Semana On

Segunda-Feira 30.nov.2020

Ano IX - Nº 421

Brasil

Investidores ameaçam sair do Brasil se destruição da Amazônia não parar, diz Financial Times

Carta, de grupo formado por quase 30 instituições financeiras em todo o mundo que gerenciam mais de US$ 3,7 trilhões, foi entregue ao governo brasileiro, segundo publicou o jornal britânico

Postado em 25 de Junho de 2020 - Célia Froufe (O Estado de S.Paulo), Estadão (Editorial) - Edição Semana On

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Um grupo formado por quase 30 instituições financeiras em todo o mundo exige que o governo brasileiro freie o crescente desmatamento no País, segundo publicou no último dia 23 o jornal britânico Financial Times. Para o grupo, a continuidade da prática criou "uma incerteza generalizada sobre as condições para investir ou fornecer serviços financeiros ao Brasil". 

A carta foi entregue ao governo brasileiro na terça-feira em meio às crescentes as preocupações de que os investidores possam começar a desinvestir da maior economia da América Latina se o governo de Jair Bolsonaro falhar em conter a destruição ambiental.

"Como instituições financeiras, que têm o dever fiduciário de agir no melhor interesse de longo prazo de nossos beneficiários, reconhecemos o papel crucial que as florestas tropicais desempenham no combate às mudanças climáticas, protegendo a biodiversidade e assegurando serviços ecossistêmicos", afirmou a carta, assinada por 29 instituições financeiras que gerenciam mais de US$ 3,7 trilhões em ativos totais. Os signatários incluem o Legal & General Investment Management e a Sumitomo Mitsui Trust Asset Management.

“Considerando o aumento das taxas de desmatamento no Brasil, estamos preocupados com o fato de as empresas expostas a desmatamento potencial em suas operações e cadeias de suprimentos no Brasil enfrentarem uma dificuldade crescente de acessar os mercados internacionais. Também é provável que os títulos soberanos brasileiros sejam considerados de alto risco se o desmatamento continuar”, escreveram, conforme reproduziu o jornal.

O FT salientou que o desmatamento na floresta amazônica aumentou no Brasil desde a eleição de Bolsonaro, apresentado como um ex-capitão do exército de direita, que apoia a abertura das terras protegidas à atividade comercial. Segundo a publicação, nos primeiros quatro meses deste ano, uma área com o dobro do tamanho da cidade de Nova York foi destruída com madeireiros ilegais e garimpeiros aproveitaram a diminuição da fiscalização durante a pandemia de coronavírus para derrubar florestas. A terra é geralmente convertida em pasto para criar gado, continua o diário.

A reportagem enfatizou que o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, também alimentou controvérsia quando foi filmado durante uma polêmica reunião ministerial que foi liberada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) dizendo que o governo deveria tirar proveito do foco da mídia na pandemia da covid-19 para "mudar e simplificar" as regras ambientais.

“Queremos continuar investidos em empresas brasileiras, mas é preciso haver um uma regulação estável e previsível e arcabouço ambiental e políticas que estão alinhados com a sustentabilidade que trarão uma mudança de curso”, disse Jan Erik Saugestad, executivo-chefe da Storebrand Asset Management, um grupo norueguês que tem US$ 80 bilhões sob sua gestão. “Eventualmente, se não virmos esse tipo de mudança, o risco de permanecer investido poderá chegar a um ponto em que não permaneceremos investidos", continuou.

Frigoríficos

Um gerente de portfólio de um grupo europeu de gerenciamento de ativos, que assinou a carta, disse: “Não é apenas uma ameaça. Consideraríamos desinvestir. Acreditamos que o Brasil pode enfrentar desafios econômicos estruturais se não ajustar seu curso de ação.” Os investidores, continuou o FT, disseram estar particularmente preocupados com a indústria brasileira de frigoríficos, que corre o risco de ser excluída dos mercados internacionais por causa de seu suposto papel no desmatamento. A JBS do Brasil tem sido repetidamente acusada por ambientalistas de comprar vacas de terras desmatadas na Amazônia.

No mês passado, mais de 40 empresas europeias, incluindo a maior rede de supermercados britânica Tesco e a varejista Marks and Spencer, alertaram que iriam boicotar produtos brasileiros se o governo não agir em relação ao desmatamento. “O maior medo é sempre que nossos ativos percam valor. Isso pode ser causado por empresas que perdem o acesso ao mercado, mas também devido a danos à reputação”, afirmou o gerente de portfólio europeu.

