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Sábado 28.nov.2020

Ano IX - Nº 421

Coluna

O Canjão

Segredos e manhas de um tímido barítono de alcova

Postado em 01 de Julho de 2020 - André Miguel Lucidi

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Tinha um problema gravíssimo que surgiu naquela idade em que os rapazes e as moças começam a flertar e, não era um problema simples. Toda vez que uma pessoa do sexo oposto se aproximava dele interessada, começava a suar quente e a falar mais fino do que seu vozeirão de barítono de rodas de samba soava, em plena normalidade. No dia em que confidenciou aos amigos, que só de se imaginar caminhando ao lado de uma mulher saindo da igreja, com todos jogando arroz em cima dele, o apavorava, e, que achava que a vida de solteiro era a vida feita para ele e não a de casado, logo arranjaram um apelido que por décadas viria a ser sua fama.  Canjão. O apelido fazia sentido. Arroz, agua quente e o agir dele, juntos .... Justo o apelido.

Os anos se passaram e os amigos e amigas do Canjão foram formando pares. Ele não. Resistiu bravamente a união e para evitar virar assunto nas rodas de conversa, tratou de se mudar para outra cidade maior, a fim de concluir seus estudos e entrar no mercado de trabalho. Os anos se passaram e ficou sumido por décadas, até que uma noite de sexta-feira em que os amigos e amigas estavam reunidos no bar da cidade, parou um carro importado na porta do bar de onde saltou um motorista que abriu a porta de traz e eis que surge um homem alto, bem vestido, elegante, que olha para todos. La do fundo da roda, um dos antigos amigos o identifica em meio a tanta ostentação.

_ Canjão ... Gente o Canjão voltou!

A roda entrou em polvorosa, muitos abraços e aquela conversa longa aconteceram para botar o assunto em dia, Canjão agora era diretor-presidente de uma empresa multinacional, havia acumulado uma grande fortuna e, permanecia solteiro, segundo confidenciou após algumas doses.

Algumas amigas dos velhos tempos, também. O que criou outra polvorosa entre as pessoas que o conheciam. Passou a ser o grande assunto o porquê de Canjão ter retornado a cidade, assunto que chegou aos ouvidos das mulheres que permaneceram liberadas de compromissos. Qual delas seria o motivo de seu retorno, era a pergunta que não fazia ninguém calar.

Bom, elas não esperaram e saíram ao ataque. Mandavam entregar bolos em sua casa, os vestidos subiram doze dedos, os perfumes pairando no ar a distância... Mas Canjão não tomava nenhuma atitude. Até que um dia Florência, mais experiente nas artes do namoro, tomou uma atitude saindo a frente das outras concorrentes. Botou a sua minissaia de causar acidente de transito e partiu para casa dele, com duas garrafas de vinho. Só saiu de lá dois dias depois.

Quando as outras souberam disso, resolveram abrir concorrência, afinal, nenhuma delas era mais mocinha, estavam mais para virarem bandidas e em um futuro breve, tentar roubar o marido de outras, do que aparentarem pouca experiência. Foi assim que Canjao conheceu todas as mulheres que haviam permanecido solteiras na cidade, mas, ao fim de inúmeras aventuras amorosas, não escolheu nenhuma par ser companheira, o que fez vários amigos acharem que ele realmente não ia ter jeito, e mais, agora teriam que tomar cuidado com a fama que Canjão adquirira junto as mulheres. Para tirarem esse galho da cabeça, marcaram uma rodada derradeira com ele, somente homens presentes.

Boteco cheio, cerveja e cachaça rolando solta, muitos sambas cantados, foram todos ficando mais falantes inclusive o Canjão, que nesse dia segundo o discurso já mais que tocado de um amigo, fazia jus a perder o apelido, desde que contasse exatamente o motivo pelo qual não iria escolher nenhuma das mulheres com quem estivera. Meio sem graça, tomou coragem e olhando todos os amigos de infância e juventude, resolveu confessar.

- Nenhuma delas me fez ter a voz de barítono na cama.


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