Semana On

Quarta-Feira 05.ago.2020

Ano IX - Nº 404

Poder

É o bolsonarismo, ministro, a principal fonte de desrespeito a professores

Apesar de tudo, novo chefe do MEC traz alívio por aceitar o óbvio: o Estado é laico

Postado em 17 de Julho de 2020 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

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Milton Ribeiro assumiu o Ministério da Educação no lugar que Carlos Decotelli, que substituiu Abraham Weintraub, que substituiu Ricardo Vélez Rodríguez, prometendo "resgatar o respeito" ao professor e reverter a "desconstrução de sua autoridade" em sala de aula.

Melhor seria se prometesse ajudar a criar um ambiente de respeito mútuo, baseado no diálogo envolvendo estudantes, professores, comunidade e poder público. Os tristes episódios de violência entre estudantes e professores dizem mais sobre a desestruturação social e econômica e a falta de perspectivas dos estudantes no contexto em que estão inseridos do que sobre a "implementação de políticas e filosofias educacionais equivocadas" - opinião de Ribeiro.

O problema, para ele, é que uma das maiores ameaças aos professores em sala de aula tem sido a tentativa do bolsonarismo de promover uma guerra cultural utilizando as escolas como campo de batalha.

Docentes têm sido vítimas de ameaças e assédios por parte de membros de milícias digitais ou de movimentos totalitários contra o livre pensamento, grupos que defendem uma escola sem cérebro. Muitos ficam com medo de voltar às aulas devido a um macarthismo tupiniquim - que tem contado com o apoio de lideranças políticas e religiosas.

Dar uma aula sobre o que são direitos fundamentais tornou-se imperdoável em muitos lugares. Tratar sobre as diferentes formas de violência contra a mulher virou abominação. Falar do nosso racismo estrutural não raro é tratado como tentativa de ideologizar a cabeça de uma criança. Há caso de dirigente de escola particular na capital paulista que ouviu a demanda de pais para que os docentes dessem o "outro lado da escravidão". Professoras que discutem gênero recebem ameaças de morte, como foi o caso da Universidade Federal da Bahia, em que uma banca de defesa teve que contar com proteção especial de segurança devido às ameaças.

Sempre tivemos um enorme déficit de formação para a empatia, para reconhecer no outro alguém que tem os mesmos direitos que nós. Mas também para a cultura política do debate - infelizmente, não somos educados, desde cedo, para saber ouvir, falar, respeitar a diferença e, a partir daí, construir consensos ou saber lidar com o dissenso. Não somos educados para a tolerância e a noção de limites. Principalmente se, desde sempre, pudemos desfrutar de privilégios que outros grupos nem sonham.

A escola, principalmente a pública, é o ambiente por excelência do encontro com o outro, o diferente. Pode garantir que os estudantes construam a noção de tolerância que, não raro, é negada a eles por seus pais, familiares e amigos. A pluralidade, que deveria ser natural a essa instituição para a construção de tudo isso, vem sendo alvo de bombardeios do bolsonarismo.

Se alguém buscou minar o respeito aos professores em sala de aula foi o atual governo, através dos semoventes que ocuparam o Ministério da Educação.

Esqueçam os problemas administrativos e gerenciais, o sucateamento e a falta de apoio para a formação dos profissionais, os salários vergonhosamente pequenos e atrasados, os planos de carreira risíveis, a ausência de infraestrutura, de material didático, de merenda decente, de segurança para se trabalhar. Esqueçam os projetos impostos de cima para baixo que fecham escolas e desfazem comunidades escolares. Esqueçam o gás lacrimogênio e as balas de borracha contra professores e estudantes que fazem greve.

O grande problema da educação do atual governo tem sido caçar fantasmas de uma ameaça vermelha inexistente em sala de aula.

Mais do que nunca, é hora de lembrar qual a função da escola. Educar por educar, passando apenas dados e técnicas, sem conscientizar o futuro trabalhador e o cidadão do papel que ele pode vir a desempenhar na sociedade, sem considerar a realidade à sua volta, sem ajudá-lo a construir um senso crítico e questionador sobre o poder, seja ele vindo de tradições, corporações, religiões ou governos, é o mesmo que mostrar a uma engrenagem o seu lugar na máquina. A um tijolo, em qual parte do muro deve permanecer - e é isso o que deseja uma grande quantidade de milícias digitais e movimentos fundamentalistas. Para tanto, precisam calar professores.

Presos na cortina de fumaça da suposta doutrinação que estaria ocorrendo nas escolas, empobrecemos um pouco mais o debate sobre a própria educação. O resultado de toda essa confusão tem sido a contenção dos pequenos avanços civilizatórios da área nos últimos anos. Como disse Paulo Freire, todos somos orientados por uma base ideológica. A discussão é se a nossa é includente ou excludente.

Mas se as pessoas que mais precisariam fazer essa reflexão chamam Paulo Freire de "lixo", será uma grande caminhada até que percebam o tamanho da corrente que prende seus próprios pés.

Em um Estado autoritário, o professor que fala de liberdade e respeito é tratado como inimigo público da sociedade. No mesmo Estado, um deputado que topa vender seu voto pela Reforma da Previdência é recebido com pompa pela Presidência da República e chamado de herói pelo mercado.

