Semana On

Sábado 28.nov.2020

Ano IX - Nº 421

Poder

O problema não é o ministro da Saúde, mas seu chefe

Apesar de contaminado, Bolsonaro continua disparando aberrações contra a saúde pública

Postado em 17 de Julho de 2020 - Leonardo Sakamoto e Josias de Souza (UOL), Ricardo Noblat (Veja), Mariana Schreiber (BBC News) – Edição Semana On

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Durante dois minutos, em uma live na noite de quinta (16), Jair Bolsonaro mostrou que, mesmo covid positivo, segue na sua melhor forma - desmentindo, assim, aqueles que defendem que submergiu por conta da prisão de Fabrício Queiroz e do inquérito das fake news.

O presidente da República disparou um fuzil automático de aberrações contra a saúde pública, que já andava moribunda desde que ele tratou a doença como "gripezinha". Vamos a elas:

"Não podemos continuar sufocando a economia! Dá para entender que a falta de salário, a falta de emprego mata, e mata mais que próprio vírus? Será que tá difícil? Será que tô errando ao falar isso daí? Eu tenho que ter mais responsabilidade?"

Sim, ele está errando e, sim, ele teria que ter mais responsabilidade, pois é o presidente. Foram registradas 1.299 mortes nas últimas 24 horas, totalizando 76.822 óbitos. E nada mostra que essa curva vai se reduzir no curto prazo. Não há estudos mostrando que a falta de salário e de emprego por conta da crise já matou mais de 76.822 pessoas, nem que isso vá acontecer. A crise econômica trazida pelo coronavírus é grave, mas pode ser mitigada por medidas tomadas pelo poder público. Felizmente, o Congresso Nacional passou por cima da proposta original do governo Bolsonaro, de pagar R$ 200 por família como auxílio emergencial. Por que, se esse valor prosperasse, aí sim, teríamos muitas mortes por fome.

"Eu podia ficar quieto, afinal de contas o Supremo Tribunal Federal disse que quem decide tudo nessa área são Estados e municípios. E ponto final."

Mentira. Tem sido parte da estratégia de Bolsonaro, há alguns meses, jogar a responsabilidade pelas crises sanitária e econômica em governadores e prefeitos. Para tanto, distorce uma decisão do STF - que, na verdade, afirmou que Estados e municípios também podem decidir sobre as atividades econômicas que abrem e fecham em uma quarentena. Quem tirou o corpo fora foi o próprio Jair por livre e espontânea vontade.

"Se não tem alternativa, por que proibir [a cloroquina]? Ah, não tem comprovação científica que seja eficaz. Mas também não tem comprovação científica que não tem comprovação eficaz [de eficácia, provavelmente]. Nem que não tem, nem que tem."

Como o presidente se enrola no próprio argumento, o que faz com que pareça uma paródia de si mesmo feita pelo genial Marcelo Adnet, acabamos não prestando muita atenção no que diz. Para ele, não há comprovação de ineficácia da cloroquina, então as pessoas deveriam tomar o medicamento. Inverte o ônus da prova. Seguindo essa lógica torta, poderíamos sugerir que as pessoas acariciassem um gatinho. Por que não há uma pesquisa definitiva dizendo que as carícias em felinos, que geram endorfina, não potencializam o sistema imunológico que, por sua vez, cura covid-19. A questão é que acariciar o bichano seria mais saudável, porque não tem efeitos colaterais.

"É uma realidade: tem muita gente quando toma, como meu caso, no dia seguinte tava bom, pô! Foram embora os sintomas."

Da mesma forma que muita gente casou depois que colocou uma estátua de Santo Antônio, de castigo, na geladeira. Não é porque A acontece depois de B, que B acontece por causa de A. A imensa maioria das pessoas é curada da covid-19 sem tomar medicamento algum para atacar a causa da doença, apenas usando produtos para reduzir a febre e mitigar as dores. O presidente talvez desconheça, mas dentro dele há milhões de pequenas estruturas, os glóbulos brancos, que cuidam do sistema de defesa do organismo. São eles os principais responsáveis por combater o coronavírus, na maioria dos casos. Mas Bolsonaro precisa recomendar o remédio para, exatamente, ficar com os louros que seriam do sistema imunológico das pessoas.

