Semana On

Sábado 28.nov.2020

Ano IX - Nº 421

Coluna

Afundados no esgoto das fakes

O jornalista Victor Barone resume a semana política, com humor e acidez

Postado em 08 de Julho de 2020 - Victor Barone

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O Facebook realizou na quarta-feira (8) uma ação global para banir o que chamou de usuários "inautênticos" da plataforma. Foram derrubadas redes que atuavam no Brasil, nos Estados Unidos, na Ucrânia e em outros países da América Latina. No Brasil, o foco da ação da rede social foram perfis, páginas e grupos ligados à divulgação de fake news e de perfil bolsonarista. Os mantenedores dos perfis banidos eram ligados à Presidência da República e aos gabinetes de Flávio e Eduardo Bolsonaro e de outros políticos do PSL ou aliados ao presidente Jair Bolsonaro.

Operação milionária. As páginas e perfis brasileiros gastaram o equivalente a US$ 1,5 milhão em anúncios no Facebook, o que equivale a mais de R$ 8 milhões pela cotação atual do dólar. Foram banidas 35 contas, 14 páginas e 1 grupo no Facebook e 38 perfis no Instagram, rede que pertence ao Facebook. As páginas do FB tinham 883 mil seguidores, e os perfis do Instagram somavam 917 mil seguidores. O grupo do Facebook tinha 350 pessoas.

Milicianos de crachá. A página Bolsonaro Opressor 2.0 era gerida por Tercio Arnaud Thomaz, assessor da Presidência da República. Isso não era novidade para ninguém: Vera Magalhães publicou uma nota intitulada "Núcleo duro das redes dentro do Palácio", em que já apontava Tercio e José Matheus Sales Gomes como responsáveis pela campanha exitosa de Bolsonaro nas redes e que tinham sido levados para a antessala do presidente por seu filho Carlos. Os dois são o núcleo do chamado gabinete do ódio, como ministros apelidaram o grupo responsável por gestar a estratégia de fake news e destruição de reputações de adversários e até de aliados que caíam em desgraça.

Investigações. A decisão do Facebook de derrubar as contas bolsonaristas pode alimentar de informações duas investigações que correm sobre o assunto: a CPMI das Fake News e o inquérito que apura ameaças e difamação e que corre no Supremo Tribunal Federal, relatado pelo ministro Alexandre de Moraes. A atuação de Tercio e outros assessores consta do relatório da Digital Forensic Research Lab, ligado ao Atlantic Council, que realizou a análise que embasou a decisão do Facebook.

Velhos conhecidos. O relatório do Facebook também identificou dois assessores do gabinete de Eduardo Bolsonaro que já haviam sido denunciados à CPMI das Fake News pela deputada Joice Hasselmann.

Barata voa. Os grupos de WhatsApp, braço menos visível da estratégia bolsonarista de disseminação de desinformação, calúnia, difamação e discurso de ódio, ficaram em polvorosa com a notícia. O Facebook e o Instagram vinham sendo considerados terrenos mais seguros para ação desses grupos que o Twitter. A iniciativa representa uma guinada importante na postura do Facebook em relação aos conteúdos postados na plataforma. Até aqui, a tentativa da empresa era se eximir de responsabilidade.

Por Vera Magalhães

O ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta usou o Twitter para comentar sobre a derrubada de uma rede de fake news e perfis falsos ligados a integrantes do gabinete do presidente de Jair Bolsonaro, a seus filhos, ao PSL e aliados. Antes de deixar a pasta, em abril deste ano, Mandetta sofreu da fritura bolsonarista nas redes sociais. Contra ele, hashtags como #ForaMandetta, #BolsonaroTemRazão e #OBrasilNãoPodeParar surgiam a todo momento para contestar e espalhar informações falsas sobre os números da covid-19 e as medidas de isolamento social.

Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) teve um chilique no Twitter e acusou a rede de Mark Zuckerberg de “perseguição a perfis de direita, dentro e fora do Brasil”.

Na sequência de tuítes, Eduardo Bolsonaro ainda diz que ganhou uma ação contra o Facebook para expor jornalistas da revista Época, da Globo, que fizeram uma reportagem sobre o trabalho de Coach da esposa dele, Heloísa Wolf Bolsonaro e acusa Zuckerberg de “vender a liberdade dos conservadores por dinheiro”.

Em sua página no Twitter, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), investigado no esquema de “rachadinhas” na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), prestou “solidariedade” aos investigados, assim como já fez com integrantes da milícia, como Adriano da Nóbrega, que comandou o chamado Escritória do Crime, grupo armado investigado por envolvimento no assassinato de Marielle Franco.

