Semana On

Quinta-Feira 29.out.2020

Ano IX - Nº 416

Coluna

Dá pra confiar nos números do governo?

O jornalista Victor Barone resume a semana política, com humor e acidez

Postado em 09 de Junho de 2020 - Victor Barone

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O Brasil tem 809.398 casos de Covid-19 e 41.162 vidas perdidas pelo coronavírus Sars-CoV-2. Os números são do último boletim deste dia 12, do consórcio de veículos de imprensa formado por O GLOBO, Extra, G1, Folha de S. Paulo, UOL e O Estado de S. Paulo, a partir das atualizações das secretarias estaduais de Saúde. O país registrou mais de 100 mil novos casos nesta semana.

A confusão que o governo federal gerou no desde a semana passada – com os atrasos, as promessas de recontagem de mortos, o sumiço dos dados oficiais na internet, o retorno sem o acumulado de casos e óbitos – fez com que outras contagens paralelas ganhassem importância (algumas iniciativas, com o Brasil.io e o MonitoraCovid-19, já existiam antes e fazem um ótimo trabalho com os dados da pandemia). Por um lado, isso aumenta a exposição do governo caso esconda deliberadamente dados. Por outro, gera uma profusão de manchetes diferentes que na certa há de confundir a cabeça dos leitores. Que bom seria poder apenas confiar nos números oficiais…

Vieram à tona os bastidores dessa história. Segundo apuração do Valor – depois seguido por outros veículos, como Estadão e Folha –, os militares que ocupam postos-chave do Ministério da Saúde vinham pressionando técnicos da pasta há muito tempo para maquiar os dados da pandemia. De acordo com o Estadão, a ordem partiu primeiro de Jair Bolsonaro, que a repassou a Eduardo Pazuello. E a pressão chegou até mesmo à Abin, cujos dados são só para uso interno.

Depois de muitas críticas dentro e fora do país, ontem o Ministério da Saúde liberou suas informações mais cedo, e também o número acumulado de óbitos e casos registrados. Disse que continuará fazendo dessa forma. Além disso, o secretário-executivo do Ministério da Saúde, o coronel Élcio Franco, afirmou que não vai ser feita nenhuma recontagem dos dados já consolidados. A ideia, como vimos, tinha sido propagada na imprensa pelo empresário Carlos Wizard, que desistiu da Secretaria de Ciência e Tecnologia antes de tomar posse.

Mas nem por isso se pode dizer que a transparência tenha passado a reinar. Voltando à reportagem do Valor, o governo defende que sejam adotados novos critérios para tornar os números menos dramáticos, divulgando apenas as mortes ocorridas e confirmadas de fato nas últimas 24 horas. Como bem sabemos, o atraso nos diagnósticos faz com que os óbitos sejam registrados dias ou até semanas depois, de modo que as mortes registradas em um dia são, quase todas, antigas. Não é preciso gastar muitos neurônios para enxergar o problema: boa parte das mortes recentes só será confirmada no futuro. Hoje, por exemplo, há mais de quatro mil óbitos em investigação, que precisam aparecer em algum momento. Mas, se depender do desejo do governo, vão sumir, não aparecendo em estatística nenhuma.

A história só piora. Técnicos ouvidos pelo jornal afirmam que a sugestão partiu do empresário Luciano Hang, da Havan, em um vídeo encaminhado por WhatsApp. O vídeo foi enviado aos técnicos por Elcio Franco e é um show de bizarrices. Nele, Hang promete fazer uma live com Osmar Terra (pois é) para “mostrar o que está por trás dos números”; em seguida, apresenta um gráfico com as últimas mortes, que formam uma curva decrescente. Mas isso é óbvio, porque faltam justo as mortes ainda não confirmadas. Ontem essa videoconferência aconteceu. O dono da Havan e o deputado afirmaram, sem evidências, que o pico da epidemia de coronavírus já passou. E defenderam a operação abafa do Ministério da Saúde…

Os técnicos dizem que, desde o compartilhamento do primeiro vídeo de Hang, têm sido constantemente pressionados por Elcio Franco e por seu adjunto, Jorge Kormann, para mudar os critérios de divulgação. E ainda denunciam que um boletim epidemiológico elaborado pela equipe técnica foi “censurado” por Franco por conter dados cumulativos.

