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Quarta-Feira 08.jul.2020

Ano VIII - Nº 400

Coluna

Para sorrir e amar - a comédia romântica no cinema

O doce delírio de flutuar na quimera enluarada das paixões inesperadas e o caminho cheio de sorrisos e gargalhadas que pavimenta uma ideia de felicidade. Por que não? As comédias românticas existem para isso

Postado em 09 de Junho de 2020 - Clayton Sales

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Nada mais convidativo que a escuridão aconchegante da sala de cinema, com suas poltronas confortáveis e próximas, para duas pessoas dividirem instantes de carinhosa intimidade. A atmosfera imersiva dos espaços cinematográficos sempre serviu para unir afetos. As mãos que se aliançam, os ombros que acolhem, o beijo trocado. Uma boa parte do encanto do cinema provém da experiência total dessa arte, da qual o local é elemento orgânico. Quando existem almas enamoradas, o cinema vira programa de casal. Quando as almas ainda estão naquela fase repleta de mistérios, riscos e incertezas que marca os possíveis futuros relacionamentos, o cinema vira estratégia sorrateira e estimulante para a conquista. E quando o filme exibido na grande tela é uma história amorosa carregada de açúcar, às vezes, com uma pitada de amargor ou com doses suspirantes de pimenta, mas sempre com um final colorido e ensolarado? Itinerário completo rumo a saborosos momentos de felicidade, pelo menos durante duas horas na escuridão aconchegante. 

O sucesso das comédias românticas no cinema se deve a junção arrebatadora de tramas em que a paixão é um sentimento excitante e desafiador, que leva seus adeptos a situações divertidas, culminando no famoso "final feliz", em que a pessoa encontra na outra o sentido de sua vida. São, sobretudo, histórias de relacionamentos monogâmicos e heteroafetivos, que acabam servindo também ao reforço desse padrão cultural de emparceiramento amoroso, usando a ternura e a graça para naturalizar tais paradigmas. Histórias de amor deslocadas dessa normativa geralmente são desenvolvidas sob textura dramática, em grande parcela, pela tensão dos obstáculos impostos por essas regras tácitas na vida real. Durante o século 20, o desenvolvimento do cinema como meio de comunicação de massa, portanto, poderoso agente influenciador de comportamentos e valores, contribuiu e criou, por meio das comédias românticas, a idealização do destino "final" que deságua na felicidade eterna como recompensa para quem persegue o amor. Diferentes dos dramas românticos, as comédias românticas lançam mão do lúdico para afastar as plateias da complexidade dos relacionamentos reais que, obviamente, possuem seus dias dourados, e mergulhá-las em fantasias carregadas de magia. 

Embora o teatro grego antigo apresente autores proféticos, como os da chamada New Comedy, Shakespeare pode ser creditado como um ancestral da comédia romântica. Vários de seus textos teatrais são comédias em que os personagens são casais e seus conflitos familiares, como "Sonho de uma Noite de Verão", adaptada 12 vezes para o cinema, sendo a última dirigida por Michael Hoffman, em 1999, "Muito Barulho por Nada", que ganhou sua versão para a sétima arte em 1993 pelas mãos de Kenneth Branagh, e "A Megera Domada", que foi transformada no sucesso "10 Coisas que eu Odeio em Você" (1999) de Gil Junger. Desde então, a literatura e o teatro fornecem abundantes histórias de amor e riso, como "Emma" de Jane Austen, convertida para o cinema como "As Patricinhas de Beverly Hills" (1995) de Amy Heckerling, e "Pigmalião" de George Bernard Shaw, que ganhou versões cinematográficas modernas em "Minha Bela Dama" (1964) de George Cukor e "Ela é Demais" (1999) de Robert Iscove. Porém, o amor fantasiado, idealizado e carregado de graça alimentou a criatividade de roteiristas e o cinema tratou de elaborar suas próprias histórias, consolidando essa modalidade de cinema entre as predileções de cinéfilas e cinéfilos pelo mundo. 