Jair Bolsonaro usou auxiliares para entrar em contato com executivos do Facebook depois que a rede derrubou dezenas de perfis de aliados do presidente nas redes e acusou um de seus assessores, Tércio Arnaud Thomaz, do chamado “Gabinete do ódio”, de ser um dos principais agentes de estruturação do grupo. Os executivos da rede de Mark Zuckerberg disseram apenas que a derrubada dos pefis é parte de uma ação global da rede social e não era nenhuma perseguição contra bolsonaristas ou contra o governo.

A investida do Facebook contra o grupo que inclui a milícia digital que dissemina fake pró-Bolsonaro entre as grandes redes de disseminação de fake news e discurso de ódio no mundo deram impulso à oposição, que entrou com pedido para que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), investigue a ligação de assessores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), seus filhos e aliados com 73 contas falsas derrubadas.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), afirmou em entrevista à CNN Brasil que a ação reforça a necessidade de regulamentar o uso das redes. “No caso específico do Facebook, eu não posso comentar porque não conheço o caso a fundo. Agora em relação à perseguição, acho que o ambiente das redes sociais foi, nos últimos meses, muito mais favorável àqueles que apoiam o presidente do que o contrário”, disse.

FESTIVAL DE IGNORÂNCIA

Jair Bolsonaro escolheu um punhado de emissoras de televisão parceiras para fazer o anúncio de que, sim, está com a covid-19. Aos jornalistas da CNNRecord e TV Brasil ele assegurou: “Confesso a vocês, estou perfeitamente bem. Estou tomando medidas protocolares, para evitar contaminação de terceiros”. A entrevista aconteceu naquele formato em que os jornalistas seguram os microfones, bem próximos do presidente. Ao final, ele pediu às equipes que continuassem filmando. “Espera um pouco que vou afastar aqui para vocês verem minha cara”, afirmou, se distanciando alguns metros. E retirou a máscara de proteção do rosto. O objetivo? De acordo com ele, mostrar que está “tranquilo”.

Bolsonaro acionou o discurso de sempre, minimizando a pandemia. Mas as ações do presidente são mais eloquentes. De acordo com o Ministério da Saúde, o que deveria fazer Bolsonaro, ou “qualquer cidadão brasileiro”, como ele gosta de frisar? Com sintomas, evitar contato com outras pessoas. Diagnosticado, e com sintomas leves, isolar-se em casa.  Jamais tirar a máscara em espaços públicos. Não há nada que o presidente tenha afirmado na entrevista que não pudesse ser dito em uma transmissão pelas redes sociais – que é, aliás, a forma como ele se comunica semanalmente com seus apoiadores. A entrevista serve a outro propósito: tem uma carga simbólica. Reforça a narrativa de que as medidas de isolamento não passam de “exagero” e coloca os jornalistas na posição de cúmplices da irresponsabilidade. 

A Associação Brasileira de Imprensa e o deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ) consideram que houve conduta criminosa por parte do presidente. Segundo a ABI, que pretende entrar com uma notícia-crime no Supremo, Bolsonaro infringiu os artigos 131 e 132 do Código Penal e colocou a saúde de terceiros em perigo. Já Freixo vai acionar o Ministério Público Federal para que o presidente responda por crime contra a saúde pública. Para criminalistas ouvidos pela BBC Brasil, a conduta é reprovável, mas não preenche os requisitos para sustentar um processo penal.

Mas tem mais: a Secretaria-Geral da Presidência da República divulgou um documento em que afirma que “não há protocolo médico, seja do Ministério da Saúde ou da Organização Mundial da Saúde que recomende medida de isolamento pelo simples contato com casos positivos”. É mentira. No caso de quem esteve em contato próximo com pessoas doentes, a OMS recomenda que “o melhor a fazer é ficar em casa”. 

Já o Ministério da Saúde dá essa recomendação a familiares, mas não a colegas de trabalho que estiveram perto de quem se revelou infectado – o que diz muito sobre a situação de cerceamento da pasta sob Bolsonaro. No início da pandemia, várias empresas enviaram para casa funcionários que tiveram contato com outros contaminados. É, aliás, o que fizeram as emissoras de televisão da entrevista de ontem: afastaram as equipes que se aproximaram de Bolsonaro. E também um dos executivos que almoçaram com o presidente na última sexta-feira: Francisco Gomes, da Embraer, está seguindo o protocolo da empresa, “que prevê quarentena para qualquer pessoa que teve contato com alguém contaminado”. 

Bom senso que não se aplica à Secretaria-Geral da Presidência, que recomenda que seus funcionários adotem o isolamento apenas após o surgimento de sintomas. No Planalto já foram confirmados 108 casos – e mais de 90% deles se revelaram assintomáticos ou de pessoas que apresentaram sintomas leves. Como o número representa apenas 3,8% da força de trabalho da Presidência, o vírus ainda tem muito espaço para correr. Mas testagem em massa e rastreamento de contatos parecem ser conceitos extraterrestres para o governo. 

