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Sexta-Feira 27.nov.2020

Ano IX - Nº 420

Artigo da semana

É a vontade de Deus

‘Como minha família de evangélicos teme o vírus, mas apoia Bolsonaro’

Postado em 14 de Julho de 2020 - Fábio Marton

Foto: Evaristo Sá/AFP via Getty Images Foto: Evaristo Sá/AFP via Getty Images

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Está no Evangelho de Marcos, capítulo 16, versículo 8:

Pegarão em serpentes; e, se beberem algum veneno mortal, não lhes fará mal nenhum; imporão as mãos sobre os doentes, e estes ficarão curados

Qualquer cristão entende esses versos como um sinal de que, por meio da fé, tudo é possível. Mas fundamentalistas, diferentemente da maioria dos cristãos e no qual se incluem os pentecostais, são literalistas bíblicos. É o que está escrito. Não existe alegoria ou contexto.

Um exemplo da forma literal de encarar a Bíblia ocorreu em 14 de fevereiro de 2014, quando houve a encenação dessa passagem bíblica na Igreja do Tabernáculo do Evangelho Pleno em Nome de Jesus, um templo pentecostal “indie” do sul profundo dos EUA. Os fiéis congregam no que parece uma garagem: uma sala feia, com teto baixo, vigas mostrando sua estrutura. O púlpito fica num palco de madeira improvisada poucos centímetros do chão. Uma igrejinha idêntica àquela na qual fui um pastor-mirim aos 10 anos. Quase idêntica.

Naquele dia, intercalado por canções, o culto chega à sua apoteose. As pessoas fazem um círculo em frente ao púlpito e são trazidos os cestos. A música, um animado country gospel, tirado em guitarras elétricas, vai se acelerando. Os fiéis rezam e falam em línguas. O reverendo pega uma cascavel do cesto e, segurando-a nas mãos, começa a dançar, o corpo inteiro do animal balançando junto.

Os mais devotos acompanham o pastor, tomando outras cobras em mãos, ou emprestando do vizinho. Ainda cantando, ainda falando em línguas. De repente, o pastor deixa cair sua cobra. Havia sido picado na mão direita. Segundos depois, recuperando-se do reflexo que o fez soltá-la, toma de volta o animal do chão e o culto prossegue, inalterado, até o fim, até as cobras voltarem para seus viveiros, e a congregação ser dispensada para suas casas.

É uma ocorrência comum na Igreja. Era a décima vez em sua vida que o pastor Jamie Coots era picado, e a ausência de seu dedo médio, amputado, era testemunho. Como nas outras, recebeu a equipe de emergência em sua casa e, como nas outras, recusou tratamento. Coots morreria na tarde do dia seguinte àquele culto, em casa. Seu filho, Cody, herdaria a congregação, os animais e a tradição, dançando com serpentes até hoje.

Igrejas baseadas em serpentes são um fenômeno de um pequeno ramo de pentecostais americanos sulistas, como em Middlesboro, Kentucky, EUA, onde nasceu e morreu o pastor Coots. A onda não parece ter chegado aqui (até onde se tem notícia). Mas não comecei com essa história distante por acaso. São igrejas do mesmo ramo que domina entre evangélicos brasileiros, e a forma de pensar é familiar a de qualquer crente pentecostal. Inclusive as passagens bíblicas nas quais a tradição se baseia são bastante lidas. Além do já citado Evangelho de Marcos, também há o de Lucas, em 10:19:

Eu dei a vocês autoridade para pisarem sobre cobras e escorpiões, e sobre todo o poder do inimigo; nada lhes fará dano.

Com a profecia se tornando “fato histórico” numa passagem com o Apóstolo Paulo, em Atos, 16:

E, havendo Paulo ajuntado uma quantidade de vides, e pondo-as no fogo, uma víbora, fugindo do calor, lhe acometeu a mão.4. E os bárbaros, vendo-lhe a víbora pendurada na mão, diziam uns aos outros: Certamente este homem é homicida, visto como, escapando do mar, a justiça não o deixa viver.5. Mas, sacudindo ele a víbora no fogo, não sofreu nenhum mal.

A maioria das Igrejas não acredita que as falas de Jesus sobre serpentes se referiam a hoje, mas aos próprios apóstolos – e a sobrevivência milagrosa de Paulo seria o cumprimento da profecia. Mas o pentecostalismo tem como um princípio central acreditar que milagres como os que estão no Atos dos Apóstolos acontecem o tempo todo hoje. É uma fé que busca reconstruir os valores do cristianismo primitivo, em seus fundamentos.

Se não dançam literalmente com serpentes, podem repetir o gesto de se expor esperando serem salvos pela fé. E, se não forem, como aconteceu com o pastor Coots, foi a vontade de Deus se realizando. Como foi no jejum convocado por Bolsonaro, em 5 de abril, quando crentes se expuseram pelo país inteiro. Incluindo uma cena que particularmente ficou na minha cabeça, reverberada então pelo pastor Ricardo Gondim: fieis de uma igreja pentecostal vestidos com trajes medievais ajoelhados na calçada de uma avenida no bairro do Brás, em São Paulo.