A propósito, todos ali sabem que, na verdade, o que existe é uma grande subnotificação, tanto de mortes como de casos. O ex-número dois da Saúde (e atual secretário-executivo do Centro de Contingência da covid-19 em SP) João Gabbardo provocou o general Eduardo Pazuello nesse sentido: “Ele foi a primeira pessoa que discutiu no Ministério essa divergência entre os casos de covid e o número de sepultamentos em Manaus. Ele mostrou claramente, com dados, que a média diária de sepultamentos tinha aumentado sete vezes, e o número de casos de covid era muito menor que essa diferença”, disse, em entrevista à CNN.

Após a mudança na divulgação dos dados referentes ao novo coronavírus feita pelo governo, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta usou o Twitter para alfinetar o presidente Jair Bolsonaro por meio de um versículo bíblico. O ex-auxiliar citou João 8:32, que é frequentemente repetido pelo presidente: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. A publicação da mensagem veio na esteira de o Ministério da Saúde afirmar que não iria mais divulgar o número acumulado de mortes e casos confirmados da doença no Brasil e alterar, na noite de ontem, o número de óbitos pela covid-19. “Conforme João 8:32 ‘conhecereis a verdade e a verdade vos libertará’. Não basta citar, tem que praticar”, escreveu Mandetta. A mensagem foi compartilhada na rede social pelo ex-ministro Sérgio Moro. O comentário do ex-ministro foi acompanhado de uma postagem que indicava uma declaração na qual Mandetta dizia que a omissão de dados na Saúde era “burra” e “tacanha”.

A deputada estadual Janaina Paschoal (PSL-SP) usou o Twitter para questionar os motivos do governo para fazer a alteração do boletim com dados do novo coronavírus.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), também criticou a alteração do governo na divulgação dos dados sobre o novo coronavírus. Em uma publicação nas redes sociais, o parlamentar afirmou que “brincar com a morte é perverso”após o Ministério da Saúde apresentar dois boletins divergentes sobre o número de óbitos divulgado na noite de ontem.

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, criticou duramente a tentativa do governo de dificultar o acesso aos dados sobre os casos e mortes pelo coronavírus. “A manipulação de estatísticas é manobra de regimes totalitários”, reclamou. “Tenta-se ocultar os números da COVID19 para reduzir o controle social das políticas de saúde. O truque não vai isentar a responsabilidade pelo eventual genocídio”, postou o ministro nas suas redes sociais.

A sonegação de informações e o atraso na divulgação de dados podem fazer com que aumente a lista de pedidos de impeachment de Jair Bolsonaro. Segundo especialistas entrevistados pela Folha: o presidente pode responder por violar a Lei de Acesso à Informação, a Lei de Medidas a Emergência em Saúde e ser enquadrado na Lei de Improbidade Administrativa. Pode também responder por crime de responsabilidade: “O envolvimento pessoal e doloso do presidente em orientar essa violação à lei em relação aos números é uma hipótese. Além disso, quando menos, o atual cenário já pode configurar violação a uma série de direitos fundamentais, e a violação desses direitos já é uma das modalidades de crime de responsabilidade”, diz Ademar Borges, professor de Direito Constitucional.

Em pronunciamento, o diretor do programa de emergências da OMS, Michael Ryan,  pediu “transparência” na divulgação dos dados brasileiros. Como não se pode contar com a palavra nem com a boa vontade do governo, partidos e parlamentares estão tomando suas medidas. Fechando o cerco, à noite o ministro Alexandre de Moraes, do STF, determinou que o governo retomasse a divulgação na íntegra dos números acumulados. A decisão atendeu a um pedido feito pelos partidos Rede Sustentabilidade, PSOL e PCdoB. E a Câmara deve votar um projeto de lei que obriga o governo a divulgar informações sobre casos, capacidade do sistema de saúde e uso de recursos públicos em um portal único na internet. Já foram apresentados pelo menos dois textos nesse sentido.  A mesma Casa deve lançar um aplicativo com dados da pandemia e espaço para receber denúncias.

SIGILO GERAL

Pareceres jurídicos que orientam o presidente na sanção ou veto de projetos aprovados no Congresso daqui para frente serão considerados sigilosos. A decisão foi tomada pela Controladoria Geral da União, a CGU, e faz parte de uma história esquisita.

Tudo começou em setembro do ano passado, quando o jornal O Globo pediu, via Lei de Acesso à Informação, os pareceres que embasaram a sanção do projeto de abuso de autoridade. Para quem não lembra, houve uma certa sensação porque Bolsonaro não acatou as sugestões de veto feitas pelo então ministro da Justiça, Sergio Moro. Pois bem: O Globo não conseguiu vários documentos pedidos ao governo, mas entrou com recurso.