E, se a apuração do Estadão estiver correta, há outra obviedade ignorada por praticamente todo o governo. O jornal informa que ao menos 13 autoridades que se encontraram com Bolsonaro fizeram exames. Só que oito deles – incluindo Paulo Guedes (Economia), Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) e Braga Netto (Casa Civil) – teriam feito testes rápidos, como são conhecidos os exames sorológicos que servem para detectar se uma pessoa contraiu o vírus (no mínimo oito dias depois do início dos sintomas), não se está com ele na fase inicial da contaminação. Para isso, o exame deveria ser o RT-PCR – que foi feito por cinco ministros, incluindo gente que se abraçou ao presidente no final de semana, como Ernesto Araújo (Relações Exteriores). De posse do resultado negativo do teste rápido feito na segunda-feira (que não quer dizer nada nessa situação), Ramos recebeu pessoalmente dois parlamentares, segundo a Folha

O Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal emitiu comunicado pedindo que veículos suspendam a cobertura presencial no Palácio do Planalto. Por precaução, o ideal seria fazer o mesmo nos ministérios e órgãos comandados por pessoas que fizeram os testes errados. Talvez exposto, o governo tivesse de fazer por si o que não consegue fazer pelo Brasil: testar, isolar, rastrear. 

REAÇÕES

A notícia de que Jair Bolsonaro está com covid-19 rodou o mundo, é claro. O assunto foi tratado na coletiva de imprensa diária da OMS. “Todos somos vulneráveis, nenhum país está imune, nenhum indivíduo está completamente seguro”, notou o diretor-geral da Organização, Tedros Adhanom. “Ninguém é especial, todos estamos potencialmente expostos ao vírus. Sejamos quem formos, todos temos a mesma vulnerabilidade. Para o vírus, não importa se você é um príncipe ou um plebeu”, emendou Michael Ryan, diretor do Programa de Emergências da OMS. Ambos estimaram melhoras ao presidente. 

Outra pessoa que teve de lidar com Bolsonaro muito de perto na pandemia foi mais direta: “É crime quando alguém tem consciência que está com doença infecciosa e contamina o outro intencionalmente. O presidente precisa tomar cuidado com o protocolo e com seu temperamento”, constatou Luiz Henrique Mandetta, para quem Bolsonaro “passou a acreditar” na narrativa criada por ele mesmo, de que a doença não passava de gripe. Mas notou o que sempre passa desapercebido pelo presidente: o novo coronavírus não tem uma letalidade tão alta, se comparado a outras doenças, mas como contamina muita gente “é mais letal para o sistema de saúde”. 

No mundo político, os adversários usaram o caso para criticar Bolsonaro direta ou indiretamente. O presidente da Argentina, Alberto Fernández, afirmou: “Este vírus não diferencia entre governantes e governados. Todos e todas estamos ameaçados e por isso os cuidados devem ser extremados. Acho que assim o entendem nossos povos que enfrentam esta tragédia com integridade e responsabilidade”. Por aqui, os rivais mais comuns do presidente – os governadores de SP, João Doria (PSDB), e do Rio, Wilson Witzel (PSC) – recomendaram que ele siga recomendações médicas e desejaram recuperação. O governador da Bahia, Rui Costa (PT), foi mais enfático: “Espero que ele não utilize para cuidar da saúde nenhuma das bravatas que ele utilizou neste período. (…) A melhor forma de recuperar a saúde é não usar ideologia e política, mas o bom senso e a ciência”, afirmou.

A imprensa internacional deu ênfase à contradição. New York TimesWashington Post The Guardian lembraram que Bolsonaro negou sistematicamente a gravidade da pandemia, ou trivializou-a, e sempre se disse cético em relação ao vírus. A revista especializada Foreign Affairs deu como manchete no site: “Bolsonaro transformou o Brasil em pária da pandemia”.   

O CASO SCHWARTSMAN

O colunista da Folha, Hélio  Schwartsman, escreveu um artigo de opinião poucas horas depois da confirmação do resultado explicando ‘por que torce para que Bolsonaro morra’. Ele começa o texto citando uma doutrina filosófica, o “consequencialismo”, segundo a qual “ações são valoradas pelos resultados que produzem”. “A vida de Bolsonaro, como a de qualquer indivíduo, tem valor e sua perda seria lamentável. Mas, como no consequencialismo todas as vidas valem rigorosamente o mesmo, a morte do presidente torna-se filosoficamente defensável, se estivermos seguros de que acarretará um número maior de vidas preservadas. Estamos?”, questiona, para citar na sequência um estudo (aqui) e, até semana passada, não havia sido revisto por pares. 