Está também na lógica dos pastores que querem reabrir as igrejas, como Silas Malafaia, que, ainda em março, no começo de sua campanha contra isolamento, afirmou: “Um bichinho desgraçado que a gente não vê nem a olho nu causa uma balbúrdia no mundo, na economia. As pessoas ficam apavoradas. Nós cremos que Deus está no controle de todas as coisas. E nós cremos no poder da oração. Porque essa é a nossa arma, gente! É o que nós temos!”

Por essa mesma época, Edir Macedo classificava o vírus como “tática de Satanás”. “Satanás trabalha com o medo, com o pavor. Satanás trabalha com a dúvida, apavora as pessoas. E, quando as pessoas ficam apavoradas, quando as pessoas ficam com medo, quando as pessoas ficam em dúvida, as pessoas ficam fracas, débeis e suscetíveis a qualquer ventinho”.

Realidade múltipla

Isso foi em março. Domingo, 5 de junho, Silas Malafaia, que não chegou a negar o vírus, pôde reabrir a igreja, recomendando máscaras para todo mundo. Conforme a pandemia avança, ficam raros casos de pastores, aderindo ao negacionismo total para, numa nota irônica, à Coots, morrerem eles próprios.

Se a fé unifica, a pandemia divide os crentes, divide dentro das mesmas igrejas. E descobri isso por experiência, e agora.

Eu já falei antes que sou, por vontade própria, não da família, isolado. Eu me refugiei em outro universo de pessoas e valores, inclusive outra cidade. Mas a pandemia é uma questão de vida ou morte. Eu simplesmente devia a eles um contato, que poderia bem ser despedida (esperemos que não).

Não entrevistei meus parentes, não fiz isso por causa desse texto. Mas descobri algumas coisas da relação entre crentes, pandemia e Bolsonaro. Para minha surpresa, a relação está no “é complicado”.

Todos os parentes que falei estavam, à sua maneira, levando a sério a pandemia. O primeiro contato que tive foi com minha madrasta, poucas palavras trocadas no WhatsApp. Meu pai não estava em casa no dia, estava tentando vender sua chácara, a 40 km de Curitiba. Ela me assegurou que todo mundo estava se cuidando. Mencionei o presidente e seu discurso, um comentário ignorado. Perguntei se ainda gostavam de Bolsonaro. “Ahhh, aí certeza”.

Em todas as conversas que tive, e por todas as espiadas no Facebook que fiz antes dessas conversas, surge essa grande ausência. Em 2018, estavam colando imagens com pombas e raios de sol vindos do céu dizendo que começaria o governo de Deus na Terra. Hoje, é como se Bolsonaro não existisse mais. No lugar dele, fotos saudosas em família, selfies, orações, banalidades motivacionais gospel, imagens de Site.

O nome de Bolsonaro jamais apareceu nas conversas. Não quis forçar, não quis fazer desse momento uma entrevista. Seria cínico da minha parte, ao quebrar um silêncio que já durava cinco anos, entre mensagens sem resposta, ligações incompletas e nenhuma visita mútua. Silêncio que se tornara absoluto após a eleição de Bolsonaro. Foi uma hora para recordar a humanidade, memórias antigas, de antes deles concluírem que um político que poderia me botar no pau de arara era o presente de Deus ao Brasil.

Sobrou para mim um quebra-cabeças a montar pelo não dito: como é possível levar a pandemia a sério e ainda amar Bolsonaro?

De volta às serpentes: os pastores sabem muito bem que elas podem matar. Já perderam fiéis e parentes. Continuam a fazer. Há um determinismo no pensamento fundamentalista evangélico, no qual Deus pode decidir pelo pior com razões desconhecidas, mas sempre corretas. No qual um câncer infantil é uma decisão ativa e para melhor. Todos têm sua hora.

Esse fatalismo é algo em comum em muitos outros cristãos, mas os pentecostais podem levá-lo às últimas consequências. O que houve em 2014 na igreja das serpentes dos EUA  é que era a hora de Deus levar o pastor, e o pastor aceitou isso – e por isso é considerado em sua igreja um crente exemplar, não um fanático idiota (o que até a maioria dos crentes daqui irá achar).

Esse é o mesmíssimo fatalismo dos discursos de Bolsonaro. O laissez-faire da pandemia, o grande “vou fazer o quê”, o grande “e daí”. Não é que o coronavírus não mate, ainda que ele tivesse dado a entender isso no começo, como também vários pastores fizeram. É que não há nada a se fazer exceto esperar pela vontade de Deus. Na última semana, após anunciar publicamente, com o que pareceu uma perturbadora ponta de orgulho, estar contaminado com o coronavírus, o presidente afirmou: “esse vírus é como uma chuva, vai atingir você”.

Mas há mais uma coisa. O pensamento do crente precisa sobrepor duas camadas, dois universos paralelos: o da fé e o da realidade. Porque trabalham com os outros, estudam com os outros, vivem na mesma economia. Precisam responder ao mesmo mundo que todo mundo. É como os pastores políticos, ora discutindo conspirações satânicas, ora aparecendo com argumentos econômicos, jurídicos, constitucionais.

