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Segunda-Feira 30.nov.2020

Ano IX - Nº 421

Comportamento

Como pais brancos podem conversar com seus filhos sobre raça

Um guia para conversas sobre racismo e privilégio de acordo com a idade do seu filho

Postado em 23 de Junho de 2020 - Caroline Bologna - Huffpost

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Não é segredo que pai brancos ficam pouco à vontade conversando com os filhos sobre racismo. Mas os eventos recentes demonstram a importância dessas conversas.

Observação: essas recomendações são dirigidas a pais brancos que criam filhos brancos. Embora muitos dos conselhos possam ser aplicados a pais brancos que criam filhos não-brancos, os especialistas têm outras recomendações para famílias multirraciais.

“A maioria dos pais quer criar filhos que tratem as pessoas de maneira justa, independentemente da cor da pele, e eles querem filhos que abracem a diversidade e construam relacionamentos bem-sucedidos com pessoas de origens diferentes da sua”, diz Rebecca Bigler, professora de psicologia da Universidade do Texas, em Austin.

“A maioria dos pais acredita que vai conseguir isso evitando as discussões sobre raça”, afirma Bigler. “Mas as pesquisas sugerem que não falar sobre raça pode ter o efeito contrário. Ou seja, é provável que pais que não falam sobre raça tenham filhos com preconceito racial.”

Os pais brancos podem e devem começar a abordar os temas de raça e racismo desde cedo, mesmo antes que seus filhos comecem a falar. Estudos indicam que crianças a partir dos 3 meses de idade conseguem reconhecer diferenças raciais. Evitar o assunto, em vez de combatê-lo ativamente com atitudes e ações antirracistas, simplesmente abre a porta para que as crianças absorvam o preconceito do mundo ao seu redor.

“No geral, é importante que os pais falem com os filhos de uma maneira que eles entendam e de forma apropriada ao estágio de desenvolvimento da criança”, diz Eboni Hollier, especializada em desenvolvimento infantil. “À medida que as crianças crescem, a maneira como você se comunica deve refletir a capacidade de linguagem, de cognição e o estágio emocional e social da criança.”

Em meio aos protestos após o assassinato de George Floyd, o HuffPost conversou com Bigler, Hollier e outros especialistas sobre o que os pais brancos podem fazer para criar filhos antirracistas, de acordo com as várias fases do desenvolvimento. Veja abaixo as recomendações deles.

De 0 a 2 anos

Os bebês nascem como páginas em branco em termos de percepções de raça, mas isso muda muito rapidamente.

“As pesquisas apontam que os bebês reconhecem diferenças na cor da pele desde muito pequenos. Eles não são daltônicos”, explica Hollier.

Aos 3 meses de idade, os bebês conseguem categorizar as pessoas de acordo com a raça e passar mais tempo olhando os rostos que correspondem à raça ou raças de seus principais cuidadores. À medida que seus cérebros se desenvolvem, a compreensão do mundo passa a vir do que eles observam em seus pais e nos outros ao seu redor. Portanto, é importante que os responsáveis pela criança demonstrem inclusão e imparcialidade.

“No caso das crianças que ainda não começaram a falar, o comportamento dos pais é especialmente importante”, diz Bigler. “Pais brancos devem garantir que seus filhos vejam suas interações íntimas, afetuosas, próximas e gentis com indivíduos cuja raça e etnia são diferentes das suas.”

Os bebês também percebem pistas do ambiente, como as pessoas que veem à sua volta.

“O bairro que você escolheu para morar, a creche, a escola, tudo isso influencia como eles vão pensar sobre raça”, diz Erin Winkler, professora associada de Estudos da Diáspora Africana e Africana na Universidade de Wisconsin-Milwaukee. “É claro que é difícil dizer para os pais que eles têm de se mudar, mas é importante reconhecer a importância dessas escolhas.”

Ela também enfatiza a importância de criar um ambiente doméstico que exponha os bebês à diversidade, seja em livros, obras de arte em casa ou até mesmo as pessoas que você convida para visitar sua casa.

De 3 a 4 anos

À medida que eles chegam à idade pré-escolar, os pais devem continuar demonstrando comportamentos imparciais e expondo seus filhos à diversidade por meio de livros, programas de TV, comida e outros aspectos da vida cotidiana. Eles também podem usar os exemplos a seu redor para começar conversas sobre raça.

