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Sábado 08.ago.2020

Ano IX - Nº 405

Coluna

Sob a regência de Ennio Morricone

Sua música explora regiões profundas da sensibilidade e transforma o resultado dessas expedições em temas que se conectam com perfeição às cenas das produções cinematográficas para as quais trabalhou

Postado em 08 de Julho de 2020 - Clayton Sales

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Nos vales vermelhos do Velho Oeste americano, desponta um dedilhado de três ou quatro notas da guitarra carregada de reverberação. Então, sutilmente como escorpiões vagando sobre o chão tórrido, um assobio invade a solidão das cordas. Cavalos trotam acoplando o som de seus cascos a esse dueto formando uma paisagem sonora perdida nos campos desérticos de um tempo inóspito. Mais componentes se somam a essa sinfonia. Um piano martela acordes graves e melancólicos. Orquestras de violinos e cellos executam uma melodia grandiloquente em tom menor. Um retumbante conjunto de taróis marca sua imponente cadência de cavalgada. Uma gaita risca seu agudo como lâmina fina corta a pele. Um pistão prenuncia com garbo algum grande momento. Um coral feminino épico completa o mosaico com paixão, beleza e calor. 

É instigante descrever as sensações causadas pelas trilhas sonoras quando ouvidas apenas com o acompanhamento da memória. Às vezes, elas remetem diretamente a um filme. Outras vezes, elas nos enviam a imagens oníricas armazenadas no inconsciente, com um poder equiparável apenas ao desligamento do sono e ao despertar dos sonhos. Algo na essência humana se movimenta quando a música produzida para o cinema se descola dos filmes e ganha vida própria em nossos ouvidos. É um poder de poucos. Talvez, de raros, como Ennio Morricone. Músico, maestro e compositor, o gênio italiano faleceu em 6 de julho de 2020, aos 91 anos de idade. Deixou como legado criações que não somente ajudaram o cinema a reforçar sua condição de arte, mas que elevaram o valor da trilha sonora ao nível de obra autônoma e autoral. 

Nascido em 1928, em Roma, Ennio Morricone começou a se interessar por música graças ao pai, que era trompetista profissional e trabalhava em orquestras da capital italiana. Aos seis anos, ele já rascunhava suas primeiras composições. Graças ao pai, seu primeiro instrumento foi o trompete, que aprendeu a tocar na tradicional Academia Nacional de Santa Cecília. Aos 12 anos de idade, foi formalmente matriculado no conservatório, onde estudou também composição e coral. Em 1946, Ennio Morricone se formou como trompetista e seguiu aprimorando seus dotes em composição e arranjos de peças clássicas. Ennio Morricone recebeu o diploma de instrumentação para bandas em 1952 e dois anos depois, concluiu sua sólida formação musical ao receber o certificado de composição. Três graduações que determinaram o rumo de sua carreira a partir das décadas seguintes, principalmente sua conexão com a sétima arte. 

Ainda estudante de música, Ennio Morricone atuava em conjuntos orquestrais e escreveu peças para programas de rádio. Chegou a ser contratado pela RAI como músico de jazz e também compôs temas para a televisão. Seu primeiro contato com o cinema aconteceu, curiosamente, como uma espécie de "compositor fantasma", ou seja, suas músicas eram creditadas a compositores mais famosos da época. Em outros casos, usava pseudônimos como Dan Savio e Leo Nichols. Porém, o ingresso do seu nome no cinema aconteceu nos anos 1960, quando elaborou a banda sonora do filme "O Fascista" (1961), comédia dramática de Luciano Salce, com quem iniciou sua primeira parceria cinematográfica. Outra comédia de Salce que contou com temas de Ennio Morricone foi "La Voglia Matta" (1962), bastante influenciados pelo jazz. 

Um antigo colega de escola tomou conhecimento do que Ennio Morricone estava fazendo e quando começou sua carreira como diretor de cinema, convidou o compositor para trabalhar na música de seus filmes. Esse cineasta era Sergio Leone. Então, foi dado o início a uma das parcerias mais marcantes do cinema, quando Ennio Morricone produziu a trilha sonora de "Por Um Punhado de Dólares" (1964), clássico do western spaghetti, variação italiana do faroeste americano. A experiência bem sucedida se transformou na famosa Trilogia dos Dólares, completada com "Por Uns Dólares a Mais" (1965) e "Três Homens em Conflito" (1966). A repercussão dos temas desses westerns fez com que o maestro se tornasse um ícone do gênero. Ennio Morricone era o faroeste em forma de música. 

Entretanto, embora tivesse seguido com trilhas para westerns, Ennio Morricone diversificou seus domínios musicais no cinema. Compôs para dramas como "Cinzas no Paraíso" (1978), "A Missão" (1986), "Os Intocáveis" (1987) e "Bugsy" (1991). Em outra frutífera parceria, compôs os temas musicais para vários filmes de Giuseppe Tornatore, como "Cinema Paradiso" (1988), "Malena" (2000) e "Baaría" (2009). Ennio Morricone também é autor da soundtrack de "Ata-me" (1989) de Pedro Almodóvar e passeou pelo terror e ficção científica com a trilha de "O Enigma de Outro Mundo" (1982) de John Carpenter. Em filmes de Quentin Tarantino, temas de Ennio Morricone foram usados em "Bastardos Inglórios"(2009), a canção "Ancora Qui" foi escrita com a cantora italiana Elisa para "Django Livre" (2012) e finalmente o maestro compôs a trilha sonora de "Os Oito Odiados" (2015), pela qual venceu seu único e tardio Oscar. 

A música de Ennio Morricone explora regiões profundas da sensibilidade e transforma o resultado dessas expedições em temas que se conectam com perfeição às cenas das produções cinematográficas para as quais trabalha. Por isso, suas composições são primores técnicos quando se adequam aos filmes e são belas pinturas musicais que ativam instâncias efervescentes da mente. As trilhas de Ennio Morricone servem à sétima arte. E servem como música para momentos triviais, dramáticos, lúdicos, cômicos, emocionantes, sombrios, felizes da nossa existência. Basta procurar uma das muitas playlists nas plataformas digitais e colocar o projetor da imaginação para funcionar. É a vida sob a regência de Ennio Morricone.


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