Semana On

Sábado 28.nov.2020

Ano IX - Nº 421

Coluna

Ele está com o (a cloroquina) na mão

O jornalista Victor Barone resume a semana política, com humor e acidez

Postado em 15 de Julho de 2020 - Victor Barone

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Como faltam evidências que apoiam o uso de cloroquina e hidroxicloroquina em pacientes com covid-19, o Ministério da Saúde nunca conseguiu realmente emplacar um protocolo liberando o uso do jeito que o presidente Jair Bolsonaro queria – ou seja, incluindo até pessoas com sintomas leves.  Fez, ainda em maio,  só um documento de “orientações”  que, mesmo sem peso legal, teve efeitos práticos lastimáveis. Mas a pasta decidiu ir mais longe, enviando um ofício a uma das principais instituições de pesquisa do país, a Fiocruz, pedindo a “ampla divulgação” do tratamento precoce com esses medicamentos “ao início dos sintomas”. 

O documento foi assinado pelo secretário de Atenção Especializada à Saúde, o coronel Luiz Otavio Franco Duarte (que, diga-se, foi o primeiro militar nomeado para comandar uma secretaria estratégica no Ministério do interino Eduardo Pazuello). Enviado no dia 29 de junho, o ofício foi obtido e divulgado ontem pela repórter Luiza Caires, do Jornal da USP; está endereçado à presidência da Fiocruz e à direção dos institutos Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI) e Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF). “Seria uma forma de ter a legitimidade de instituições federais de reconhecido saber científico como a Fiocruz para apoiar o discurso político e ideológico sobre o uso desses medicamentos”, avalia médico e advogado Daniel Dourado, também no Jornal da USP. 

A Fiocruz e seus institutos não devem obediência a orientações técnico-científicas vindas do Ministério, como explica o advogado Paulo Almeida no site Questão de Ciência. “É possível argumentar que, dado que o texto do ofício sugere (e não exige) a divulgação do protocolo federal, que não haveria grandes consequências caso Fiocruz e órgãos conexos simplesmente não cumprissem o solicitado”, escreve ele. Mas nada é tão simples: “Há, contudo, efeitos indiretos de leis (estendida aqui para atos administrativos) que podem nortear debate e comportamento à revelia de sua vigência ou validade. (…) Não é negligenciável, portanto, a intenção de pautar o debate com o uso das ferramentas  da máquina pública. E coincidência curiosa, que esse tipo de prática tenha se intensificado após a queda sucessiva de dois ministros da saúde que tinham perfil técnico, sucedidos por um militar da ativa, cuja maior credencial para o cargo é o alinhamento com as posições tresloucadas do Presidente da República.”

Vale lembrar que, embora respeitada no mundo inteiro pelas suas contribuições para a ciência e a saúde pública, a Fiocruz é desdenhada e atacada por membros e ex-membros do governo. O ex-ministro da Cidadania Osmar Terra já declarou com todas as letras não confiar nas pesquisas da Fiocruz. Mais recentemente, tivemos o desprazer de saber que Mayra Pinheiro, secretária de Gestão do Trabalho e Educação na Saúde, acha que a Fundação tem “um pênis na porta” e que todos os tapetes são do Che Guevara.

Em nota, o Ministério da Saúde confirmou que se trata de um “ofício de caráter administrativo para orientar os institutos e hospitais federais sobre a Nota Técnica divulgada pelo Ministério da Saúde, que trata do enfrentamento precoce da covid-19”. Observamos que  nem existe Nota Técnica da pasta sobre isso, só mesmo as “orientações” (nada técnicas, por sinal). Resguardando-se, o Ministério prossegue: “(…) a prescrição permanece a critério do médico, sendo necessária também a vontade declarada do paciente”.

A Fiocruz também se manifestou, confirmando ter recebido o ofício e estar “ciente das orientações do Ministério da Saúde sobre o uso ‘off label’ [para uma indicação diferente daquela autorizada pela Anvisa] da cloroquina e da hidroxicloroquina contra a Covid-19″, e que “entende ser de competência dos médicos sua possível prescrição”.

ENQUANTO ISSO…

Dois novos trabalhos trouxeram mais resultados negativos em relação ao uso desses medicamentos na covid-19. Ambos são ensaios randomizados, duplo-cego e controlados por placebo. Nesse caso, os participantes são escolhidos aleatoriamente e divididos em grupos, um que toma o remédio em estudo e outro que toma placebo; ninguém (nem os pacientes, nem os médicos) sabe quem recebeu o quê. Isso é o ‘padrão-ouro’ da medicina baseada em evidências.  

Um desses estudos é o famoso Recovery, realizado por pesquisadores do Reino Unido para testar vários medicamentos em milhares de pacientes. Seus resultados mostram que não apenas não houve melhora significativa com a hidroxicloroquina, como os pacientes em esse remédio tenderam a piorar. E o segundo, da Universidade de Minnesota, trata especificamente dos casos leves, grande aposta do governo brasileiro. Os pesquisadores testaram a hidroxicloroquina em pessoas depois que foram expostas a pacientes com Covid-19 e que não apresentavam sintomas; o remédio falhou. Testaram também em pacientes que tinham começado a ter os primeiros sintomas… E também não houve nada de positivo. 

Ou seja, a “hidroxicloroquina não parece impedir as pessoas de contrair a doença depois de terem sido expostas a alguém que a possui. Não muda quantas pessoas hospitalizadas com covid-19 morrem da doença. Não reduz os sintomas para pessoas com casos mais leves que não estão no hospital”, resume a reportagem da Wired.

Em tempo: um conjunto de entidades científicas e da área da saúde brasileiras publicaram uma carta contra a indicação de supostos “protocolos de tratamento precoce” da covid-19 sem fundamentos científicos. 

Por Outra Saúde

DOIS MILHÕES DE CASOS

O Brasil já tem, oficialmente, mais de dois milhões de casos de covid-19. Na quinta-feira (16) foram registradas mais 43.829 novas infecções e 1.299 mortes, o que levou a 76.822 o total de óbitos. Foi o quarto dia seguido em que a média móvel de mortes (que considera os últimos sete dias) bateu recorde, chegando a 1.081.

Essa média móvel aumentou rapidamente entre meados de março e o fim de maio, mas, então, deu uma estabilizada. O que, de forma alguma, é uma boa notícia, já que desde então o número tem estado sempre acima de 900 e, há semanas, estancou em torno de mil. Um dos motivos para isso é que, embora pontualmente sejam identificados declínios em contágios, internações e mortes, a cada semana o coronavírus se infiltra mais e mais em cidades do interior. “A epidemia no Brasil não é uma grande fogueira. São várias fogueiras pequenas. As fogueiras altas que a gente via nas capitais agora deram lugar a fogueiras menores nas principais cidades do interior, que estão cercadas por uma porção de fogueirinhas”, diz diz Domingos Alves, professor da Faculdade Medicina da USP, na BBC Brasil.

