Semana On

Quarta-Feira 08.jul.2020

Ano VIII - Nº 400

Poder

Discurso de Faria destoa da realidade

Novo ministro das Comunicações fala de ‘abertura ao diálogo’, ‘armistício patriótico’, eliminação de ‘diferenças político-ideológicas’, ‘pacificar o país’ e combate ao coronavírus. Tudo que Bolsonaro abomina

Postado em 19 de Junho de 2020 - Josias de Souza (UOL), Ricardo Noblat (Veja) - Edição Semana On

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Fábio Faria, o novo ministro do velho Ministério das Comunicações, utilizou expressões que se tornaram inusuais na Brasília de Bolsonaro. Coisas como "abertura ao diálogo", "armistício patriótico, eliminação de "diferenças político-ideológicas", "pacificar o país" e "levantar a guarda contra o coronavírus". O ministro expressou-se com respeito aos que pensam diferente. Ou seja: Fábio Faria pronunciou ao lado de Bolsonaro não um discurso de posse, mas um libelo de oposição.

O diálogo preferido de Bolsonaro é aquele em que ele faz o interlocutor calar a boca. A ideia de armistício não orna com a Presidência de trincheira que funciona sob Bolsonaro. O presidente não parece interessado em eliminar, mas em realçar as diferenças político-ideológicas. De costas para a pacificação, o presidente guerreia no momento com o Supremo. Bolsonaro tampouco está interessado em "levantar a guarda contra o coronavírus". No enredo do presidente, o combate ao vírus foi transferido pelo Supremo aos governadores e prefeitos.

Quem ouviu o novo inquilino da Esplanada teve a sensação de que Fábio Faria virou ministro do governo errado. Essa impressão foi potencializada pelos afagos do novo ministro nos meios de comunicação tradicionais. "A mídia continua entre as prioridades desse governo", disse o ministro, antes de elogiar indistintamente a TV aberta e fechada, os jornais impressos, os veículos de internet. Resta saber quem deu procuração a ele para dizer que a mídia é prioridade. Não há de ter sido Bolsonaro.

A plateia presente à posse também passou a impressão de que Fábio Faria assumiu o Ministério das Comunicações de um país paralelo. Olhando para o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, um desafeto da família Bolsonaro, o ministro chamou-o de "amigo". Recebeu aplausos de Dias Toffoli, o presidente de um Supremo que Bolsonaro acusa de tramar sua derrubada. Fábio Faria falou no discurso de "esperança" e "amor". Ou o ministro se dá conta de que entrou no governo para solidificar a blindagem do centrão contra eventuais ameaças ao mandato de Bolsonaro ou sua gestão esperançosa e amorosa pode ter vida curta.

Análise

Se o presidente Jair Bolsonaro, como disse, não será o primeiro “a chutar o pau da barraca”, seja lá o que isso signifique, então está tudo bem no país onde a ameaça de um golpe militar virou conversa de botequim. Só não está tudo bem porque o coronavírus continua matando e infectando as pessoas sem que o governo saiba ou queira fazer alguma coisa para detê-lo.

Bolsonaro também afirmou que está chegando a hora de pôr as coisas no lugar. Como não se sabe exatamente o que quis dizer com isso, nada a discordar, portanto. O ideal por toda parte é que tudo esteja no seu devido lugar – o governo governando, o Congresso fazendo leis e o Supremo Tribunal Federal a dar a última palavra sobre a Constituição. Cada um na sua.

Como isso nem sempre ocorre desde que Bolsonaro se elegeu, o Supremo funciona como uma espécie de Posto Ipiranga da República. Às vezes, legisla pelo Congresso. Não lhe cabe governar, mas tem sido ele que tenta pôr nos trilhos Bolsonaro e os que o cercam. Nunca antes na história do país o Supremo foi obrigado a proceder de tal maneira, indo muito além dos seus chinelos.

Em todo caso, menos mal. Como assistir calado à tentativa do presidente de usar a Polícia Federal como se ela não passasse de uma milícia? Como ignorar as manifestações de rua encomendadas por ele e seus filhos para achincalhar a democracia e emparedar os demais Poderes? Como não reagir à ação dos que produzem notícias falsas para enlamear a honra alheia?

Na posse do novo ministro das Comunicações, Bolsonaro repetiu uma frase que alguém lhe soprou um dia antes: “Não são as instituições que dizem o que o povo deve fazer. É o povo que diz o que as instituições devem fazer”. De fato, é o povo quando elege seus representantes e eles legislam. O presidente pode propor leis. Se aprovadas pelo Congresso, elas entram em vigor. Se não, não.

Fosse esse ou não seu desejo, o que disse o novo ministro em discurso soou como um contraponto à fala habitual de Bolsonaro. “O grave momento exige de nós uma postura de compreensão, de abertura ao diálogo”, disse. “Se é tempo de levantarmos a guarda contra o novo coronavírus, também é hora de um armistício patriótico e de deixarmos a arena eleitoral para 2022”.

Quem arenga por qualquer coisa de olho nas eleições de 2022 é Bolsonaro. O Congresso só faz baixar a temperatura a cada nova crise desatada por ele. E o Supremo lhe põe freios. Enquanto Bolsonaro manda jornalista calar a boca, o novo ministro reconhece a importância de imprensa e defende a liberdade de expressão. Arrisca-se a ser alvo de xingamentos nas redes sociais.

Está riscada no chão a linha que Bolsonaro não deve ultrapassar. Se o fizer, arcará com consequências e não terá um Pires a quem pedir socorro. Foi-se o tempo em que o general João Figueiredo, o último presidente da ditadura de 64, ameaçava chamar Walter Pires, o comandante do Exército, para pôr ordem no país. O presidente José Sarney também teve seu Pires, Leônidas.

O comandante do Exército chama-se Edson Leal Pujol, anda ocupado com o combate ao coronavírus e entende que as Forças Armadas são uma instituição do Estado, não do governo.


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