Semana On

Terça-Feira 01.dez.2020

Ano IX - Nº 421

Saúde

Brasil tem 809.398 casos de Covid-19

País pode se tornar líder de mortalidade em julho se nada mudar, diz projeção usada pela Casa Branca. Enquanto isso, presidente pede que apoiadores invadam hospitais

Postado em 12 de Junho de 2020 - O Globo, BBC News – Edição Semana On

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O Brasil tem 809.398 casos de Covid-19 e 41.162 vidas perdidas pelo coronavírus Sars-CoV-2. Os números são do último boletim deste dia 12, do consórcio de veículos de imprensa formado por O GLOBO, Extra, G1, Folha de S. Paulo, UOL e O Estado de S. Paulo, a partir das atualizações das secretarias estaduais de Saúde. O país registrou mais de 100 mil novos casos nesta semana.

Em termos de óbitos, tudo indica que o país ultrapassará hoje o Reino Unido, que soma 41.364 mortes no levantamento da Universidade Johns Hopkins (EUA). Assim, o Brasil, que já era o segundo país com mais casos, passará a ter o segundo maior volume de vítimas fatais da doença.

A parceria entre os veículos de imprensa foi iniciada na última segunda-feira, diante da instabilidade do Ministério da Saúde na divulgação dos números sobre a Covid-19. Além da pasta ter atrasado por diferentes vezes a atualização de seus boletins, mudanças na metodologia fizeram especialistas levantarem suspeitas sobre a correção dos números. O boletim do consórcio é organizado com base nos números de cada estado.

No dia em que o país chegou a 800 mil infectados pelo coronavírus e ultrapassou a casa dos 40 mil mortos, o presidente Jair Bolsonaro pediu a apoiadores que "arranjem" um jeito de entrar em hospitais públicos ou de campanha que atendam pacientes com a Covid-19 para filmarem o interior das instalações. A ideia, segundo ele, seria mostrar a real dimensão da epidemia causada pelo novo coronavírus. Mais uma vez sem provas, Bolsonaro levantou suspeitas de que os dados referentes à doença no país estariam sendo manipulados para atingir o seu governo.

“Seria bom você fazer... na ponta da linha, se tem um hospital de campanha perto de você, se tem um hospital público… arranja uma maneira de entrar e filmar. Muita gente tem feito isso, mas mais gente tem que fazer pra mostrar se os leitos estão ocupados ou não. Se os gastos são compatíveis ou não. Isso ajuda. Tudo o que chega para mim nas redes sociais a gente faz um filtro e eu encaminho para a Polícia Federal ou Abin (Agência Brasileira de Inteligência)”, afirmou Bolsonaro.

A declaração de Bolsonaro vai na contramão das recomendações médicas durante a epidemia. Médicos recomendam que pacientes com Covid-19 e pessoas sem sintomas não compartilhem o mesmo espaço.

No início do mês, deputados bolsonaristas chegaram a entrar no hospital de campanha do Anhembi, em São Paulo, com gritos e celulares ao punho para, supostamente, fiscalizar o funcionamento da unidade. Posteriormente, a prefeitura classificou o episódio como uma "invasão". A administração municipal afirmou, ainda, que os deputados Coronel Telhada (PP), Leticia Aguiar (PSL) e Sargento Neri (Avante) agrediram pacientes e funcionários "verbal e moralmente".

O Brasil está anestesiado pelas atrocidades ditas por Bolsonaro. É insano estimular pessoas a invadir hospitais no meio da pandemia. Não se pode entrar nesses ambientes sem autorização, sem as medidas de proteção, em qualquer situação. Antes mesmo da pandemia, já se obrigava que o visitante lavasse as mãos e tomasse todos os cuidados para entrar nos quartos. A sugestão do presidente é que as pessoas entrem nas UTIs.