As ‘fogueirinhas’ ficam justo onde há o acesso a serviços hospitalares é mais restrito. A questão é que, nos locais onde o vírus começa a chegar, há meios de evitar que ele se alastre. Conhecemos a fórmula: identificar infectados, rastrear seus contatos, isolá-los. E o SUS, altamente capilarizado, tem o desenho perfeito para isso – mas a atenção básica, que se organiza prioritariamente em torno da Estratégia Saúde da Família, não tem funcionado nessa crise como poderia e deveria. No podcast Tibungo, o Outra Saúde conversou sobre isso com Luiz Augusto Facchini, professor do Departamento de Medicina Social da Universidade Federal de Pelotas e coordenador da Rede de Pesquisas em Atenção Primária à Saúde. Ele explica como o governo federal deveria ter preparado equipes e profissionais para que houvesse uma resposta adequada, e conta como isso ainda pode ser feito localmente. E alerta: uma coordenação nacional, que não está no horizonte, seria urgente e indispensável. Ouça aqui.

Mesmo as estabilizações e quedas em algumas grandes cidades acabam ofuscando a realidade de que, em 60% delas, os casos ainda crescem de forma acelerada. Esse dado é da Folha, obtido por meio de um modelo estatístico de pesquisadores da USP. Das 324 cidades brasileiras com mais de 100 mil habitantes, o coronavírus não foi controlado em 193.

Mais um problema: o Conass, conselho que reúne secretários estaduais de Saúde, afirma que há informações conflitantes entre os dados das secretarias e do Ministério da Saúde. Segundo o Painel, da Folha, foi pedida uma reunião com o general Pazuello para discutir as inconsistências. 

Por Outra Saúde

A UNIÃO DOS EX

Sete ex-ministros da Saúde assinam juntos na Folha um artigo em que criticam duramente a gestão federal na pandemia. Em meio a nomes que chefiaram a pasta nos governos FHC, Lula e Dilma, está Luiz Henrique Mandetta. “O presidente da República, após demitir dois ministros por discordarem de sua condução negacionista e irresponsável, entregou o Ministério da Saúde (MS) a um interino militar que nomeou dezenas de outros militares para cargos estratégicos, em atitude ofensiva à saúde pública brasileira, que conta com técnicos e gestores experientes, dedicados e capacitados. O MS se tornou uma instituição desacreditada e vista com reservas pela opinião pública, seja ao distorcer estatísticas oficiais, seja por aprovar protocolo que não se baseia em evidências científicas para o manejo da doença. A gestão militarizada do MS não trouxe nenhum ganho em eficiência logística e sequer tem sido capaz de adquirir os testes necessários ou de executar os recursos orçamentários disponibilizados, já que apenas 30% foram gastos até agora”, escrevem eles. 

A CRISE CONTINUA

Pelo visto, a crítica de Gilmar Mendes à presença de militares no Ministério da Saúde em plena pandemia terá o condão de forçar aquilo que entidades e especialistas não conseguiram: a saída do general. Segundo a Folha, Eduardo Pazuello teria apontado ao Planalto dois momentos ideais para a passagem do bastão a um ministro titular. Isso poderia acontecer já no final do mês, quando a pasta prevê que os casos de covid-19 na porção que vai do centro ao norte do país comecem a declinar. Depois, haveria outra janela entre agosto e setembro, período em que se espera que os números melhorem na porção centro-sul.

As datas se casam com a apuração de O Globo, que revela que o prazo dado pela ala militar para a permanência de Pazuello como ministro interino é agosto. Se quiser continuar depois disso, ele teria de ir para a reserva – o que não faria por ainda ser general três estrelas. Pazuello também parece inclinado a refutar o arranjo no qual voltaria a ocupar o segundo posto mais importante no Ministério, a Secretaria Executiva. Quem defende essa opção calcula que ele poderia ficar afastado do Exército dois anos e, ainda sim, voltar para a ativa e se aposentar como  general quatro estrelas.  “Ele tem dito a interlocutores, porém, que essa opção não está na mesa, já que a ‘missão’ que lhe foi dada era temporária”, relata a repórter Natália Portinari.

Segundo ela, o Centrão engrossou o cordão dos insatisfeitos com Pazuello. Lembremos que o bloco de partidos de aluguel defendeu ativamente a permanência do general em um “mandato-tampão” – e quem serviu de porta-voz dessa posição não foi qualquer um, mas o deputado federal Ricardo Barros (PP-PR), ex-ministro da Saúde. A mudança pode indicar uma nova investida do Centrão sobre o Ministério. Os líderes partidários estariam usando como justificativa para pressionar pela saída a ‘falta de experiência’ do general ‘em lidar com políticos’ – coisa que os quadros do Centrão têm de sobra.

Saindo da Esplanada e indo para a Praça dos Três Poderes, o embate entre os militares e o ministro do Supremo continua. Na manhã de quarta (15), Gilmar Mendes divulgou uma nota em que manteve sua crítica de que o Exército se associa a um genocídio, mas evitou a palavra. No texto, afirma que não atingiu a honra das Forças Armadas. “Apenas refutei e novamente refuto a decisão de se recrutarem militares para a formulação e execução de uma política de saúde que não tem se mostrado eficaz para evitar a morte de milhares de brasileiros”, escreveu. Ainda de acordo com ele, ‘nenhum analista atento da situação atual do Brasil teria como deixar de se preocupar com o rumo das políticas públicas de saúde’ do país. “Em um contexto como esse, a substituição de técnicos por militares nos postos-chave do Ministério da Saúde deixa de ser um apelo à excepcionalidade e extrapola a missão institucional das Forças Armadas”, afirmou. 

Já de tarde do mesmo dia, o ministro do STF voltou a comentar o caso, dando mais ênfase à estratégia do presidente Jair Bolsonaro de se descolar da pandemia. “O Supremo na verdade não disse que os estados são responsáveis pela Saúde. O Supremo disse apenas que isso era uma competência compartilhada, como está no texto constitucional. Mas o presidente esquece esta parte e diz sempre que a responsabilidade seria do Supremo e a responsabilidade seria dos estados. Então eu disse: se de fato se quer mostrar isso do ponto de vista político, isso é um problema e isso acaba sendo um ônus para as Forças Armadas, para o Exército, porque eles estão lá inclusive na condição de oficiais da ativa”, observou, arrematando: “Na verdade, o meu discurso é de defesa da institucionalidade das Forças Armadas, do seu papel, que eles acabem não se envolvendo. Que eles não se deixem usar nesse contexto.”

O ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, que participou da transmissão ao vivo da IstoÉ na qual Gilmar Mendes deu a declaração do genocídio, saiu em sua defesa. “Muitos militares também estão desconfortáveis com essa ocupação. Eles sabem que o fardo está pesado”, disse ao colunista Bernardo Mello Franco. “Numa crise, sempre aparece gente que diz o que o chefe quer ouvir. Mas esta é a maior crise de saúde que o Brasil já enfrentou”, continuou, para concluir: “O Gilmar colocou o dedo na ferida. É por isso que está doendo”.

Cumprindo o anunciado, o Ministério da Defesa protocolou a representação contra Mendes na Procuradoria-Geral da República (PGR) ontem de tarde. E a Lei de Segurança Nacional, sancionada durante a ditadura e que lista crimes que afetam ‘a ordem política e social’, voltou a aparecer. Segundo o Estadão, a pasta sustenta que o ministro do Supremo pode ser enquadrado no artigo 23, que prevê como crime a prática de incitar ‘à animosidade entre as Forças Armadas ou entre estas e as classes sociais ou as instituições civis’. A pena é de um a quatro anos de prisão. Cabe à PGR seguir com o caso ou arquivá-lo.

Acusado nos bastidores de ter pegado leve na réplica à Mendes, ontem o vice-presidente Hamilton Mourão subiu o tom. “Vi o cidadão Gilmar Mendes fazendo uma crítica totalmente fora de propósito, ao comparar o que ocorre no Brasil com um genocídio. Genocídio foi cometido por Stalin contra as minorias russas, foi cometido por Hitler contra os judeus, foi cometido na África, em Ruanda, e outros casos. Saddam Hussein contra os curdos”, comparou em entrevista à CNN Brasil. No início da tarde, Mourão disse a repórteres que a nota divulgada pelo ministro do STF não era suficiente. O vice defende que Gilmar Mendes peça desculpas se tiver “grandeza moral”. 

Em editorial, O Globo avalia que “os militares do governo não entenderam” que Mendes criticou o presidente da República. “Afinal, ele é o responsável por colocar um general na pasta da Saúde, na maior pandemia em cem anos.” Avançando um pouco mais na reflexão, o colunista da Folha, Bruno Boghossian, analisa que “a resposta dos militares e a decisão de acionar a Procuradoria-Geral da República contra o ministro do Supremo amarram ainda mais esse grupo aos resultados e fracassos do governo”.

Já Elio Gaspari vai além: para o jornalista especializado na ditadura militar, a representação do  Ministério da Defesa contra Gilmar Mendes é uma reação semelhante a que deu margem para a edição do Ato Institucional nº 5: “Uma conspiração palaciana manipulou um discurso (irrelevante) do deputado Márcio Moreira Alves para que o governo pedisse licença à Câmara para processá-lo. No dia 12 de dezembro de 1968 o plenário negou o pedido e no dia seguinte o marechal Costa e Silva baixou o ato. Foram dez anos de ditadura escancarada, torturas e extermínio.” Para ele, o recesso do Judiciário – que dura mais duas semanas – permite “que se jogue água nas cabeças quentes”. “Mesmo assim, a fala de Gilmar pode ser usada para alimentar uma crise. Para isso os golpistas precisam dizer que o que eles querem é uma ditadura.”

E quem gosta de crise é a ala ideológica do governo, que parece enxergar no episódio uma oportunidade para voltar ao protagonismo. Ontem, Filipe Martins, assessor da Presidência e um dos membros mais ilustres desse núcleo, caracterizou as críticas aos militares como parte do projeto do establishment político e afirmou ser necessário “resgatar e proteger” a ala ideológica. “Trata-se de um apelo para que Bolsonaro retome sua guerra institucional. É, ainda, uma reação aos generais que afiançaram uma aproximação com os demais Poderes e convenceram o presidente a camuflar seu radicalismo com um discurso aparentemente mais moderado”, analisa Bruno Boghossian.

Por Outra Saúde

500 MORTES ENTRE INDÍGENAS

Na quinta-feira (16), as mortes de indígenas na pandemia ultrapassaram a marca de 500. O acompanhamento tem sido feito pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) que tem coletado os dados junto a junto a organizações, distritos especiais indígenas e secretarias de saúde. O levantamento revela que o Amazonas é o estado com maior número de óbitos (178) seguido por Pará (83) e Roraima (47). Segundo a Apib, 14.793 índios de 131 diferentes povos foram infectados no Brasil. Também ontem, a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) destacou que as comunidades indígenas ao longo da bacia amazônica estão vendo taxas de incidência mais de cinco vezes acima da média nacional.

O marco ganha um novo simbolismo no contexto da crítica de que o que vemos no país é um ‘genocídio’. O projeto de lei que cria o Plano Emergencial para Enfrentamento à Covid-19, e é voltado para a proteção das populações tradicionais, foi o PL mais vetado da história. Na segunda-feira, diversas frentes parlamentares, bancadas partidárias e entidades assinaram uma carta aberta aos presidentes do Senado e da Câmara. Pedem a derrubada dos 22 vetos

Por Outra Saúde

MOMENTO SUSPEITO

O governo exonerou a coordenadora-geral de Observação da Terra do Inpe, Lubia Vinhas, pesquisadora do Instituto desde 1997. Ela atuava nos dois principais sistemas de monitoramento do desmatamento na Amazônia, o Deter e o Prodes. Coincidentemente, a decisão se dá em meio à divulgação de dados do Inpe que indicam o avanço do desmatamento nos últimos meses – e também quando o governo enfrenta forte pressão de poderosos investidores internacionais para mostrar resultados “concretos” da preservação das florestas. 

O Instituto divulgou nota afirmando que a decisão se deve a uma “reestruturação”. Em entrevista à GloboNews, a própria Lubia afirmou que o monitoramento não era responsabilidade exclusiva sua e que vai continuar sendo feito. “Eu acredito que a minha saída da coordenação está relacionada diretamente ao processo de reestruturação do Inpe que vem sendo proposto pela atual direção, e não em resposta direta a números relacionados ao monitoramento”, disse. A percepção de servidores do Inpe que conversaram com OGlobo, porém, foi outra. Eles viram a notícia como “cala boca”, segundo a reportagem. “Quanto mais se mexe no Inpe mais se mostra a falta de vontade do governo de divulgar os dados. E é ainda mais preocupante o fato de isso ocorrer em um período de seca e queimadas”, critica a diretora do Instituto Clima e Sociedade, Ana Toni.

