Semana On

Sábado 11.jul.2020

Ano VIII - Nº 401

Coluna

As águas caudalosas do cinema brasileiro

A sétima arte é uma forma poderosa de expressar as identidades deste complexo e fascinante país

Postado em 17 de Junho de 2020 - Clayton Sales

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Deviam ter sido uma celeuma aquelas imagens foscas em movimento silencioso projetadas em espaço branco. Algo entre o assombroso e deslumbrante aos olhos despreparados para o susto de ver os minúsculos filmes dos derradeiros anos do século 19. Apenas uma elite abonada pôde pagar os ingressos para assistir a curtas-metragens na sala alugada do Jornal do Commercio, no Rio de Janeiro, com cenas inusitadas das paisagens europeias. Curta-metragem para nós, hoje, que vivemos em tempos altamente tecnológicos, mas para aquelas pessoas que compunham as primeiras plateias de cinema do país, eram obras estranhas, cuja duração ínfima parecia a única possível. Graças ao belga Henri Paillie, em julho de 1896, foi realizada a primeira exibição cinematográfica do Brasil. No ano seguinte, o Rio de Janeiro, em sua diversidade, foi cenário de novas mostras de filmes com nomes catalográficos como "Ancoradouro de Pescadores da Baía de Guanabara", "Chegada do Trem em Petrópolis" e "Um Artista Trabalhando no Trapézio do Politeama". As águas do cinema no Brasil nasciam nas bordas do litoral fluminense.

Então, aproveitando o frescor da novidade, os irmãos italianos Pascoal e Affonso Segretto voltaram da Europa ao Rio de Janeiro com uma geringonça chamada cinematógrafo, espécie de avô das câmeras (e tataravô da função filmadora dos smartphones). Affonso começou a fazer imagens da Baía de Guanabara, que parecia ser uma bela locação, sob os critérios amadores dos pioneiros da sétima arte no país. Provavelmente, o dia 19 de junho de 1898 era apenas mais um domingo de sol na então capital do país, com as águas ainda limpas balançando ao sabor de ventos que prenunciavam o morno inverno carioca, quando Affonso Segretto usou o equipamento para registrar cenas triviais no lugar. O que estava captado naqueles segundos? O Morro do Pão-de-Açúcar, os barcos navegando, pescadores atirando suas redes ao mar, as areias da praia do Flamengo? Pouco se sabe sobre essa filmagem, já que ela nunca foi exibida, mas como Affonso Segretto, embora italiano, adotou o Brasil como lar, acabou se tornando um dos primeiros cinegrafistas do país. E mais: seu feito épico, que batizou de "Vista da Baía de Guanabara", gerou a data que se celebra em 19 de junho: o Dia do Cinema Brasileiro. 

Das pequenas películas com registros de situações corriqueiras do cotidiano do Rio de Janeiro até os dias atuais da era digital, as águas do cinema nacional transcorreram em curso caudaloso, turbulento ou, no mínimo, instável. Nunca foi um mar calmo. A primeira década do século 20 foi de crescimento do cinema no país, com produções cada vez mais incrementadas em mãos de realizadores empolgados e endinheirados. Até então, elas somente captavam os movimentos do dia a dia, sendo possível afirmar que o documentário brasileiro também estava florescendo. O cinema de ficção, com histórias criadas ou adaptadas da literatura e das páginas policiais dos jornais, começava a tomar forma com obras como "O Crime da Mala" (1908) de Francisco Serrador, "Os Óculos do Vovô" (1913), o mais antigo filme com trechos preservados, e "Inocência" (1915), baseada no romance de Visconde de Taunay. Os cinejornais, a invasão da poderosa indústria de Hollywood, causando dificuldades aos realizadores nacionais, e a expansão do cinema brasileiro para locais como Minas Gerais, Pernambuco e Rio de Grande do Sul marcaram a maturação da sétima arte do país. Como adolescência, foi uma fase tempestuosa de descobertas e conflitos. Águas em ebulição. 

Na esteira das transformações que o cinema no Brasil sofria, os homens que se tornaram os pioneiros deixavam ao país suas obras. Entre eles, o mineiro Humberto Mauro, que realizou clássicos como "Brasa Dormida" (1928), ainda no formato de filme mudo, "Ganga Bruta" (1933) e "O Descobrimento do Brasil" (1936), adaptação da carta de Pero Vaz de Caminha. No interstício entre o cinema mudo e a novidade do cinema sonoro, foi lançado "Limite" (1931), único trabalho dirigido pelo cineasta Mário Peixoto, cuja recepção da plateia na sua estreia variou da polêmica ao quebra-pau no cine Capitólio, causando sua "clandestinidade" até os anos 1970. Atualmente, é reconhecido como o melhor filme brasileiro de todos os tempos, segundo a Associação Brasileira de Críticos de Cinema. As águas do cinema brasileiro se moviam ao sabor de ventanias mais fortes, principalmente com o avanço de grandes estúdios como a Cinédia, Vera Cruz e Atlântida. Nos anos 1930, os parâmetros do cinema de entretenimento de Hollywood exerceram forte influência na produção nacional, gerando as chanchadas, comédias musicais com estrutura de superproduções, cheias de alegria, astros e estrelas. Em um mundo que respirava o ar tóxico da Segunda Guerra Mundial, distrair plateias com filmes como "Alô, Alô, Carnaval" (1936) de Adhemar Cardozo era a tônica. 

