADEIA NELE

Cadeia para o ex-deputado Roberto Jefferson, presidente do PTB, que ele merece. Em 2012, por corrupção e lavagem de dinheiro, ele foi condenado a 10 anos de prisão pelo Supremo Tribunal Federal no processo do mensalão do PT. Ficou três anos atrás das grades, um em regime semiaberto, e o resto de sua pena acabou perdoada. Deve ter guardado muita mágoa do tribunal para atacá-lo da maneira torpe, infame e asquerosa como o fez em entrevista a um canal de vídeo bolsonarista. Sim, depois de ter servido a governos de todos os matizes, ele aderiu ao atual. Compartilha todas as suas ideias, principalmente as mais radicais.

A associação brasileira de LGBTs, com apoio do Sindicato dos Advogados de São Paulo e do Grupo de Advogados pela Diversidade Sexual e de Gênero, denunciou Jefferson por homofobia e transfobia à Procuradoria-Geral dos Direitos do Cidadão do Ministério Público Federal. O que ele disse? A coisa mais elegante que disse foi que o futuro presidente do Supremo, o ministro Luiz Fux, ajoelhou-se e beijou os pés da advogada Adriana Ancelmo, mulher à época do então governador Sérgio Cabral, do Rio, para agradecer por tê-lo ajudado a virar ministro. Provas disso? Não apresentou. Disse que o Supremo tem dois ministros que são “sodomistas”, e citou seus nomes e supostos apelidos. Disse que o ministro Edson Fachin, antes de ser de ser nomeado, visitou gabinetes do Senado à caça de votos para ser aprovado na sabatina. E que quem o conduziu foi “o homem da mala” da empresa JBS. Chamou os ministros da Corte de “monturo de lixo”. Afirmou que à exceção das mulheres, são “homens de pouca estatura jurídica e moral, lobistas” indicados pela TV Globo, por empreiteiras e por “partidos comunistas”. O mais que disse é lixo puro, moralmente impublicável sob pena de se jogar seu jogo.

Por Ricardo Noblat

O CASO DO DESEMBARGADOR

O desembargador Eduardo Almeida Prado Rocha de Siqueira, do Tribunal de Justiça de São Paulo, caminhava sem ḿáscara na orla de Santos, onde o uso dessa proteção é obrigatório. Flagrado, não pensou duas vezes antes de dar uma violenta carteirada: aparece em vídeo telefonando para o secretário de Segurança Pública do município, Sérgio Del Bel; chamando de analfabeto o guarda civil que o abordou; e ainda rasgando e jogando no chão a multa aplicada – que era de R$ 100. À GloboNews, Siqueira disse que o vídeo foi tirado de contexto e editado, fazendo com que, em vez de vítima, ele parecesse um vilão…

O corregedor nacional de Justiça, ministro Humberto Martins, determinou a abertura de uma investigação e intimou o desembargador para que preste informações em até 15 dias.

MUITO MAIS ARMADOS

Nos últimos dez anos, houve um aumento de 601% na quantidade de novos armamentos nas mãos de cidadãos comuns, segundo um levantamento do jornal O Globo com base em dados da Polícia Federal. Em 2019, 8.692 novas armas foram registradas, contra 60.973 no ano passado. E ninguém há de ficar surpreso com o aumento específico durante no governo Jair Bolsonaro: em relação a 2018, o aumento de novos registros em 2019 foi de 64%. Em 2020, até abril, já foram 33.776, mais da metade de todos os registros feitos no ano passado.

A reportagem lembra medidas recentes do governo que facilitam a posse. A legislação prevê esse direito, no caso dos cidadãos comuns, quando há a comprovação da “efetiva necessidade”. Antes de Bolsonaro, agentes da PF precisavam analisar essa necessidade, mas a partir de meados do ano passado a autodeclaração do solicitante passou a ser suficiente. “Não é só isso”, diz advogada Isabel Figueiredo, integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública: “Tem outros ingredientes (que vieram com os decretos), como o aumento da quantidade e de tipos de armas que cada pessoa pode ter e o aumento de acesso à munição. Também não podemos esquecer o discurso pró-armas, de político fazendo arminha com a mão”.

EM NÚMEROS

Um levantamento do TCU informa que o número de militares que ocupam cargos civis no governo federal mais que dobrou desde o início da gestão Jair Bolsonaro. O número passou de 2.765, em 2018, para 6.157 em 2020, considerando os da ativa e da reserva. Pelas contas da Folha, o crescimento foi de 33% quando se consideram só os da ativa. Nas gestões Fernando Henrique, Lula e Dilma, essa atuação era quase totalmente restrita a três órgãos: o Ministério da Defesa (sempre chefiado por um civil), a Vice-Presidência e a Presidência da República, mais especificamente o Gabinete de Segurança Institucional. No governo Temer eles começaram a pipocar em outras pastas, como a Fazenda, e pela primeira vez em décadas foi colocado um militar no comando da Defesa. Quando ele passou a faixa a Bolsonaro, havia 1.925 militares da ativa do Exército, Marinha e Aeronáutica em cargos de confiança no governo. Hoje, são 2.558, em ao menos 18 órgãos, entre eles Saúde e Economia.