Quando lembramos a demissão do então diretor-geral do Inpe, Ricardo Galvão, em agosto do ano passado, justamente por conta dos dados preocupantes divulgados, a situação se torna ainda mais suspeita. Aliás, desde então o Inpe está sem diretor. O oficial da Força Aérea Darcton Policarpo Damião é interino há quase um ano

E o Ibama pode perder até 20% de seu orçamento em 2021. A informação foi dada pela direção da autarquia a servidores, e confirmada pela BBC Brasil. Nas despesas não-obrigatórias, como as ações de fiscalização, o corte poderia ser ainda maior. “A situação no Ibama já não é boa hoje. No Orçamento de 2020, o órgão conta com R$ 1,75 bilhão para todas as suas despesas – uma redução de 14,8% em relação aos R$ 2,05 bilhões de 2019”, contextualiza a matéria. O número de fiscais foi reduzido drasticamente na última década, passando de 1,3 mil, em 2010, para 730 em 2019.

Nada que abale o vice-presidente Hamilton Mourão, que vende otimismo. “Eu tenho a visão de que todo mundo vai voltar a investir bem aqui no Brasil”, declarou, em uma videoconferência promovia por um banco, ao afirmar que as queimadas na Amazônia vão ser reduzidas no próximo semestre. E compĺetou: “Confiem no trabalho do nosso governo, no compromisso que nós temos com essa questão”. Já Paulo Guedes, em evento da OCDE, pediu “apoio” para “preservar melhor as florestas e os indígenas”.

Em tempo: no Intercept, Naira Hofmeister escreve um longo perfil do gaúcho Paulo Cesar Quartiero, político, produtor de arroz e pecuarista que tem enormes extensões de terras no Pará. Há quase 50 anos ele vem “antecipando o Brasil de Bolsonaro”, nas palavras da repórter. “Na verdade, acho que ele [Bolsonaro] copiou as minhas ideias”, diz Quartiero. Os dois se conheceram em 2010, quando o empresário foi eleito deputado federal. Nos anos 2000, no contexto da revisão da demarcação da terra indígena Raposa Serra do Sol, ele mobilizou uma milícia para combater os indígenas que reivindicavam a posse da área. Até hoje responde a processos por crimes como sequestro e cárcere privado, formação de quadrilha e constrangimento ilegal. “Foi a fase feliz da minha vida, eu só sinto não ter levado ao extremo”, lamenta ele, que hoje planta arroz sem licença na Ilha do Marajó.

Enquanto isso, sua “cópia fiel”‘ foi denunciada no Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU por descaso na proteção dos povos indígenas. A representação contra Bolsonaro foi feita pelo senador Fabiano Contarato (Rede-ES). 

Por Outra Saúde

ALÔ, GILMAR

Na quarta-feira (15), foram revelados alguns bastidores da crise entre a ala militar do governo e o ministro Gilmar Mendes. Na noite da segunda-feira – depois, portanto, da divulgação da nota assinada pelo ministro da Defesa e pelos comandantes das Forças Armadas que anunciou a abertura de representação contra o ministro do Supremo na PGR –, Jair Bolsonaro disse a Mendes que, de sua parte, a crise estava encerrada. 

O sinal foi dado em um telefonema mediado por um amigo em comum. Na conversa, o ministro do STF não pediu desculpas ao presidente. Pelo contrário: alertou Bolsonaro que ele pode acabar processado no Tribunal Penal Internacional por sua conduta na pandemia. A Corte sediada em Haia tem em seu histórico prisões de ex-chefes de Estado acusados de genocídio, como Slobodan Milosevic. Já o presidente adotou tom apaziguador e pediu que Mendes conversasse também com o general Eduardo Pazuello. 

Quando pensamos nos últimos embates promovidos por Bolsonaro contra o Supremo, e na própria personalidade do presidente, os fatos soam um tanto extraordinários – mas têm uma possível explicação. Está na mão de Gilmar Mendes o recurso que definirá em qual foro Flávio Bolsonaro será julgado pelo escândalo das rachadinhas. De acordo com o entendimento do próprio Supremo, o filho do presidente deveria ser julgado na primeira instância da Justiça, já que perdeu o mandato de deputado estadual. Sua defesa quer foro especial.

A história continua na terça-feira, quando, cumprindo a ordem de Bolsonaro, o ministro interino da Saúde ligou para Mendes – que, de novo, não pediu desculpas. Pazuello listou as ações da pasta no combate à pandemia. Foi além, e propôs colocar à disposição do magistrado mais informações para que ele pudesse formar uma “opinião correta”. Combinaram de se encontrar quando Mendes voltar de Lisboa – onde, segundo interlocutores relataram à Folha, tem ficado “estarrecido” com a imagem externa do Brasil na pandemia. 

O presidente voltou a elogiar Pazuello que, nas suas palavras, seria um “predestinado” a estar “no lugar certo” para “melhor servir o país”. O texto publicado ontem ganhou um título significativo: “Todos nós queremos o melhor para o Brasil”. Bolsonaro lançou mão da frase de efeito que seu vice vem repetindo, afirmando que o general levou “apenas 15 militares” para a pasta, que conta com 5,5 mil funcionários. Na verdade, são 24 militares – 15 da ativa e o restante da reserva. 

O próximo presidente do Supremo deu declarações que, indiretamente, também minimizam o significado da presença militar no Ministério da Saúde. Em evento da XP Investimentos, Luiz Fux afirmou que ‘não estigmatiza’ a escolha de “militares com expertise” para “determinados ministérios”. No polo oposto, em uma transmissão ao vivo organizada por petroleiros, o ex-presidente Lula se alinhou à crítica feita por Gilmar Mendes.

O Ministério Público que atua no Tribunal de Contas da União (TCU) solicitou a abertura de uma investigação sobre a participação de militares da ativa no governo federal. A peça é assinada pelo subprocurador Lucas Rocha Furtado, de quem também partiram outros pedidos, como o da investigação sobre a produção de cloroquina, e cita a declaração de Gilmar Mendes, demarcando posição bem dura: “Na minha opinião, o Brasil atravessar a pandemia sem ter ministro da saúde é um absurdo, é uma tentativa de genocídio. Vejo como verdadeira maldade do presidente da República manter essa situação”. O subprocurador quer que o TCU oriente o governo a passar os militares da ativa com cargos para a reserva.

