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Domingo 09.ago.2020

Ano IX - Nº 405

Brasil

Com pandemia, taxa de desemprego sobe para 12,9% e 7,8 milhões de brasileiros perdem o trabalho

Abertura deixa 60,8 mi do grupo de risco em dúvida entre o bolso e a saúde

Postado em 02 de Julho de 2020 - Daniela Amorim e Renato Jakitas - O Estado de S.Paulo

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A pandemia da covid-19 continua provocando estragos profundos no mercado de trabalho. No trimestre em que a crise sanitária se agravou no País, de março a maio, 7,8 milhões de pessoas perderam o emprego, segundo dados divulgados nesta terça-feira, 30, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A população ocupada desceu a 85,9 milhões de pessoas, a menor da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), iniciada em 2012. Pela primeira vez, menos da metade da população em idade de trabalhar estava de fato ocupada.

A taxa de desocupação no Brasil ficou em 12,9% no trimestre encerrado em maio. No trimestre de dezembro de 2019 a fevereiro de 2020, quando o País ainda não sentia o impacto da crise provocada pela pandemia do novo coronavírus, a taxa de desemprego era de 11,6%.

O País já tem 12,7 milhões de desempregados. São mais 368 mil pessoas à procura de trabalho em relação ao trimestre anterior. Por esse ângulo, nem parece que houve uma piora tão grande no mercado de trabalho.

Mas é nos outros números da pesquisa que aparece o cenário trágico. A população fora do mercado de trabalho, que inclui as pessoas que não estavam trabalhando nem procurando trabalho, cresceu em 9 milhões de um trimestre para o outro, chegando a 75 milhões, um número recorde.

"É o pior momento em termos de pessoas fora do mercado de trabalho", disse Adriana Beringuy, analista da Coordenação de Trabalho e Rendimento do IBGE.

Segundo Adriana, a opção de aderir à inatividade em vez de procurar um trabalho está ligada às medidas de distanciamento social, mas também tem relação com a falta de perspectiva de encontrar um emprego.

“Quando saírem da inatividade, elas teriam dois caminhos, ou procurar e achar ou continuar procurando e não achar”, lembrou Adriana. “Não está tendo no horizonte reação de absorção de mão de obra, muito pelo contrário. A gente tem visto empresas e comerciantes apontando expectativa de redução de vendas e demanda. Agora, como essa população vai ser absorvida pela força de trabalho, seja na forma de ocupados ou desocupados, isso vai depender muito de como o mercado está demandando trabalho”, completou a pesquisadora.

O número de desalentados - que não buscam trabalho por acharem simplesmente que não vão conseguir uma vaga - alcançou o auge de 5,411 milhões. O resultado significa 718 mil desalentados a mais em relação ao trimestre encerrado em fevereiro, um salto de 15,3%.

"O que a gente percebe é que tem um efeito desalento que tem favorecido uma taxa menor de desemprego, mas não quer dizer que o mercado de trabalho não esteja em franca deterioração", diz Luciano Rostagno, estrategista-chefe do Banco Mizuho. Para ele, a taxa de desemprego deve continuar subindo, atingindo o pico em setembro (15,5%).

A renda média real do trabalhador foi de R$ 2.460 no trimestre encerrado em maio. O resultado representa alta de 3,6% em relação ao trimestre anterior. O avanço, porém, é explicado pela redução no emprego menos qualificado, que aumentou a média salarial de quem permaneceu empregado. A perda de ocupação durante a pandemia foi mais acentuada entre os trabalhadores informais, que recebem tradicionalmente menores rendimentos.

Como consequência, em apenas um trimestre, quase R$ 11 bilhões em remunerações de trabalhadores deixaram de circular na economia.

Entre o bolso e a saúde

Cardíaca e hipertensa, Aparecida Souza sabe que está no grupo de maior risco para o coronavírus e, mesmo com receio, se prepara para retornar ao trabalho. Ela foi por quase duas décadas dona de um salão de beleza na Avenida Paulista, em São Paulo. Fechou o negócio em maio, por não conseguir negociar a suspensão do pagamento de aluguel com o dono do ponto, e aceitou convite para trabalhar como funcionária em outro lugar – onde, mesmo com a atual proibição, vez ou outra atende clientes mais próximos.

“A ideia é trabalhar depois da liberação dos serviços pela Prefeitura. Mas a gente precisa fazer alguma coisa por enquanto”, diz a ex-empresária, de 53 anos. “Dá muito medo ter de sair de casa todo dia. Mas eu me protejo bem, coloco máscara e vou”, afirma.

Um levantamento realizado pelo Instituto Locomotiva, coloca em números o dilema relatado por Aparecida Souza. No momento em que as cidades começam a flexibilizar as regras de quarentena antes do achatamento da curva de infecções – retomando aos poucos as atividades no comércio e no setor de serviços –, 60,8 milhões de pessoas vivem a dúvida entre o bolso e o medo de ficar doentes. São brasileiros que integram o grupo mais vulnerável ao coronavírus, mas que dependem do trabalho para sobreviver.

Para o presidente do Locomotiva, Renato Meirelles, além do próprio impacto sanitário, em si, a saúde dessas pessoas vai, inevitavelmente, se refletir na economia do País.

“A abertura acelera o retorno dessas pessoas ao trabalho, já que muitos são chefes de família e, juntos, representam o principal mercado de consumo do Brasil”, diz ele. 

Segundo dados da Locomotiva, os brasileiros economicamente ativos desse grupo de maior risco respondem por R$ 1,57 trilhão em renda própria anual, o equivalente a 20% do PIB total do Brasil em 2019.

A pesquisa foi realizada entre 20 e 25 de maio e entrevistou, por telefone, mais de duas mil pessoas em 72 cidades do País. A margem de erro é de dois pontos porcentuais para cima e para baixo.

Apesar da responsabilidade financeira, um ponto destacado pela pesquisa é que, desse público, 85% ainda se dizem mais preocupados com a saúde do que com a economia. Fora do grupo de maior risco, essa opinião cai para 77% da população. 

Sobre o isolamento social, 77% dos integrantes do grupo mais vulnerável são favoráveis às medidas de restrição, ante 72% dos que não possuem idade acima de 60 anos ou histórico de saúde que agravaria a infecção pelo vírus.

Um exemplo é o paulistano Vanderlei da Silva Pinto, de 54 anos, que é cardíaco. Ele trabalha com vendas para o consumidor final e, fora da pandemia, sua rotina envolvia visitas e serviço de pré-vendas na casa de clientes. Com a escalada da covid-19, mudou a rotina. “Faço as vendas pela internet e pelo telefone”, conta. “Apesar de vender 80% menos do que antes, não quero mudar nada enquanto não tiver uma vacina”, afirma.

Na opinião do professor de economia do Ibmec André Diz, exemplos como o de Silva Pinto tendem a ficar mais raros na medida em que a quarentena for flexibilizada. “O trabalhador está pressionado e, conforme cresce o endividamento e se reduzem as barreiras, ele vai se expor na rua”, afirma.

O presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar), Claudio Felisoni de Angelo, concorda. Para ele, contudo, a retomada do varejo e dos segmentos de serviços será mais lenta do que a programada pelos governos. “É claro que o varejo e os serviços são dois grandes empregadores e, conforme aquece, vão tirar as pessoas de casa. Mas eu não acho que isso acontecerá tão cedo.”

No total, o País tem 80 milhões de brasileiros no grupo de maior risco para o coronavírus, segundo dados da Locomotiva com critérios estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Desses, 24% (19,2 milhões) são de aposentados e pensionistas.


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