“No plano mais imediato, a ausência de Bolsonaro significaria que já não teríamos um governante minimizando a epidemia nem sabotando medidas para mitigá-la. Isso salvaria vidas? A crer num estudo de pesquisadores da UFABC, da FGV e da USP, cada fala negacionista do presidente se faz seguir de quedas nas taxas de isolamento e de aumentos nos óbitos. (…) Ficaria muito mais difícil para outros governantes irresponsáveis imitarem seu discurso e atitudes, o que presumivelmente pouparia vidas em todo o planeta. Bolsonaro prestaria na morte o serviço que foi incapaz de ofertar em vida.”

O governo reagiu – e, mais uma vez, tenta lançar mão da Lei de Segurança Nacional, editada em 1983 em plena ditadura, contra a imprensa. O ministro da Justiça, André Mendonça, anunciou no Twitter que pedirá a abertura de um inquérito pela Polícia Federal para ‘investigar’ o texto opinativo. Embora não tenha explicado direito, parte do argumento de Mendonça parece ser o de que Schwartsman usa as liberdades de expressão e imprensa – direitos fundamentais, mas não absolutos – para caluniar o presidente. Um pouco parecido com o episódio da charge de Aroeira, em que Bolsonaro aparece mudando o símbolo dos serviços emergenciais de saúde (uma cruz vermelha) para uma suástica. 

O ministro das Comunicações, Fábio Faria, também se pronunciou. Disse que o artigo é “um ataque claro à instituição da Presidência da República” e argumentou que, no país, “foi estabelecida uma linha invisível e subjetiva onde qualquer ministro, senador, deputado ou até mesmo um apoiador que participa ou expressa opiniões ditas ‘antidemocráticas’, a responsabilidade é sempre atribuída ao presidente Jair Messias Bolsonaro”.  

O secretário-executivo do Ministério das Comunicações, Fabio Wajngarten, também usou a falsa comparação, mas com o agravante de que, na sua avaliação, pedir sistematicamente intervenção militar em frente ao Quartel General do Exército ou lançar fogos contra o prédio do STF é menos grave do que assinar um artigo de opinião em um jornal de grande circulação. “Desejar a morte do presidente é um ato antidemocrático e carregado de significações. Por muito menos, algumas pessoas foram presas recentemente”, disse.   

AINDA EM CAMPANHA

Além da entrevista coletiva em que tirou a máscara, Jair Bolsonaro também divulgou um vídeo. Na gravação ele toma hidroxicloroquina e propaga: “Eu confio, e você?”. Mais cedo, ele havia dito aos jornalistas que se tivesse tomado a hidroxicloroquina “como preventivo, como muita gente faz”, estaria sem sintomas da covid-19, “trabalhando até”. “Obviamente poderia estar contaminando gente”, refletiu. Segundo o presidente, a sua equipe médica “resolveu aplicar a hidroxicloroquina, também a azitromicina”. A propaganda presidencial fez com que o ex-ministro da Saúde, Nelson Teich, gravasse um vídeo desmistificando o uso.

Lembramos que, a essa altura do campeonato, a eficácia da substância para o tratamento da covid-19 já foi descartada e seu uso proibido pela agência sanitária dos EUA – e que, diante das evidências científicas, a OMS desistiu dos testes clínicos em seu projeto de pesquisa.  

A propósito: uma pesquisa da Associação Paulista de Medicina conclui que quase metade dos médicos (48,9%) relatam pressão de pacientes e familiares por tratamentos que não têm qualquer comprovação científica

O PRESIDENTE E A SEMANA ANTERIOS À COVID

Jair Bolsonaro celebrou o Dia da Independência dos Estados Unidos, no último sábado, dia 4. O almoço aconteceu na casa do embaixador Todd Chapman, em Brasília. Fotos e vídeos do evento foram divulgados pelo presidente na sua página do Facebook. “Evite abraços, beijos e apertos de mãos”, recomenda o Ministério da Saúde. Nas imagens, Bolsonaro aparece sorridente, abraçado a Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e cercado de ministros-generais palacianos; todos sem máscara de proteção facial. Álcool só o das caipirinhas.

Antes do almoço, Bolsonaro sobrevoou de helicóptero áreas atingidas pelo ciclone em Santa Catarina. Acompanhado do ministro Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional), esteve com parlamentares e autoridades locais.

De acordo com o jornal O Globo, no sábado (4) à noite o presidente começou a reclamar de “cansaço”. No domingo, o “mal estar” teria continuado. Até que, ontem, Bolsonaro disse casualmente a apoiadores que o aguardavam no Palácio da Alvorada que acabara de voltar “do hospital”, onde tinha “batido uma chapa” do pulmão – que “estava limpo” – e faria “novo” exame para detecção do coronavírus. 