Líder mundial em julho

Se não houver nenhuma mudança significativa no avanço da pandemia no país, o Brasil pode superar os Estados Unidos em número de mortes de covid-19 no dia 29 de julho, aponta a projeção de um dos principais modelos matemáticos usados pela Casa Branca para definir suas estratégias. Nesse dia, o Brasil teria 137,5 mil mortos e os EUA, 137 mil.

Para tal, o número atual de mortes precisaria quase quadruplicar nos próximos 50 dias. Um avanço com uma magnitude dessas ocorreu nos últimos 30 dias: havia 10 mil mortes registradas em 9 de maio e 38 mil em 9 de junho.

Ao atingir esse patamar, o Brasil teria tanto o recorde mundial de mortos por covid-19 quanto o do número de mortes em um dia. Seriam 4.071, quase o dobro do recorde atual, que ocorreu no pico da pandemia nos Estados Unidos, em 14 de abril, com 2.262 mortes registradas. Se for considerada a taxa de mortes por 100 mil habitantes, o Brasil deve superar os EUA em 10 de julho.

As projeções foram feitas pelo Instituto de Métricas e Avaliação da Saúde (IHME) da Universidade de Washington, mas não necessariamente vão se concretizar. Elas se baseiam em diversas variáveis que mudam ao longo do tempo, como o número de casos confirmados e a adesão ao distanciamento social. De todo modo, essas simplificações da realidade servem de baliza para autoridades traçarem suas estratégias.

O pesquisador Theo Vos, professor de ciências de métricas de saúde do IHME, explica que "quanto mais distantes no tempo as projeções são, mais incerteza haverá, tendo em vista a dinâmica da doença e a capacidade que as medidas de contenção adotadas terão para afetar o curso da covid-19".

Ele explicou que uma das variáveis usadas no modelo matemático do IHME é a do quanto a doença está se espalhando, mais especificamente, o número de pessoas que são contaminadas por alguém infectado com o Sars-CoV-2.

Para estimar essa taxa de contágio, Vos afirma que os cálculos são atualizados e ajustados diariamente a partir do "número oficial de mortes registradas e internações hospitalares e das estimativas do número real de casos na comunidade (que podem ser calculadas observando resultados dos levantamentos de anticorpos, que indicam quem, principalmente no passado, teve a doença").

A qualidade dos dados tem influência direta na capacidade de previsão dos cálculos, e o país vive nessa área um apagão, segundo palavras de alguns especialistas. Há poucos testes e sobrecarga do sistema de análise e registro oficial de pessoas doentes ou mortas.

A tendência atual é de aceleração da pandemia, ou seja, o Brasil ainda não atingiu o pico de casos, algo que, segundo pesquisadores, deve ocorrer em meados de agosto.

Essas projeções matemáticas de diversas universidades ao redor do mundo que têm sido divulgadas durante a pandemia levam em conta os dados disponíveis naquele momento — e o grau de confiabilidade varia muito entre os países.

Além disso, esse número de mortes divulgado pela Universidade de Washington leva em conta os índices atuais de distanciamento social, que varia de 34% a 47% de adesão a depender do Estado, mas o Brasil parece seguir três caminhos diferentes: reabertura, quarentena flexível e bloqueio total.

Estimativas sobre situação do país

Antes de tentar projetar o mais provável trajeto do Brasil durante a pandemia, os pesquisadores tentam entender a dimensão da situação atual. Mas isso não é uma tarefa simples.

O governo brasileiro não sabe ainda quantos leitos estão ocupados no país por pacientes com covid-19 nas redes pública e privada. O levantamento foi iniciado em meados de março, quando Luiz Henrique Mandetta era ministro ainda.

Também não se sabe ao certo o atual número de pessoas infectadas e mortas por covid-19 no país.

Segundo o Ministério da Saúde, 739.503 pessoas foram diagnosticadas com o novo coronavírus e 38.406 morreram em decorrência da covid-19. O Brasil registrou mais de 1,2 mil mortes diárias em 5 dos 10 primeiros dias de junho.

