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Sábado 05.dez.2020

Ano IX - Nº 422

Poder

No colo do centrão, Bolsonaro se escora no grupo que derrubou Dilma

Presidente não se avexa de apertar as mãos dos mais contaminados

Postado em 05 de Junho de 2020 - Josias de Souza - UOL

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Desde que Jair Bolsonaro começou a deslizar para o colo do centrão, esperava-se pelo pior. Mas não se imaginava que o alarme soaria tão cedo. O vexame da nomeação, posse e demissão do presidente do Banco do Nordeste em menos de 24 horas ficará gravado na crônica do desgoverno como um aviso sobre os riscos a que estão novamente submetidos os cofres da República.

Descobriu-se que Alexandre Cabral, o escolhido do centrão, carrega atrás de si o rastro pegajoso de suspeitas de irregularidades que lhe são atribuídas desde a época em que presidiu a Casa da Moeda (2016 a 2019). A coisa está sob apuração no TCU, que estimou o prejuízo em cerca de R$ 2 bilhões. Um detalhe adicionou dose extra de constrangimento ao que já era espantoso.

Embora se vanglorie de submeter os currículos que lhe chegam por indicação política a um pente-fino da Abin, o Planalto tomou conhecimento das suspeitas levantadas pelo TCU por meio de notícia do Estadão —indício de que Bolsonaro tinha razão quando apontou, na reunião ministerial de 22 de abril, a ineficiência dos serviços de inteligência do seu governo.

"A gente não pode viver sem informação", ralhou o presidente. "Quem é que nunca ficou atrás da porta ouvindo o que o seu filho ou a sua filha tá comentando? Depois que ela engravida não adiante falar com ela mais. Tem que ver antes. Depois que o moleque encheu os cornos de droga, não adianta mais falar com ele: já era."

No caso do Banco do Nordeste, a equipe de espiões do general Augusto Heleno (GSI), superior hierárquico da Abin, esqueceu de encostar a orelha na porta do centrão. Crítico contumaz dos outros Poderes, Heleno convive com espiões que não conseguem enxergar um elefante do centrão.

'Bolsonaro pode alegar que precisa conviver com o centrão por instinto de sobrevivência. Ou por uma noção míope de esperteza política. Mas ir atrás do centrão, cortejar o centrão, entregar a viabilidade do seu mandato às conveniências do centrão sem vigiar a manada do centrão é um prenúncio de desastre.

Mas há males que vêm para pior. Alexandre Cabral, o breve, fora indicado numa parceria de dois partidos controlados por mensaleiros: o PTB de Roberto Jefferson e o PL de Valdemar Costa Neto. Consumada a escolha, Valdemar torceu o nariz. Preferia outro prontuário. O enrosco deu a Valdemar a oportunidade de levar a Bolsonaro um novo azar, com uma tromba mais ajustada aos seus interesses.

Sei...

"Estarei onde o povo estiver", disse Jair Bolsonaro no último dia 31, em vídeo postado nas redes sociais após vistoriar a cavalo apologistas do governo que se reuniram na Praça dos Três Poderes. Horas antes, o presidente enviara ao Diário Oficial da União uma nomeação que distancia seu governo da praça, acomodando-o definitivamente no colo do centrão, um aglomerado de partidos fisiológicos.

Bolsonaro nomeou para a presidência do estratégico Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (BNDES) Marcelo Lopes Ponte. Trata-se do chefe de gabinete do presidente do PP, senador Ciro Nogueira, um cliente de caderneta da Lava Jato.

Na campanha presidencial, Bolsonaro tratara a política como se fosse a segunda profissão mais antiga do mundo. Na Presidência, se esforça para demonstrar que ela se parece muito com a primeira. Candidato, Bolsonaro vendeu-se como opção antissistema. Presidente, acerta-se com o centrão, um aglomerado sistêmico que se caracteriza por ser a favor de tudo ou absolutamente contra qualquer outra coisa, desde que suas pulsões vitais (cargos e verbas) sejam atendidas.