HAIA

O presidente Jair Bolsonaro já foi denunciado ao Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia, em três queixas por sua conduta na pandemia. O El País conversou com o advogado argentino Luís Moreno Ocampo, primeiro promotor-chefe do TPI, que avaliou as chances de que seja aberta uma investigação e que haja um julgamento. Não parecem ser muito altas: “A Corte exige que seja provada a intenção de cometer um crime contra a humanidade. Para ter um crime julgado em Haia, precisa ter sido demonstrada a intenção. Genocídio é provado pela intenção de destruir um grupo. Crimes contra a humanidade pressupõem uma política para conduzir um ataque contra a população. É preciso provar a intenção. (…) Não é suficiente negligência”, sublinhou.

SEM PROBLEMAS

O repórter Ranier Bragon, da Folha, entrevistou uma série de parlamentares para uma avaliação de Eduardo Pazuello, o interino da Saúde. Na mesma linha do que governadores e secretários de saúde vinham fazendo, houve elogios – e, claro, no barco da boa vontade com o general estão a base do governo e o Centrão. O líder da bancada do DEM, deputado Efraim Filho (PB) chega a defender a permanência de Pazuello: “Vimos o que ocorreu com a saída do Mandetta, que fazia um bom trabalho, e ao alterar o ministro, altera toda a equipe, e se perde um longo tempo de ajuste, tempo que já não dispomos. O que deveria ser feito era focar no trabalho do ministro Pazuello e contribuir com ele e a sua equipe. Pensar menos na política e mais na nação”.

Apesar dos números inegavelmente desastrosos da pandemia no país, os políticos justificam seu apreço citando o “empenho” do interino em relação ao diálogo e sua capacidade de gestão e logística, com entrega de equipamentos e insumos. É interessante porque a  distribuição dos testes, por exemplo, segue caótica, e a pasta sequer informa quantos testes rápidos já foram feitos na rede pública – mesmo que, ao que parece, seus resultados estejam entrando nas estatísticas. Uma coordenação federal para garantir que os testes disponíveis sejam usados de forma racional, não temos. Para rastrear contatos, menos ainda. A baixa execução dos gastos não cansa de ser manchete. Remédios necessários para intubação ficaram em falta durante semanas em vários estados… A distribuição de hidroxicloroquina, por outro lado, vai bem. 

RICARDO BARROS, DE NOVO

O Planalto está insatisfeito com parlamentares aliados do PSL. A indisposição aconteceu por conta da votação do Fundeb. Depois de trabalhar contra o texto, o governo fez um acordo com líderes partidários: apoiaria a proposta em troca de votos favoráveis ao programa Renda Brasil (que ainda não foi enviado ao Congresso). O acordo não foi respeitado pela vice-líder do governo no Congresso, Bia Kicis (PSL-DF), que votou contra o fundo. Ontem, o governo dispensou a deputada da função. E, pelo o que os bastidores indicam, planeja trocar também o atual líder, Major Vitor Hugo (PSL-GO), pelo deputado Ricardo Barros (PP-PR).

A substituição aconteceria no início de agosto. E, segundo os repórteres Gustavo Uribe e Julia Chaib, a oportunidade serviria para que o Planalto testasse seu entrosamento com Barros. Ex-ministro da Saúde no governo Temer, ele poderia assumir novamente a pasta em outubro – que, agora, aparece como o novo prazo para que o general Pazuello deixe o cargo. 

Mas a movimentação não é unânime no Centrão. Congressistas ouvidos pela reportagem temem que a nomeação de Barros como líder do governo possa tirar protagonismo do líder do PP, Arthur Lira (AL) – que é candidatíssimo à presidência da Câmara. 

A propósito: Jair Bolsonaro fez o terceiro teste para o novo coronavírus desde que anunciou estar doente. Continua dando positivo.

MEIA VOLTA, VOLVER

A filha do general Braga Netto não vai mais para a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Sem formação na área, Isabela Braga Netto ocuparia um cargo de livre nomeação do governo, com salário de R$ 13 mil. Ela foi indicada pelo diretor-adjunto da agência, Daniel Pereira, que é irmão de um dos principais assessores do ministro da Casa Civil, Thiago Pereira. O Sindicato dos Servidores das Agências Nacionais de Regulação cravou: o caso configuraria nepotismo cruzado, quando dois agentes públicos empregam familiares um do outro como troca de favor. A desistência, anunciada ontem, aconteceu aparentemente por pressão de integrantes do Planalto que temiam (com razão) que a boquinha causaria mais desgaste ainda à imagem das Forças Armadas.