"Por que negar [a cloroquina]? Não tem outra alternativa."

Porque uma série de pesquisas sérias demonstraram que ela não tem mais eficácia do que não tomar nada. Principalmente, em casos mais leves, como o do presidente e o da imensa maioria da população. Pelo contrário, tomar cloroquina pode levar à arritmia cardíaca (vai por mim, tomei na minha segunda malária e não foi agradável), entre outros efeitos colaterais. Ou seja, não se recomenda porque pode ser pior do que a própria doença.

Há outras saídas sim, que vem sendo ministradas, caso a caso, a pacientes internados. E haveria uma grande alternativa: um governo que acreditasse na gravidade da doença e se preocupasse com vidas da mesma forma que se preocupa com o seu mandato, impactado pela depressão econômica. Um governo que conduzisse o país a uma quarentena consistente - o que nos levaria a uma retomada mais rápida. A exemplo de países liderados por mulheres que se guiam pela ciência, como a Alemanha e a Nova Zelândia.

"Imagina daqui a algum tempo... Por que vai ter a comprovação científica, mais cedo ou mais tarde... Diga que a hidroxicloroquina é eficaz nesse caso? E aqueles que proibiram em seus estados e proibiram em seus municípios, o uso disso aqui? Quantas mortes podiam ser evitadas?"

Pesquisas sérias já apontam para a não-eficácia. Mas imagina daqui a algum tempo... Por que vai ter a comprovação científica, mais cedo ou mais tarde... Diga que a hidroxicloroquina é ineficaz nesse caso? E aqueles que permitiram no país, o uso disso aqui? Quantas mortes podiam ser evitadas? Apostar em um remédio sem eficácia comprovada, usando isso como alavanca para mandar pessoas para a rua acreditando existir um elixir mágico, não evita mortes, pelo contrário. Bolsonaro está pronto para aceitar a responsabilização por óbitos desnecessários em um Tribunal Penal Internacional?

"Também agora está aí, estão apresentando o Annita. Não sou médico, não recomendo nada para ninguém. O que recomendo é que procure o médico... Você que está com parente, um amigo, um idoso que tá com sintomas, procure um médico. Doutor, ministra ou não hidroxicloroquina? Ministra Annita ou não? O que o senhor recomenda? O médico vai falar alguma coisa. Pode falar 'vai para casa e deite'. Aí você decide e procura outro médico se quiser."

Já não bastasse defender a cloroquina, ele também defende um vermífugo que não tem eficácia comprovada. O presidente precisa que a população acredite em uma muleta, qualquer que seja, para aceitar voltar ao trabalho imediatamente. Daí, se o cidadão pegar covid e ela for fraca, vai dizer que é prova de que é uma "gripezinha". Se pegar e o sistema imunológico curar sozinho, o mérito foi o remédio do Bolsonaro. Se pegar e ficar bem mal, precisando de internação, a justificativa é de que demorou para tomar o produto por culpa de governadores e prefeitos. E se pegar e vier a falecer, paciência, todo mundo morre, é o destino de todo mundo, como bem disse ele.

O nome do problema não é Pazuello

Está evidente que o governo enfrenta um apagão no setor da saúde. O flagelo têm nome e sobrenome. Convencionou-se chamá-lo de Eduardo Pazuello. Se fosse verdade, a solução seria simples. Com um movimento de caneta, o general que comanda a intervenção militar na pasta da Saúde seria devolvido ao quartel. O diabo é que estão todos equivocados. Chama-se Jair Bolsonaro o verdadeiro problema.

Outros presidentes precisavam tourear opositores. Como a oposição briga consigo mesma, Bolsonaro administra autocrises. Ele fabrica seus próprios tropeços. Na tradicional live de quinta-feira, o presidente declarou que Pazuello (e Ricardo Salles – do Meio Ambiente) permanecem nos respectivos cargos. Seria uma injustiça a atribuir à dupla todas as mazelas ambientais e sanitárias. Está entendido que Bolsonaro acumula as funções de presidente com as atribuições de ministro do Meio Ambiente e da Saúde.