O FT lembrou que, no ano passado, o braço de administração de ativos da Nordea suspendeu as compras de títulos do governo brasileiro após incêndios na Amazônia causados por madeireiros e fazendeiros que limpavam terras desmatadas. Gabriella Dorlhiac, diretora executiva da Câmara de Comércio Internacional de São Paulo, disse que essas campanhas têm "um impacto muito real nas empresas daqui". “Não é apenas a perda de contratos. Veja o acordo comercial UE-Mercosul. Há uma ameaça de que algo que levou 20 anos para ser finalizado seja colocado em risco.” O acordo comercial UE-Mercosul foi acordado pelos dois blocos no ano passado, mas fez pouco progresso em direção à ratificação.

"O governo brasileiro deve tomar medidas para reverter urgentemente as taxas crescentes de desmatamento", disse Jonathan Toub, gerente de fundos de ações da Aviva Investors. “Em nossas carteiras de ações, tivemos um viés positivo para o Brasil no início do ano. No entanto, erros de política aumentaram nossas preocupações sobre as prioridades do governo. Reduzimos nossa exposição a ativos brasileiros nos últimos meses.” 

Análise

Há uma ameaça real de retirada de investimentos estrangeiros no País caso o governo brasileiro não consiga deter o desmatamento e, desta vez, o presidente Jair Bolsonaro e membros de seu governo não poderão atribuir à desinformação – como fizeram outras vezes – as críticas feitas por 29 instituições financeiras de 8 países à maneira como a questão ambiental vem sendo tratada na esfera federal. Muitas dessas instituições (fundos, bancos e gestoras de investimento) aplicam quantias expressivas em empresas que atuam fortemente no Brasil em áreas diversas, especialmente a do agronegócio, e conhecem bem a situação ambiental do País. Em carta entregue a Embaixadas do Brasil em oito países, o grupo de instituições responsável por ativos estimados em US$ 3,75 trilhões afirma que “o desmantelamento de políticas ambientais e de direitos humanos” pelo governo Bolsonaro cria “incerteza generalizada sobre as condições de investir ou de prestar serviços” no País e ameaça retirar seus investimentos caso não seja detido o avanço do desmatamento.

Em ocasiões anteriores, o presidente da República e seu ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, entre outras autoridades federais, minimizaram críticas dessa natureza, tratando-as com um desdém que mal esconde inoperância, incompetência, desídia, irresponsabilidade ou qualquer outra característica de uma ação federal marcada por completo desprezo pela questão ambiental. Esse comportamento pode comover a ala mais radical do bolsonarismo, mas não está mais sendo tolerado por pessoas e instituições respeitáveis, no País e no exterior.

“Como instituições financeiras, que têm o dever fiduciário de agir no melhor interesse de longo prazo de nossos beneficiários, reconhecemos o papel crucial que as florestas tropicais desempenham no combate às mudanças climáticas, protegendo a biodiversidade e assegurando serviços ecossistêmicos”, afirmam os gestores de recursos na carta que tem como destinatários agentes públicos que trabalham em Brasília, a começar pelo presidente da República e seu ministro da área ambiental. A carta adverte que o aumento das taxas de desmatamento no Brasil pode criar dificuldades crescentes para empresas que atuam nas áreas desmatadas terem acesso aos mercados internacionais. Até mesmo títulos soberanos brasileiros poderão vir a ser considerados de alto risco caso o processo de desmatamento não seja contido, advertem as instituições.

Elas têm recursos aplicados em grandes empresas exportadoras e negociadoras mundiais de commodities que respondem por parte expressiva das vendas externas brasileiras. Há alguns dias, o chefe de investimentos de uma das empresas signatárias da carta entregue ao governo brasileiro, a KLP, disse à agência Reuters que, se sua avaliação sobre as políticas ambientais brasileiras for negativa, “o desinvestimento pode ser o resultado provável, possivelmente ainda este ano”.

Motivos para uma avaliação negativa não faltam. A carta cita, entre outros, as “controvertidas” propostas legislativas de regularização de terras públicas, a abertura de terras ocupadas por povos indígenas para mineração e o afrouxamento de regras para licenciamento ambiental. Lembra também a recomendação do ministro Ricardo Salles, na mal-afamada reunião ministerial de 22 de abril, de “passar a boiada” da legislação de simplificação de normas ambientais enquanto a pandemia estiver no centro das preocupações do País.

Tais comportamentos do governo mereceram dura condenação de nove ex-ministros do Meio Ambiente, para os quais “a sustentabilidade socioambiental está sendo comprometida de maneira irreversível por aqueles que têm o dever constitucional de garanti-la”. Dirigentes do setor financeiro no Brasil também estão preocupados. O presidente do Itaú Unibanco, Candido Bracher, disse que “precisamos nos mover” contra os incêndios na Amazônia.

Como lembraram os ex-ministros do Meio Ambiente, “sem sustentabilidade, não haverá futuro para nenhum povo”.


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