Semana On

Quarta-Feira 12.ago.2020

Ano IX - Nº 405

Viver bem

Seu filho está comendo mais durante a quarentena?

Depois de meses em isolamento, famílias relatam mudanças nos hábitos alimentares dos filhos e dizem que o consumo de doces e guloseimas aumentou

Postado em 30 de Junho de 2020 - Carolina Delboni - Estadão

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A quarentena não tirou as crianças apenas das salas de aula, mas também das refeições que eram feitas nas escolas. E para os que comiam em casa, muitas vezes com avós e babás, a rotina também mudou brutalmente. Se antes comiam melhor, comiam também mais rápido porque os horários eram contados e justos. Agora, 24hs por dia em casa, pais e mães relatam que filhos têm comido mais. Nem sempre melhor, mas as quantidades aumentaram.

“O que tem pra comer?” virou pergunta corriqueira dentro de casa. Mal acaba o almoço e tem filho já abrindo a geladeira perguntando o que tem pro lanche. À procura por guloseimas e doces disparou nessa quarentena de coronavírus. Carolina Guimarães relata que o filho, de 6 anos, tem comido mais e pior. “Tem mais vontade de doces e guloseimas, mas estamos segurando senão come o tempo todo! Teve um dia em que estávamos em reunião ao mesmo tempo e ele ficou sozinho vendo desenho. Quando vimos, ele tinha comido três danones seguidos. Acho que tem comido mais porque está ocioso, ainda que tenha aulas online”.

O que está acontecendo com crianças e adolescente que estão comendo mais? O relato que as mães fazem não é apenas uma percepção. A nutricionista dra Viviana Brant de Carvalho, especialista em clínica funcional de crianças e adolescentes, diz que tem acompanhado a mudança de comportamento em conversas com famílias. “A maioria das crianças estão fazendo menos atividades físicas porque os clubes e escolas que oferecem esportes estão fechadas e estão com mais tempo livre em casa. Sem falar que é uma mudança de vida grande todo o contexto do isolamento social e da pandemia. Claro que gera estresse e tensão e nesses momentos elas acabam indo muito mais para guloseimas do que alimentos saudáveis”, fala.

Janaina Nascimento tem dois filhos, 2 e 5 anos, e conta que estão comendo menos comida e pedindo mais lanches, como bolachas e salgadinhos. “A ingestão de doce aumentou um pouco. Hoje eles queimam muito menos calorias do que quando estavam na escola. Correm, pulam menos e o doce entra como uma forma de prazer, já que o prazer físico está limitado”. Os filhos de Janaina e ela mesma não estão sozinhos nessa quarentena. Muitas crianças têm comido mais doces e besteiras para saciar o tédio e ganhar alguns momentos de prazer diante de tanta limitação.

“Meu filho de 2 anos passou a comer mais e acabamos liberando mais bobagens: salgadinhos, balas de goma, bolachas durante a tarde”, conta Isa Martin. “Ele passou a pedir mais comida durante o dia também. Ele é filho único e está sem contato com nenhuma outra criança há mais de 3 meses. Alguns dias fica nervoso porque está dentro de casa sem poder passear. Penso que a comida é uma recompensa pelo que estamos passando”.

“A minha almoçava e jantava na escola, sou uma negação na cozinha”, fala Iris Ramirez, mãe de uma menina de 6 anos. “Está comendo pior e já dá pra ver na pele dela. Muito delivery de arroz, feijão e uma carne. Quando faço é massa, ovo e miojo”. E não para por aí. Os lanches que antes eram frutas, na escola, passaram a ser pizzinha, esfiha ou kibe. E a maior parte deles, Iris compra congelado. “Já tentei aplicativos de receita, mas só gasto dinheiro e não faço nada! Sem tempo, paciência e não gosto. O Ifood tem salvo por aqui”.

“Claro que a gente pode ter um pouco de flexibilidade para as guloseimas nesse momento”, ressalva a dra Viviana. “A alimentação não pode ser mais um motivo de estresse em um momento tão difícil para as crianças que já estão cansadas. A gente vai precisar ter mais flexibilidade agora. A casa é o único lugar que a criança tem pra estudar, conviver, falar com os amigos. Não tem diversidade de espaços e a casa também precisa ocupar o lugar de prazer e alegria”.