Por Outra Saúde

MAIS UM NOVO MINISTRO

O novo ministro da Educação é professor, advogado e pastor evangélico. Milton Ribeiro tem como padrinho político o ministro da Justiça e Segurança Pública, André Mendonça, que também é pastor presbiteriano. “Eles se conheceram quando Ribeiro era pastor na cidade de Pederneiras (SP) na igreja que era frequentada pela família de Mendonça. Assim que se tornou advogado-geral da União, Mendonça indicou Ribeiro para o cargo na Comissão de Ética da Presidência da República”, conta o El País. Na época, Ribeiro deu uma entrevista ao portal gospel Guiame dizendo que era um “ministro do Supremo Deus”: “Deus abriu as portas para eu poder contribuir de alguma maneira com a minha pátria, com o Brasil”. Também não passou desapercebido como o novo ministro defende ‘educar’ crianças: “Deve haver rigor, severidade. E vou dar um passo a mais, talvez algumas mães até fiquem com raiva de mim: deve sentir dor“, afirma ele, em vídeo que circula nas redes sociais. 

Castigo a crianças. Em uma pregação de 2016, Milton Ribeiro diz que “um tapa de um homem ou uma cintada de uma mulher podem ser muito mais fortes que uma criança pode suportar”. “Não estou aqui dando uma aula de espancamento infantil, mas a vara da disciplina não pode ser afastada da nossa casa”, acrescentou. Para ele, as crianças devem sentir dor para entender. “Talvez uma porcentagem de crianças muito pequenas, de criança precoce, superdotada, é que vai entender o seu argumento. Deve haver rigor, desculpe, severidade. E vou dar um passo a mais, talvez algumas mães até fiquem com raiva de mim: devem sentir dor”.

Sexo sem limites. O pastor também afirmou que as universidades estimulam a “prática sexual sem limites”. “Para contribuir para uma prática sexual sem limites do sexo, veio a questão filosófica do existencialismo em que é o momento o que importa. Não importa se é A, B, se é homem, se é mulher, se é esse, se é aquele, se é velho ou se é novo. Não interessa. O que interessa é o momento”, afirmou. “Depois daquilo que chamam de revolução sexual dos anos 60, com a chegada da pílula e de uma liberdade maior nessa área sexual, o mundo perdeu a referência do que é certo e do que é errado em termos de conduta sexual”, acrescentou.

Paixão louca. Em 2013 o novo ministro disse que um homem de 33 anos que matou uma adolescente de 17 “confundiu paixão com amor”. “Acho que esse homem foi acometido de uma loucura mesmo e confundiu paixão com amor. São coisas totalmente diferentes. Ele, naturalmente movido por paixão, paixão é louca mesmo, ele então entrou, cometeu esse ato louco, marcando a vida dele, marcando a vida de toda família. Triste”, disse.

Homem à frente. Em outra gravação, o novo ministro da Educação defende que o homem deve apontar os rumos da família. Do contrário, ela será atacada por inimigos. “Quando o pai é ausente dentro da casa, o inimigo ataca. Quando o pai não impõe —impõe, essa é a palavra, me desculpe, é a palavra usada— a direção que a família vai tomar… Não é que ele é o mandatário que sabe tudo, não. Mas ele, o pai, o homem, dentro da casa, segundo a Bíblia é o cabeça do lar, ele aponta o caminho que a família vai tomar”, afirmou.

Casamento gay. No governo Dilma, Milton Ribeiro também criticou em culto o Bolsa Família, dizendo que o cidadão “usa com tudo menos comida”. Na mesma ocasião também condenou o casamento entre pessoas do mesmo sexo. “Quando eu vejo a massa de orientação daqueles que ensinam nossos filhos nas escolas. Tem escolas que não tem Dia das Mães e Dia dos Pais. Em algumas escolas se fala até de casamento gay com os meninos, com as crianças. Aqueles que deveriam defender os princípios éticos são os mesmos que atacam a nossa nação”, criticou.

Por Outra Saúde

AMEAÇAS BOLSONARISTAS

O pesquisador brasileiro David Nemer voltou a ser ameaçado de morte por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro. Ele é professor na Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, e estuda a utilização do WhatsApp na política. O trabalho de Nemer mostra o funcionamento da rede de fake news e discurso de ódio bolsonarista. A pesquisa também já revelou a conexão dos filhos do presidente na distribuição de conteúdos e como o WhatsApp tem operado como uma ferramenta de radicalização política no Brasil. No último dia 15, o pesquisador publicou no Twitter novas ameaças recebidas, que miram também a sua família. São fotos de armas com a frase “parece que o esquerdista tem família no Brasil”. Ele mora nos EUA, mas é natural do Espírito Santo e, de fato, tem família no Brasil. Nemer afirmou que registrou um boletim de ocorrência eletrônico na Polícia Civil, encaminhou denúncia à Polícia Federa e comunicou o FBI, a polícia federal dos EUA. “Isso não pode passar impune”, disse.

Esta não é a primeira ameaça contra o pesquisador, que já relatou receber mensagens por email e pelo Twitter desde 2018. Em dezembro de 2019, em visita ao Brasil, Nemer decidiu deixar às pressas a cidade de São Paulo depois de uma ameaça. Ele recebeu um email anônimo, com uma foto dele, tirada em um parque que frequentou dias antes e o texto: “sabemos que você está em São Paulo – é melhor você ter cuidado”.

PRESENTINHO

O ex-senador Eduardo Suplicy (PT-SP) mandou pelos Correios um presente para o presidente Jair Bolsonaro, adversário histórico do PT: o livro Utopia, romance filosófico escrito no começo do século XVI pelo inglês Thomas More. A obra faz referência a uma fictícia ilha chamada Utopia, onde a vida em sociedade seria ideal, mas impossível de ser alcançada. Em mensagem publicada no Twitter, Suplicy contou que enviou a publicação como sugestão de leitura para o período de convalescência do presidente, que anunciou nesta semana estar infectado pelo coronavírus.

PIOR QUE TRUMP

O jornal The New York Times, um dos maiores veículos de imprensa do mundo, publicou um vídeo em que o youtuber Felipe Neto critica o presidente Jair Bolsonaro. Na gravação, o youtuber chama Bolsonaro de “o pior presidente do mundo” no combate ao coronavírus.

