Semana On

Terça-Feira 27.out.2020

Ano IX - Nº 416

Brasil

Quem são os empresários que ganham com a cloroquina no Brasil

Defendido por Bolsonaro como tratamento para covid-19, remédio teve alta de 358% no consumo

Postado em 16 de Julho de 2020 - Patrik Camporez (O Estado de S.Paulo), Leonardo Sakamoto (UOL) – Edição Semana On

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A campanha do presidente Jair Bolsonaro a favor da cloroquina ajudou a empurrar os negócios de cinco empresas autorizadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a produzir o medicamento no País. Eles não informam quanto o faturamento aumentou, mas dados do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma) mostram que o consumo de cloroquina pelos brasileiros cresceu 358% durante a pandemia. A alta acompanha o crescimento nas vendas de máscaras e álcool em gel, cujo uso é recomendado no mundo todo. A cloroquina, ao contrário, coleciona mais críticas do que apoio na comunidade científica.

Recomendada para tratar malária, artrite e lúpus, ela passou a ser utilizada por pacientes com coronavírus após relatos de resultados positivos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma, contudo, que a substância é ineficaz no tratamento da covid-19.

O laboratório Aspen, do empresário Renato Spallicci, triplicou em abril a produção de Reuquinol, à base da substância, aproveitando a onda criada por Bolsonaro. Em 26 de março, a caixinha do produto apareceu no mundo todo ao ser exibida pelo presidente num encontro virtual com líderes do G-20. Militante bolsonarista, daqueles que gostam de compartilhar na internet o que o presidente faz, Spallicci aproveitou as redes para divulgar as imagens do presidente exibindo seu remédio.

No último dia 9, já com diagnóstico positivo da covid-19, Bolsonaro voltou a exibir uma caixinha de hidroxicloroquina durante sua live semanal, assistida por 1,6 milhão de pessoas. “Por volta das 17h (de terça-feira) tomei um comprimido de cloroquina. Recomendo que você faça a mesma coisa. Sempre orientado pelo médico. É um testemunho meu: tomei e deu certo, estou muito bem”, afirmou o presidente. “No meu caso deu certo. Não estou ganhando nada com isso. Não tenho nenhum negócio com essa empresa”, justificou. 

Desta vez, o remédio exibido era a versão genérica do medicamento, produzida pela EMS. A empresa faz parte do grupo controlado por Carlos Sanchez, também dono do laboratório Germed, outro autorizado a vender a cloroquina no País. O empresário está na lista da revista  Forbes como o 16.º homem mais rico do Brasil e uma fortuna avaliada em U$ 2,5 bilhões.

Sanchez participou de duas reuniões com Bolsonaro desde o início da pandemia. O último encontro, virtual, ocorreu em 14 de maio. Antes, em 20 de março, Bolsonaro já havia se reunido com o dono da EMS e outros empresários, também por videoconferência, para discutir a pandemia do coronavírus. O encontro ocorreu no mesmo período em que o presidente passou a amplificar a divulgação da hidroxicloroquina em declarações e nos canais oficiais.

Outro fabricante de cloroquina, o empresário Ogari de Castro Pacheco viu o laboratório Cristália, do qual é cofundador, ser prestigiado pessoalmente pelo presidente no ano passado. Filiado ao DEM, Pacheco é segundo-suplente do líder do governo no Senado, Eduardo Gomes (MDB-TO), e eleitor de Bolsonaro.

Na ocasião, a convite de Pacheco, o presidente participou da inauguração de uma das plantas do laboratório, em 6 de agosto. Durante a cerimônia, Bolsonaro parabenizou o empresário pela “coragem de erguer” o empreendimento.

Pacheco cita, em declaração no site da empresa, o fato de a pandemia ter levado a um “crescimento sem precedente de venda de medicamentos”. Segundo o senador Eduardo Gomes, o empresário está internado com covid-19 e fez uso do medicamento que vende. 

Trump é acionista de laboratório que produz cloroquina

O único laboratório estrangeiro autorizado a vender cloroquina no País é o francês Sanofi-Aventis, que tem o presidente dos EUA, Donald Trump, como acionista. A exemplo de Bolsonaro, Trump é entusiasta do medicamento. Em abril, o jornal  The New York Times publicou reportagem na qual questiona se a defesa do presidente americano da cloroquina estaria relacionada à saúde ou aos seus negócios. 

O deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, compartilhou uma foto de uma caixa de cloroquina da marca Plaquinol, da empresa da qual Trump é acionista, no Twitter, em 10 de abril. A imagem vinha acompanhada de uma notícia de que o grupo iria doar medicamento para infectados com a covid-19.

Além do contato com os empresários, o governo acelerou a produção da hidroxicloroquina no laboratório do Exército. Segundo o Ministério da Defesa, até o fim de junho, 1 milhão de comprimidos da substância tinham sido distribuídos e havia um estoque de mais 1,85 milhão de unidades. A produção foi suspensa até que todos sejam enviados a hospitais e postos de saúde públicos.

Empresários dizem que relação é 'institucional'

Procurados pela reportagem, os empresários autorizados a produzir cloroquina no País afirmaram manter contato institucional com o governo. 

Carlos Sanchez, da EMS, disse por meio de sua assessoria que a empresa tem mais de 55 anos de história, “já passou por muitos governos e busca sempre estabelecer diálogo com todos eles”. “A empresa é a favor do Brasil, independentemente de partidos políticos. Como a maioria dos brasileiros, quer um país mais próspero e mais justo, com oportunidades para todos. A empresa tem feito a sua parte, gerando empregos, investindo em pesquisa e em aumento de capacidade fabril, ampliando o acesso a medicamentos e promovendo saúde à população”, disse a EMS. 

Segundo a empresa, os encontros com o presidente Jair Bolsonaro foram promovidos pela Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), para discutir “questões econômicas e o novo cenário brasileiro diante da pandemia de coronavírus”.

A Apsen disse não apoiar ou financiar partido político e que o presidente da empresa, Renato Spallicci, não mantém relações pessoais com Bolsonaro. “A atuação da Apsen se dá no âmbito do governo federal, com o Ministério da Saúde, Ministério das Relações Exteriores e Anvisa. Esse contato atende todas as regras do setor e o cumprimento das leis do País”, diz nota enviada pela empresa.

Já a francesa Sanofi disse que tem como prioridade a segurança e o atendimento aos pacientes atualmente tratados sob as indicações aprovadas de “nosso medicamento Plaquinol (hidroxicloroquina): doenças reumatológicas e dermatológicas crônicas, além de malária e lúpus”. “Continuamos totalmente comprometidos em garantir o fornecimento de hidroxicloroquina para essas indicações, com base em nossa demanda histórica”, disse a empresa, que não cita o uso da substância para combater o coronavírus. A empresa confirmou que Trump é acionista, mas não informa qual o porcentual que ele tem da empresa. 

A assessoria do laboratório Cristália informou que o dono da empresa, Ogari Pacheco, está hospitalizado e que não poderia responder aos questionamentos da reportagem.

Milionários propõem taxar fortunas contra covid. Isso pegaria no Brasil?

"Hoje, nós, milionários que assinamos esta carta, pedimos aos nossos governos que aumentem impostos sobre pessoas como nós. Imediatamente. Substancialmente. Permanentemente." Mais de 90 super-ricos dos Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, Canadá, Dinamarca, Holanda e Nova Zelândia assinam o documento "Milionários pela Humanidade", pedindo para que seus países joguem os custos da pandemia de coronavírus em suas costas.

Na lista, não há brasileiros. De acordo com o World Wealth Report de 2020, publicado no último dia 10, pelo instituto Capgemini, a quantidade de milionários cresceu 7% por aqui, em 2019, com relação ao ano anterior, chegando a 199 mil pessoas.

"Posso encabeçar uma lista brasileira", afirmou à coluna o empresário e escritor, Eduardo Moreira, criador do movimento Somos 70%. O ex-banqueiro de investimentos vem sendo uma das principais vozes na defesa da taxação de grandes fortunas, grandes heranças e altas rendas no país.

Mas considera que há espaço para uma lista de milionários, não de bilionários no Brasil. "Diferentemente do que acontece nos Estados Unidos e na Europa, por aqui você encontra pouquíssimos bilionários sem esquema de evasão fiscal, sem esquemas políticos, sem fazer parte das oligarquias nos estados", afirma.

Por conta disso, crê que o diálogo com esse grupo seja mais difícil, principalmente entre os que, como ele, são egressos do mercado financeiro. E, na sua opinião, uma carta como essa não vai gerar resultado sem o apoio dos bilionários.

"Com a covid-19, a agenda da Reforma Tributária que tramita no Congresso Nacional ficou anacrônica e insustentável, porque ela é omissa em relação à tributação das altas rendas e da riqueza", defende Eduardo Fagnani, professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e do Trabalho. "Vários analistas mostram semelhança da crise atual com a 'grande recessão' de 1929. A história econômica ensina que crises dessa envergadura não foram enfrentadas pela tributação do consumo."