Salles foi escalado para "passar a boiada". Mas é Bolsonaro quem indica os bois. Pazuello explica para Gilmar Mendes, pelo telefone, as omissões do governo na crise sanitária. Mas é o presidente quem determina que Brasília se abstenha de articular com governadores e prefeitos um comitê nacional de gerenciamento da pandemia.

Ao prestigiar Salles, Bolsonaro esvazia o esforço do vice-presidente Hamilton Mourão para convencer investidores de que o Brasil leva a sério a preservação do Meio Ambiente. Ao manter Pazuello, o presidente gruda na imagem das Forças Armadas os mortos da Covid-19. Mas de uma coisa Bolsonaro não se livra: o rosto do presidente é a cara da crise.

Mas afinal, porque Pazuello não foi efetivado no cargo? Á época de sua designação como ministro interino, mais de uma vez desde então, Bolsonaro elogiou seu desempenho. Então por que de interino o general não passou a titular? Simples, e até os apontadores de jogo do bicho que circulam pela Esplanada dos Ministérios, em Brasília, conhecem a resposta. Bolsonaro quis fazer de Pazuello o sucessor de fato e de direito dos ex-ministros Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich. Mas…

Mas, os atuais ministros militares e os comandantes das Forças Armadas foram contra. Pazuello seria mais um militar em cargo importante da administração pública, o que reforçaria as críticas sobre o envolvimento das Forças Armadas com o governo. E logo no Ministério da Saúde, posto máximo do combate ao Covid-19.

Desgastaria a imagem do Exército se, no futuro, o resultado do combate fosse mal avaliado. Uma coisa são as Forças Armadas fazerem tudo ao seu alcance para ajudar a deter o avanço da doença – e elas fazem. Outra bem diferente, ocupar o principal papel na linha de frente do combate. Tal papel cabe ao governo.

É por isso que Pazuello voltará ao quartel. Foi como missão que recebeu o convite para ser secretário-geral do Ministério da Saúde, cuidando, ali, da logística de distribuição de remédios, de equipamentos e de testes para o Covid-19. Não deu conta do recado, mas jamais seus colegas de farda admitirão que não deu.

Fará um favor ao Exército se der sua missão por concluída e retomar sua carreira. Certamente será promovido e haverá um bom posto esperando por ele. Que Bolsonaro, mais tarde, explique porque seu governo comportou-se tão mal no enfrentamento da pandemia. As Forças Armadas não tiveram culpa, talkey?

Em cartaz, no Planalto, a nova versão da Ópera do Malandro

Na hora em que se descobre em apuros, ou o presidente Jair Bolsonaro recua e dá o dito pelo não dito como já fez tantas vezes, ou joga a culpa nos outros. Se não dá para jogá-la nas costas dos adversários de preferência, joga nas costas dos próprios auxiliares. E não se constrange em agir assim. E nem na intimidade com eles se desculpa. De corajoso não tem nada.

É como se comporta desde o seu tempo de soldado e de garimpeiro nas horas vagas, atividade que escondeu dos seus superiores. Como deles havia escondido seu plano de detonar bombas em quartéis em defesa de melhores salários para a soldadesca. E foi por isso que acabou afastado do Exército. Certa vez, o ex-presidente Ernesto Geisel referiu-se a ele como “um mal militar”.

Em entrevista recente à GloboNews, o vice-presidente Hamilton Mourão tentou explicar por que Bolsonaro é o que é. “Ele encerrou a carreira em um posto, o de capitão, onde você é muito mais físico do que intelectual”. E acrescentou: “Quando você muda da parte do físico para a do intelectual… Ele não viveu esse momento dentro da carreira militar”. Entenderam o que Mourão quis dizer?

No prontuário de Bolsonaro guardado nos arquivos do Exército, consta que Cavalão (apelido dele na caserna) era bom de corridas a longa distância, da prática de esportes e de saltos de paraquedas. Parou por aí. Embora já tenha testado positivo duas vezes para o coronavírus, ele se apresenta como dono de uma saúde de atleta. Sobreviveu até a uma facada traiçoeira.

No mais, nunca leu um livro na vida, do que se orgulha. É só intuição, astúcia, esperteza e malandragem. Pois o malandro, presidente acidental, mandou que a Advocacia Geral da União (AGU) desse um jeito no processo que ele responde na condição de réu por ter liberado a compra de munição em quantidades três vezes maiores pelos proprietários de armas registradas.