Por fim, o respeito aos professores também é minado em sala de aula quando paga-se a eles muito pouco. A categoria essencial para permitir que o Brasil dê o salto em produtividade e em desenvolvimento humano e social continua sendo maltratada. O que acaba por torná-la pouco atrativa e, não raro, a primeira opção apenas de pessoas abnegadas.

É triste que parte dos "homens e mulheres de bem" que defendem a educação como solução não acredita que salários mais altos, mais gastos em formação técnico-pedagógica e melhor infraestrutura tenha a ver com a melhoria da sociedade. E repetem o mesmo discurso que uma educação de qualidade não passa por pesados investimentos novos, mas por apenas sinergia e boa vontade. É bonito pedir educação para todos e todas. Mas educação pública de qualidade não passa por um Estado mínimo.

Aprender como fazer a discussão de valores com respeito a ideias divergentes e à ética é tão importante quanto absorver conhecimento técnico - sou professor há 20 anos, sei o quanto é difícil e fundamental esse processo. Mas a burrice, como manifestação da negação do conhecimento, avança quando os governantes acham possível construir uma sociedade melhor e mais justa jogando na lata do lixo os instrumentos usados para refletirmos sobre seus erros e acertos. E quando a mesma sociedade aceita isso.

Que a razão proteja o ministro na tarefa que assume agora. Ele vai precisar recorrer a ela diversas vezes, considerando o governo em que está.

O óbvio

O pastor Milton Ribeiro reconheceu no seu discurso de posse que o Estado é laico e que ele terá que dialogar com acadêmicos e educadores. São duas obviedades absolutas. Mas o óbvio virou uma espécie de comprovação da teoria evolucionista de Darwin diante do terraplanismo educacional dos antecessores Velez Rodrígues e Abraham Weintraub, que pareciam ter dificuldades para aceitar Copérnico.

Deve-se aplicar à chegada do pastor a filosofia das botas apertadas de Brás Cubas. Personagem do célebre livro de Machado de Assis, Brás Cubas vivia momentos de raro alívio e prazer depois de descalçar as botas ao entrar em casa. Concluiu que as botas apertadas são uma das maiores venturas da terra. Fazendo doer os pés, as botas oferecem ao dono a extraordinária satisfação de se livrar delas. Nessa teoria, os calos existem para aperfeiçoar a felicidade terrestre.

Em um ano e meio de governo, Milton Ribeiro é a quarta tentativa de Jair Bolsonaro de livrar o Ministério da Educação dos inconvenientes provocados pelos calos da irracionalidade. Carlos Decotelli, o terceiro calo, caiu antes da posse, por inconsistência curricular.

Impossível prever qual será o tempo de duração do alívio, pois as qualidades do novo ministro são desconhecidas. E ele fará mudanças apenas pontuais na equipe do MEC. Terá de conviver com parte dos auxiliares deixados por Weintraub. Na secretaria de Alfabetização, por exemplo, há um olavista. No Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, há um par de prepostos do centrão, o agrupamento partidário dinheirista.

O novo ministro declarou-se "entristecido" com o flagelo educacional brasileiro. Sem citar nomes nem números, fez referência às colocações dos estudantes brasileiros no ranking do Pisa. Trata-se do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes. O último relatório foi divulgado em dezembro de 2019. Trazia resultados referentes ao ano de 2018. Expôs a raiz do atraso nacional.

Verificou-se que quatro em cada dez alunos brasileiros na faixa dos 15 anos não entendem o que leem, não sabem fazer contas básicas e não compreendem conceitos elementares de ciência. Não se chega a um desastre desse tamanho por acaso. O teste mostrou que o Brasil se acostumou com o vexame. O país caiu no abismo educacional e não esboça a intenção de sair dele.

Os indicadores do Brasil no Pisa estão estagnados há uma década. E fica tudo por isso mesmo. Num ranking de 79 países, os alunos brasileiros ficaram nas 20 piores posições em leitura, em matemática e em ciências. Para enxergar o que está por trás do problema, é preciso olhar por cima dos indicadores. A causa da encrenca é o analfabetismo governamental.

Falta à Educação brasileira um lote de políticas públicas capazes de sobreviver aos governos. Falta um lote de iniciativas de Estado. Coisas perenes, que sobrevivam ao longo do tempo. Eleito por 57,7 milhões de brasileiros como solução, Bolsonaro converteu-se em parte do problema. Velez e Weintraub dedicaram-se a exibir a própria inépcia e a caçar comunistas.

Na entrevista em que comentou os resultados do Pisa, Weintraub preocupou-se em realçar dois pontos: 1) coletados em 2018, os números não têm nada a ver com o governo Bolsonaro; 2) A culpa é do PT e da sua "doutrinação esquerdófila". O então ministro absteve-se de informar para onde planejava levar a Educação. Hoje, sabe-se que a gestão de Weintraub tinha rumo. Estava na trilha que conduz ao brejo.

Para retirar a Educação do caminho do desastre, o pastor Milton Ribeiro terá de se superar. Não basta reconhecer o óbvio ou reconstruir conceitos despejados sobre o púlpito da igreja. Toda a sabedoria humana não vale um par de botas curtas, disse Brás Cubas —ou Machado de Assis, expressando-se pelos lábios do personagem.

Resta saber se Bolsonaro permitirá que o ministro desaperte as botas da ideologia. Espera-se, de resto, que o pastor disponha de talento administrativo. Do contrário, ele logo descobrirá mais uma obviedade: quem tem calos não deveria entrar em apertos.


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