A decisão da CGU, favorável ao jornal, não foi obedecida pela Presidência. Com isso, foi formalizada uma denúncia. Mas, ao invés de cumprir a determinação da Controladoria, a Presidência começou uma pressão para que a decisão fosse revista fora do prazo legal para esse tipo de recurso – a CGU, então, mudou de posição e decidiu que os documentos pedidos pelo jornal não deveriam ser liberados. E mais: estendeu a decisão a todos os pareceres feitos pelas assessorias jurídicas dos ministérios. Para a Transparência Internacional, trata-se de “mais um episódio no histórico do governo de ataques à transparência e à autonomia das instituições públicas”.

Por Outra Saúde

MÃE DINAH

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), criticou a deputada Carla Zambelli (PSL-SP) após ela incluir seu nome entre os próximos alvos de operações da Polícia Federal. Ela já havia adiantado que os governadores Wilson Witzel (PSC) e Helder Barbaralho (MDB) receberiam visitas de agentes da PF, como de fato ocorreu, em investigações sobre suspeitas de desvios de recursos públicos no combate à pandemia do novo coronavírus. Carla é mulher do coronel Antônio Aginaldo de Oliveira, comandante da Força Nacional e coronel da Polícia Militar no Ceará.

“Ela prefere cumprir o papel de Mãe Dinah (vidente) do que de parlamentar. Ela trata a Polícia Federal como polícia privada. Em qualquer lugar, se ela estiver exercendo essa função, estamos falando de uma polícia política. São Paulo não precisa de uma deputada que prefere engraxar as botas do militares e do presidente”, disparou Doria em coletiva nesta tarde. Mais cedo, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, disse à Rádio Gaúcha que “se não houve (vazamento) ela tem bola de cristal; uma coisa ou outra”.

Por Equipe BR Político

ARREPENDIDA

A deputada estadual Janaina Paschoal (PSL-SP) não escondeu ter ficado “indignada” com a recriação do Ministério das Comunicações e com a nomeação do deputado federal Fábio Faria (PSL-RN). Embora tenha feito campanha para Jair Bolsonaro, o passado político público do genro de Silvio Santos mostra sua aliança por muitos anos com o PT e com o apoio a Luiz Inácio Lula da Silva e a Dilma Rousseff. “Gente, não quero ser injusta com ninguém, não quero fazer juízo prévio. Mas será que Jair Bolsonaro não deu um Google no nome do novo Ministro? Não é possível! Foi para isso que eu apoiei esse Presidente? Foi para isso que fomos às ruas para derrubar Dilma?”, reclamou a deputada pelas suas redes sociais. “Sim, eu estou indignada!”, acrescentou.

Por Marcelo de Moraes

Janaina Paschoal acha que alguns apoiadores de Jair Bolsonaro não estão, de fato ao seu lado. Ela citou no Twitter o caso da ativista bolsonarista Sara Winter. Sem considerar que Bolsonaro possa estar apenas fazendo um discurso em público e mantendo a mobilização dos apoiadores no particular, Janaina quer saber a quem servem esses ativistas. “Ontem, na live, por três vezes, o Presidente pediu que seus apoiadores não saiam às ruas no próximo domingo. Eu venho alertando que os apoiadores que aí estão não são apoiadores de verdade”, disse. E acrescentou: “Alguns líderes, supostamente bolsonaristas, já estão convocando. A quem eles servem? Nem tudo é o que parece ser!”, afirmou.

WIZARD

Poucos dias depois de entrar no Ministério da Saúde, o empresário Carlos Wizard anunciou sua saída da Pasta, aumentando a crise no setor. “Informo que hoje (7) deixo de atuar como Conselheiro do Ministério da Saúde, na condição pro bono. Além disso, recebi o convite para assumir a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos da pasta”, afirmou o empresário em nota. “Agradeço ao ministro Eduardo Pazuello pela confiança, porém decidi não aceitar para continuar me dedicando de forma solidária e independente aos trabalhos sociais que iniciei em 2018 em Roraima”, disse. “Peço desculpas por qualquer ato ou declaração de minha autoria que tenha sido interpretada como desrespeito aos familiares das vítimas da Covid-19 ou profissionais de saúde que assumiram a nobre missão de salvar vidas”, concluiu.

O presidente nacional do Cidadania, Roberto Freire, ironizou a escolha do empresário Carlos Wizard para ocupar uma secretaria no Ministério da Saúde. “Esse Wizard cai como uma luva no governo Bolsonaro. Um boquirroto agressivo e leviano”, disse Freire.

