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Sábado 08.ago.2020

Ano IX - Nº 405

Mundo

Bolívia: As suspeitas ligações de Jeanine Áñez e Bolsonaro

Estudo descarta fraude e Grupo de Puebla pede que OEA valide reeleição de Evo Morales

Postado em 11 de Junho de 2020 - Felipe Yapur (Página/12, traduzido pela Carta Maior), Opera Mundi – Edição Semana On

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Como todas as ditaduras, a que governa a Bolívia, com Jeanine Áñez no comando, impôs uma barreira de comunicação à sociedade daquele país desde o primeiro minuto após o golpe contra Evo Morales ter sido consumado. No entanto, esse controle de ferro falhou em impedir que os fatos desse governo ilegal aparecessem nas redes sociais.

Foi o caso dos suspeitos e repetidos voos do avião presidencial boliviano para o Brasil que, a princípio, o governo inconstitucional procurou negar. No entanto, dados da empresa estadunidense de rastreamento de voo FlightAware, acessados pelo jornal argentino Página/12, mostram que a aeronave estava em Brasília nas primeiras horas do primeiro dia do golpe, em 11 de novembro de 2019. Jair Bolsonaro é um dos poucos aliados que Áñez e o presidente brasileiro, juntamente com o então presidente argentino Mauricio Macri. Ambos foram dos que negaram a existência de uma ruptura institucional na Bolívia.

O processo eleitoral boliviano em 2019, onde Morales buscou uma nova reeleição, foi alvo de ataques não apenas internos, mas também externos, com o objetivo de impedir que o líder boliviano continuasse a governar aquele país. Nesse contexto, e depois de uma série de levantes policiais e das Forças Armadas, além de traídos por algumas organizações sindicais, Evo Morales foi forçado a renunciar, na manhã de 10 de novembro de 2019, e terminou tendo que se exilar, primeiro no México, depois na Argentina. A partir desse momento, o avião 001 da Força Aérea Boliviana – ou FAB001, como é chamada a aeronave presidencial – começou a realizar uma série de voos que poderiam explicar os vínculos dos conspiradores bolivianos com o governo Bolsonaro.

De fato, nas primeiras horas de 11 de novembro, quando Áñez ainda não havia assumido a presidência, o FAB001 estava decolando do aeroporto de Campina Grande, em São Paulo, para o aeroporto internacional de Brasília. Segundo os registros da FlightAware, ele ficou quatro dias na cidade, e no dia 15 de novembro partiu para São Paulo, para logo retornar a Brasília, dois dias depois. Em 22 de novembro, ele foi para o Rio de Janeiro, e retornou à capital brasileira no dia seguinte. No mesmo dia 23, ele voou para o aeroporto de Manaus, na Amazônia, onde esteve até 26 de novembro. No dia 27, ele finalmente retornou a La Paz. Durante todo esse tempo, Áñez esteve na capital boliviana.

Os dados que o FlightAware entrega são confiáveis. A empresa está sediada em Houston, no Texas, e é uma conhecida empresa global de software de aviação que fornece rastreamento de voos para aeronaves particulares e comerciais em todo o mundo. Em seus arquivos, as viagens do FAB001 continuaram após o golpe. O que é surpreendente é que os voos para o exterior do avião presidencial desde o dia 11 de novembro e até o dia 8 de maio, foram feitos exclusivamente para o Brasil. São registrados 25 voos, sem contar os dias em que a aeronave estava estacionada nos aeroportos brasileiros, e com detalhes dos voos entre diferentes cidades do país. Com relação às transferências no território boliviano, ele praticamente voou para Santa Cruz, o distrito onde foi planejado e organizado o golpe contra Morales. A aeronave presidencial praticamente não visitou o restante dos departamentos bolivianos.

De fato, o que tornou conhecida a existência desses voos suspeitos foi o fato de ter sido divulgado pelas redes sociais que, em 7 de maio, o avião presidencial boliviano havia retornado do Brasil depois de passar vários dias por lá. Naquela semana, não havia explicação para a transferência da aeronave para esse país. Além disso, o governo de Áñez considerou essa informação falsa. No entanto, lendo a planilha da FlightAware, se pode ver que o FAB001 voou para Brasília em 30 de abril e depois foi a São Paulo, onde passou algumas horas, antes de retornar à capital brasileira. O avião boliviano se manteve em Brasília até 8 de maio, quando retornou a La Paz.

Embora o status legal da presidência de Áñez possa ser contestado, a verdade é que, se ela tivesse viajado nesses voos para o Brasil, deveria ter notificado o parlamento boliviano para que pudesse ser substituída por quem fosse o líder da Assembleia. Nesse caso, caberia à presidenta do Senado, Eva Copa, que pertence ao MAS (Movimento ao Socialismo), partido de Morales.

No final do ano passado, surgiu um escândalo devido à existência de preços excessivos na compra de armas não letais pelo Ministério da Defesa, entre novembro e dezembro de 2019. O portal especializado Defense.com forneceu detalhes das suspeitas, e estas envolviam uma empresa brasileira. Tudo isso aconteceu no mesmo período de maior intensidade de voos da FAB001 entre a Bolívia e o Brasil.

Entre os seguidores e pessoas de confiança de Evo Morales, praticamente não há dúvidas quanto à presença e acompanhamento de autoridades brasileiras no golpe de novembro passado. Por exemplo, muitas vezes citam informações publicadas – e nunca negadas por Áñez – pela jornalista María Galindo, do portal boliviano Página Siete. A jornalista era uma forte oponente de Morales, mas em sua última coluna nesse meio descreveu a presença e a participação do embaixador brasileiro em La Paz, Octavio Henrique Dias García Côrtes, em uma reunião realizada na Universidade Católica. Galindo aponta para o diplomata como “representante dos interesses dos Estados Unidos e de Bolsonaro”.