Podia-se comprar 200 unidades de cada vez. Pode-se comprar 600. E sabem por quê? Porque Bolsonaro quer armar o povo, como disse na reunião ministerial gravada de 22 de abril último. Armá-lo para impedir a implantação de uma ditadura no país – ditadura de esquerda, naturalmente. Deu até um exemplo:

– Um prefeito faz a porra de um decreto, algema uma mulher e deixa todo mundo preso dentro de casa. Se [o povo] tivesse armado iria para a rua. Eu quero todo mundo armado!

Pouco antes, na mesma reunião, avisara em voz alta a Sérgio Moro, então ministro da Justiça, e ao general Fernando Azevedo, ministro da Defesa que a tudo ouviam calados: “Peço ao Fernando e ao Moro que, por favor, assinem essa portaria ainda hoje, que eu quero dar uma porra de um recado”. Missão dada pelo presidente da República, missão cumprida pelos dois ministros.

Acontece que, agora, em peça incluída nos autos do processo, a AGU alega que se existirem delito e culpa, Bolsonaro nada teve a ver com isso, nadinha. A portaria foi assinada por Moro e Azevedo, ponto. “Os atos administrativos praticados no âmbito dos dois ministérios não podem ser atribuídos pessoal e institucionalmente ao presidente da República”, ponto. Que tal?

Pura malandragem, talkey? Malandragem misturada com falta de escrúpulos (“Às favas todos os escrúpulos”), deslealdade com subordinados que obedeceram às suas ordens, e covardia. Ontem, as vítimas foram Moro, que se demitiu e denunciou Bolsonaro, e Azevedo, que enfrenta a pressão dos comandantes militares para que não se curve a todas as vontades do chefe. E amanhã?

Vida longa a Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, e Eduardo Pazuello, o general especialista em logística que responde há dois meses pelo Ministério da Saúde na condição de interino. Por seguirem sem discutir as orientações de Bolsonaro, foram elogiados por ele em sua live das quintas-feiras no Facebook. Não é necessariamente um sinal de que possam respirar em paz.

Apesar de tudo

Os apoiadores do presidente Jair Bolsonaro são minoria no debate sobre a pandemia de coronavírus travado no Twitter, mostra um relatório produzido pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV DAPP).

Segundo essa análise, as discussões envolvendo a crise de covid-19 no país já geraram mais de 330 milhões de tuítes desde o final de março, sendo que a ampla maioria dos perfis envolvidos nesses debates é de usuários críticos ao presidente e ao seu governo, num movimento que ampliou e diversificou os grupos de oposição a Bolsonaro, com adesão de mais atores políticos e de influenciadores sociais e celebridades, como o humorista Whindersson Nunes e o biólogo e divulgador científico Atila Iamarino.

Por outro lado, aponta o relatório, embora os usuários que apoiam o presidente e sua postura frente à pandemia raramente consigam ultrapassar 20% dos perfis engajados nessas discussões, eles representam um grupo bastante coeso e mobilizado.

Mesmo sendo o grupo minoritário, suas atividades na rede social chegam a representar, em alguns dias, mais da metade das interações sobre covid-19 no Twitter. Entre os dias 22 de junho e 7 de julho, por exemplo, os perfis bolsonaristas eram em média 17% dos usuários de Twitter engajados no debate da pandemia, mas respondiam por cerca de 40% das interações sobre o tema.

Nessas manifestações, o grupo mostra coesão e persistência na defesa de duas bandeiras importantes de Bolsonaro — a crítica ao isolamento social e a defesa da cloroquina para tratamento de covid-19.

O presidente é defensor da substância, apesar de não haver comprovação de sua eficácia contra o coronavírus. Ele também entrou em intenso conflito com governadores desde o início da pandemia por discordar de decisões como fechar comércio, restaurantes e suspender as aulas nas escolas, para reduzir o contágio da nova doença. Para Bolsonaro, essas medidas são exageradas e afetam negativamente a economia. Apesar de forte mobilização de seus apoiadores, são perfis de oposição ao presidente que têm protagonizado as discussões no Twitter em momentos críticos do debate sobre pandemia no Brasil, como no final de março, quando Bolsonaro disse em pronunciamento à nação que sentiria apenas uma "gripezinha" caso contraísse a doença.

