Semana On

Terça-Feira 11.ago.2020

Ano IX - Nº 405

Entrevista

‘Se conquistamos a democracia, batalharemos por ela sempre’

Dagoberto Nogueira fala das ameaças à democracia no Brasil, de polarização e da crise de representatividade

Postado em 10 de Julho de 2020 - Victor Barone

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Dagoberto Nogueira Filho é advogado, administrador de empresas, procurador e deputado federal, eleito pelo estado do Mato Grosso do Sul. Também foi presidente estadual do PDT e é o pré-candidato do partido à Prefeitura de Campo Grande nas eleições que se avizinham.

Nesta entrevista à Semana ON, ele fala da democracia no Brasil, da crise de representatividade e da polarização política. “A democracia requer que as pessoas com diferentes crenças e visões políticas possam conviver e dialogar em outras esferas da vida, apesar das diferenças. Quando os níveis de polarização são muito altos, a democracia está em perigo”, afirma, e deixa um recado. “Se conquistamos a democracia, batalharemos por ela sempre”.

 

O Brasil vive uma crise democrática sem precedentes, com ameaças constantes ao estado democrático de direito. O senhor teme a quebra da ordem democrática?

A democracia não é regime de concessão, é regime de conquista. O mais longo período de democracia da história brasileira é esse que nós estamos vivendo agora e com muitas ameaças dos viúvos da ditadura militar, creio que todo cidadão que assiste perplexo estas manifestações contra os poderes constituídos se assusta, mas sou da luta e creio que se conquistamos a democracia, batalharemos por ela sempre.

A democracia representativa está em crise?

Com certeza, quando você tem um presidente da república que sai do seu papel de líder democrático e se joga em manifestações que agridem a nossa tão ferida democracia, já entramos de cabeça na crise. E esse cenário vem se arrestando desde o último golpe que nosso país sofreu.

O descontentamento com o funcionamento da democracia e o crescimento do radicalismo político se tornaram fenômenos globais. O Brasil vivenciou a tempestade perfeita para este cenário de crise nos últimos cinco anos: uma crise econômica terrível combinada com escândalos massivos de corrupção e altos níveis de violência e criminalidade.

Agora precisamos mudar essa realidade com muito debate, muita mobilização e muita conscientização!

O país vive a maior polarização política desde a redemocratização. Como o senhor analisa este fato?

A democracia requer que as pessoas com diferentes crenças e visões políticas possam conviver e dialogar em outras esferas da vida, apesar das diferenças. Quando os níveis de polarização são muito altos, a democracia está em perigo. Sempre que olhamos para um político rival e não o vemos como alguém para discordar, mas como um inimigo, uma ameaça para a nação, um criminoso, quando deixamos de tolerá-lo, começamos a contemplar a possibilidade de ações extraordinárias. Quanto mais polarizado um lado é, mais propensos estamos a tolerar ou aceitar abusos contra ele. Mais dispostos estamos a aceitar que o líder do outro partido seja preso, exilado, ou que um jornal de oposição seja fechado. Esse nível de polarização está muito evidente no Brasil e nos Estados Unidos, e é o prenúncio de uma crise democrática.

Acredito que precisamos sair dessa polarização extrema e mostrar que existem outras alternativas mais sensatas para o nosso país.

Quais suas expectativas para a eleição deste ano no que se refere a participação do eleitorado?

O surgimento da pandemia do Covid-19 está impondo grandes desafios ao mundo. Há muito em jogo diante do controle do vírus, como temas sanitários, econômicos e sociais. Há, em meio a tudo isso, um tópico em aberto e que está afetando muitos países: o impacto do vírus sobre as democracias.

Na verdade, as eleições municipais possuem características próprias, pois estão muito mais próximas dos eleitores, há mais contato e, provavelmente, reflita mais a vontade da soberania popular do que as nacionais. Em muitos casos, a participação popular nas eleições municipais é mais alta que nas nacionais, justamente por causa da aproximação do processo com as pessoas. As pautas municipais são totalmente distintas que as nacionais, pois atendem às demandas que são próprias de cada municipalidade e região do país. A forma de fazer campanha é diversa, bem como a forma da decisão pelo voto, sendo tudo isso já trabalhado no campo da Ciência Política. 