Mesmo com suspeita da doença, desceu do carro para falar com sua claque. Desta vez, de máscara. “A um apoiador que pediu para retirar a máscara para uma fotografia, o presidente primeiro concordou, mas depois disse ao homem que ele não havia autorizado. ‘Tirou porque quis’, afirmou” Bolsonaro, segundo o relato do Estadão. A interação com apoiadores foi transmitida por um canal bolsonarista no YouTube. Mais tarde, em entrevista à CNN Brasil, Jair Bolsonaro confirmou que está com sintomas da covid-19, aproveitando para revelar que, mesmo antes da confirmação, começou a tomar hidroxicloroquina

Tudo isso aconteceu na mesma segunda-feira (6) em que o país chegou à marca oficial das 65 mil mortes causadas pelo novo coronavírus. E quando o presidente inaugurou um jeito novo de fazer vetos – à prestação – e publicou uma retificação à lei aprovada pelo Congresso Nacional para regular o uso de máscaras no país. Agora, além de querer que seu uso seja facultativo em templos e igrejas, comércios, etc., Bolsonaro descartou a proteção individual em um dos locais com mais riscos de contaminação: os presídios. E aproveitou para liberar os estabelecimentos comerciais de afixarem cartazes com informações ao público sobre o máximo de pessoas permitidas em suas dependências. Coincidentemente, também ontem, Donald Trump – para quem Bolsonaro sempre olha, como uma bússola – decidiu voltar atrás e encorajar “fortemente” o uso de máscaras em seu próximo comício. 

A crônica do dia em que o presidente de 65 anos (logo, no grupo de risco para a covid) informa à nação que talvez esteja com o que ele próprio caracterizou tanto tempo como uma “gripezinha” não poderia deixar de reunir todos os elementos caóticos do bolsonarismo. 

Na sexta-feira (2), Bolsonaro almoçou com executivos de nove grandes empresas, como Luiz Trabuco, do Bradesco, e Candido Pinheiro, da HapVida. Como os sintomas demoram a aparecer em média cinco dias – e porque ninguém estava de máscara, pelo menos segundo as imagens divulgadas – a ocasião pode ter sido foco de infecção

“Se estiver doente, evite contato físico com outras pessoas, principalmente idosos e doentes crônicos, e fique em casa até melhorar”, recomenda o ministério da Saúde. Pelo que consta da sua agenda oficial, mesmo com sintomas Bolsonaro, teria participado de seis reuniões com membros do governo, como José Levi (AGU) – que já divulgou que fará exame para covid-19 hoje. Só depois seguiu para o Hospital das Forças Armadas, onde fez exames, como uma ressonância dos pulmões. De acordo com a Secretaria de Comunicação, o teste para detecção do SARS-CoV-2 foi feito no Alvorada e o resultado sai hoje. 

ENQUANTO ISSO…

Totalmente fora dos holofotes, e 18 meses após a primeira convocação, o senador Flávio Bolsonaro compareceu ao Ministério Público do Rio para prestar depoimento no caso das rachadinhas. 

MORO

O ex-juiz e ex-ministro da Justiça Sérgio Moro foi parar nos Trend Topics do Twitter, no último dia 6, após usar em entrevista ao jornalista Valdo Cruz, da GloboNews, metáfora onde definiu a sua participação no julgamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como “no ringue com Lula”. A expressão pegou mal entre os internautas para quem o ex-juiz deveria fazer o papel de árbitro durante as audiências com Lula e não se colocar na posição de quem luta contra alguém que está sendo julgando.

LUNÁTICOS

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), criticou a paralisia no Ministério da Educação e se referiu ao ex-ministro Abraham Weintraub como “lunático”. O parlamentar defendeu ainda que o presidente Jair Bolsonaro se afaste do núcleo ideológico do qual o ex-ministro faz parte.  “Lunáticos conseguem prevalecer num debate onde a racionalidade deveria ser a principal palavra”, disse em entrevista à Globo News. “Espero que os lunáticos deixem de ser relevantes. O MEC não pode estar atrelado à política reacionária, populista, a um enfrentamento falso entre esquerda e direita.”

No último dia 8, dia em que o Ministério da Educação anunciou a nova data do Enem já na terceira semana sem ter um ministro, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, afirmou que espera que o presidente Jair Bolsonaro escolha um bom gestor na área e não alguém que seja “lunático”, repetindo o termo que usou para descrever Abraham Weintraub no domingo. Desde que Renato Feder declinou o convite de Bolsonaro ao MEC depois de pressões da ala ideológica do governo, o presidente vem prometendo diariamente anunciar um novo nome para a Pasta. “O governo precisa de um ministro que entenda de gestão, de qualidade da educação, que viva no mundo dos normais. Nós já temos muitos problemas apra ter um minsitro numa outra órbita”, descreveu Maia.