Por volta dos 3 ou 4 anos de idade, muitas crianças fazem comentários sobre as diferenças raciais ou étnicas que percebem, como tons de pele ou tipos de cabelo. Bigler observa que esses comentários podem implicar preconceitos (“Ele tem cabelo esquisito”) ou podem ser mais neutros (“Ele tem pele escura”).

Os pais brancos não devem impedir ou minimizar esses comentários, pois são normais no desenvolvimento. Em vez disso, devem normalizar a conversa sobre raça e responder de maneira calma e direta.

“Os comentários dos filhos são uma boa oportunidade para explicar diferenças raciais que eles notaram ― incluindo o que essas diferenças significam e não significam ― e para expor suas opiniões pessoais sobre aquela característica”, afirma Bigler.

Ela continua: “No primeiro caso, você pode dizer: ‘Ele é negro, e o cabelo dele não é esquisito. É diferente do seu, mas acho que é lindo! As pessoas geralmente (mas nem sempre) têm cabelo parecido com o do resto da família. O seu cabelo é parecido com o do ____. Mas o cabelo das pessoas não diz nada sobre elas! Às vezes as pessoas de cabelos encaracolados gostam de brincar com carros e às vezes não! Às vezes, as pessoas com cabelos lisos são legais, às vezes, não!’”

As crianças em idade pré-escolar estão começando a entender que as pessoas são complexas e únicas; portanto, se são iguais em um aspecto isso não quer dizer que serão iguais nos outros. Igualmente, se têm uma característica em comum (como a cor da pele), isso não significa que necessariamente elas serão parecidas em outras coisas.

Se uma criança aponta que outra tem pele mais escura, Hollier recomenda que os pais falem positivamente sobre a diferença, mas também apontem algo que as duas crianças tenham em comum, como: “Veja, ela também adora andar de bicicleta!”

“É igualmente importante explicar que essas diferenças podem significar uma experiência de vida diferente”, afirma Hollier.

Os pais podem explicar algo que as crianças pequenas já devem ter notado: as pessoas com pele mais escura costumam ser tratadas com menos gentileza do que as brancas, ou têm menos oportunidades e recursos. Eles devem enquadrar o conceito de racismo em termos de injustiça, algo que é enraizado na nossa sociedade e que as pessoas ainda estão tentando corrigir.

Winkler menciona uma atividade que pode ajudar crianças pequenas a entender a complexidade do racismo sistêmico. Ela chama isso de atividade da “teia de aranha”.

“Dê a elas um barbante e peça para que elas façam uma teia de aranha toda bagunçada. Aí diga: ‘Ótimo, agora desembarace os fios’”, diz Winkler. “Eles tentam por alguns minutos e percebem que é difícil. Explique que a injustiça contra pessoas de pele escura é muito parecida com essa teia emaranhada. É uma teia que está embaraçada desde antes do nascimento da mãe, antes do nascimento dos avós, mesmo antes do nascimento dos avós dos avós. Tornar a sociedade mais justa é realmente difícil, como desembaraçar a teia de aranha. As pessoas estão tentando há muito tempo. Sua família inteira pode ajudar a desembaraçá-la ainda mais.”

Winkler diz que as crianças podem continuar desembaraçando as teias de aranha sempre que fizerem algo para promover a justiça racial. Mas eles precisam explicar que desembaraçar a questão da injustiça na sociedade levará muito tempo.

De 5 a 11 anos

As pesquisas indicam que, por volta dos 5 anos de idade, as crianças brancas geralmente associam traços positivos como inteligência e bondade mais aos brancos que a outros grupos raciais.

“A maioria das crianças não apoia visões extremamente tendenciosas, mas mostra associações consistentes de brancos com atributos positivos”, diz Bigler. “As crianças geralmente escolhem bonecas brancas, amigos brancos e atividades que incluem predominantemente crianças brancas. É importante ressaltar que muitas crianças brancas dessa idade ficam convencidas de que raça é um assunto tabu e que é sempre errado admitir que alguém percebe ou pensa na raça dos outros.”