Por Marcelo de Moraes

SABE NADA

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso não escondeu sua perplexidade ao assistir o vídeo com a reunião ministerial comandada por Jair Bolsonaro, no dia 22 de abril. Para ele, a confusão exibida durante o encontro deixou claro que o governo não tem rumo. Em entrevista para Miriam Leitão, na GloboNews, da qual participaram também Ciro Gomes e Marina Silva, ele fez um diagnóstico duro e direto sobre o presidente. “Ele não sabe governar”, afirmou.

DEFESA DA DEMOCRACIA

Ciro Gomes fez forte defesa da união entre as forças políticas contra o governo de Jair Bolsonaro. Em entrevista para Miriam Leitão, na GloboNews, da qual também participaram o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, e a ex-senadora Marina Silva, ele mandou um recado para quem ficar de fora desse movimento. “Nós vamos defender a democracia brasileira e quem não vier junto é traidor”, afirmou.

CRIME DE RESPONSABILIDADE

A ex-senadora Marina Silva (Rede) acusou o governo Bolsonaro de cometer crime de responsabilidade ao esconder os dados sobre casos e mortes pelo coronavírus no Brasil. “O governo faz de tudo para manipular a gravidade da Covid-19 no país. Depois de desprezar os efeitos nefastos provocados pelo coronavírus, agora tenta esconder o número de mortes e de pessoas infectadas”, criticou. Marina reclamou das críticas feitas por Jair Bolsonaro contra o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio, por não barrar a divulgação de imagens de enterros em valas pelo coronavírus. O Amazonas é um dos Estados mais afetados pela pandemia no Brasil.

“É inadmissível termos um presidente que fica indignado com o fato do prefeito de Manaus, Arthur Virgílio, não impedir a divulgação de imagens de sepultamentos em valas, ao mesmo tempo em que age para ocultar dados estatísticos de mortes e pessoas infectadas pela Covid-19”, diz. E critica: “Isso é crime de lesa pátria, lesa humanidade e inegável crime de responsabilidade”.

BOLSONARISMO SEM FUNDO

Jair Bolsonaro continua tentando se desvincular do fracasso da resposta brasileira à pandemia. No Twitter e na interlocução diária com apoiadores, o presidente deu uma interpretação falsa à decisão do Supremo sobre autonomia de estados e municípios para decidir sobre quarentenas e outras medidas de contenção do vírus. Para ele, restaria ao governo federal um papel único: repassar verbas. “Essa questão de desemprego e mortes, governadores… Supremo (Tribunal Federal) deu todo poder para eles para gerir esse problema. Eu apenas injeto bilhões nas mãos deles, e alguns ainda desviam”. Conveniente, não?

Aliás, falando em bolsonarismo-raiz: o presidente prometeu a uma mulher que o aguardava em frente ao Palácio da Alvorada que ela seria recebida no Ministério da Saúde. Por quê? Bom… porque ela disse que conversa com Deus e, por isso, sabe como curar o novo coronavírus (a partir de uma dieta de alho cru, aparentemente): “Não preciso que acredite em mim. Preciso que ponha à prova. Podem injetar o vírus em mim. Eu assumo todas as responsabilidades”, disse a irresponsável apoiadora. “Eu te arranjo amanhã para a senhora conversar lá, alguém para conversar com a senhora no Ministério da Saúde. Pode ser?”, respondeu o irresponsável Bolsonaro.

GAGÁ?

Depois de participar do início deste ano para cá de meia dúzia de reuniões da direção nacional do PT e de ouvir sem contestar as opiniões do ex-presidente Lula sobre o momento político que o país atravessa, um ex-ministro do governo Dilma, filiado ao partido desde a sua fundação, desabafou com um amigo na semana passada: “Lula ficou biruta. Está completamente gagá”. Não se leve o que ele disse ao pé da letra. O ex-ministro queria dizer, e foi o que explicou ao amigo, que o ex-presidente, depois que foi libertado, dá a impressão de não compreender o que se passa no país. Acha que a prisão, de fato, fez-lhe muito mal. E que ele parece ter perdido a capacidade de se antecipar aos fatos. O diagnóstico do ex-ministro é compartilhado por vários líderes do PT. Mas, como ele, nenhum se arrisca a dizer publicamente o que pensa. Todos concordam que Lula ainda é a maior estrela do partido e que por tudo que já fez merece respeito. O que não significa necessariamente que se deva fazer o que ele manda.