PADRE PORRETA

Um padre identificado como Edson Adélio Tagliaferro, de Artur Nogueira, no interior de São Paulo, não poupou críticas ao presidente Jair Bolsonaro durante celebração. No sermão aos fiéis, ele disse que os fiéis da cidade que votaram em Bolsonaro deveriam se confessar. Segundo o padre, o “governo não presta”. O religioso criticou ainda a conduta de Bolsonaro em meio à pandemia e a falta de um titular no Ministério da Saúde. “Vocês querem que eu fale aquilo que todo mundo fala, que não deixam ele trabalhar? Não! Bolsonaro não presta. Bolsonaro não vale nada. E quem votou nele devia se confessar, pedir perdão a Deus pelo pecado que cometeu, porque elegeu um bandido para presidente”, disse o padre.

SALLES NA MIRA

Uma ação de improbidade administrativa contra Ricardo Salles foi apresentada na Justiça. Na peça, procuradores afirmam que a atuação do ministro se caracteriza pelo “esvaziamento” e a “desestruturação” das políticas ambientais, num movimento feito para “favorecer interesses que não têm qualquer relação” com o Ministério do Meio Ambiente. A iniciativa é de 12 procuradores do Distrito Federal e da Força-Tarefa da Amazônia do MPF e teve como gota d´água as declarações de Salles na reunião ministerial do dia 22 de abril, quando ele disse que dava para “ir passando a boiada” e desregulamentando tudo o que fosse possível durante a pandemia. Eles separam em quatro as táticas de desestruturação do ministro: normativa; fiscalizatória, orçamentária e que atinge órgãos de transparência e participação (como no episódio do esvaziamento de conselhos consultivos). E pedem que a Justiça afaste Salles antes de julgar o mérito da ação. 

A assessoria de imprensa do Ministério rebateu os procuradores, dizendo que a ação “traz posições com evidente viés político-ideológico em clara tentativa de interferir em políticas públicas do governo federal”.  

PAZ E AMOR NADA

O ex-candidato à Presidência pelo PT, Fernando Haddad, disse na noite de segunda-feira, 6, que não acredita no discurso “paz e amor” do presidente Jair Bolsonaro, após a prisão do ex-assessor Fabrício Queiroz.

 “Mas o clima de liberdade, essa conquista a duríssimas penas que custou a vida de brasileiros, duas gerações para gente conquistar essa essência da humanidade de ter a liberdade de poder se expressar, errar, acertar, isso que temos que defender. Não acredito no Jair ‘paz e amor’ depois que o Queiroz foi preso. É uma estabilidade que está sendo comemorada que é falsa”, avaliou em entrevista ao Roda Viva.

O ex-prefeito de São Paulo estava defendendo a necessidade de formação de uma frente ampla pela democracia. “Até pouco antes da prisão do Queiroz, nós estávamos sendo ameaçados todo o final de semana. Por atos antidemocráticos, por discursos que fomentavam a violência, por ameaças, inclusive, a outros Poderes, à oposição, a jornalistas”, disse.

EXPLICANDO O INEXPLICÁVEL

É claro que também pegaram mal os vetos de Jair Bolsonaro à lei que permitiria um melhor enfrentamento da pandemia nas aldeias – foram mostras explícitas demais do descaso absoluto. Quanto a isso, Mourão afirmou que a contaminação nessas terras não tem a ver com, por exemplo, o garimpo ilegal, mas com a ida de indígenas à cidade para “receber algum benefício” ou para “comprar alguma coisa”. Só que Bolsonaro vetou a obrigação de o governo facilitar o recebimento dos benefícios e de garantir internet e cestas básicas nas aldeias, medidas que evitariam a necessidade das saídas. 

“Em relação à água potável, o indígena se abastece da água dos rios que estão na sua região”, disse o vice-presidente, referindo-se ao fato de que, com os vetos, o governo se desobriga de fornecer esse insumo mais do que básico. É claro que tal abastecimento não é possível onde o garimpo invade terras e polui as águas, nem em territórios minúsculos… “Se, porventura, algum rio daquele foi contaminado por atividade ilegal, notadamente garimpo, com uso de mercúrio, se leva água para esses grupos”, encerrou o general.

Retirar garimpeiros é algo que não será feito. Seria uma tarefa “hercúlea”, de acordo com ele. 

