Semana On

Domingo 12.jul.2020

Ano VIII - Nº 401

Poder

Funcionários do Banco Mundial voltam a mostrar desconforto com indicação de Weintraub

Em nova carta, associação afirma que ele é risco à reputação da instituição e precisa ser muito bem orientado sobre postura da instituição

Postado em 26 de Junho de 2020 - Folha de SP, João Frey (Congresso em Foco), Josias de Souza (UOL) – Edição Semana On

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A Associação de Funcionários do Banco Mundial voltou a cobrar o comitê de ética sobre a nomeação de Abraham Weintraub como diretor-executivo da instituição e pediu uma "palestra severa" no seu primeiro dia de trabalho caso o colegiado não atue nas investigações sobre a conduta do ex-ministro.

Em nova carta divulgada na quinta-feira (25), a associação diz que Weintraub compromete a reputação do banco e cobra que o conselho de ética reconsidere as apurações sobre seu comportamento, pedido enviado pelo grupo na quarta-feira (24), porém, refutado pelo colegiado.

"Deveria ser muito razoável esperar que o Banco Mundial tenha voz quando o candidato nos expõe a um risco de reputação considerável e compromete nossa capacidade de cumprir nossa missão​", diz o documento.

"A menos que o conselho ou a gerência sênior decida ser proativo e se manifestar, ficamos com a garantia de que, quando o Sr. Weintraub aparecer para trabalhar no primeiro dia, ele receberá uma palestra severa. Este é um dia em que os funcionários podem optar por comemorar de uma maneira diferente. Fique ligado."

O conselho de ética do banco afirmou na noite de quarta-feira (24) que não poderia influenciar na nomeação ou eleição para o cargo de diretor-executivo e que o código de conduta só poderia ser aplicado para funcionários já empossados, o que não é o caso de Weintraub.

"A partir do momento em que ele se torna um funcionário do conselho, um diretor-executivo está sujeito ao Código de Conduta para Funcionários do Conselho (o Código), que se aplica prospectivamente", diz a resposta do comitê de ética.

Na tréplica de quinta-feira, a associação cita o 13º parágrafo do código de conduta do banco no qual, de acordo com o grupo de funcionários, está escrito que as recomendações sobre comportamento podem ser dadas a integrantes que ainda não tomaram posse.

A associação quer que a nomeação de Weintraub fique suspensa até que seu comportamento e declarações consideradas racistas sejam apuradas internamente pelo comitê de ética.

Os exemplos são as falas do ex-ministro em relação a minorias e à China, além de seu discurso que pregava a prisão de ministros do STF (Supremo Tribunal Federal).

O presidente do conselho de ética, Guenther Schoenleitner, respondeu que o comitê compartilha dos valores da associação mas não pode agir na prática, e que Weintruab deve ser eleito no processo de votação que é considerado apenas uma formalidade, visto que o Brasil tem maioria no poder de voto dentro do grupo de outros oito países do qual faz parte.

"[...] Nem a administração nem o Comitê de Ética do Conselho influenciam a nomeação ou eleição de um DE [diretor executivo]. Os diretores executivos são nomeados ou eleitos pelos acionistas, ou seja, países membros", diz a carta do conselho de ética.

Em caráter reservado, líderes da associação disseram que a carta contra Weintraub era um "movimento político" para externar a posição de desconforto dos funcionários com sua nomeação, assim como o documento de quinta, com o pedido para que o colegiado reconsidere fazer as apurações. Eles admitem, porém, saber que o comitê de ética não deve tomar nenhuma medida concreta.

Weintraub ainda não tem vínculo formal com o Banco Mundial. Ele foi nomeado para a vaga de diretor executivo no conselho administrativo, na cadeira do grupo do Brasil, mas o processo de sua eleição ainda não aconteceu e pode levar até um mês.

​O ex-ministro viajou às pressas e chegou a Miami no sábado (20), dois dias depois de ter sido demitido pelo presidente Jair Bolsonaro, mas sua exoneração foi publicada em edição extra do Diário Oficial da União somente depois que ele havia entrado em território americano.

Na terça-feira (23), o Planalto ratificou a data de demissão, passando-a para sexta (19).