O humorista Marcelo Adnet voltou a bombar nas redes sociais, nesta sexta-feira (17), com uma imitação do presidente americano Donald Trump respondendo ao youtuber e empresário Felipe Neto. No vídeo resposta, o Trump de Adnet se refere a Felipe Neto como “Phillip Grandson” e faz piadas xenófobas onde diz: “você é pior que a China, você nasceu no Méier. Você e o tipo de cara que vai no Bar Buxixo, da Tijuca, para tomar aquelas torres de chope horríveis. Aquilo é nojento”. O próprio Felipe Neto adotou em seu perfil oficial do Twitter o nome de Phillip Grandson:

OI?

Com uma linha de raciocínio difícil de acompanhar, o presidente Jair Bolsonaro defendeu, na noite de quinta-feira, 16, que quando uma área da Amazônia é desmatada anualmente, “não há problema”. Pois, segundo ele, “a área é tão fértil que se você, de um ano para o outro não trabalhar, quase que volta uma mata nativa de novo”, afirmou. O comentário foi feito durante transmissão ao vivo no Facebook, enquanto o presidente defendia que a proposta de regularização fundiária, que caducou no Congresso no último mês, resolveria o problema do desmatamento e das queimadas na Amazônia. Ao contrário do que o presidente disse, no entanto, o bioma amazônico é pobre e sem nutrientes. O solo, em geral, é bastante arenoso. De acordo com o Instituto Brasileiro de Florestas (IBF), apenas 14% da área amazônica é adequada para a agricultura. Na fala, o presidente também fez questão de insistir na narrativa de que a imprensa, tanto a nacional quanto a internacional, é a responsável por “pregar desinformação” sobre as queimadas e o desmatamento na Amazônia.

Por Cassia Miranda

QUEM GANHA E QUEM PERDE

O repórter Patrik Camporez respondeu uma pergunta que não queria calar: afinal, quem está ganhando dinheiro com a promoção da cloroquina feita por Jair Bolsonaro? A resposta é um punhado de empresários – dois deles bolsonaristas declarados. Caso de Renato Spallicci, dono do laboratório Aspen que triplicou a produção da droga feita à base de cloroquina logo depois que o presidente mostrou uma caixinha do seu produto em uma reunião do G-20, no fim de março.  

Depois do anúncio da doença, Bolsonaro diversificou e mostrou uma embalagem de outra empresa, a EMS, de genéricos. Neste caso, o beneficiado é o controlador do grupo empresarial, Carlos Sanchez, que já participou de duas reuniões virtuais com o presidente durante a pandemia – e é o 16º homem mais rico do Brasil, segundo a Forbes. 

A terceira empresa rastreada na reportagem do Estadão é a Cristália. Seu dono, Orgari de Castro Pacheco, é eleitor declarado de Bolsonaro que, ano passado, participou da cerimônia de inauguração de uma planta fabril da companhia. Pacheco também tem atuação política: o empresário é segundo-suplente do líder do governo no Senado, Eduardo Gomes (MDB-TO).  A propaganda também beneficia produtos estrangeiros. Em abril, o deputado federal Eduardo Bolsonaro compartilhou no Twitter uma “notícia” do site pró-governo Conexão Política. A embalagem do medicamento à base de cloroquina produzida pela gigante Sanofi aparecia bem grande – Donald Trump é acionista da empresa…

A ação movida pela Confederação Nacional dos Trabalhadores de Saúde, que tenta fazer com que o Supremo impeça que Bolsonaro faça propaganda da cloroquina e de outros medicamentos que não têm eficácia comprovada no tratamento da covid-19, recebeu a resposta do governo. A Advocacia-Geral da União (AGU) caracterizou como “temerária” a tentativa de botar um freio na propagação feita pelo presidente e demais membros do governo. A AGU argumenta que o que Bolsonaro faz é divulgação de “estudos em andamento de combate à pandemia”. 

Falando em fazer a população de cobaia para drogas sem comprovação científica no tratamento do novo coronavírus, temos mais um município para a lista: Itagi (BA) anunciou que vai distribuir um “kit-covid” com hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina para todos os moradores com sintomas da doença. “É um desafio mostrar que, às vezes, não fazer nada é proteger o paciente. Há uma cultura de intervir mesmo quando não sabe se funciona”, resumiu o secretário municipal de Saúde de Porto Alegre em outra reportagem, que dá conta sobre o embate entre médicos, gestores e entidades a respeito da indicação desses supostos tratamentos. A capital gaúcha tem tido que lidar com o problema criado por um grupo de 18 médicos que fizeram circular ‘orientações profiláticas’ que incluem cloroquina em um documento com o brasão do Rio Grande do Sul. 

E a Rússia está se movimentando para promover o que chama de “primeiro medicamento para o tratamento da covid-19”. O alvo do governo Putin é a América Latina. Na sexta, a embaixada russa organizou na Guatemala uma apresentação para representantes de vários países sobre os supostos resultados positivos do avifavir. Trata-se de um antiviral desenvolvido a partir de um medicamento japonês contra a gripe que é objeto de 25 ensaios clínicos no mundo. Até agora, o estudo mais robusto – feito no Japão – não chegou a nenhum resultado conclusivo sobre sua eficácia para o corona. 

Por Outra Saúde

SÓCIOS DO GENOCÍDIO

Os ministérios da Defesa e da Saúde planejam uma viagem com jornalistas para dentro da terra indígena do Parque do Tumucumaque, no Pará. As lideranças do local estão preocupadas. Primeiro, por temer a contaminação de gente vinda de Brasília em um território onde vivem três mil indígenas, entre eles grupos isolados. Mas também porque acreditam que o governo vai aproveitar a ‘press trip’ para desovar a produção de hidroxicloroquina do Laboratório do Exército (66 mil comprimidos foram entregues na semana passada em outro distrito sanitário indígena, o Yanomami). “Não somos cobaia. Não somos objeto de teste para fazer esse tipo de ação e maquiar o envio das cloroquinas”, disse Ângela Kaxuyana, da Coordenação das Organizações dos Indígenas Amazônia Brasileira (Coiab), ao repórter Rubens Valente, no UOL.

Esta semana o Brasil vai completar dois meses sem ministro da Saúde. Em videoconferência realizada pela revista IstoÉ, o ministro do STF Gilmar Mendes criticou o que parece uma estratégia do governo para retirar seu próprio protagonismo e atribuir a responsabilidade pela crise sanitária aos estados e municípios. “Se for essa a intenção é preciso se fazer alguma coisa. Isso é péssimo para a imagem das Forças Armadas. É preciso dizer isso de maneira muito clara: o Exército está se associando a esse genocídio, não é razoável. É preciso pôr fim a isso”, afirmou. O Ministério da Defesa rebateu, em nota, argumentando que mais de 30 mil militares estão na Operação Covid-19 e que “os resultados mostram que a Operação está atingindo os objetivos a que se propõe”. Se o objetivo é a vice-liderança do país em número de casos e mortes pela doença no mundo, então está mesmo.

