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Sábado 11.jul.2020

Ano VIII - Nº 401

Comportamento

Por que tantas pessoas estão voltando a procurar seus ex-parceiros durante a pandemia?

O distanciamento social está tendo alguns resultados bizarros...

Postado em 30 de Junho de 2020 - Maija Kappler – Huffpost

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Aconteceu, finalmente. Em abril, Britney Spears postou um vídeo dela própria dançando ao som de uma canção de Justin Timberlake, e ele respondeu com uma sequência de emojis entusiasmados.

É a primeira interação pública entre os dois que vemos desde a separação muito litigiosa deles em 2002, que originou uma competição legendária de dança que pode ou não ter acontecido de fato e vários vídeos musicais de tema vingativo, além de ter deixado muitas pré-adolescentes de coração partido. Durante este período bizarro de distanciamento social e autoisolamento, o ex-casal se reaproximou, finalmente – virtualmente.

E não foram apenas Britney e Justin Timberlake.

A psicóloga Kassandra Heap, de Calgary, no Canadá, revelou que muitos de seus pacientes, além de vários de seus amigos, têm cedido à tentação de entrar em contato com seus ex nas últimas semanas, em meio à pandemia de coronavírus.

“É uma coisa que está acontecendo, sem sombra de dúvida”, ela disse ao HuffPost Canadá. “Ando discutindo esse assunto com uma amiga minha que me procurou faz pouco tempo para perguntar: ‘por que estou com vontade de entrar em contato com todos meus ex-namorados?’.”

Por que isso está acontecendo

Em primeiro lugar, disse Heap, há uma explicação óbvia: o tédio. Não podemos ir a bares, eventos esportivos foram cancelados, os cinemas estão fechados e os encontros com amigos na vida real foram adiados por tempo indeterminado. Com mais tempo e menos estímulo, é natural que fiquemos tão enfastiados que queiramos entrar em contato outra vez com pessoas em quem normalmente não temos nem tempo para pensar.

Mas não é apenas isso, ela explicou: entrar em contato com uma pessoa conhecida, familiar, nos traz algum conforto, mesmo que o relacionamento passado com essa pessoa tenha sido péssimo.

“Estamos vivendo sob um tipo inteiramente novo de estresse, enfrentando um inimigo invisível”, explicou Heap. “Os humanos anseiam pelo que nos é familiar, especialmente nas horas de tensão maior. Quando estamos estressados, procuramos o conforto para lidar com a tensão. E, como o ser humano é sociável por natureza, geralmente buscamos nos reconfortar com outras pessoas.”

O papel da tristeza em tudo isso

Arian Guedes, outra psicóloga de Calgary especializada em problemas de codependência, disse que vê o desejo de entrar em contato com antigos companheiros como uma função da tristeza mal trabalhada.

“Na nossa sociedade, não aprendemos a fazer um ‘luto’ sadio por relacionamentos que terminaram em separação”, disse Guedes ao HuffPost Canadá. “Muitas pessoas não encaram uma separação como uma perda, um motivo para ficar de luto. A tristeza e o luto geralmente só são associados à morte.” Por essa razão, muitas pessoas procuram distrações depois de uma separação, em vez de se deixar vivenciar o espectro completo de suas emoções. Mas esses sentimentos podem acabar voltando de maneiras inesperadas.

“Durante a pandemia, as pessoas têm tempo para revisitar seu passado”, ela explicou. E isso frequentemente envolve o desejo de saltar diretamente para a última etapa do luto: encontrar um sentido. Isso pode implicar entrar em contato com alguém de seu passado. Mas, segundo a psicóloga, é difícil encontrar um significado se você não começa por reconhecer sua vulnerabilidade e se deixar chorar a separação.

É um instinto normal

Buscar conforto especificamente de um ex é um impulso natural. “Temos um sistema de apego que faz parte intrínseca de nossa psique”, disse Heap. “Na infância, dependíamos de cuidadores adultos para satisfazer nossas necessidades, especialmente quando estávamos tristes ou angustiados.”

Segundo a psicóloga, reproduzimos esse padrão na idade adulta, frequentemente com as pessoas com quem formamos relacionamentos íntimos.

“Para mim, faz sentido que as pessoas busquem entrar em contato com seus ex-companheiros durante este momento, porque seu sistema de apego está super mobilizado”, ela explicou. “As pessoas não estão sabendo lidar com esta situação, não estão conseguindo lidar com suas necessidades emocionais. Estão buscando alguém que as reconforte. Alguém que lhes seja familiar: uma base segura, um refúgio seguro.”

