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Quarta-Feira 05.ago.2020

Ano IX - Nº 404

Coluna

Saúde! Um negócio de outro mundo

Com a palavra, Ailton Krenak

Postado em 08 de Julho de 2020 - Ailton Krenak

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Em breve estaremos publicando uma coletânea dos artigos da coluna Re-Existir na Diferença. Quem assina o prefácio para esta coletânea é a liderança indígena Ailton Krenak, a quem agradecemos imensamente a gentileza de prefaciar nossa produção.  Publicamos seu texto hoje, antecipadamente, para que ele possa ir reverberando em todos nós.

Prefácio Ailton Krenak

Saúde! Um negócio de outro mundo

Caro leitor, você tem em mãos uma coletânea de textos que foi produzida na ação por dois trabalhadores da sáude coletiva, e que levam a ideia de clinica a seu termo. Ricardo Moebus e Emerson Merhy estão na estrada da VIDA e deste engajamento, resulta uma produção de alta voltagem crítica ao complexo médico hospitalar, que se estabeleu em nosso mundo de negócios da sáude.

São artigos que circularam em diferentes plataformas nos últimos meses, desde antes da pandemia que assaltou o planteta e ressalta a abordagem destes pesquisadores em ação, na medida que fazem clínica numa perspectiva dos vários  coletivos que vivem  e Re-Existem na Diferença.

Saúde entendida como Cuidado, reivindicando corpos vivos na Terra viva, toma a ecologia como guia para entender o equilíbrio necessário, aproxima visões de povos origários aos cuidados da vida implicada, com o que se entende hoje por meio ambiente. Meio ambiente e saúde e suas implicações politicas, debatendo politicas da saúde como controle sobre a produção de vida.

Confronta a ideia da saúde como mercadoria, denuncia a mercantilização da vida e a peristente ação de governos e capital em tornar a saúde uma questão aquisitiva no embate com a luta por direitos. 

Na perspectiva dos povos originários, por exemplo, esta questão da saúde – mercadoria, não está posto como condição. Você pode dizer para alguém no meio da floresta que saúde é um direito, ele vai te perguntar direito a que? Ele vai dizer que não é um direito, mas um dom, um bem comum, que todo mundo tem, e você não tem carência disso, ninguém reinvindica saúde em um lugar onde a vida é uma dádiva, onde a vida é abundante. Uma onça pode te comer, mas isso não tem nada a ver com saúde, isso é um acidente, o resto do tempo se está vivendo com saúde. Alguns anciãos que conhecemos viveram até enjoar.

Mesmo quando vivendo em algumas situações de semi-escravidão, isso não tirou dos povos originários a capacidade de estar vivendo uma vida no sentido pleno, viver com tudo.

Vamos criar algum contato dessa ideia de viver com tudo e a saúde como um direito?

Principalmente agora então, está mais em voga esse cacoete de dizer que quem vive sem saneamento vai morrer primeiro.

Estamos atualizando esse processo da servidão voluntária. A servidão quando é uma servidão contrariada, ela no mínimo dá manutenção, mas a servidão voluntária não precisa desse trabalho de manutenção.

Uma vez entendido esse fundamento, digamos assim, da situação da construção da servidão, como agente poderia se opor à ideia da saude como um direito? Um direito dentro desse mundo mercantilizado? Onde todos os equipamentos e os serviços, como nessa situação de emergência que vivemos hoje, passa por essa manutenção da servidão voluntária, por esse serviço que faz a manutenção da coisa de forma bem discreta, para parecer que está todo mundo mesmo querendo isto.

Como, se nesse momento que vivemos hoje, continuam a querer nos fazer ver a saúde como um serviço, como é possível agente fazer algum furo nisso? Para que agente possa não estender esta ideia de saúde como serviço a todo mundo. 

Atualmente vivemos uma narrativa redundante, vivemos uma distração.

O que as pessoas imaginam é que o lugar de saúde é uma unidade de tratamento intensivo, uma UTI. O cuidado em casa não é oferecido, orientado. Fica a ideia de que o povo de Manaus está ferrado porque não tem hospital nem UTI. Não entra na pauta o fato de que Manaus é um assentamento caótico.

Por exemplo, como o Vietnã resolveu atravessar esse momento? Pela história daquele povo eles enfrentam esses eventos que assolam seus vizinhos e o ocidente, com uma perspectiva tão própria que eles conseguiram lidar com essa pandemia de uma maneira que o número de conataminados foi muito pequeno, o número de óbitos nulo ou quase nulo. Significa que eles lidaram com esta pandemia da maneira que outros países estariam lidando com uma endemia, pensar que algum país conseguiu contornar esta pandemia já é um alívio e esperança renovada.

