Semana On

Sábado 08.ago.2020

Ano IX - Nº 405

Brasil

Apesar de Bolsonaro, apoio à democracia cresce no Brasil e chega a 75%

Datafolha mostra que flerte do presidente com passado é ideia sem futuro

Postado em 02 de Julho de 2020 - Ricardo Noblat (Veja), Josias de Souza (UOL), Huffpost – Edição Semana On

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O apoio da população brasileira à democracia aumentou, de acordo com pesquisa Datafolha divulgada no último dia 27, atingindo o maior índice da série histórica.

Em meio à crise política no governo Jair Bolsonaro, 75% dos entrevistados avaliaram o regime democrático como o mais adequado, enquanto 10% disseram que a ditadura é aceitável em algumas ocasiões.

Em dezembro, quando Datafolha fez a mesma pergunta, 62% apoiavam a democracia e 12%, a ditadura.

O Datafolha ouviu 2.016 pessoas nos dias 23 e 24 de junho, e a margem de erro da pesquisa é de dois pontos para mais ou para menos.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), foi ao Twitter comentar o levantamento Datafolha e afirmou que se vê “feliz e triste ao mesmo tempo”. Destacou o fato de ter nascido no Chile por conta do que chamou de “abuso da força da ditadura”. “Dia feliz para os que prezam os direitos humanos, as minorias, o respeito e a diversidade”, destacou, lembrando o dia internacional do orgulho LGBT. 

Tão importante quanto o aumento do apoio a democracia é a queda ao apoio a uma ditadura, que caiu para 10%.

O que aconteceu de relevante no país entre dezembro e agora para que o apoio à democracia tenha batido seu recorde desde quando o Datafolha começou a medi-lo em 1989? Naquele ano, pela primeira vez, os brasileiros foram às urnas eleger o presidente da República depois de 21 anos de ditadura militar.

Os últimos seis meses foram os mais tensos do ponto de vista político por obra e graça do presidente Jair Bolsonaro. Ele afrontou o Congresso e o Supremo Tribunal Federal, testou os limites da democracia e compareceu a manifestações de rua em Brasília onde seus seguidores pediram uma intervenção militar.

Só recentemente, Bolsonaro começou a dar sinais de que estaria disposto a governar de acordo com as leis. Sua aparente conversão às regras do jogo democrático deve-se a derrotas que colheu em votações no Congresso, ao risco de não completar o mandato, à prisão de Queiroz e ao medo do cerco judicial aos seus filhos.

Era de 22% o contingente dos que diziam há seis meses que tanto fazia que o regime fosse democrático ou ditatorial. O contingente caiu para 12%. Foi onde se registrou a migração pró-democracia. Os apoiadores de Bolsonaro são também os que mais aceitariam a implantação no país de um regime totalitário: 15%.

Já os que rejeitam o presidente tendem a apoiar mais a democracia (85%), assim como habitantes do Sudeste (80%). O sentimento democrático cresce com o grau de instrução e com maior renda, passando de 66%, entre quem tem o ensino fundamental, a 91%, entre os com formação superior.

O Datafolha perguntou como os entrevistados definem o regime que existiu no Brasil entre 1964 e 1985. Para 78%, foi uma ditadura, enquanto 13% não o veem assim. Os que responderam não saber, 10%. De todo modo, o país está dividido entre quem vê risco de uma nova ditadura (46%) e quem descarta isso (49%).

Análise

Jair Bolsonaro tornou-se maestro da insensatez. Cada vez que atua como regente de aglomerações antidemocráticas, dá as costas para o pedaço da sociedade que tem ojeriza ao autoritarismo. O Datafolha informa que o flerte do capitão com o passado é mesmo uma ideia sem futuro.

Ao endossar tacitamente atos que pregam extravagâncias militares, Bolsonaro cria um problema que o brasileiro não deseja ter. Participou de meia dúzia de manifestações. Na mais escrachada, misturou-se a uma multidão de adoradores defronte do quartel-general do Exército. Empoleirado numa carroceria de caminhonete, discursou para portadores de faixas que pediam o fechamento do Congresso, do Supremo e a volta de uma ditadura com AI-5.

"Não queremos negociar nada", vociferou, língua em riste. "É agora o povo no poder". Silenciou sobre o teor das faixas. Indagado na manhã seguinte, disse que não tinha nada a ver com elas. Dias depois, confundiu os generais que o rodeiam com generalidades: "Minhas Forças Armadas". Teve um arroubo de autocrata: "Eu sou, realmente, a Constituição". Fez cara feia para o Supremo: "Acabou, porra!"

O excesso de bolsonarices levou a Procuradoria-Geral da República a requisitar no Supremo a abertura de inquérito para investigar as manifestações antidemocracia. Curiosamente, o procurador Augusto Aras excluiu Bolsonaro do rol de investigados. Estão sob cerco judicial ativistas, parlamentares e empresários bolsonaristas. Mas convencionou-se que Bolsonaro não tem nada a ver com coisa nenhuma. Mal comparando, é como investigar a origem das escamas sem examinar o peixe.

Houve um tempo em que a "democracia" brasileira levava aspas. Nessa época, havia três poderes: Exército, Marinha e Aeronáutica. Após a redemocratização, quando o voto tirou as aspas da democracia, passaram a existir quatro poderes: o Executivo, o Legislativo, o Judiciário e o Dinheiro da corrupção, que antes era acobertado pela censura. Sob Bolsonaro, o sistema político brasileiro atingiu o ápice da originalidade. Virou uma democracia cuja Presidência está 100% isenta de democrata.