Porém, um país com crônica desigualdade social, altos índices de miséria e instabilidades políticas jamais deixaria de despertar a sensibilidade de pessoas como Nelson Pereira dos Santos. Influenciado por novas correntes conceituais e politizadas do cinema europeu, especialmente do Neorrealismo Italiano e a Nouvelle Vague francesa, o cineasta realizou "Rio 40 Graus" (1955), drama com toque de documentário sobre o cotidiano de crianças pobres de uma favela do Rio de Janeiro. Era o embrião do Cinema Novo. Quatro anos depois, o cinema brasileiro ganhava seu primeiro prêmio. Ao menos, um prêmio moral com "Orfeu do Carnaval" (1959) do diretor francês Marcel Camus, rodado num morro carioca, falado em português, com elenco em maior parte brasileiro e trilha sonora de Tom Jobim e Luiz Bonfá. Além da Palma de Ouro em Cannes, a obra venceu o Oscar e o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro, mas representando a França, já que era uma coprodução francesa, brasileira e italiana. Os anos 1960, sim, trouxeram estatuetas e indicações de peso para o cinema brasileiro, como a Palma de Ouro em Cannes para "O Pagador de Promessas" (1962) de Anselmo Duarte e o prêmio de melhor diretor em Cannes para Glauber Rocha por "O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro" (1968). Um cinema maduro, questionador, profundo, cheio de personalidade e com poder para denunciar as mazelas do país se configurava com o movimento do Cinema Novo. 

Nada que uma ditadura civil-militar não fosse capaz de destruir, após o golpe de 1964, com a implantação da censura nas artes e imprensa. Nos anos 1970, o cinema brasileiro se alojou nos calabouços e sentiu a caneta dos censores como baionetas lhes furando os olhos. Era preciso sobreviver e a Boca do Lixo se tornou o refúgio marginal para muitos realizadores. Para alcançar plateias e fazer receita para a subsistência, as pornochanchadas ganharam corpo, com filmes de comédia altamente erotizados, o que, somado ao rodrigueano "complexo de vira-latas", alimentaram os preconceitos sobre o cinema nacional que ainda hoje são vocalizados no país. As águas eram tormentosas e seguiram instáveis nos anos 1980, com a explosão de filmes para juventude, influenciados pela televisão e indústria musical, como "Bete Balanço" (1984) de Lael Rodrigues, apesar da vistosa produção de documentários importantes como "Cabra Marcado para Morrer" (1984) de Eduardo Coutinho. Então, vieram os anos 1990, com a redenção do cinema nacional, que experimentava uma retomada motivada por leis de incentivo, o que contribuiu para a acentuação da qualidade das produções. Provas disso são "Carlota Joaquina, Princesa do Brasil" (1995) de Carla Camuratti, "O Quatrilho" (1995) de Fábio Barreto e "O que é isso, companheiro?" (1997) de Bruno Barreto, os dois últimos, indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Assim como "Central do Brasil" (1998) de Walter Salles Jr, que projetou o cinema nacional novamente ao circuito mundial, com a indicação e conquistas de vários prêmios internacionais. 

O século 21 marca a quebra de recordes de bilheterias e produções cada vez mais sofisticadas em vários gêneros, como ação, drama, comédias, suspense e terror. "Cidade de Deus" (2002) de Fernando Meirelles fecha o ciclo da retomada do cinema nacional iniciado nos anos 1990, mas as produções de grande impacto não cessaram. A franquia policial "Tropa de Elite" (2007) de José Padilha faturou nos cinemas do país, com a colaboração providencial de vazamentos "acidentais" ao mercado pirata e a internet. As comédias românticas e de situação ganharam impulso e invadiram as salas de cinema do país, também com grandes arrecadações em bilheterias, como "Minha Mãe é uma Peça 3" (2019) de Susana Garcia, o atual recordista de vendas de ingressos do cinema nacional. Por outro lado, os streamings estão se tornando o espaço para as produções audiovisuais pelo mundo, apesar de ainda poucas produções originais do país constarem nos catálogos, como o faroeste sertanejo "O Matador" (2017) de Marcelo Galvão, primeiro filme brasileiro original da Netflix. Águas que tentam encontrar novos canais. 

Desde as catárticas exibições de pequenos registros do fim do século 19, passando pela produção de Affonso Segretto, até as plataformas digitais, o cinema brasileiro é um sobrevivente. Muitas vezes combalido por censuras, asfixias financeiras, falta de políticas públicas, pouca estabilidade do mercado privado e resistências de segmentos das plateias brasileiras, o cinema nacional ainda consegue entregar maravilhas como "Que horas ela volta?" (2015) de Anna Muylaert, "A Vida Invisível" (2019) de Karim Aïnouz e "Bacurau" (2019) de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, além de documentários de repercussão global como "Democracia em Vertigem" (2019) de Petra Costa e uma vigorosa e ascendente criação de produtoras independentes, de projetos com indígenas e do cinema negro e LGBT+. A pandemia do coronavírus trouxe obstáculos inéditos para a sobrevida do audiovisual do Brasil. Porém, desde que o cinema brasileiro brotou das águas da Baía de Guanabara, ele se especializou em nadar contra muitas correntes. E segue desaguando em corações de cinéfilos que reconhecem na sétima arte uma forma poderosa de expressar as identidades deste complexo e fascinante país.


Voltar


Comente sobre essa publicação...