Coração das plateias, bolsos dos realizadores. De Hollywood ao cinema europeu, passando pela produção asiática e africana, chegando ao audiovisual latino-americano, a comédia romântica se tornou um gênero de alto retorno financeiro. "Casamento Grego" (2002) de Joel Zwick, com roteiro da atriz principal Nia Vardalos, é o filme do segmento mais bem sucedido nas bilheterias até agora, com uma arrecadação de quase 400 milhões de dólares. Essa produção também pode ser incluída na lista das comédias românticas que obtiveram boa aceitação da crítica, em geral, resistente a obras do gênero, o que pode ser demonstrado pela pouca presença nas premiações mais prestigiadas, como o Oscar. O filme expõe a tática comum para uma comédia romântica ganhar repercussão positiva: o amor forjado nas diferenças. Em "Casamento Grego", é o amor entre o homem americano liberal e a mulher de família que cultiva tradições conservadoras da Grécia. Outro exemplo que corrobora essa artimanha e ganhou a simpatia de público e analistas é "Uma Linda Mulher" (1990) de Garry Marshall, o amor entre o bilionário e a prostituta de rua.

Fora do cinema americano, as comédias românticas também formam um mercado próspero que, eventualmente, entrega bons filmes. Um exemplo é "O Fabuloso Destino de Amélie Poulin" (2001), produção francesa de Jean-Pierre Jeunet, sobre uma jovem que se muda para Paris, trabalha em um café, encontra uma caixa e busca o dono, o que muda sua vida. No Brasil, são produções que normalmente levam grandes públicos às bilheterias, embora nem sempre com aceitação calorosa dos especialistas. "Lisbela e o Prisioneiro" (2003) de Guel Arraes é uma obra que ganhou a simpatia das plateias, possivelmente porque, além da trama amorosa e irreverente, elementos da cultura nordestina temperam a história. 

Outro atrativo das comédias românticas são as trilhas sonoras. Como parte do processo de afastamento simbólico da complexidade dos relacionamentos amorosos, cobrir uma história com a climatização sonora adequada é decisivo para o êxito dos filmes. Por isso, as comédias românticas no cinema são, frequentemente, coletâneas de canções, originais ou não, que ajudam a projetar a obra, ao mesmo tempo que são beneficiadas pela produção que a abriga. "Um Lugar Chamado Notting Hill" (1999) de Roger Michell conquistou as audiências e parte da crítica com a colaboração da música "She", de Charles Aznavour, regravada pelo cantor Elvis Costello, especialmente por causa do modo eloquente como foi encaixada. A canção é o background para os minutos finais da produção, consolidando na trama a sorte vitoriosa entre a famosa estrela do cinema e o anônimo dono de pequena livraria de Londres. 

Independente dos humores da crítica, a comédia romântica é entretenimento certeiro para quem é viciado em sonhar. Se o plano racional leva à problematização sobre modelos e a consequente discriminação de quem não se enquadra neles, a idealização dos relacionamentos e a ilusão do "felizes para sempre", ignorando que o amor também tem sua cota de renúncias, sacrifícios e dissabores, a dimensão sentimental torna as comédias românticas espaços para saborosas fugas. Saborosas e necessárias, em um mundo de emoções cada vez mais rarefeitas e vínculos cada vez mais fluidos. Zygmunt Bauman afirmou que "relacionar-se é caminhar na neblina sem ter certeza de nada". Então, por que não assistir a um filme adoçicado na escuridão aconchegante, atualmente da própria casa, e perder-se no doce delírio de divagar pelo desejo de amar e ser amado, com direito a um final feliz? O doce delírio de flutuar na quimera enluarada das paixões inesperadas e o caminho cheio de sorrisos e gargalhadas que pavimenta uma ideia de felicidade. Por que não? As comédias românticas existem para isso.


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