Hoje, povos isolados também estão sob ameaça. A Terra Indígena Vale do Javari, no Amazonas, registrou as duas primeiras mortes por covid-19 em um intervalo de três dias. Está nela a maior concentração de povos não contatados do mundo: são pelo menos 19. Além destes, há outros sete que não vivem em isolamento.“Nosso maior medo nesse momento são os isolados. Nós temos que protegê-los, pois eles têm uma imunidade muito baixa e, infelizmente, há muitos intrusos nesses territórios, onde o acesso é livre pelos varadouros, e essas pessoas podem levar a doença para eles. E, se o covid chegar lá, vamos perder muitas vidas”, alerta, na Folha, o representante da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), Chorimpa Marubo. Ele lembra que essa terra faz fronteira com o Acre e com o Peru, áreas onde há trânsito de invasores.

CONJUNTO DE FATORES

Os xavante são o terceiro grupo indígena mais atingido pela pandemia da covid-19 no país, com mais de 200 infecções conhecidas e 36 mortes. São nove terras indgíenas e várias aldeias no Mato Grosso, estado onde a pandemia mais cresce no Brasil. A matéria da BBC tenta entender o que acontece nessas aldeias para que o contaǵio tenha começado a se acelerar tanto, e há um conjunto tão diverso de fatores que é difícil elencar apenas um. Como em tantos outros lugares, faltam máscaras, material de limpeza e equipamentos de proteção até para os sepultamentos. Quem leva esses materiais para as comunidades são, em geral, voluntários e missões religiosas. O efeito disso, porém, parece ser o de piorar os contágios. Uma procissão – que, segundo o padre, foi iniciativa dos indígenas – pode ter se tornado foco numa aldeia que hoje é a mais atingida pelo coronavírus. Um vídeo de abril mostra um pastor evangélico fazendo culto de cura no quintal de uma residência, com indígenas e religiosos próximos e sem máscaras. Para completar, candidatos às eleições municipais entram e saem das aldeias em busca de votos.

EMPREGOS E AUXÍLIO

O IBGE lançou ontem uma pesquisa para identificar os efeitos da pandemia sobre as vendas, capacidade de pagamento e número de empregados das empresas brasileiras. Os primeiros resultados devem ser divulgados na próxima quinta, dia 16. 

Os pedidos de seguro-desemprego chegaram a 653,1 mil em junho, um aumento de 28,4% em relação ao mesmo período do ano passado. Segundo a Folha, é o terceiro mês seguido em que há um crescimento na casa dos dois dígitos. Mas houve queda em relação a abril e maio. Nesses meses, haviam sido respectivamente 748 mil e 960 mil requerimentos. 

Quanto ao auxílio emergencial, a Receita Federal e o Ministério da Cidadania fecharam um convênio para coibir fraudes. Os dois órgãos vão usar dados do Cadastro Único e do banco de informações do Imposto de Renda, trocar informações e fazer operações “de caráter preventivo e repressivo”. Já se passaram três meses desde que o auxílio começou a ser distribuído e, desde então, notícias sobre fraudes não param de pipocar.

GRITO MACHO

Um trecho de um vídeo publicado há cerca de um ano na página do YouTube de Wendell Carvalho viralizou na última semana. Nele, o coach incentiva um homem a dar seu “grito de masculinidade”. O tal homem começa a urrar e é seguido pelo resto dos participantes masculinos do evento, enquanto as poucas mulheres presentes, visivelmente constrangidas, tentam segurar o riso. Daí para o meme foi um passo.

O assunto “grito da masculinidade” bombou no Twitter com reações que iam da incredulidade à zoeira desenfreada. Mas ninguém conseguiu captar a essência desse exemplo ridículo de fragilidade masculina como a dubladora Vii Zedek. Mesmo já sendo adulta, ela se especializou em dublar crianças e personagens infantis e, em suas redes sociais, faz divertidas versões de vídeos que viralizaram ou trechos de filmes em que usa sua característica voz. E, é claro, ela não poderia deixar passar a oportunidade de dar seu “gritinho de masculinidade.  

Veja aqui e grite de tanto dar risada:

Esse universo não é novidade no canal de Vii, que já publicou alguns outros vídeos hilários, como o do ex-BBB Kleber Bambam e seus coleguinhas de malhação:

GENTE DE BEM 1

A reabertura de bares e restaurantes no Rio de Janeiro, que foi marcada por grandes aglomerações, também promoveu episódios de assédio moral a agentes da Vigilância Sanitária que tentavam conscientizar as pessoas presentes no local diante da pandemia do novo coronavírus. Reportagem do Fantástico, da TV Globo, exibida no dia 5, mostra um casal tentando intimidar um fiscal que tentava fechar um bar que não respeitava as regras de distanciamento social.  “Cadê a sua trena? Como você mediu as pessoas?”, disse o homem. “Cidadão não, engenheiro civil, formado, melhor do que você”, completou a mulher. O fiscal relatou que as pessoas estão “ensandecidas” e “agressivas” e que a equipe da Vigilância Sanitária tem sofrido ameças.

