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Sábado 28.nov.2020

Ano IX - Nº 421

Mundo

Com ameaça de revogação do visto, estudantes brasileiros temem não conseguir voltar aos EUA

Alunos que vieram ao Brasil por causa de pandemia relatam o receio de não conseguir retornar ao campus das universidades, mesmo tendo aulas presenciais

Postado em 07 de Julho de 2020 - Camila Zarur – O Globo

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Com o anúncio de que os estudantes estrangeiros não poderão ficar nos Estados Unidos caso façam apenas aulas on-line, brasileiros estão tendo que rever seus planos para voltar às instituições de ensino americanas. É o caso da aluna do segundo ano da Universidade de Yale Maria Antonia Sendas, de 20 anos, que já foi informada de que o seu curso no próximo semestre será feito remotamente.

— A universidade decidiu que quem é do segundo ano vai fazer as aulas on-line, e os demais períodos, presenciais. A minha ideia, mesmo assim, era voltar para o campus para poder usar os recursos da universidade, como laboratórios e bibliotecas — conta a jovem, que está no Brasil por causa da pandemia.

De acordo com o comunicado divulgado na segunda-feira pela Agência de Imigração e Alfândega americana, alunos matriculados em programas acadêmicos ou profissionalizantes que oferecerem apenas aulas pela internet não poderão ficar no país, sob pena de serem expulsos.

Caso estejam fora do território americano, também não poderão entrar nos Estados Unidos para retornar ao campus. Segundo o presidente da Associação de Estudantes Brasileiros no Exterior (BRASA), Rafael Monteforte, isso faz com que outros estudantes, que terão aula presencial, tenham dúvidas se irão conseguir voltar aos EUA.

— Algumas universidades e os próprios alunos já estavam se organizando para conseguir contornar a proibição de viagens do Brasil para o Estados Unidos [imposta por Trump em maio] e fazer o período de quarentena em outro país. Mas, agora, isso ficou ainda mais complicado. Mesmo a pessoa provando que terá aulas presenciais na universidade, o sistema de imigração americano, que já é bastante rígido, tem o direito de barrar sua entrada — explica Monteforte, que cursa o 4º ano de Ciências Políticas e Economia no Grinnell College e planeja ir para o México para poder entrar no território americano depois.

Monteforte explica ainda que o anúncio da Imigração também vai afetar aqueles que iriam começar o próximo ano letivo nos Estados Unidos, em setembro. A nova determinação afirma que, no momento, o Departamento de Estado americano não vai emitir vistos de estudante cujas aulas seriam 100% on-line. 

— Isso fará com que as pessoas adiem a ida para os EUA para o próximo ano —  explica Monteforte.

De acordo com o Escritório de Assuntos Educacionais e Culturais do Departamento de Estado americano, o Brasil é o nono país que mais envia estudantes aos Estados Unidos, com um total de 16.059 brasileiros matriculados no ano letivo de 2018-2019. No total havia mais de 1,095 milhão de estrangeiros estudando nos EUA naquele período. 

Não serão diretamente afetados pela nova determinação os alunos que vão estudar no sistema híbrido, isto é, com aulas no campus e pela internet. No entanto, o presidente da Brasa alerta que, mesmo os estudantes que optarem por esse último esquema, podem ter que voltar ao Brasil caso não cumpram as três horas de créditos presenciais mínimas previstas no comunicado — o que faria com que eles perdessem o status no Sistema de Informações de Visitantes e Estudantes de Intercâmbio (Sevis, na sigla em inglês), pondo em risco o visto estudantil e a oportunidade de trabalhar no país. 

Segundo o comunicado, cada instituição de ensino terá o prazo de 10 dias para informar ao Sevis qual o esquema de aula que escolheu e a situação de cada aluno, para certificar que eles não estão fazendo uma grade apenas virtual. De acordo com Monteforte, a grande maioria das universidades adotará o sistema híbrido, entre elas Universidade da Califórnia, Stanford, Dartmouth College, Grinnell College e Universidade de Notre Dame. Já Harvard anunciou, nesta segunda, que vai manter o esquema das aulas apenas pela internet.

A nova determinação da agência de imigração americana não deixa claro se afetará apenas os cursos de graduação ou se a pós-graduação também estará incluída. Essa é a dúvida da doutoranda da Universidade de Chicago Isabela Fraga, que aguarda uma orientação da universidade.

— É tudo muito confuso. Como eu tenho a minha tese, que conta como full-time, não mudaria se as aulas ficassem só on-line, porque muitos de nós [doutorandos] não fazemos mais aulas. Mas ainda estou esperando o Departamento de Relações Internacionais da universidade explicar como isso pode nos afetar — diz a estudante, que classifica a decisão do governo de Donald Trump como xenófoba e uma forma de deterioração do ensino superior nos EUA.


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