Mas estudos liderados pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) apontam que o número de pessoas que contraíram o vírus, mas não entraram nas estatísticas porque não foram testadas, pode ser de sete infectadas não testadas para cada diagnóstico oficial.

Há também subnotificação no número de mortes, de pessoas que morreram em decorrência de uma síndrome respiratória aguda grave (srag, quadro de sintomas no qual a doença do novo coronavírus se enquadra, assim como a gripe sazonal), mas não foram testadas para covid-19 ou os resultados estão atrasados. Já há mais de 6 mil mortes acima da média histórica de srag.

Reaberturas e lockdowns          

O espalhamento da covid-19 no Brasil começou pelas capitais e agora ganha força no interior do país. Hoje, praticamente todos os municípios do país com mais de 20 mil habitantes já registraram casos da doença. O restante pode não ter pessoas infectadas de fato ou enfrentar também problemas de subnotificação.

Para pesquisadores da UFPel, "existem várias epidemias num único país", com patamares bastante diferentes de espalhamento da covid-19.

Parte dos Estados e municípios decidiu reabrir a atividade econômica apesar do número de casos estarem em alta e sem implementar o modelo adotado por outros países, que fizeram o mesmo movimento utilizando testes em massa na população e rastreamento e isolamento de infectados e das pessoas com as quais tiveram contato.

O principal fator para a reabertura é o impacto econômico da pandemia, que destruiu quase 8,6 milhões de empregos formais e informais no Brasil. A atividade despencou também por causa do fechamento de empresas e lojas e do medo das pessoas de saírem às ruas.

A Prefeitura de São Paulo, por exemplo, decidiu reabrir lojas de rua, imobiliárias e shoppings nesta semana. Até pouco tempo atrás, o governador paulista, João Doria, falava em adotar um bloqueio total da circulação de pessoas, mas mudou sua postura e passou a defender a reabertura.

Por outro lado, o Rio de Janeiro vive um vaivém de decretos e decisões judiciais que ora permitem a reabertura, ora determinar o bloqueio total. Praia pode, mas não banho de mar. O governador fluminense, Wilson Witzel, autorizou a reabertura de bares e restaurantes, mas o prefeito da capital do RJ, Marcelo Crivella, barrou a retomada desse segmento econômico.

Mortes em casa disparam: especialistas afirmam que números podem indicar subnotificação

Enquanto estados dão início aos seus planos de retomada de atividades e até divulgam queda na ocupação de leitos, especialistas alertam para uma estatística que pode sugerir subnotificação de mortes por Covid-19: os óbitos domiciliares. No Rio de Janeiro, o número de pessoas que morreram em casa disparou em comparação com os mesmos meses de 2019, segundo o Portal da Transparência do Registro Civil. A mesma tendência é encontrada em São Paulo, epicentro da pandemia.

Na semana passada, pesquisadores da UFRJ divulgaram uma nota técnica cobrando qualificação desses dados e citando a sua relevância para os planejamentos de abertura da economia.

Desde o dia 16 de março (quando se iniciou a quarentena no Rio) até a última quinta-feira, 6.281 pessoas morreram em casa no estado do Rio. Destas, 119 foram diagnosticadas com coronavírus. Excetuando essa porção, são 6.162 óbitos, número 36% maior do que as 4.508 mortes no mesmo período de 2019. Na capital, a porcentagem é praticamente a mesma: foram 2.463 óbitos domiciliares, sendo 67 por Covid-19, contra 1.773 em 2019, segundo o Portal da Transparência do Registro Civil.

“Em todas as capitais acometidas pelo Covid-19 notamos esse aumento de óbitos domiciliares. Isso preocupa, porque pode estar mostrando uma subnotificação de óbitos, o que impacta na subnotificação de casos confirmados”, explicou o infectologista Rafael Galliez, da UFRJ.

Na nota técnica, os pesquisadores alertam para um contexto de “falso normal”, uma estatística aparentemente natural, mas “influenciada por variáveis adicionais e não percebidas que sofrem influência direta do contexto pandêmico pelo qual se está passando”. Eles ainda lembram que os óbitos domiciliares podem estar “contribuindo” para a diminuição da ocupação dos leitos.