Para combater isso, os pais devem prestar atenção a quaisquer declarações ou comportamentos de seus filhos que sugiram preconceito. Eles devem continuar a escolher bonecas e outros brinquedos racialmente diversos para seus filhos e expô-los a livros e programas que apresentam personagens diversos. Também é extremamente importante conversar sobre diferenças para lidar com as mensagens sutis recebidas pela mídia ou na vida cotidiana.

“Ao assistir a um programa de TV, discuta por que certos grupos costumam ser retratados em papéis estereotipados, com sotaques ou vestidos de uma determinada maneira”, sugere a psicóloga especializada em educação Reena B. Patel. “Pergunte: ‘Existem certos grupos que nunca serão heróis nos quadrinhos e nos filmes?’ Depois, aprofunde a conversa, dizendo que algumas pessoas são tratadas de maneira injusta por causa da cor da pele, da cultura ou da religião.”

Bigler recomenda reconhecer explicitamente que a diversidade racial é um aspecto positivo nos brinquedos e na mídia, dizendo algo como: “Você tem várias bonecas brancas. Acho que seria legal ter bonecas de outras raças também. Elas são todas lindas!”

Os pais também devem demonstrar interesse em culturas e histórias não-brancas e expor seus filhos a elas. É importante incentivar as crianças a ter um grupo diversificado de amigos, colocando-as em contextos racialmente diversos e reforçando a importância dos relacionamentos com pessoas de diferentes origens e interesses.

Bigler afirma: “Por exemplo, um pai ou mãe pode dizer: ‘Você lembra da minha amiga Cara? Ela é negra. Sempre aprendo muito com amigas diferentes de mim. Ela me contou sobre _____. Isso não aconteceu comigo, então a Cara me ajudou a aprender mais sobre o mundo. Você aprendeu coisas conversando com amigos diferentes de você?’”

Winkler alerta para o uso de pessoas de cor de maneira voyeurística ou e para o problema do turismo étnico, levando seus filhos a visitar comunidades de pessoas não-brancas só para edificação própria.

“A intenção pode ser boa, mas pode resultar em relacionamentos condescendentes”, afirma ela. “Não se trata de arrumar amigos negros para tirar proveito próprio, mas sim de entender suas barreiras e esforçar-se para superá-las.”

12 anos e acima

Pré-adolescentes e adolescentes são cada vez mais independentes e podem começar a cristalizar crenças e preconceitos pessoais a partir dessa idade. Eles foram expostos a estereótipos raciais na mídia e na vida cotidiana, principalmente se suas escolas e comunidades são mais segregadas. Mas eles também conseguem conversar sobre temas abstratos.

“Quando surge a oportunidade de discutir raça, aproveite para ter uma conversa direta. Ofereça perspectivas diferentes, mais tolerantes ou inclusivas que as apresentadas pelo seu filhos”, sugere Hollier.

O noticiário ou coisas que aconteceram na escola podem ser o ponto de partida para conversas sobre raça. Os pais devem perguntar aos adolescentes o que eles pensam sobre o assunto e enfatizar a importância da diversidade em suas respostas. Eles também podem incentivar o ativismo e encontrar maneiras de envolver a família toda em certas causas.

“Os pais também precisam conversar com seus adolescentes sobre as disparidades raciais que existem em nossa sociedade”, afirma Bigler. “Eles devem discutir a história do racismo e do privilégio branco. Essas conversas devem ajudar a preparar os adolescentes tanto para entender as disparidades como para se opor à discriminação.”

Winkler aconselha os pais a prestar atenção às mensagens sobre namoro e sexualidade interraciais quando os adolescentes começaram a explorar relacionamentos românticos. Ela também sugere o uso de programas de TV e filmes como uma maneira de conversar com os adolescentes sobre raça e racismo.

“Todos os pais podem ensinar uma visão crítica quando se trata de mídia”, diz Winkler. “Não é difícil encontrar coisas para criticar, então ajude as crianças a reconhecer os padrões da mídia. Diga: ‘Acho que toda vez que vejo personagens latinos eles são empregadas domésticas ou trabalham na agricultura. Mas, quando vejo pessoas brancas na TV, tem todo tipo de gente.’ Eles podem começar a perceber que é raro encontrar bons exemplos de diversidade na mídia.”

Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês


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