Outro momento em que o apoio ao presidente nas redes ficou reduzido foi em 7 de julho, quando Bolsonaro confirmou que foi diagnosticado com covid-19, assunto que gerou 3,2 milhões de tuítes naquele dia.

Após a confirmação do diagnóstico, a base de apoio do presidente se mobilizou em torno da hashtag #forçabolsonaro, mas só agregou 13% dos perfis e 32% das interações envolvendo esse tema, segundo a FGV.

"Enquanto isso, perfis de oposição e sem alinhamento partidário retomaram protagonismo, com 60% dos perfis, com a alusão às falas negligentes do governo sobre a pandemia, alçando a hashtag #forçacovid à lista das principais hashtags no debate", diz o relatório.

De acordo com a FGV, a pandemia trouxe uma nova dinâmica para o debate público no Twitter, que antes era fortemente polarizado entre a base do presidente e uma oposição de perfil mais partidarizado e institucional, que incluía políticos da esquerda à centro-direita, jornalistas e instituições públicas.

Após a entrada do coronavírus no Brasil, nota o relatório, essa oposição de caráter mais institucional se ampliou com a entrada de antigos aliados políticos de Bolsonaro e de governadores. Se em 2019, os governadores de São Paulo (João Doria) e Rio de Janeiro (Wilson Witzel) eram os principais a antagonizar com Bolsonaro, a partir da pandemia, o presidente foi alvo de comentários negativos até de aliados, como o governador de Goiás, Ronaldo Caiado.

Além disso, a oposição a Bolsonaro no Twitter passou a reunir também mais manifestações críticas vindas de influenciadores digitais e celebridades, como o humorista Whindersson Nunes, o biólogo e divulgador científico Atila Iamarino e o empresário e youtuber Felipe Neto — esse último já antigo opositor do presidente.

"A partir de março, quando se intensifica a discussão no país sobre a pandemia de covid-19, a estrutura polarizada que organizou o debate político no Brasil desde 2014 se reorganiza: de um lado, base sólida de apoio ao governo federal permanece com forte atividade digital, mas sem atrair novos perfis e estabelecer pontes de diálogo com outros grupos", diz o relatório.

"Enquanto isso, formou-se um grupo de oposição ampliada (...) alinhado pela defesa do isolamento social e pela crítica à política federal de combate à pandemia", acrescenta o documento.

Segundo o coordenador de linguística da FGV DAPP, Lucas Calil, o envolvimento maior de celebridades e influenciadores ocorre "porque a pandemia não é só uma questão política".

"A gente monitora as pessoas reclamando da quarentena, falando de saúde mental, alcoolismo, insônia, depressão. E por força do contexto político, isso mobiliza as pessoas a fazer uma correlação de temas de saúde com outras conjunturas de políticas públicas, o que levou influenciadores digitais, principalmente da cultura, a abordar o coronavírus e se aproximar de um debate político", ressalta.

Humor como crítica

Esse grupo costuma usar o humor como linguagem para se opor ao governo, analisa o relatório da FGV. Em 2 de junho, por exemplo, Whindersson Nunes escreveu no Twitter "Então morre satanás" (sic), ao reagir à seguinte fala do presidente sobre as vítimas do coronavírus: "A gente lamenta todos os mortos, mas é o destino de todo mundo".

O post atingiu 252 mil curtidas e 53,9 mil compartilhamentos. Ao ser criticado por essa manifestação, ele respondeu, em mais um comentário que viralizou: "Rapaziada, quando alguém diz 'é o destino de todos morrer' e alguém diz 'então morre satanás' não quer dizer que a pessoa mataria a outra não, animal, é pra interpretar. Todo mundo não morre?? Então morre desgraça, já que tu não liga, é isso. Se faz de doido não".

A pandemia já matou mais de 70 mil pessoas no país, e o presidente tem sido constantemente criticado, seja por seu governo não ter conseguido limitar a quantidade de vítimas fatais, seja por não dar declarações em respeito aos mortos e seus familiares.


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