Bom dia Vietnã!  

O mundo tentou destruir aquela gente, eles são índios também, mas eles conseguiram escapar, estão vivos, estão saindo dessa e ainda conseguiram doar equipamentos para países como Itália e Holanda. Assim também, Cuba que está enviando médicos para vários lugares do mundo.

Então esta conversa de saúde tem tudo a ver com outro jeito de estar no mundo.

Que seja estar no mundo fora desta perspectiva da mercadoria, do capitalismo, onde o saber é um capital, o saber é patrimonial, se você está fora disso, aí então o saber, as práticas de cuidado, fluem de uma maneira vital, tirando os corpos do lugar de flagelados e pondo os corpos nesse lugar de fricção criativa. Os corpos deixam de ser esses objeto vulneráveis a qualquer peste, a qualquer ataque externo a sua ecologia, e os corpos viram ativos criativos, ativos agentes criadores de histórias de vida, saem fora deste campo que a Medicina entende como saúde, criando corpos que estejam fora deste mercado da saúde.

Temos que por em questão esta ideia muito cultivada no ocidente de que o sanitarismo, o higienismo são coisas que vieram para civilizar uma situação precária. Eles vieram para criar uma servidão voluntária, onde estão todos querendo um saxofone sem saber tocar

A pergunta central para a saúde então é: O que o ocidente quer fazer da vida?

E se dissermos para as pessoas: Vivam! Mas vivam sem shopping. O que elas vão achar?

Se a vida é para consumo, então não fazer nada é uma desgraça, um purgatório, uma ante-sala do inferno.

E através desses produtos, que nós naturalizamos no cotidiano, vamos roendo o planeta, vamos evoluindo de homo sapiens para roedores, roendo o planeta.

Vejamos então, esta invenção da terceira idade, não são apenas algumas pessoas, mas todas as pessoas que tem um mundo organizado para o adoecimento da aposentadoria, junto com a invenção do mundo da adolescência, foi inventado o mundo da obsolescência, essa invenção da terceira idade, foi uma grande sacanagem que fizeram com quem estava nesta faixa de flagelo, uma invenção para fazer consumir, uns podem ir para um cruzeiro, outros podem ir para um puteiro, vai ter que aprender a dançar, uma apropriação espertalhona, para consumir o fim da vida, a bituca da vida, um programa para milhares de sujeitos , gente que saiu da mão de obra útil e caiu nesse buraco da terceira idade.

A hora é de fazer uma pajelança junta, como Glauber Rocha.

Agente vai ter que terminar dançando, como faziam nossos anciãos, quando estive em um desses encontros para terceira idade, eles disseram, puxa vida teve que vir um cara de fora da nossa cultura para dizer que estamos sendo manipulados por essa ideia da idade inútil para termos que ser consolados por este monte de mercadoria. Pessoas que foram sugadas pelo mundo da mercadoria e agora podem fazer uma crítica disso.

Agente é assediado por este tipo de ideia o tempo todo, o que é Re-Existir?

Sem cair no conto do vigário?

Sem comprar um tanto de coisa para presentear agente mesmo?

Muitos aproveitam essas situações de crise para rebobinar seus próprios produtos, por exemplo agora na quarentena do coronavírus.

Dizem que um jornalista certa vez perguntou ao Mahatma Gandhi: mestre, o senhor acredita na civilização occidental? E ele respondeu: Seria uma boa ideia.  

Nós estamos vivendo de uma maneira tão errada aqui na Terra, que agente precisa ter a capacidade de nos reordenarmos como humanidade, reordenarmos nosso modo de ir comendo, andando, bebendo água. O que nos obrigaria repensar nossa infra-estrutura, nossa cultura.

Quando dizem que a floresta é o pulmão da Terra, nós temos gente lá dentro que canta e dança para que a floresta continue sendo um pulmão. Se tirarem aquela população dali, nós teremos um ecocídio, se der tempo, ou antes disso um genocídio.   

O genocídio tem sido uma prática bem sustentável nesse planeta.

Se os povos antigos da Terra não forem ouvidos, para que eles ensinem, dêem alguma pista, de como é que desativa esse dispositivo, que precisamos saber como desmontar, senão agente vai em rota de colisão, o painel do clima diz que se agente não mudar essa rota até 2030, agente não pára mais, será tarde demais.

Entropia?

Eu preferiria uma utopia, alguma possibilidade de descobrir como, em uma humanidade tão complexa como a nossa, cada um possa ter o tipo de mundo que sonhou.


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