Por Ricardo Noblat

GENTE DE BEM 1

Um dos vice-líderes do governo na Câmara, o deputado Daniel Silveira (PSL-RJ) informou que foi diagnosticado com covid-19. O deputado, que ficou conhecido durante a campanha eleitoral ao quebrar uma placa com o nome da ex-vereadora Marielle Franco, declarou em maio que o coronavírus “idiotiza” as pessoas. “As pessoas não estão mais doentes. As pessoas não adoecem com o coronavírus, na verdade, ele idiotiza. O poder do coronavírus é idiotizar as pessoas”, afirmou na ocasião. Ao justificar por que não compareceria aos protestos do último domingo, o deputado alegou, ainda, que estava seguindo a “orientação do líder Jair Bolsonaro”. A gravação foi feita após o deputado ser repreendido em um supermercado por não estar usando máscara. Investigado no inquérito das fake news que corre no Supremo Tribunal Federal (STF), Daniel disse que está assintomático e que usa cloroquina no tratamento. O remédio, que não tem comprovação científica para o combate à doença, é defendido por Bolsonaro e foi pivô da saída dos ministros Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich do Ministério da Saúde.

GENTE DE BEM 2

Jair Bolsonaro gosta de falar. Mas nem sempre aprecia ouvir. Ainda não se deu conta de que, numa democracia, o direito do governante de ser ouvido não inclui automaticamente o direito de ser levado a sério. O presidente se irritou com uma suposta ex-apoiadora que foi ao Alvorada para acusá-lo de traidor por negligenciar a crise sanitária. Ficou entendido, uma vez mais, que Bolsonaro escolheu viver numa democracia com limites bem definidos.

O regime democrático do presidente existe apenas nas redes sociais, ao pé da rampa do Planalto, e no cercadinho do Alvorada. Nas redes, Bolsonaro bloqueia quem ousa questioná-lo. Na rampa, só admite manifestantes que o chamam de "mito". No cercadinho, manda calar a boca os jornalistas que fazem perguntas incômodas e expulsa quem ousa lembrar sua omissão na pandemia.

O problema é que a democracia real começa a invadir a bolha do presidente. Alega-se que houve armação. Mas o que espanta é a aversão do presidente ao contraditório. O "sai daqui" que Bolsonaro disse à senhora que o admoestou no cercadinho do Alvorada é irmão gêmeo do "e daí?", pergunta que o presidente fez a um repórter que o questionou sobre a escalada dos mortos. A diferença é que, entre uma reação e outra, o número de vítimas do vírus aumentou. A contabilidade já roça os 40 mil corpos.

É difícil enxergar a olho nu traços de racionalidade na forma como Bolsonaro lida com as crises que ele mesmo cria. No caso da crise sanitária, a estratégia de terceirizar as responsabilidades não tem lógica. O lógico seria o presidente dividir responsabilidades com prefeitos e governadores, unificando o país. Bolsonaro se comporta mais ou menos como o sujeito que salta do décimo andar e, ao passar pelo oitavo andar, afirma, aliviado: "Até aqui, tudo bem." Não está nada bem. Bolsonaro logo perceberá que, num regime presidencialista, a crise costuma ter a cara do presidente.

GENTE DE BEM 3

Autora de uma fake news propagada em grupos bolsonaristas sobre lei que obrigaria o uso de máscara dentro de casa, a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) se irritou com um tuíte do perfil oficial da Câmara dos Deputados que a desmentiu nas redes sociais. “Engraçado, nunca vi o perfil da Câmara defendendo uma lei aprovada, principalmente um (SIC) que está sendo questionada. Vai ter que usar máscara pra comer tbm?”, ironizou a deputada ao comentar no tuíte da Câmara. Na publicação, a Câmara dos Deputados afirma que “Projeto de Lei 1562/2020 determina que a população deve usar máscaras de proteção facial em ruas, espaços privados de acesso público (como shoppings, lojas, templos, etc.) e no transporte público enquanto durar a pandemia de Coronavírus (Covid-19)” em comentário à publicação do vereador bolsonarista Alexandre Aleluia (DEM-BA), de Salvador, que repercutiu a fake news criada por Zambelli.

Mais cedo, o perfil da Câmara já havia desmentido a informação mentirosa divulgada pela deputada. “É falso que projeto de lei obrigue o uso de máscara dentro de casa e permita invasão domiciliar para fiscalização”, escreveu o perfil da instituição em resposta a uma mensagem que compartilhava um tuíte de Zambelli.