“Aqui comem mais sim, parecem uns ogros”, conta Francis Simas, mãe do Gabriel de 11 anos e da Maria Eduarda, 8. “As besteiras comem também, porém eles que controlam. Meu papel é ensinar o que faz bem, o que faz mal, o que é saudável. Deixo na responsabilidade deles”. Francis conta que os filhos andam comendo de 7 a 8 vezes por dia. “Fazem lanches a cada 2hs e ficam dizendo que estão com fome. Passam o dia andando pela casa sem ter o que fazer”.

Polly Fernandes, mãe de uma menina de 7 anos e um de 4, conta que a mudança na rotina alterou os horários da casa, o que a levou a fazer pequenas concessões com as crianças. “Eles têm pedido muito doces e guloseimas e mesmo conhecendo as regras da casa perceberam que acabei flexibilizando mais por conta do momento”. Polly ressalta a dificuldade de conseguir manter rotina, hábitos, trabalho, aulas online e faxina da casa sendo mãe sozinha. “No meio disso tudo, descascar mais e desembalar menos tem sido um grande desafio”, desabafa.

Comer mais é observação geral de todas as famílias. A falta do que fazer, a pouca movimentação física dentro das casas e apartamentos, tem realmente levado as crianças e adolescentes a passarem o dia comendo, durante a pandemia. Virou distração. Ao menos a procura de algo a fazer. E muitos têm ido pra cozinha testar receitas que veem no Youtube ou que trocam com colegas da escola. Algumas, aliás, criaram murais no Padlet com receitas.

As filhas da Fabiana Mendonça, de 5 e 10 anos, têm comido mais besteiras, mas têm ido pra cozinha fazer receitas também. “A minha mais velha tem feito várias receitas práticas como bolo de caneca, pudim de caneca, pão de queijo com três ingredientes, um café gelado delicioso e por aí passam-se os dias”.

Mas nem só de guloseimas as crianças e aos adolescentes têm vivido essa quarentena. Tem um contraponto. As famílias agora estão todas juntas em casa. As refeições, que nem sempre eram feitas à mesa e com todos juntos, agora são. E as famílias têm ocupado a cozinha de maneira muito mais assídua.

“Os restaurantes estão fechados e as crianças não estão comendo nas escolas, o que faz com que os pais tenham mais oportunidade de participar da alimentação dos filhos. De fazer mais pratos em casa, de fazer a própria comida. Tem uma vivência disso muito positiva e que reflete na qualidade direta do que se come”, fala a dra Viviana.

“A quarentena trouxe mudanças em casa”, conta Priscila Magrin, mãe de dois meninos com 8 e 6 anos. “Ainda que a tarde as crianças escalem as prateleiras, estamos nós quatro comendo juntos e as crianças têm experimentado mais coisas. Legumes novos, comidas diferentes e a interação entre a gente é maior”. O mesmo relata Geisa Torritezi que diz, inclusive, estarem comendo melhor. “Até pães eu faço porque não vamos mais a padaria”.

Na casa da Carolina Versatti a alimentação também melhorou. Preocupada com a imunidade da família e o medo de pedir delivery, levou a casa a comer melhor. “Priorizei frutas, bastante legumes e fui inventando receitas pra não torcerem o nariz”, conta. “Acabei me dedicando muito mais as refeições neste momento, fui testando receitas e acabaram criando hábitos mais saudáveis, como comer fruta no lanche sem eu ter que oferecer”. Dra Vivana ressalta a importância de usar este tempo em casa, justamente, pra fazer receitas mais saudáveis, ainda que muitas sejam guloseimas.

Milena Timerman diz que os protocolos da casa continuam saudáveis e conseguiram-se manter longe das guloseimas. “Simplesmente não enlouquecemos com a nova situação. “Nunca dei muitos doces para as crianças e sempre priorizamos frutas. Almoço e jantar sempre começa com salada e acho que manter os horários da rotina faz com que as crianças fiquem menos ansiosas pois sabem o que está por vir. Procuro fazer o que acho que é melhor para eles e não o mais fácil para mim e tenho trabalhado muito”, conta. Monica Rentroia também priorizou a rotina pra evitar o estresse excessivo do filho Pedro.

Entre uma rotina mais saudável e uma mais cheia de guloseimas, o fato é que crianças e adolescentes andam comendo mais. E as famílias têm a oportunidade de conviver mais entre elas e isso é o que deve ser mais prazeroso. Essa é a memória pra guardar.


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