O documento conta com o apoio da Oxfam, organização que, no Brasil, é dirigida pela socióloga Katia Maia. Para ela, "é estarrecedor que os super-ricos brasileiros não venham a público fazer uma discussão sobre esse tema em um país com tamanha concentração de renda e patrimônio que enfrenta uma das piores crises de sua história".

Maia considera que as doações são atos pontuais e o país precisa de mudança estrutural.

"Esse papel de liderança dos milionários estrangeiros 'taxem nossas fortunas' é o que esperamos dos milionários e bilionários brasileiros. Seus institutos e fundações são importantes, mas eles têm uma agenda própria que não substitui o financiamento em escala de política pública da saúde e da educação, por exemplo", avalia.

O que está alinhado com outro trecho da carta: "Os problemas causados e revelados pelo Covid-19 não podem ser resolvidos com caridade, por mais generosas que sejam. Os líderes de governos devem assumir a responsabilidade de levantar os fundos de que precisamos e gastá-los de maneira justa. Podemos garantir que financiemos adequadamente nossos sistemas de saúde, escolas e segurança por meio de um aumento permanente de impostos sobre as pessoas mais ricas do planeta, pessoas como nós".

R$ 270 bilhões

"A classe média paga muito imposto, enquanto os super-ricos se beneficiam da não taxação de dividendos, da baixa taxação de Imposto de Renda, de manobras fiscais. O que defendemos não é aumento de impostos para a classe média, mas cobrar dos muito ricos", afirma Eduardo Moreira. Lembrando que super-rico não é quem compra uma SUV e paga em 24 prestações ou quem precisa converter dólares em reais quando vai reservar um hotel em Miami.

Tributar os super-ricos pode arrecadar cerca de R$ 270 bilhões anuais para serem usados contra a crise econômica aprofundada pela crise de saúde pública. É o que defendem a Federação Nacional do Fisco Estadual e Distrital (Fenafisco), a Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (Anfip), os Auditores Fiscais pela Democracia (AFD), o Instituto Justiça Fiscal (IJF), entre outras instituições.

Na semana que vem, elas vão apresentar 11 propostas legislativas que estão em consonância com o plano de Reforma Tributária defendido pelos partidos de oposição.

"A maior parte dessas medidas podem tramitar por projeto de lei. Precisam ser aprovadas ainda em 2020 para passarem a valer em 2021, porque a fome não pode esperar", afirma Eduardo Fagnani, que participou da elaboração da proposta.

De acordo com as instituições, a maior parte desse acréscimo viria de uma maior progressividade do Imposto de Renda de Pessoa Física (R$ 160 bilhões), seguida pelo Imposto sobre Grandes Fortunas (R$ 40 bilhões), pelo aumento temporário da alíquota da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido de setores econômicos com alta rentabilidade (R$ 30 bilhões) e pela criação da Contribuição Social Sobre Altas Rendas (R$ 25 bilhões).

O Imposto sobre Grandes Fortunas taxaria patrimônios superiores a R$ 10 milhões, abraçando 60 mil pessoas. E o Imposto de Renda aumentaria para quem ganha mais de R$ 23,8 mil por mês - que, segundo eles, perfazem 1,1 milhão de pessoas, 3,6% dos contribuintes. A alíquota mais elevada (45%) incidiria sobre 59 mil contribuintes que ganham mais de R$ 76 mil por mês.

"Taxe-nos"

"Ao contrário de dezenas de milhões de pessoas em todo o mundo, não precisamos nos preocupar em perder nossos empregos, casas ou nossa capacidade de sustentar nossas famílias. Não estamos lutando na linha de frente desta emergência e temos muito menos chance de sermos suas vítimas. Então por favor. Taxe-nos. Taxe-nos. Taxe-nos. É a escolha certa. É a única escolha. A humanidade é mais importante que o nosso dinheiro", afirma também o documento dos milionários.

E sobre o argumento de que o aumento de impostos levaria os super-ricos a saírem do país?

"Como diz um amigo advogado, se saírem, vão investir aonde? Muitos ficaram bilionários porque tiram riqueza daqui e exploram trabalho aqui. Vão investir na Estônia, que é quem também não tributa dividendos?", afirma Eduardo Moreira. "Se aumentarmos a carga de impostos dos ricos, ainda assim ela ficará abaixo do que é em outros países."


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