Por Outra Saúde

CRIANDO ASAS

A superexposição pandêmica criou asas em Henrique Mandetta. Numa entrevista à BandNews, ele costeou o alambrado de 2022: "Vou estar em praça pública lutando por algo em que eu acredito." Perguntaram-lhe se seria candidato a presidente da República. E o ex-ministro: "A presidente, a vice-presidente."

Como se vê, Mandetta deseja alçar voo. Antes, convém passar álcool gel na ficha penal. Tantas coisas boas foram associadas à gestão do ortopedista na pasta da Saúde que as pessoas se esquecem que ele chegou à Esplanada exibindo a fratura de um processo em que é acusado de fraude em licitação, tráfico de influência e caixa dois. Coisa relacionada à sua gestão como secretário de Saúde de Campo Grande.

Mandetta teve o cuidado de avisar a Bolsonaro antes da posse: "Falei: olha, presidente, o senhor queria falar comigo, ótimo, estou orgulhoso, desafio grande, mas está aqui ó: tem isso, tem aquilo, tem inquérito, tem juiz, eu não sou afeito aos termos advocatícios. Ele me disse que eu não era nem réu, eu falei que não, mas eu mandei ele averiguar." Na época, Bolsonaro foi questionado pelos repórteres. Deu de ombros: "Olha só, tem uma acusação contra ele de 2009, se eu não me engano. Não é nem réu ainda. O que está acertado entre nós? Qualquer denúncia ou acusação que seja robusta, não fará mais parte do nosso governo." Mandetta estava com o sigilo bancário quebrado e os bens bloqueados.

O doutor deveria ter com o eleitorado a mesma delicadeza que teve com Bolsonaro. Ao mencionar a hipótese de disputar o assento de presidente, precisa esclarecer se conseguirá exibir na campanha uma ficha penal livre de infecções.

Por Josias de Souza

XATIADA

A deputada federal Bia Kicis (PSL-DF) falou, em entrevista para o site bolsonarista Terça Livre, que o governo perde muito mais do que ela com a sua saída da vice-liderança da Câmara. Bolsonarista radical, Bia foi destituída na noite de quarta-feira (22) da vice-liderança do governo na Câmara. A queda de uma das mais importantes integrantes da tropa de choque do presidente Jair Bolsonaro foi motivada por sua postura na votação do novo Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação). Kicis foi um das sete parlamentares da base do governo que contrariou a orientação e votou contra a proposta, aprovada no último dia 21. Depois de ter atuado para boicotar, desidratar e até impedir a votação do novo Fundeb, diante da derrota iminente, o governo Bolsonaro resolveu, na última hora, apoiar a medida e orientou voto pela aprovação.

FRASES DA SEMANA

“Vetei multa pelo descumprimento do uso de máscara… É um absurdo o que estão fazendo. […] Se continuar com essa política de isolamento a tendência é o país se transformar num país de miseráveis. Um país de miseráveis é terreno fértil para o socialismo”. (Jair Bolsonaro)

“Bolsonaro agora diz que a aprovação do Fundeb é mérito do governo dele. Deputados bolsonaristas boicotaram a votação e não satisfeitos, ainda votaram contra. Se não fosse a oposição, o Fundo sequer teria sido aprovado. É muita cara de pau!” (Gleisi Hoffmann, presidente do PT)

“Há muita controvérsia, muita diferença. Para mim, presidente tem que governar para todos, não só para quem pensa como ele, por isso mudaria”. (Anitta, cantora, compositora e atriz, a propósito do presidente Jair Bolsonaro)

“Arrependo-me um pouco de ter subestimado a Covid-19. Ele é um pouco pior do que imaginava. Mas não tão ruim quanto assistir aos jornais das televisões e ver esse vírus do medo se espalhando de uma forma tão terrível”. (Roberto Justus, empresário e comunicador)

 “A grande verdade é que fracassamos miseravelmente no combate ao coronavírus. Vai ter muito mais mortes do que aconteceriam se o governo tivesse tido, desde o início, um comportamento diferente”. (Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda do regime militar de 64)

“Provavelmente depois do Bolsonaro alguém muito pior do que ele vai vingar, ou o contrário, alguém que faça uma estética política da paz e do amor, mas que tenha uma máquina de produção populista poderosa”. (Marcia Tiburi, filósofa e escritora)

“Bolsonaro é a grande crise que estamos vivendo hoje. (…) Não imaginei que as Forças Armadas fossem dar sustentação às loucuras que ele faz, porque quando os militares aceitam participar de um governo assim, é porque acham que o presidente está fazendo as coisas certas”. (Lula)

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Com informações de Leonardo Sakamoto, Josias de Souza, Ricardo Noblat, Reinaldo Azevedo, Carta Capital, Outra Saúde, Sul 21, o Globo, Fórum, Veja, Dora Kramer, BRPolítico, Vera Magalhães, Marcelo de Moraes e outros.


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