Por Outra Saúde

ANTES E DEPOIS DO QUEIROZ

João Otávio de Noronha tem pesos diferentes para situações parecidas. O presidente do Superior Tribunal de Justiça autorizou a prisão domiciliar para Fabrício Queiroz – e até para a esposa do ex-funcionário da família Bolsonaro, que é foragida – com a justificativa da proteção à saúde. Mas negou o mesmíssimo benefício para outros doentes crônicos, idosos e gestantes. 

Agora, o Coletivo de Advocacia em Direitos Humanos tenta se aproveitar da contradição: pede que o STJ amplie a todas as pessoas presas preventivamente e que integram grupos de risco para a covid-19 o que foi concedido a Queiroz. O pedido deve ser apreciado pelo próprio Noronha. 

“Noronha é conhecido nos bastidores do mundo jurídico por ser linha dura na área criminal. Desde o início da pandemia, negou habeas corpus a quatro investigados”, ressalta Leandro Colon, para quem o presidente do STJ “matou no peito o maior pesadelo de Jair Bolsonaro” – de olho, é claro, na vaga de Celso de Mello, que deixa o Supremo em novembro. 

Na Califórnia, o benefício da prisão domiciliar que já foi dado a dez mil presos será estendido a outros oito mil. A decisão do governador Gavin Newson foi tomada depois que em um único presídio mais de mil detentos testaram positivo para o novo coronavírus. 

Por Outra Saúde

PINÓQUIO

O presidente Jair Bolsonaro usou sua conta no Twitter para publicar fake news a respeito de propostas da esquerda para supostamente descriminalizar a pedofilia. Trata-se de um boato que aparece de tempos em tempos em blogs que fingem publicar conteúdos jornalísticos e em perfis bolsonaristas nas redes sociais. Na origem, o boato atingia a deputada Maria do Rosário (PT-RS) e o ex-deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ). Ele surgiu em 2015 e teve nova onda de publicações em 2017, quando foi desmentido pelo então deputado em suas redes sociais.

Os criadores da mentira cibernética chegaram a adulterar fotos dos dois deputados para forjar fotos em que apareciam com cartazes dizendo que pedofilia não seria crime, e sim doença. Tais fotos não existem, bem como nunca foi apresentado nenhum projeto de lei com esse conteúdo, como a imprensa alertou na época.

Na eleição de 2018 a fake news voltou a circular, desta vez dizendo que o então candidato Fernando Haddad defendia projeto que descriminalizava a pedofilia. Fazia referência a um projeto de alteração do Código Penal que nada tinha a ver com pedofilia, nem trazia o termo, e nada tinha a ver com Haddad, pois tinha estado sob relatoria de José Sarney (MDB-AP) e, depois passado à relatoria de Antonio Anastasia (PSDB-MG). Na época, a imprensa séria também refutou a mentira por meio de seus mecanismos de checagem de fake news.

Agora a mentira volta a ser propagada, desta vez pelo presidente da República, em sua conta oficial. Bolsonaro postou uma foto ao lado da ministra Damares Alves (Família e Direitos Humanos), parabenizando-a pela apresentação de projeto de lei que aumenta em 50% a pena para crime de pedofilia. No tuíte, Bolsonaro disse que a esquerda “busca meios de descriminalizar a pedofilia, transformando-a em uma mera doença ou opção sexual”.

Por Vera Magalhães

GENDE DE BEM 1

O Hospital Israelita Albert Einstein divulgou nota em que atribui a uma “analogia infeliz e infundada” com o holocausto a suspensão da médica Nise Yamaguchi, defensora do uso da hidroxicloroquina no tratamento da covid-19. A oncologista e imunologista disse, em entrevista ao SBT, que seu afastamento decorre da defesa que ela tem feito do medicamento, cuja eficácia contra o coronavírus não é comprovada cientificamente.

No comunicado à imprensa, o Hospital Albert Einstein afirma que respeita a autonomia de seus profissionais e que Nise foi suspensa até que se conclua uma apuração interna sobre uma comparação feita por ela entre o pânico provocado pela pandemia e a postura de vítimas do holocausto. "Você acha que alguns poucos militares nazistas conseguiriam controlar aquela MASSA DE REBANHO de judeus famintos se não os submetessem diariamente a humilhações, humilhações, humilhações", diz o hospital, destacando em caixa-alta a expressão "massa de rebanho".

“Como se trata de manifestação insólita, o hospital houve por bem averiguar se houve mero despropósito destituído de intuito ofensivo ou manifestação de desapreço motivada por algum conflito. Durante essa averiguação, que deve ser breve, o hospital não esperava que o fato viesse a público”.

GENTE DE BEM 2

Livrar-se de dois ministros da Saúde em plena pandemia e transformar a interinidade de um general em suplício permanente são insanidades que a cloroquina não cura. Converte-se o inacreditável em inaceitável quando um coronel no exercício da função de número 2 do Ministério da Saúde destrata um garçom.

"Sai daí. Eu falei não. O que você não entendeu?", rosnou o coronel Élcio Franco, braço direito do general Eduardo 'Interino' Pazuello, para um servidor que tentava executar o seu trabalho. Disponível no vídeo acima, a cena espanta pela grosseria, pela covardia e pela insensatez.

O coronel foi grosso ao servir truculência a quem desejava agraciar-lhe com um cafezinho. Foi covarde ao expôr seus maus bofes para alguém que pagaria com a demissão se reagisse à altura. Insensato é o presidente que concede credenciais de chefe a quem confunde grossura com autoridade e cargo com propriedade.

O comportamento do coronel, que seria inadmissível até na estrebaria de uma instalação militar, foi exibido numa reunião do Conselho Nacional de Saúde. Não há vestígio de um pedido de desculpas.

GENTE DE BEM 3

Gilmar Firmo Ferreira, de 44 anos, tio materno da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, foragido da Justiça pelo crime de estupro de vulnerável, foi preso na noite em Taguatinga A região é uma das mais pobres e violentas do Distrito Federal. Gilmar é o irmão mais novo de Maria das Graças, mãe de Michelle Bolsonaro, e foi condenado em 2018 a 14 anos, 4 meses e 24 dias, em regime fechado, por estupro.

