Semana On

Quarta-Feira 05.ago.2020

Ano IX - Nº 404

Coluna

O Mestre

Os ensinamentos e malandragens de Tsunnama Nalaghoa

Postado em 15 de Julho de 2020 - André Miguel Lucidi

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Pelas próximas semanas eu vou contar algumas estórias de Tsunnama Nalaghoa, ou, como era conhecido anteriormente, José das Paixões, nome que teve antes de resolver ir morar no Nepal e lá permanecer em busca de uma iluminação por décadas, que foram tempo suficiente para que todos seus credores o esquecessem.

O fato é que com tanto confinamento, as pessoas passaram a surtar um pouco e dar vazão as maiores loucuras dentro de suas próprias casas. Tem gente que botou o gato na máquina de lavar para dar banho, tem gente que resolveu fazer churrasco usando uma lupa contra o sol, enfim, a loucura resolveu fazer morada em muitas cabeças e muitos lares. Foi pensando nisso que Tsunnama Nalaghoa viu sua oportunidade em ganhar dinheiro como sempre quis, ou seja, sem sair da cama. Sabemos que não é só ele que pensa assim, mas ele conseguiu através de um fotógrafo amigo retocar as poucas fotos que tinha no Nepal ao lado de umas lhamas e de um pessoal, que, pela expressão facial, pareciam revelar que o entregador de delivery não haveria jamais de chegar onde estavam.  De posse dessas fotos, começou a se auto divulgar na internet em várias redes sociais como mestre em meditação. Não tardaram a surgirem pessoas interessadas em por fim às suas ansiedades e medos, mas, ele informava que só atenderia os casos mais graves e, claro, por um valor alto.

Foi aí que surgiu um rapaz jovem, com uns vinte e tantos anos, quase implorando por sua ajuda. Era um fanático político, destes que replica o que não sabe, não entende e não leu para os amigos e desconhecidos, que passava horas na internet espalhando mentiras. O rapaz para muitos que o conheceram não tinha nem talento para criar mentiras, mas, acreditava nelas piamente. Exaltava e brigava por pessoas que nem conhecia o caráter e a índole e pior, botava dinheiro em toda vaquinha que fosse feita em prol desses. Prato cheio para o mestre.

Marcaram hora pela internet, consulta estipulada em 1.500 reais por vinte minutos de conversa, cada um de seu computador conectado. Tão logo pode, o  mestre após o ensinar o maior mantra que pode pensar para ele, que o obrigava a entoar a cantiga de uma palavra que dizia   “Nooooooooo” em um canto transacional   durante cinco minutos, resolveu ouvi-lo. Com todos seus incensos vindos da Jamaica ao seu redor, o mestre perguntou com toda a paz e tranquilidade que o momento tinha.

_Por que me procuras, Jovem?

_Mestre, quero saber se estou doente. Todos dizem que sim.

_ E você, acredita que está?

_ Mestre, como posso ser eu doente em acreditar muito em alguma coisa ou alguém?

 _ E qual o problema com isso?

_ Mestre, dizem que todo mundo que eu acredito ser por boas causas, não se enquadra nos progressos do mundo. Que são todos mentirosos e reacionários. Que são assoberbados. Que me manipulam.

O mestre silenciou por instantes, para pensar. Após mais cinco minutos, resolveu dar a solução para o rapaz.

_ Gastas tempo e dinheiro com essas pessoas e delas não recebes retorno nenhum, não é?  Achas que não estás colhendo bons frutos disso, porém, não tens certeza se os que te cercam e falam a respeito de tuas palavras e atos estão certos ou não no que dizem... Compreendo. Pequeno confuso, Necessitas mudar de foco. Necessitas de outro rumo que não te tire as tuas convicções.

_ Sim, mestre! Exatamente isso! Necessito muito disso!

_ Então, Tú terás minha total atenção. Deposites o valor de mais trinta sessões de meditação e sabedoria comigo, pode ser em quatro vezes, e eu te darei exatamente o que precisas.

.... E assim, o primeiro neófito de Tsunama Nalaghoa se fez feliz.


Voltar


Comente sobre essa publicação...