Na campanha de 2018, o capitão formou com o general Hamilton Mourão uma chapa puro-sangue militar. Cavalgando sobre os escombros de um sistema político apodrecido, prevaleceu sobre o petismo no segundo turno. Três meses depois de subir a rampa, empurrado pelos seus 57,7 milhões de votos, Bolsonaro ofereceu ao país uma ideia do que estava por vir.

Em um ano e meio de governo aconteceram tantas esquisitices que ninguém se lembra de um discurso que Bolsonaro pronunciou em março de 2019, numa cerimônia militar no Rio de Janeiro. Disse que governaria ao lado das "pessoas de bem do nosso Brasil, daqueles que amam a pátria, daqueles que respeitam a família, daqueles que querem aproximação com países que têm ideologia semelhante à nossa, daqueles que amam a democracia e a liberdade."

Nesse ponto, o orador sapecou: "Isso, democracia e liberdade, só existe quando a sua respectiva Força Armada assim o quer" (ouça abaixo). Já se sabia que Bolsonaro idolatra o torturador Brilhante Ustra. Era de conhecimento geral também que ele acha que não houve golpe nem ditadura (algo de que discordam 78% dos brasileiros). De repente, descobriu-se que um presidente recém-eleito enxergava a democracia como uma concessão das Forças Armadas, um favor que os militares fazem ao país. Deu no que está dando.

Nos últimos dias, acossado pela prisão do amigo Fabrício Queiroz e pelo suspense policial que se formou ao redor do filho Flávio Bolsonaro, o presidente vem levando a língua na coleira. Mede as palavras. Mas seu comedimento é tão sincero quanto o medo. Assim que adquirir com cargos e verbas o escudo do centrão na Câmara e a blindagem do Zero Um no Senado, o capitão reabre o paiol.

Era previsível que Bolsonaro tentasse em algum momento se vincular a um rebotalho parlamentar que ajudasse a dissociar sua Presidência e sua família das rachadinhas e dos vínculos milicianos do passado. Mas esperava-se que o capitão estabelecesse alguma conexão com a agenda do seu governo.

Abalroado pela pandemia, Bolsonaro acorrentou-se a um negacionismo tolo. Sua administração é empurrada para o olho de um furacão econômico. Atribuir a crise ao presidente é tolice. O problema é que muitos são incapazes de enxergar competência em Bolsonaro para administrar a conjuntura. Ele, por sua vez, é incapaz de demonstrá-la.

Por sorte, o Datafolha potencializa a percepção de que a democracia brasileira já fincou raízes. Assim, o mesmo regime que tolera um presidente que faz aliança preferencial com o desastre permite que os eleitores exerçam a cada quatro anos, com irrestrita liberdade, o inalienável direito de fazer besteiras por conta própria. Dependendo do tamanho do estrago, o brasileiro talvez prefira fazer uma besteira diferente.

Manifestos e grupos surgem por medo de uma ruptura democrática no País

A insatisfação com a política brasileira e o medo de uma ruptura democrática impulsionaram o surgimento de manifestos e grupos organizados por representantes da direita e da esquerda. Eles são formados por artistas, advogados, juristas, integrantes de torcidas organizadas, políticos, intelectuais, cientistas, empresários e pessoas de outros segmentos da sociedade civil que, de forma geral, são contra atos antidemocráticos e a favor da liberdade e do respeito à Constituição Federal.

O número de movimentos – que cresceu substancialmente nos últimos anos – faz um contraponto interessante com dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Se mais da metade dos brasileiros (54,2% da população) nasceu após 1985, ano em que o regime militar terminou, pode-se afirmar que poucas pessoas viveram, de fato, a experiência da ditadura, já que o porcentual desconsidera as pessoas que ainda eram crianças na época.

O receio de retornar a um regime ditatorial por causa dos ataques às instituições, das agressões à imprensa e de outros retrocessos deixa clara a polarização política no Brasil, situação que ocorre também em outros países. Para o professor de Harvard, Michael Sandel, que também é filósofo, essa tensão se deve ao problema da falta de participação dos cidadãos nas democracias mundo afora.

“Em muitas democracias, o que vemos é uma revolta contra as elites e os partidos políticos estabelecidos com base no sentido de que eles falharam em oferecer alternativas significativas na política. É importante olhar o mundo para observar os erros de algumas sociedades na direção de soluções extremistas, nascidas da raiva e do ressentimento, e tentar criar um debate forte o suficiente entre os cidadãos para que o Brasil não seja vítima de soluções extremistas que vemos surgir em algumas outras sociedades democráticas”, afirma o filósofo.

A professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e cientista política Nara Pavão faz uma ressalva e diz que as pessoas costumam pensar na democracia como o fator que vai resolver todos os problemas e entregar todos os resultados por si só. No entanto, isso é uma visão romantizada. “A democracia existe para que se coloquem conflitos na mesa e que se apontem caminhos para a solução, e não necessariamente para trazer resultados prontos”, diz.

Sociólogo político e professor da Universidade de Stanford, Larry Diamond acredita que a queda na valorização da cultura democrática se deve ao fato de que as pessoas estarem descontentes com o sistema em que vivem, em função de políticas que não atendem às suas reais necessidades. “Reflete algum aumento de disposição em considerar alternativas autoritárias, o que é maior em algumas sociedades que em outras. É um alerta de que não podemos contar para sempre com o comprometimento das pessoas com a democracia apenas pelo desejo de não viver sob um regime autoritário”, diz o docente.


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