O engenheiro civil Leonardo Barros, protagonista do vexame acima (ao lado da esposa, Nívea del Maestro), pediu e recebeu em maio a primeira parcela do auxílio emergencial do governo. As informações são do jornal Extra. Bolsonarista, Barros se descrevia nas redes sociais como “pai, casado, engenheiro, atleta amador, mergulhador. Direita, anti-PT, anti-PSOL, anti-PC do B, anti extrema imprensa” mas, após a repercussão negativa do episódio da agressão, apagou seus perfis.

Em entrevista ao jornal Extra, o fiscal Flávio Graça afirmou que não se sentiu intimidado e criticou o comportamento do casal. O fiscal contou que sempre registra a situação dos locais com o celular, para dar legitimidade, e começou a ser atacado quando iniciou as filmagens. “Eles vieram e disseram que eu não tinha direito de gravá-los e pediram direito à imagem. Logo em seguida, falaram que iriam anotar o meu nome”, disse. “Todo cidadão contribui com seus impostos para justamente nós o protegermos. Esse foi o princípio da cidadania que eles não exerceram. Ela achou que cidadão é ofensa e não é. Quando eles falam aquilo, não nos atingem. Todos são formados e com curso superior. Ficou feio para ela, para a imagem do carioca”, afirmou.

Nívea del Maestro foi demitida da empresa que trabalha. A Transmissora Aliança de Energia Elétrica (Taesa) publicou uma nota em suas redes sociais comunicando o desligamento. “A TAESA tomou conhecimento do envolvimento de uma de suas empregadas em um caso de desrespeito às leis que visam reduzir o risco de contágio pelo novo coronavírus e compartilha a indignação da sociedade em relação a este lamentável episódio, sobretudo em um momento no qual o número de casos da doença segue em alta no Brasil e no mundo”, afirmou a empresa.

Mesmo depois do vexame, o casal diz que não se arrepende da maneira como tratou o superintendente de Educação e Projetos da Vigilância Sanitária, Flávio Graça. “Arrependimento não é uma palavra que eu usaria. Eu diria que o meu tom de voz pode ter sido alterado, mas eu continuo achando que não é uma questão de estar certo ou não. Estávamos usando do nosso direito de questionar o trabalho daquele servidor. Eu posso questionar qualquer servidor público ou quem está nos atendendo. Ele estava trabalhando para a gente e temos o direito de questioná-lo”, disse Nivea Valle...

FRASES DA SEMANA

“Eu não acho que o presidente, nem eu, nem ninguém, deve ficar tratando de qual remédio orientar a sociedade a tomar. Isso é questão da área médica, e é até grave que o presidente trate desse assunto”. (Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados)

“Ambos têm um caráter um tanto quanto populista na formulação das políticas públicas, com a diferença que o presidente Bolsonaro seria um populista de direita e o presidente Lula um populista de esquerda, com arroubos autoritários né.” (Sérgio Moro, ex-ministro da Justiça)

“Olhem agora o que está ocorrendo no Brasil e em outros lugares”. (Donald Trump, presidente dos Estados Unidos e aliado político do presidente Jair Bolsonaro.)

“Tem método muito parecido com a comunicação de massa do fascismo, por exemplo, o uso da religião. Difícil imaginar que Bolsonaro tenha compreendido a essência do cristianismo. Aliás, é próprio do fascismo matar o cristianismo falando de Cristo”. (Fernando Haddad)

“Nossa preocupação essencial, hoje, não é mais o buraco negro fiscal como até um ano atrás, mas sim emprego, renda e saúde”. (Paulo Guedes, ministro da Economia, redescobrindo o Brasil)

“É uma loucura. É uma loucura o que está acontecendo no Brasil. É uma liderança que em vez de estar ajudando a resolver o problema, está contribuindo para piorar o problema.” (Juan Manuel Santos, ex-presidente da Colômbia e Prêmio Nobel da Paz, sobre Jair Bolsonaro)

“Aqui é lei. O presidente Jair Bolsonaro, se vier ao Estado de São Paulo, deverá usar máscara, como todos os cidadãos. A lei em São Paulo vale para todos”. (João Doria, PSDB, governador)

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Com informações de Leonardo Sakamoto, Josias de Souza, Ricardo Noblat, Reinaldo Azevedo, Carta Capital, Outra Saúde, Sul 21, o Globo, Fórum, Veja, Dora Kramer, BRPolítico, Vera Magalhães, Marcelo de Moraes e


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