A matéria diz que “Jorge Quiroga, como representante da CIA; Fernando Camacho, como chefe do fascismo e líder do processo de derrubada de Evo Morales”, também participaram. Segundo Galindo, nessa reunião, esses homens decidiram quem deveria assumir a presidência. Tudo indica que eles escolheram Áñez, que foi definida como “senadora periférica da direita”, a quem foram procurar e que acabaram entrando na sede do governo nacional, o Palácio Quemado, acompanhado por Camacho carregando uma Bíblia.

Em princípio, a tarefa de Áñez era convocar eleições rapidamente, e tinha sido definido o dia 3 de maio como data ideal. No entanto, a pandemia de covid-19 atrasou tudo, mas não interrompeu as viagens do avião presidencial ao Brasil. Curiosamente, tudo foi descoberto porque foram feitas reclamações sobre o uso de outras aeronaves oficiais pela filha de Áñez, que usou um desses aviões para comemorar um aniversário em meio à quarentena.

Estudo descarta fraude

O Grupo de Puebla, organização formada por 30 líderes de 12 países da América Latina, divulgou no último dia 10 uma nota solicitando que a Organização dos Estados Americanos (OEA) "declare a legalidade das eleições à presidência de Evo Morales", realizada no dia 20 de outubro de 2019.

O fato de a OEA ter afirmado que havia indícios de fraude na eleição que reelegeu Morales teve consequências e levou "à radicalização da oposição política boliviana, tendo como consequência um golpe de Estado" contra o ex-presidente, diz o grupo.

O comunicado vem após um estudo de pesquisadores da Universidade da Pensilvânia e da Universidade de Tulane, divulgado pelo jornal New York Times, no qual se demonstrou, depois de uma análise da votação boliviana, que a OEA "não apresentou evidências de fraude nas eleições". 

"Os pesquisadores demonstram que não houve variações nos padrões de votação, dentro dos recintos eleitorais, antes e depois da interrupção da contagem preliminar de votos. Inclusive, as trajetórias nas tendências de votação não variam em relação aos padrões eleitorais anteriores", afirma a nota.

A organização pede que a OEA esclareça "cada um dos elementos que foram contestados pelo estudo" e solicita ainda que a autoproclamada presidente da Bolívia, Jeanine Áñez, entregue o cargo devido ao "atraso sistemático e inexplicável das eleições naquele país".

"As ações cometidas pela OEA no caso boliviano são absolutamente repudiáveis, uma vez que, se suas discricionariedades forem comprovadas, permitiriam à comunidade internacional presumir que a organização multilateral foi cúmplice da derrubada de um governo democrático", diz o grupo.

O Grupo Puebla expressa sua preocupação com a nova evidência que esclarece a natureza precipitada e proposital da declaração da OEA, ao determinar a consumação de fraude eleitoral nas eleições realizadas na Bolívia em 20 de outubro de 2019 e apela à comunidade internacional, com base nas dramáticas conseqüências que tiveram a observação eleitoral da OEA, considerando-as como um elemento que levou à radicalização da oposição política boliviana, tendo como consequência um golpe de estado contra o presidente da Bolívia, Evo Morales.

Este novo estudo demonstra que as evidências estatísticas disponibilizadas pela OEA são infundadas, de modo que as alegações de fraude eleitoral não têm sustentação.Conforme demonstra a análise dos pesquisadores da Universidade da Pensilvânia e da Universidade de Tulane, Rodríguez, Idrobo e Kronick, referenciada pelo New York Times, a OEA não apresentou evidências de fraude nas eleições.

Os pesquisadores demonstram que não houve variações nos padrões de votação, dentro dos recintos eleitorais, antes e depois da interrupção da contagem preliminar de votos. Inclusive, as trajetórias nas tendências de votação não variam em relação aos padrões eleitorais anteriores. Essa publicação se soma a outros estudos, como os dos pesquisadores do Laboratório Eleitoral do MIT, publicado no Washington Post e a outros vários estudos do Centro de Investigação de Economia e Política (CEPR).

As ações cometidas pela OEA no caso boliviano são absolutamente repudiáveis, uma vez que, se suas discricionariedades forem comprovadas, permitiriam à comunidade internacional presumir que a organização multilateral foi cúmplice da derrubada de um governo democrático.

Instamos a OEA a esclarecer imediatamente cada um dos elementos que foram contestados pelo estudo de Rodríguez, Idrobo e Kronick. Ao mesmo tempo, solicitamos a presença de uma comissão independente para não deixar tudo sob responsabilidade da Secretaria Geral da OEA, a fim de resguardar o próximo processo eleitoral previsto para setembro.

Por outro lado, instamos o governo da Bolívia, liderado por Jeanine Áñez Chávez, a entregar imediatamente o poder do Estado, devido ao atraso sistemático e inexplicável das eleições naquele país.

Assinado em 10 de junho de 2020

1. Celso Amorim
2. Ernesto Samper
3. Aloizio Mercadante
4. Fernando Lugo
5. Dilma Rousseff
6. Camilo Lagos
7. Mónica Xavier
8. Rafael Correa
9. Jorge Taiana
10. Guillaume Long
11. Marco Enríquez-Ominami
12. Fernando Haddad
13. Esperanza Martínez
14. Gabriela Rivadeneira
15. Clara López
16. Daniel Martínez
17. Carlos Ominami
17. Alejandro Navarro


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