GENTE DE BEM 4

Um ato realizado na quinta-feira (11) pela ONG Rio de Paz na Praia de Coapacana, em memória das milhares de vítimas da Covid-19, foi atacado por um grupo de apoiadores do presidente Jair. Em vídeo divulgado na internet pela própria organização, um homem aparece arrancando algumas das cem cruzes que foram fincadas na praia, ao lado de covas rasas feitas na areia, representando os milhares de mortos pelo coronavírus. “Não pense que todo mundo é cordeiro, não. Todo mundo já acordou. (inaudível) da esquerda. Ninguém suporta mais isso. Criando terror. Isso é terror. Isso é bobagem”, diz o homem, sem máscara, que caminha pela praia. Ele, então, é rebatido por um outro homem que finca novamente as cruzes, enquanto diz que um filho morreu com a doença. “Respeita a dor dos outros. É uma manifestação dos outros. Garoto com 25 anos, saudável, morreu e fica essa palhaçada ai. O mesmo direito que você tem pra retirar [as cruzes], eu tenho pra botar”, afirma.

Em outro vídeo divulgado pela ONG, um idoso com máscara no queiro e empurrando uma bicicleta agride os manifestantes. “Seus merdas. Fala com os governadores, com o do Pará”, diz o homem, enquanto o rapaz que filma tudo narra que “os bolsonaristas chegam ao nosso protesto”.

Pelo Twitter, Anônio C. Costa, presidente da organização disse que “nunca vivemos em nossa história esse desrespeito à livre expressão do pensamento. “Fizemos manifestação nos governos Cabral, Pezão, Lula e Dilma, mas jamais fomos objeto de tanto ódio. Graças a esse pai enlutado, que fixou novamente as cruzes, retomamos o ato público”, tuitou.

Nunca vivemos em nossa história esse desrespeito à livre expressão do pensamento.

Fizemos manifestação nos governos Cabral, Pezão, Lula e Dilma, mas jamais fomos objeto de tanto ódio.

Graças a esse pai enlutado, que fixou novamente as cruzes, retomamos o ato público. https://t.co/TmSHJf3Np6

FRASES DA SEMANA

“O Ciro Gomes viaja para Paris [durante o segundo turno da eleição de 2018], o Fernando Henrique Cardoso anula o voto, e eles vêm dizer que PT elegeu Bolsonaro? Tenha dó”. (Lula, ex-presidente da República)

“A menos que se pretenda postular uma interpretação da Constituição de 1988 à luz da Constituição do Império, retroceder 200 anos na história e rejeitar a transição democrática, não há que se falar em poder moderador das Forças Armadas”. (Luís Roberto Barroso, ministro do STF)

“Não podemos confundir os papeis dos que estão na ativa e sabem os limites da atuação das Forças Armadas e daqueles que estão no governo, e aí envolve a defesa das políticas públicas do governo. É a Constituição que governa a todos nós.” (Dias Toffoli, presidente do Supremo)

“Informação é a nova fonte de riqueza. Temos de nos mobilizar para impedir que ideologias reacionárias distorçam ou neguem fatos no Brasil. Governo que sonega informação aos cidadãos comete crime de responsabilidade. Ainda mais quando há vidas em risco.” (Luciano Huck

“Acho que a solução em relação a Bolsonaro é o impeachment. Para mim ele já cometeu crimes de responsabilidade muito maiores e mais graves que a Dilma.” (Carlos Fernando dos Santos Lima, ex-procurador da República e um dos líderes da força-tarefa da Lava Jato)

“Talvez isso seja o que estamos presenciando: uma ótica muito mais de carreira promocional, de cumprir uma missão e essa missão passa por sonegar informações, torturar os números”. (Luiz Henrique Mandetta, sobre o general que o sucedeu no Ministério da Saúde) 

“Toda autoridade constituída é permissão de Deus. Ele põe e Ele tira, é Ele quem faz isso. Não é jogo corrupto, bandido, de homens que por interesses escusos de ganância e de poder que vai trazer caos para essa nação”. (Silas Malafaia, pastor evangélico bolsonarista)  

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Com informações de Leonardo Sakamoto, Josias de Souza, Ricardo Noblat, Reinaldo Azavedo, Carta Capital, Outra Saúde, Sul 21, o Globo, BR-18, Folha de SP, Fórum, Veja, Dora Kramer, BRPolítico, Vera Magalhães, Marcelo de Moraes e Radar


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