Muito já foi dito sobre como os fanáticos religiosos diferem das demais pessoas. Acadêmicos falam sobre seu pensamento autoritário, sobre sua conexão literalista com livros sagrados, sobre seu isolamento do mundo. São coisas com que não posso discordar e que condizem com minha experiência. O que não consegui encontrar – e por isso não sei dizer se estou sendo original aqui – é que um fanático religioso, com base na minha experiência, não é simplesmente um ser irracional ou um sujeito que opera com uma razão paralela. É uma pessoa multirracional. É como surgem engenheiros aeroespaciais criacionistas ou cientistas da computação terraplanistas.

A maioria dos crentes com câncer vai fazer quimioterapia. E todos, unanimemente, irão atribuir sua eventual cura ao divino. Porque, mesmo que tenham sido os remédios e os médicos, a razão por que o tratamento funcionou foi de Deus. O mesmo que poderia tê-los levado.

Deus pode até mesmo escolher remédios: dias atrás, a torcida de Bolsonaro em frente ao Alvorada estava cantando uma paródia de Tiririca: “Cloroquina, Cloroquina/Cloroquina lá no SUS/Eu sei que tu me curas/Em nome de Jesus”.

Israel, limão e sal

Quando a realidade fica próxima demais, a camada da irrealidade se manifesta de formas mais sutis.

Foi uma longa conversa que tive com meu velho. Botei o celular no tripé e, de aparecer aquela cara já não vista desde o último velório, degelou um pouco o que havia sido petrificado de vez em novembro de 2018.

Falamos do tempo, da vida, da família, da falta de dinheiro (mútua). Reclamou da aposentadoria, falou que estava preocupado com a crise “causada pelo isolamento”.

Uma hora surgiu o nome do presidente. Eu disse que Bolsonaro estava atrapalhando. O velho reagiu como se estivesse perguntando de um cachorro morto há anos. Impertinência de quem não faz a menor ideia do que está acontecendo. Desconversou. Falou que ele não ia pegar porque estava se protegendo. Com:

– Limão e água morna. Se você toma isso, fica protegido por sete horas. Eu li num lugar aí. Descobriram em Israel, e é por isso que ninguém lá pegou.

Eu expliquei para ele que Israel não só tinha (então) mais de 10 mil casos e como estava realizando isolamento pesado. Sem qualquer esperança que isso fosse abalar sua fé no limão mais que citar Richard Dawkins alteraria sua fé que a Terra surgiu há 7 mil anos e dinossauros foram deixados para fora da Arca de Noé. Falei que eu sabia de Israel pelas notícias internacionais. Ao que ele:

– Ah, eu parei de ver notícia. Parei de ver o Jornal Nacional. E o tio Mário também disse que parou. É só coronavírus, coronavírus, coronavírus…

Ouvir isso me deu uma noção melhor da que estava em sua cabeça, na dos outros da família. É uma versão paralela à crise do coronavírus. Não a do Jornal Nacional, mas a do WhatsApp. O vírus existe, o vírus pega mais velhos, que precisam se cuidar. Mas as medidas “excessivas” dos governadores são uma conspiração contra o presidente apontado por Deus para o cargo.

Ainda assim, publicamente, o silêncio impera. Achei três exceções à quietude “apolítica” da família. Defendiam Bolsonaro, fervorosamente, dois primos beirando os 40, com conversa de machão. E o tio que meio faz o papel de antagonista principal em meu livro, que espancava mulher e filhos (desculpe se tenho que escrever um clichê aqui). Esse está não só exaltando Bolsonaro, como Donald Trump.

O silêncio significa que os evangélicos estão realmente começando a se afastar do bolsonarismo? Por que um grupo tão vocal em expressar seu dissenso com o resto da sociedade brasileira, tão ágil a defender a cura gay, acusar figuras públicas de “abortistas”, de denunciar “satanismo” nas religiões afro-brasileiras, decidiu ser discreto?

E a resposta é simples: outros crentes. Crentes são extremamente conectados uns aos outros. Nisso, começam a surgir histórias de pessoas, do primo do cunhado do pastor X, que perderam familiares. Desafiar muito abertamente a pandemia seria ofensivo. A camada de realidade exige discrição.

Em paralelo, mantém-se a camada de pensamento mágico, teoria da conspiração, fatalismo e fidelidade ao presidente. Qual camada acabará por dominar? Como será se e quando a maioria acabar pessoalmente atingida?

Dançar com cascavéis parece fácil até se ouvir o chocalho.

Fábio Marton – Jornalista. Ex-editor de Aventuras na História, atual colaborador da Superinteressante e Folha de S. Paulo, com passagens por vários outros meios. É autor de “Ímpio: O evangelho de um ateu”, no qual conta sua juventude como evangélico radical pentecostal nos anos 80 e 90, incluindo ter sido menino-pastor


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