“Por que a fila andou mais rápido? Será que pessoas estão recebendo alta de forma prematura e indo para casa, e de repente morrendo em casa?”, questiona a coordenadora do núcleo de saúde da Defensoria Pública do Rio, Alessandra Nascimento, que também cobra qualificação da estatística. “O que nos parece é que houve uma “invasão” dos leitos que não seriam destinados para coronavírus”.

Segundo ela, a fila para UTI em casos que não de Covid-19 está crescendo. Na semana passada, passou de 160. Procurada, a prefeitura não apresentou os números até a conclusão desta edição. A secretaria municipal de Saúde declarou, contudo, que “possui um protocolo de investigação de óbitos com causa indeterminada” e que, em 2019, 3.486 óbitos foram investigados, com 2.026 respondidos. Sobre o aumento, disse que, em 2019, entre março e maio, “18,5% dos óbitos domiciliares por causa natural foram atestados pelo IML, enquanto em 2020 esse percentual foi de 5,8%, o que pode explicar algum impacto na qualidade da causa declarada atualmente, uma vez que óbitos não passam mais por exame de necropsia”.

Assim como no Rio de Janeiro, o número de óbitos em domicílio também cresceu em São Paulo. De acordo com o Portal da Transparência do Registro Civil, as mortes em casa no estado de São Paulo subiram 13%, passando de 9.578 entre março e junho do ano passado para 10.891 óbitos no mesmo período deste ano. A maioria das certidões chega aos cartórios sem causa específica apontada. Esses óbitos sem registro de causa específica somaram 7.716 casos entre março e junho do ano passado. Agora em 2020, esse número já chega a 9.158, alta de 18%.

Na capital, as declarações registradas em cartório desde março indicam um crescimento de 35% nas mortes em domicílio entre os anos de 2020, quando foram registradas 2.196 mortes sem causa determinada, até junho, e 2019, quando o número ficou em 1.623 no mesmo intervalo.

Para o infectologista Marcos Boulos, professor de Medicina da USP, coordenador do Controle de Doenças estadual e membro do Centro de Contingência do Coronavírus em São Paulo, as mortes em casa podem ter aumentado pelo fato de alguns pacientes subestimarem a gravidade da doença, confusos pelas mensagens contraditórias das administrações federal e local. Além de relatos de que os serviços de atendimento estejam desencorajando a ida aos hospitais.

“Recebo pacientes que dizem ‘olha, o convênio pediu para ficar em casa, mas estou assim’. E a pessoa tem insuficiência respiratória, deve ir pro hospital. A possibilidade é que, com a demanda excessiva, os serviços tentam afastar novos casos leves e exageram no tom. Adoecer em casa é natural, e as pessoas devem ficar em casa se a doença não for intensa. Mas se tiver falta de ar, tem que ir”, alerta Boulos

Ignorando sinais

Outros fatores apontados são a falta de procura de atendimento por idosos que vivem sozinhos, negligência de familiares e o receio de contaminação hospitalar. Cabe ressaltar, contudo, o fato de muitas pessoas com outras enfermidades evitarem ir aos centros médicos justamente pelo medo da contaminação — isso também pode impactar nas mortes dentro de casa.

A Secretaria de Saúde do estado afirmou, em nota, que diversas patologias “podem resultar em óbitos repentinos, antes mesmo de atendimento hospitalar”. A Prefeitura de São Paulo não se manifestou sobre o aumento de 35% nas mortes sem causa entre março e junho, em relação a 2019.

O estado é o epicentro da doença no país, com 140.549 casos e 9.058 mortes, segundo o Ministério da Saúde. Algumas cidades já começaram a retomar atividades, incluindo a capital, observando um protocolo sanitário. A taxa de ocupação de leitos de UTI está acima de 80% na Grande São Paulo e de 70% no estado.


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