De acordo com informações do boletim de ocorrência, a equipe recebeu denúncia anônima dizendo que o procurado estava no local. Os agentes foram até o endereço e pediram que uma das moradoras do imóvel chamasse o tio de Michelle. Após ele sair da residência, os policiais deram voz de prisão e conseguiram detê-lo. De acordo com a denúncia registrada na delegacia, a vítima – uma criança na época – começou a sofrer abusos no ano 2000. Ele é casado com a tia da menina.

Outro tio de Michelle Bolsonaro, o primeiro-sargento da Polícia Militar, João Batista Firmo Ferreira, irmão de Gilmar Firmo, ficou preso durante 11 meses acusado de integrar milícia e atuar no parcelamento ilegal de terras no Setor Habitacional Sol Nascente. João Batista foi solto, em abril deste ano, pela ministra do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Laurita Vaz. A juíza, no entanto, impôs medidas cautelares, como o comparecimento periódico em juízo, a proibição de manter contato com os demais investigados e a suspensão do exercício de função pública.

GENTE DE BEM 4

A Polícia Federal prendeu, em Belo Horizonte (MG), um homem suspeito de ameaçar de morte o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e os ministros do Supremo Tribunal Federal. Segundo a PF ele gravava vídeos dizendo que derrubaria as autoridades “na bala” e que os deixariam “igual a uma peneira”. O homem não teve a identidade revelada, mas a polícia disse que as ameaças aconteciam pela internet. Foram encontradas em sua posse três armas de fogo, além de munições. Ele foi preso em flagrante por posse ilegal de arma de fogo.

GENTE DE BEM 5

Os deputados estaduais do PSL do Rio de Janeiro Rodrigo Amorim, Gustavo Schmidt e Alexandre Knoploch estiveram em Brasília e se envolveram em uma confusão que acabou em tiros. Durante a permanência deles na capital federal, participaram de um encontro com o presidente nacional do partido, Antonio Rueda, em sua casa. Após saírem da casa de Rueda, os deputados foram para uma festa na Asa Sul, em Brasília, e um deles acabou baleando um advogado.

Veja o vídeo publicado pelo site Diário do Rio:

O autor do disparo, deputado Alexandre Knoploch, responde a um processo por ter agredido com um soco um estudante, durante audiência sobre cotas raciais nas universidades estaduais. Em vídeo da TVT, é possível ver que ele foi até o estudante e deu um soco no rosto. Um de seus seguranças estava armado e ameaçou sacar a arma no meio da confusão.

GENTE DE BEM 6

O senador Major Olimpio (PSL-SP) ligou para um militante bolsonarista que lhe atacou nas redes sociais e o ameaçou. "Eu vou dar na sua cara", disse o ex-aliado do presidente Jair Bolsonaro. O militante Comandante Valadão estava gravando a ligação, que foi divulgada pelo vereador Carlos Bolsonaro e outros defensores do presidente. Em sua conta no Instagram, o militante fez diversas publicações contra o senador e afirmou que Major Olimpio não está com Bolsonaro, então "não está com a direita". Procurada, a assessoria de imprensa do senador encaminhou um vídeo, onde ele pede desculpas a quem se ofendeu com os xingamentos, mas tenta justificar o ato. "Nem Jesus Cristo teve paciência com vagabundo, com vendilhões à porta do templo. Não serei eu, um reles pecador, que vou ter paciência desta forma. Eu quero pedir desculpas às pessoas que ouviram os meus palavrões, meu desabafo, mas dizer a vocês: minha honra não tem preço", afirmou. "Pra mim ladrão é ladrão. Quem pratica rachadinha por muitos anos, tomando dinheiro de funcionários do gabinete, que se alinha com isso, que se alia com milicianos, pra mim é ladrão, eu quero é distância", disse.

GENTE DE BEM 7

Uma idosa de 75 anos foi indiciada por racismo e injúria após chamar uma estudante brasileira de 23 anos de “chinesa porca” dentro de um vagão do metrô no Rio de Janeiro. O caso aconteceu em janeiro deste ano e foi filmado pela estudante  Marie Okabayashi, que é descendente de japoneses. “Quando eu passei na direção dela, ela começou a berrar. Ela gritou ‘chinesa, porca’. Eu perguntei se ela estava bem e eu saí andando. Ela disse: ‘sua nojenta, fica passando doença para todo mundo’. Ela ficou de pé me xingando e ficava mostrando o dedo do meio”, disse Maria. “O metrô estava lotado e ninguém falava nada, só uma menina balançava a cabeça em sinal de reprovação”, completou.

FRASES DA SEMANA

“Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista.” (Dom Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife à época da ditadura militar de 64. Durante 9 anos, a censura proibiu a imprensa de escrever sobre ele)

“Deu certo comigo, deu certo com muita gente. Muitos médicos dizem que a hidroxicloroquina funciona. O custo é barato, talvez por causa disso que tem muitas pessoas contra. Também por questão ideológica”. (Bolsonaro, no dia que testou positivo pela segunda vez para o Covid-19) 

“Não queremos trazer as forças para dentro do governo. Não queremos a política indo para dentro dos quartéis e a discussão ‘eu apoio o presidente’, ‘eu sou contra o presidente’, independentemente de ele ser militar, um antigo militar”. (General Hamilton Mourão, vice-presidente)

“A palavra genocídio define a condenação à morte de dezenas de milhares de brasileiros. O dano que generais bolsonaristas fazem à instituição militar é participar deste governo criminoso. Politizaram as Forças Armadas da pior forma possível.” (Gleisi Hoffmann, presidente do PT)

“Não me furto a criticar a opção de ocupar o Ministério da Saúde predominantemente com militares. A política pública de saúde deve ser pensada e planejada por especialistas, dentro dos marcos constitucionais. Que isso seja revisto”. (Gilmar Mendes, ministro do STF)

“Ele deveria estar sendo um herói nesta questão do coronavírus, tratando com respeito e com medo o vírus. Ele agora está contaminado. Eu espero que não seja grave e que ele viva, para que responda pelo que está fazendo com a sociedade”. (Lula, sobre Bolsonaro)

“Deve haver rigor, severidade. E vou dar um passo a mais, e talvez algumas mães fiquem com raiva de mim, desculpem: deve sentir dor.” (Milton Ribeiro, pastor evangélico, o novo ministro da Educação, sobre como educar a maioria das crianças) 

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Com informações de Leonardo Sakamoto, Josias de Souza, Ricardo Noblat, Reinaldo Azevedo, Carta Capital, Outra Saúde, Sul 21, o Globo, Fórum, Veja, Dora Kramer, BRPolítico, Vera Magalhães, Marcelo de Moraes e outros.


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