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Domingo 09.ago.2020

Ano IX - Nº 405

Mato Grosso do Sul

Região onde morreu primeiro indígena no MS tem um médico para atender 17 mil pessoas

Segundo advogado do Conselho Indigenista Missionário população local vive em miséria extrema e covid irá agravar

Postado em 23 de Junho de 2020 - Catarina Barbosa - Brasil de Fato

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Na última semana a SES (Secretaria de Estado de Saúde) do Mato Grosso do Sul registrou o primeiro óbito de um indígena em decorrência de coronavírus no estado, um homem de 59 anos, da etnia Guarani Kaiowa, de Dourados (MS). O óbito foi confirmado na última quinta-feira (18). No estado são 40 mortes confirmadas por covid-19.

Na aldeia Bororó, localizada na Terra Indígena (TI) Dourados, no sudoeste do Mato Grosso do Sul, a população está enfrentando dificuldades para receber atendimento médico para a covid-19. Segundo o indígena Deka Kayapó morador da aldeia, mais de 50 indígenas estão com os sintomas da doença no local.

O único posto de saúde da região tem apenas um médico e um enfermeiro para atender cerca de 17 mil indígenas, das duas reservas: Jaguapiru e Bororó. A população Guarani Kaiowá é ainda maior, com quase 50 mil indígenas.

A aldeia Bororó é toda de chão de terra batida. No local, há poucas árvores e muito mato. As casas são precárias, feitas com tábua de madeira e telhas de fibrocimento, que esquentam muito. Há água encanada, mas ela tem faltado dia sim, dia não e as poucas famílias que têm casa de alvenaria, e mesmo assim enfrentam as mesmas dificuldades comum a todos moradores.

Retirante

Deka Kayapó e sua família moravam na Ilha do Murici, próxima da Vila da Ressaca, na Volta Grande do Xingu, contudo, com o início da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, eles foram expulsos do território. O alagamento causado pela obra cobriu de água tudo o que eles plantavam e a sobrevivência no local tornou-se impossível. 

"Por conta da enchente a gente não teve como ficar. Depois meu pai voltou para ver se a gente conseguia aguentar por lá, porque não tinha outro lugar pra gente. A gente começou a plantar e a enchente começou a cobrir tudo o que a gente plantava e a água acaba matando as plantas. Eles não deram apoio nenhum pra gente", afirma o indígena sobre os empresários de Belo Monte.

Com a situação, Deka Kayapó se mudou em 2011 para o Mato Grosso do Sul onde conheceu a sua esposa. O pai, irmãos e tios estão espalhados pelas cidades de Senador José Porfírio (PA) e Altamira (PA) e alguns ainda buscam sobreviver próximo a Belo Monte. 

Miséria extrema

Anderson Santos, advogado do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), no Mato Grosso do Sul, diz que há uma superpopulação de indígenas vivendo na aldeia e que se encontram em uma situação de miséria extrema o que tende a se agravar com os efeitos da pandemia.

"Faltam máscaras, álcool em gel, orientações quanto aos cuidados da covid-19. E o principal foco de contágio na aldeia foram trabalhadores de frigoríficos da JBS" afirma o advogado.

Alguns guarani-kaiowá têm plantação de milho, outros de mandioca e outros que não têm condições de preparar a terra para o plantio arrendam a área para não indígenas. Com o pagamento pelo arrendamento da terra, eles compram alimentos na cidade. Deka Kayapó, por exemplo, trabalha na construção civil, ou como ele melhor se denomina: espécie de faz tudo. 

Por ter perdido seus documentos na ida para a aldeia Bororó, ele não teve como fazer o cadastro para receber a renda emergencial e não fez nenhum dia de isolamento durante a pandemia. 

"Eu saio de máscara todo dia de casa, eu levo duas ou três e levo o álcool em gel com detergente e quando chega na obra de duas em duas horas eu troco a máscara e lavo e passo álcool em gel e vai nisso", conta. 

Questionado se não tem medo da covid-19, o indígena disse que é a única forma de conseguir dinheiro para sustentar a esposa, que já tem dois filhos e o casal está à espera de mais um. 

O indígena conta que muitos estão desempregados e sem como conseguir o seu sustento por conta da pandemia e ele, por ter uma boa relação com o seu empregador, pediu que ele o alocasse – mesmo durante a pandemia – em serviços de forma que pudesse continuar recebendo seus pagamentos. 

"Para a gente conseguir emprego na cidade, pelo fato de a gente ser indígena, é bem difícil que o preconceito aqui é bem grande. Se sabem que a gente é indígena, a vaga de emprego que a gente ia conseguir, já era. Eles estão quebrando o meu galho", diz. 

Como se não fosse suficiente, a falta de estrutura e o desemprego, os indígenas ainda enfrentam um grande problema com a violência por parte de fazendeiros, pistoleiros e até os próprios indígenas.

O problema começou quando alguns indígenas ficaram sem recursos para poder preparar a terra para o plantio. Dessa forma, eles arrendavam a terra para não indígenas. 

"Parece que eles davam a terra para o branco plantar e quando chegava a colheita, eles davam uma parte em dinheiro para o dono da terra. Mas com o passar do tempo foi sempre acontecendo isso parece que o branco que fazia a plantação direto tomou posse da área e parece que não quer mais devolver. Aí tá sempre a luta lá, é tiro, facão, pedra. Às vezes a polícia vai lá e mete tiro ou então o pessoal da fazenda manda outros lá derrubam as casas, queimam", diz ele. 

A reportagem entrou em contado com a Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena) para saber quais atendimentos estão sendo fornecidos para a aldeia, mas até o fechamento desta reportagem não houve retorno.


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