Semana On

Quarta-Feira 05.ago.2020

Ano IX - Nº 404

Saúde

Brasil da pandemia convive com país de Bolsonaro

Trump cita Brasil como mau exemplo para covid e toma distância do presidente brasileiro

Postado em 05 de Junho de 2020 - Josias de Souza e Leonardo Sakamoto (UOL) - Edição Semana On

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Nos últimos cem dias, a pandemia matou 34.021 brasileiros, guindando o Brasil ao terceiro lugar no pódio mundial de vítimas do coronavírus.

Nesse mesmo período, Jair Bolsonaro formulou a teoria da gripezinha, afastou dois ministros da Saúde, converteu o ministro da Justiça de "ícone" em delator, tornou-se investigado num inquérito criminal, inaugurou uma temporada de distribuição de cofres para o centrão, informou ao país que não é "coveiro", perguntou "e daí?" e declarou que "todos morrerão um dia", é coisa do "destino".

Fica claro que há dois países no mesmo pedaço de mapa. Há o Brasil da pandemia, que perde a guerra para o vírus, e o Brasil em que Bolsonaro decidiu viver, num estado de isolamento institucional. O brasileiro começa a sentir a falta que faz um presidente.

Poucas coisas doem tanto quanto amor não correspondido, seja ele afetivo ou fraternal. Nem imagino o que deve estar passando pela cabeça e o coração do presidente da República após a declaração de Donald Trump, nesta sexta (5), quando ele usou o Brasil como referência negativa sobre o combate à covid-19.

Jair Bolsonaro estabeleceu com o mandatário norte-americano mais do que uma parceria. É uma verdadeira relação de adoração - que, pelo que temos visto, não é recíproca. No que pese ambos acreditarem no America First como política externa.

"Se você olhar para o Brasil, eles estão passando por um momento muito difícil. A propósito, eles estão seguindo o exemplo da Suécia. A Suécia está passando por um momento terrível. Se tivéssemos feito isso, teríamos perdido 1 milhão, 1,5 milhão, talvez até 2,5 milhões ou mais de vidas", disse em coletiva nos jardins da Casa Branca.

Jair Bolsonaro tem citado a Suécia em seus discursos como exemplo a ser seguido por não ter fechado sua economia para combater o coronavírus. Porém, a realidade vem mostrando o contrário: o número de mortes nesse país é proporcionalmente maior que nos vizinhos escandinavos e ele também enfrenta recessão. Na quarta (3), o epidemiologista responsável pela suave estratégia sueca, Anders Tegnell, em entrevista a uma rádio, admitiu que eles erraram.

Ou seja, nem a Suécia concorda com Bolsonaro sobre a Suécia.

Trump está sendo pragmático e objetivo. A poucos meses de sua tentativa de reeleição, quer mostrar que sua ação foi responsável por salvar vidas e empregos.

Por mais que não faça críticas direitas a Bolsonaro, tudo o que ele não precisa é estar colado à imagem de um político apontado pela imprensa norte-americana, seja ela progressista ou conservadora, não como um líder em meio à pandemia, mas como um dos mais preocupantes vetores do coronavírus. Alguém que tratou a pandemia como "gripezinha", "resfriadinho", "fantasia" e "histeria".

E que pode até contaminar cidadãos norte-americanos com sua irresponsabilidade. Por conta da alta de casos por aqui, Trump bloqueou a entrada de pessoas que não sejam cidadãs norte-americanas e tenham estado no Brasil.

Não por coincidência, os três primeiros lugares mundiais em número de mortos por covid-19 são de políticos que, no início, menosprezaram a pandemia - Donald Trump, Boris Johnson e Jair Bolsonaro.

Quando avistou um tsunami de casos em um país sem sistema público de saúde, Trump corrigiu o curso e assumiu a necessidade de isolamento social - por mais que seu comportamento tenha permanecido errático e ele tenha pressionado para que a economia voltasse antes da hora.

O primeiro-ministro britânico, que demorou para tomar uma atitude, acreditando que o fato de estar em uma ilha protegeria o Reino Unido, quase morreu de covid - o que, junto com milhares de mortes, ajudou a mudar seu ponto de vista

Bolsonaro, contudo, continuou abraçado no negacionismo científico, dizendo que a morte faz parte da vida e defendendo o "elixir mágico" da cloroquina. Até ganhou de Trump uma remessa de 2 milhões de comprimidos do remédio que não tem eficácia comprovada para o tratamento da doença. Eficácia tem o isolamento social, contra o qual ele faz campanha.

Os jornalistas Leonardo Sakamoto e Carlos Madeiro, do UOL, entrevistaram o médico e neurocientista Miguel Nicolelis, na manhã desta sexta (5). Ele, que é professor catedrático da faculdade de medicina da Universidade Duke, nos Estados Unidos, afirmou que imagem do governo brasileiro na comunidade científica está na sarjeta. "Tenho 59 anos. Viajo pelo mundo há 30 sem parar. Nunca vi o Brasil descer a patamares tão baixos de crítica."

Nicolelis disse que devemos passar o Reino Unido em número de mortos em breve e há uma grande chance de chegar a 125 mil óbitos até agosto, colando nos Estados Unidos - uma nação com 110 milhões de habitantes a mais e sem sistema público de saúde.

Trump deve fazer algum afago voltado ao público interno de Bolsonaro, e segue o jogo. Bolsonaro deve dizer que discorda da avaliação, mas que ele tem o direito de dizer o que quiser ou que ele não disse o que efetivamente disse. Viralatismo puro.

O que incomoda é que uma dor no peito de Bolsonaro pela "traição" de seu ídolo não é nada em comparação à angustiante dor no peito sentida dias antes de morrer por mais de 34 mil brasileiros. Tivemos ao menos, um morto por covid-19 por minuto, nas últimas 24 horas.

"A gente lamenta todos os mortos, mas é o destino de todo mundo", disse Bolsonaro. Mortos que, talvez, estivessem vivos se o país contasse com um presidente que realmente levasse a sério o "Brasil acima de tudo".


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