Buscar consolo e segurança de um antigo parceiro é tudo bem para pessoas que tiveram separações amigáveis e ainda têm relações cordiais com seus ex. Mas, e quem viveu relacionamentos péssimos e separações litigiosas? Por que algumas pessoas andam sentindo necessidade de entrar em contato com seus piores ex, as pessoas que as trataram mal, pessoas de quem elas fariam bem em manter distância?

Segundo Heap, a parte do nosso cérebro que deseja aquela conexão não é muito hábil em diferenciar relacionamentos sadios de relacionamentos tóxicos.

“Nosso sistema de apego não sabe discernir muito bem”, ela explicou. “Ele procura se aproximar de qualquer pessoa a quem fomos apegados no passado, mesmo que não tenha sido um bom relacionamento.”

Pense bem sobre o que você pode estar ganhando com isso e que não conseguiria em outro lugar

Antes de tomar a decisão de entrar em contato com alguém de seu passado, reflita sobre o que a levou a separar-se daquela pessoa, em primeiro lugar. A pessoa era controladora? Você tinha dificuldade em controlar seus impulsos piores quando estava com ela? Cada um de vocês trazia à tona o que o outro tinha de pior?

“Geralmente a pessoa é ‘ex’ por um motivo”, refletiu Heap.

Na próxima vez que você tentar entrar em contato com um ex, reflita sobre o porquê de estar fazendo isso. Pese os prós e contras. Considere algumas outras maneiras de conseguir a validação que você almeja.

Se estiver procurando vínculos sociais, aconselhou Heap, pense se não há outra pessoa que possa lhe garantir isso. Se você quiser ficar mais de bem consigo mesma, pense em fazer meditação ou manter um diário. Se precisar investir sua energia em alguma coisa, pense em adotar um hobby novo, em envolver-se em trabalhos humanitários ou pensar em sua carreira profissional.

Também há uma tonelada de distrações temporárias que podem funcionar como mecanismos para enfrentar o tédio e a solidão, coisas como Tik Tok, Netflix, ler um livro ou curtir o Instagram.

Pergunte a si mesma: será que estou idealizando o passado?

É fácil olhar em retrospectiva hoje, lembrar de como você foi feliz em um momento diferente da vida e atribuir essa felicidade ao relacionamento que você tinha na época, disse Guedes. Ela já teve muitos pacientes que pensavam que, se voltassem para a pessoa que namoraram dez anos atrás, voltariam a ser aquela pessoa que eram dez anos atrás.

“Quando vamos aprofundando a questão, pergunto ao paciente: ‘O que você fazia naquela época?’.” Muitas vezes o paciente fala de um estilo de vida diferente, uma vida em que ele praticava mais esportes e saía mais com amigos. “Mas ele associou tudo que havia de bom no passado à pessoa que estava namorando na época.”

Se você decidir procurar seu ex, procure entender o porquê – mas não se cobre demais

“Não existe nenhum livro de regras que defina como devemos enfrentar o que está acontecendo neste momento”, falou Heap. “Se você decidir entrar em contato com um ex, ok, é isso que você decidiu fazer. Acho que não precisa haver uma tonelada de vergonha ou sentimento de culpa por conta disso. Você está tomando essa atitude por uma razão.”

Encarar suas maneiras de lidar com o estresse em termos de preto ou branco, por exemplo “maneiras sadias” ou “não sadias”, não vai te ajudar.

“Para mim, usar rótulos como ‘sadio’ ou ‘não sadio’ não tem valor”, disse Heap. “O que tem valor é o que funciona para você. Portanto, é bom pensar: o que vai me ajudar no curto prazo e no longo prazo? Acho perfeitamente válido usar alguma coisa no curto prazo que te ajude, mesmo que não vá te fazer bem no longo prazo.”

O importante, disse ela, é reconhecer e compreender que é isso o que você está fazendo.

Vai funcionar bem “desde que você reconheça que está fazendo algo apenas a título temporário e que isso não vai se tornar um hábito ou padrão para você”.

Em vista de tudo isso, faça um esforço para ser gentil consigo mesma em relação aos mecanismos que você usa para enfrentar dificuldades.

“É importante encarar isso sem fazer um julgamento e enxergar como o que é – um mecanismo de enfrentamento. Talvez te ajude no curto prazo. Talvez não. Mas encare sem fazer julgamentos. Seja compassiva e gentil com você mesma.”

Este texto foi originalmente publicado no HuffPost Canadá e traduzido do inglês.


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