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Domingo 09.ago.2020

Ano IX - Nº 405

Coluna

O cinema e as inquietações visionárias de George Orwell

Suas obras são incrivelmente visionárias, portanto, uma floresta ainda a ser desvendada pela riqueza das artes audiovisuais

Postado em 01 de Julho de 2020 - Clayton Sales

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Grandes telas arregalam-se com imensurável poder sobre a vida de cada cidadão da Oceania. Verdades alternativas são introjetadas na educação das pessoas. Um novo idioma reduz a quantidade de palavras a fim de eliminar ideias que não interessavam ao regime. O governante supremo oferece um coquetel que mistura uma entorpecente sensação de segurança com explícito controle não consentido sobre os indivíduos. Ele não tinha um nome. Era apenas conhecido como Grande Irmão. Sua plataforma de governo consistia em vigilância implacável, controle ideológico e consolidação de ideias paradoxais, como "guerra é paz", "liberdade é escravidão" e "ignorância é força". 

O cenário sombrio era apenas a ficção de um futuro tenebroso quando o mundo derrotara o nazismo e o fascismo, mas a Guerra Fria colocava em colisão novas duas forças geopolíticas e ideológicas colossais. O livro "1984" (1949) é um dos maiores sucessos literários de todos os tempos, impulsionado sempre que o planeta assiste a ascensão de figuras com libidos e pendores autoritários. Por isso, atualmente, voltou a ser um best-seller. Era o mundo elaborado pela angústia de um britânico nascido na Índia dominada pelo imperialismo do Reino Unido, monstro político e econômico que ele tanto abominava. Era o mundo pavoroso de Eric Arthur Blair, que ingressou na literatura adotando o pseudônimo de George Orwell. 

Socialista, mas crítico à Stalin, democrático, mas crítico ao capitalismo, George Orwell caiu no gosto popular pela sua perspicácia "profética" como romancista, como jornalista de faro apurado e escrita certeira. Do coração dos amantes da literatura distópica ao cinema, não tardou, embora não existam tantas produções diretamente inspiradas em seus livros. O clássico "1984" ganhou apenas duas adaptações cinematográficas. A primeira foi lançada em 1956 sob a direção de Michael Andersen com Edmond O´Brien no papel do personagem Winston Smith, o indiferente funcionário do Ministério da Verdade da Oceania que se rebela contra a tirania do Grande Irmão. A mais conhecida e melhor versão audiovisual é a dirigida por Michael Radford, estrelada por John Hurt e Suzanna Hamilton. Curiosamente, esse filme "1984" chegou aos cinemas em...1984.

As ramificações da influência dos cenários distópicos de Orwell, no entanto, podem ser encontradas em produções como "Brazil - O Filme" (1985) de Terry Gilliam, sobre um lugar cujo senso crítico é ofuscado por uma organização social burocrática, que cultua frivolidade e bizarrice. Apesar do nome, a produção não se inspirou em nosso país, apesar de sua trilha sonora ter uma versão em inglês de "Aquarela do Brasil" de Ary Barroso, cantada por Kate Bush. As digitais das agonias políticas da obra de Orwell podem ser detectadas também em "V de Vingança" (2005) de James McTeigue, sobre um homem libertário que deseja vingança contra quem deformou seu rosto sob um regime totalitário. 

Outro filme que deixa rastros das ideias orwellianas é "THX-1138" (1971), primeiro trabalho dirigido por um George Lucas pré-Star Wars, sobre duas pessoas que viviam em um mundo vigiado por androides onde era proibido se emocionar. Mais uma produção sobre a qual paira o espírito de Orwell é "Equilibrium" (2002) de Kurt Wimmer, sobre um lugar pós-apocalíptico em que vigora um governo autoritário que obriga as pessoas a tomar uma droga para anestesiar os sentimentos. E se a vida imita a arte, é possível até incluir "Snowden" (2016) de Oliver Stone, baseado na história real de Edward Snowden, ex-analista da NSA que revelou ao mundo como os EUA construíram um sistema de vigilância global, incluindo sobre os seus próprios cidadãos, desprezando o direito à privacidade. Tio Sam is watching you...

Antes de "1984", George Orwell havia lançado outro livro que se tornou clássico. "Revolução dos Bichos" (1945) é uma fábula que narra a história de animais de uma fazenda que conseguem expulsar o proprietário humano do lugar e conquistar o poder. Donos de suas próprias decisões, entretanto, novas disputas são travadas agora entre as diferentes espécies de bichos. A obra foi adaptada duas vezes para o audiovisual. Financiada pela CIA como tática para se impor à URSS na Guerra Fria, a animação lançada em 1954 teve a direção de John Halas e Joy Batchelor. Tanto o uso como antipropaganda pelos governos americano e britânico quanto a distorção das ideias do livro sofreram críticas contundentes na época. Orwell rejeitava o comunismo soviético, mas não da forma como os produtores do desenho animado levaram ao público. Décadas depois, em 1999, o diretor John Stephenson realizava "Animal Farm" para uma TV britânica, com recursos mais avançados e sensíveis diferenças em relação ao clássico literário.

Não foram apenas os dois livros mais conhecidos de George Orwell que ganharam versões para a sétima arte. "Moinhos de Vento" (1936) é um romance sobre a resignação do homem diante da força do dinheiro. A obra ganhou a adaptação intitulada "Keep the Aspidistra Flying" (1997) pelas mãos de Robert Bierman com Helena Bonham Carter e Richard E. Grant no elenco. "Shooting an Elephant" (1936) é um ensaio que narra a história de um policial da Birmânia obrigado a atirar, contra sua vontade, em um elefante agressivo. Apesar de sagrado no país, o povo deseja que ele assassine o animal. Concebido como uma metáfora do imperialismo britânico na Ásia, contra o qual Orwell era oponente voraz, a obra foi transformada em um curta-metragem homônimo dirigido por Juan Pablo Rothie, lançado em 2016. 

George Orwell foi romancista, repórter, escreveu ensaios e artigos, e trafegava pela poesia. Era um homem inquieto, que amava a liberdade e a defendia com ardor, usando sua escrita para denunciar arroubos de tirania de seu tempo, mas era implacável também com as desigualdades econômicas causadas pelo sistema de poder que vigorava em sua época. Uma mente e uma caneta tão profícuas jamais escapariam dos olhos do cinema. Afinal, Orwell unia sua defesa das liberdades democráticas aos preceitos de justiça social que o fizeram adotar o socialismo. Suas obras são incrivelmente visionárias, portanto, uma floresta ainda a ser desvendada pela riqueza das artes audiovisuais. Sinal inequívoco de que George Orwell ainda tem muito a desnudar sobre esse estranho hoje e um ainda muito nebuloso amanhã. 


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