Especialistas afirmam que pode haver irregularidades se Weintraub se utilizou da condição de ministro para driblar as barreiras sanitárias e entrar nos EUA, mas o ex-ministro pode também já estar de posse do visto G1, necessário para trabalhar em organismos multinacionais.

Apesar de não cumprir os requisitos formais para aplicar para o documento —como contrato de trabalho ou nota diplomática do Banco Mundial—, diplomatas afirmam que ele pode ter conseguido o visto por ser ex-ministro de Estado e estar com a nomeação em andamento.

Diário Oficial tornou-se plataforma de fake news

Não, que é isso! O governo do capitão não é propriamente mentiroso. Apenas tem uma verdade móvel. Ou múltipla. Visto pelo ângulo do Diário Oficial da União, o passado nem sempre reconhece o seu lugar. Às vezes vira o presente usado. Ou seminovo. E o futuro pode não chegar nunca.

Anunciada no dia 18 de junho, a exoneração de Weintraub só foi publicada no Diário Oficial em 20 de junho. Saiu depois que o fugitivo já havia entrado em Miami esgrimindo o passaporte diplomático de futuro-quase-ex-ministro da Educação. Livrou-se da quarentena imposta pela Casa Branca aos brasileiros.

Por mal dos pecados, o Tribunal de Contas da União, velho estraga-prazeres da República, ameaçou averiguar. Com a velocidade de um raio, o Planalto reescreveu o passado. Nem 18, nem 20. A demissão ocorreu no dia 19, informou o Diário Oficial, em sua edição do dia 23. Ah, bom! Então, tá!

Algo pior sucedera no afastamento do delegado Maurício Valeixo do posto de diretor-geral da Polícia Federal. Lia-se no Diário Oficial que saíra a pedido, com o aval do chefe, o então ministro da Justiça Sergio Moro. Descobriu-se que o pedido era inexistente. A assinatura, falsa.

De novo, o Planalto atrasou o relógio para burilar o passado. Em nova publicação, arrancou-se do Diário Oficial a assinatura de Moro, que pediu para sair. Quanto a Valeixo, saiu mesmo sem ter pedido.

No caso de Regina Duarte, passado e futuro ganharam uma lógica ficcional, assistida em capítulos. É como se o Diário Oficial virasse roteiro de telenovela. Anunciada num dia, a demissão só foi formalizada 19 dias depois.

Repetindo: Numa performance ao lado de Bolsonaro, a atriz anunciou defronte do Alvorada que deixaria a Secretaria da Cultura para ser rebaixada a chefe de uma insolvente Cinemateca Brasileira. Mas se manteve por 19 dias na folha de pagamento, impondo-se ao contribuinte como um pretérito mais-que-perfeito.

Finalmente demitida na edição do Diário Oficial de 10 de junho, Regina aguarda há duas semanas pela nomeação para a Cinemateca. Foi prometida para o dia seguinte. Entretanto, num governo em que a publicação oficial virou plataforma de lançamento de fake news, o futuro é algo tão impalpável quanto a realidade. Parecia que estava ali, na esquina, radioso. Mas não chegou. E talvez não venha.

Ofensa

Ao comentar a nomeação de Carlos Alberto Decotelli para o ministério da Educação, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) voltou a criticar o ex-ministro Abraham Weintraub. Sobre Decotelli, Maia disse não conhecê-lo muito bem, mas afirmou que ele tem um bom currículo. “Certamente vai ser melhor que o ex-ministro”, afirmou.

Na sequência, ainda em referência a Weintraub, Maia disse que “o Brasil foi ofendido por ter um ministro tão sem condições”.

“Quem foi ofendido pelo Weintraub foi o Brasil. O Brasil foi ofendido por ter um ministro tão sem condições, para não usar uma palavra mais dura, durante esse período no Ministério”, disse Maia.

“Parece que o currículo do atual ministro é um bom currículo. Vamos torcer para que ele cuide das nossas crianças, e que não cuide do Olavo na Virgínia. Acho que o Ministério da Educação tem que cuidar das nossas crianças, do futuro das nossas crianças, e não cuidar do que pensa o Olavo de Carvalho nos Estados Unidos”, completou.


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