Semana On

Sábado 26.set.2020

Ano IX - Nº 412

Poder

Alinhamento ideológico de policiais militares com o bolsonarismo é grave ameaça à democracia

Governadores de vários estados estariam atentos para casos de insubordinação na PM

Postado em 19 de Junho de 2020 - Vicente Nunes (Correio Braziliense), Marcelo Godoy (O Estado de S.Paulo) – Edição Semana On

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Governadores de vários estados acenderam o sinal de alerta depois de receberem avisos, mesmo que cifrados, de que, se os policiais militares tiverem de escolher entre eles e Jair Bolsonaro, ficam com o presidente da República. Do mais alto ao menor cargo, as PMs estão fechadas com a linha bolsonarista.

Portanto, não surpreendem as declarações do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, de que a PM local soube com antecedência que haveria ataques ao Supremo Tribunal Federal (STF) no último fim de semana, mas nada fez para evitá-los. Para reforçar a autoridade sobre a corporação, Ibaneis exonerou o subcomandante da PM do DF, Sérgio Luiz Ferreira de Souza.

O clima mais belicoso entre governadores e PM está em São Paulo. São muitas as manifestações públicas de que os policiais militares estão contra o governador João Dória. Em mensagens que circulam pelas redes sociais, os policiais sustentam uma série de ataques a Doria, chamado de “traidor” e “incompetente”.

Gabinete do ódio

Ciente desse apoio explícito, integrantes do Palácio do Planalto mantêm contatos diários com lideranças das PMs. Muitos desses contatos são intermediados pelo chamado gabinete do ódio, que identificou entre os policiais militares uma das bases mais fieis ao presidente da República.

“Com certeza, o índice de apoio a Bolsonaro é maior nas PMs do que na Forças Armadas, para as quais todos ficam olhando”, diz um assessor do presidente da República. “As PMs, certamente, farão o que o presidente pedir. Não há dúvidas disso”, acredita.

A determinação dos grupos bolsonaristas é manter a tensão entre as PMs e os governadores no grau mais elevado possível, de forma a reforçar o poder que persuasão que Bolsonaro tem entre os policiais militares. “As manifestações de ruas nos ajudam nisso”, afirma o mesmo assessor.

Os governadores sabem o perigo dessa situação, mas preferem crer que a situação está sob controle e, quando testadas, as PMs cumprirão o papel que lhes cabe na Constituição. No Planalto, a visão é totalmente diferente. Trata-se de um quadro alarmante.

Reação

O governo de São Paulo tem se empenhado para conter o que chama de “contaminação” do bolsonarismo na Polícia Militar e manter a neutralidade e o caráter apartidário da instituição. As principais preocupações são o comportamento de policiais em manifestações nas ruas e as postagens de integrantes da ativa da PM em redes sociais e em aplicativos, como o WhatsApp.

São compartilhados desde ataques ao governador João Doria (PSDB) a teses defendidas pelo bolsonarismo, como o fim do isolamento social durante a pandemia. Na última semana, grupos de policiais foram invadidos por postagens que chamavam de “maconheiros”, “terroristas” e “arruaceiros” os manifestantes que desejam sair às ruas contra o governo de Jair Bolsonaro.

Há, entre os bolsonaristas da ativa mais fanáticos, um major, sargentos e cabos que compartilham postagens de deputados da bancada da bala na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa. “Vejo de forma estarrecedora colegas apoiando ou criticando o governo”, afirmou o coronel da reserva da PM Glauco Carvalho, que comandou o policiamento da capital.

A presença de oficiais e praças da reserva e familiares de policiais em manifestações na Avenida Paulista de apoio ao presidente e contra o governador, hoje opositor contundente de Bolsonaro, reforça a preocupação no Executivo estadual. “O desafio de manter a política longe dos quartéis é grande. Há limites à liberdade de expressão, mas temos mantido a situação sob controle. A PM trabalha para o cidadão, não é polícia de governo, mas de Estado”, afirmou o secretário executivo da PM, coronel Alvaro Batista Camilo.

Associação

Apontada como um dos focos do bolsonarismo na PM, a associação Defenda PM congrega cerca de 2 mil oficiais. Ela é presidida pelo coronel Elias Miler da Silva, hoje chefe de gabinete do senador Major Olimpio (PSL-SP), adversário político de Doria, mas que rompeu com Bolsonaro. “A associação é apartidária. Mas os associados podem ter suas preferências políticas”, afirmou o coronel Ernesto Puglia Neto, secretário executivo da associação. “Nós nascemos para defender institucionalmente a PM.”

Em seu site, no entanto, a entidade mantém na página de abertura a seguinte frase: “Governador João Doria: despreparado para SP, despreparado para o Brasil”. Mantém ainda um artigo sobre a covid-19 no qual dá aval a todas as teses do presidente sobre a doença, criticando o uso da ciência como palavra final no combate ao vírus.

Uma das razões da adesão dos policiais ao bolsonarismo é a identificação do presidente com a pauta corporativista das polícias. Segundo o coronel Carlos Alberto de Araújo Gomes, que presidiu até maio o Conselho Nacional dos Comandantes Gerais das PMs e dos Corpos de Bombeiros Militares, entre essas pautas estão o que os policiais chamam de maior proteção jurídica aos PMs. O pacote envolve a aprovação de uma lei orgânica das polícias, a possibilidade de a corporação registrar ocorrências de menor poder ofensivo e uma maior participação das PMs na definição de políticas públicas.

Para Araújo Gomes, no entanto, o possível aumento de candidaturas de policiais – a maioria ligada ao bolsonarismo – não significa a existência de contaminação política das polícias. “Isso se deve ao reconhecimento da sociedade pela função relevante exercida por esses homens.” Segundo ele, mesmo o motim de policiais no Ceará, em janeiro, não teve uma causa nacional, mas, sim, estimulada por fatores locais.

Renato Sérgio de Lima, presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, disse que o motim cearense só não se espalhou pelo País em razão da repulsa da população às ações dos rebelados e pelo fato de o governo local ter aprovado lei proibindo anistia. Segundo Lima, uma ruptura da disciplina hoje só aconteceria em razão de evento extraordinário.

Para o coronel Carvalho, essa possibilidade é improvável. Primeiro, porque as Forças Armadas se opõem. “As maiores polícias ainda têm instrumentos de controle.” Apesar de haver na tropa um sentimento majoritariamente pró-Bolsonaro, o coronel identifica um distanciamento recente de parte da oficialidade da PM do bolsonarismo após a demissão de Sérgio Moro da pasta da Justiça e das negociações do governo com o Centrão. “As pessoas mais atentas sabem o significado desses fatos.”


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