Acredito que o eleitorado tenha consciência da importância deste momento, haja visto que todos estão sentindo como ato de governar bem ou má influência em suas vidas, afinal de contas a pandemia está aí para ser analisada neste âmbito também.

Quais os maiores desafios do poder público diante da pandemia?

Se resume em uma só palavra, equilíbrio. O gestor precisa manter claro os mecanismos de saúde disponíveis, monitorar o contágio, decidir sobre as regras de isolamento e ao mesmo tempo lidar com as consequências econômicas, que fatidicamente irão passar pelo aumento da taxa do desemprego e em muitos estados já chegaram ao colapso no sistema de saúde. O momento é literalmente de gestão de crise!

Como o senhor analisa a dicotomia entre a manutenção da vida e da economia durante a pandemia?

A polarização cria um falso dilema entre “saúde econômica” e “preservação da vida”, porque a História nos mostra a possibilidade de solucionar ambas as questões concomitantemente Manter o isolamento sem um olhar voltado para a economia do país só garante o bem-estar de quem tem como ficar isolado. Então é preciso sim pensar na situação econômica. Garantir a sobrevivência dos autônomos, dos desempregados, dos proprietários das pequenas, grandes e médias empresas, do largo setor que se encontra na informalidade. Temos também que pensar o que faremos para preservar nossa economia. É hora de médicos, cientistas, economistas, gestores públicos e demais quadros capacitados, se reunirem e pensarem em um projeto de curto, médio e longo prazo.

Para a recuperação de nossa economia, do emprego e da renda dos cidadãos. Precisaremos de um novo Plano Marshall [principal ação dos Estados Unidos para a reconstrução dos países aliados da Europa nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial]

Pesquisadores indicam que o Brasil ainda não atingiu o pico da covid-19. Que providências o poder público pode tomar para se preparar para o pior diante das dificuldades de pessoal e de EPI´s?

Pode ser fazer tudo ao contrário do que o Governo Federal vem fazendo nos últimos meses? O momento agora é de união, é de investir em pesquisa, é reunir gente boa e que sabe o que faz, é fazer planejamento, monitoramento, fazer controle de mercado para a compra de EPI’s, em resumo o poder público precisa ser estratégico ao travar esta guerra contra um inimigo novo e invisível.

O pós-pandemia será uma época de dificuldades. Como o senhor analisa o porvir econômico e político que terá início após o achatamento da curva?

A economia brasileira vai ter um longo e difícil caminho para superar a crise provocada pelo coronavírus. A rápida recuperação da atividade econômica esperada por boa parte dos economistas no início da pandemia foi substituída por projeções mais sombrias.

A queda do Produto Interno Bruto (PIB) nos três primeiros meses deste ano e a certeza de que o fundo do poço chega neste segundo trimestre devem fazer com que o país encerre 2020 com o pior desempenho econômico da história.

A crise sanitária alcançou o país em um momento delicado. A economia vinha dando sinais de fraqueza, e a doença se somou à incerteza política com relação ao futuro do governo Jair Bolsonaro. A pandemia também escancarou a elevada desigualdade social no país e abriu um debate sobre o papel do Estado na economia e na condução das políticas sociais.

Mesmo com tudo isso eu prefiro dizer que será uma época de reconstrução para o mundo, precisamos sair dessa crise com mais empatia, mais solidários e entendendo de fato tudo isso que aconteceu. Que traga para nós mais conscientização social e política! Mais uma vez vamos ter que lutar muito para nos reerguermos, mas a esperança é minha eterna companheira de vida.

Considerações finais.

Agradeço muito o espaço para expor minhas ideias e de uma coisa eu sei meu amigo, dias difíceis estamos vivendo, dias mais difíceis ainda estão por vir, mas não podemos jamais perder a fé que nos move a construir um Brasil melhor. Como sempre fomos da luta, nela permaneceremos.


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