A serventia do centrão para o governo está associada mais à sobrevivência política do que à articulação de reformas modernizantes.

Num instante em que o desalinho de Bolsonaro faz soar nos subterrâneos do Congresso uma pergunta incômoda —"Será que ele termina o mandato?"—, a ala arcaica do Legislativo fornece ao presidente algo como duas centenas de votos —o suficiente para barrar a tramitação de eventuais pedidos de impeachment e denúncias criminais.

A preocupação com o centrão não é banal. Foi sobretudo graças à junção dos interesses desse grupo com os do MDB de Michel Temer que Dilma Rousseff foi mandada para casa mais cedo. Convertidos por Bolsonaro em heróis da resistência, personagens como Ciro Nogueira e Valdemar Costa Neto são chamados por Dilma de "traidores".

Previdente, Bolsonaro achegou-se ao MDB antes mesmo de se acertar com o centrão. No ano passado, em meio ao arranca-rabo que o levou a deixar o PSL, o presidente destituiu a ex-amiga Joice Hasselmann do posto de líder do governo no Congresso. Substituiu-a pelo senador Eduardo Gomes (MDB-TO). Esse novo preposto do presidente no Legislativo passou a fazer dobradinha com o senador Fernando Bezerra (MDB-PE), líder do governo no Senado.

Eduardo Gomes é vinculado a um personagem notório: o multi-investigado Renan Calheiros (MDB-AL), adepto da operação Abafa a Jato, antigo entusiasta do "Lula Livre". Fernando Bezerra, egresso do Partido Socialista Brasileiro (PSB), é outro velho apoiador de Lula. Serviu ao governo de Dilma Rousseff como ministro da Integração Nacional.

Bezerra tem algo em comum com a turma do centrão: o prontuário. É outro cliente da Lava Jato. Sob a gestão de Sergio Moro no Ministério da Justiça, o senador recebeu a visita dos rapazes da Polícia Federal, numa batida de busca e apreensão que recolheu material para processo em que é acusado de desviar R$ 5,4 milhões na época em que era ministro de Dilma.

A exemplo do sapo de Guimarães Rosa, não é por boniteza, mas por precisão que Bolsonaro encosta sua "nova política" no centrão e no MDB.

Embora sua reprovação tenha batido em 43%, o presidente conserva o apoio de 33% dos brasileiros. Contidas pelo coronavírus, as ruas não roncam pelo impeachment. Entretanto, com a pandemia em alta e a economia em queda livre, Bolsonaro toma suas precauções.

Na fatídica reunião ministerial de 22 de abril, cuja gravação ganhou as manchetes por ordem do Supremo, o ministro Abraham Weintraub disse que Brasília é "uma porcaria". Classificou a Capital como "um cancro de corrupção, de privilégio". Agora, como comandante da pasta da Educação, o ministro mais ideológico de Bolsonaro tem o privilégio de recepcionar no FNDE, principal órgão sob seu comando, a turma do "cancro".

Weintraub ainda não realizou o sonho de prender os "vagabundos do STF". E está às voltas com a necessidade de cuidar para não realizar o pesadelo de virar parte da "porcaria" em que se transformam todos os governos que se instalam em Brasília prometendo o novo e deslizam para a vala comum do centrão.

No gogó, Bolsonaro diz "estarei onde o povo estiver." Na prática, não poderia estar mais distante do eleitorado. De acordo com o Datafolha, 67% dos brasileiros rejeitam o acerto do governo com o centrão.

Código de barras

De todas as notícias que o Datafolha trouxe para Jair Bolsonaro nos últimos dias, a mais simbólica ganhou as manchetes no último dia 30: 67% dos brasileiros reprovam o casamento do capitão com o centrão.

Significa dizer que praticamente sete em cada dez patrícios passaram a enxergar no governo um código de barras presumido, marca registrada do pacto demoníaco que rege as coligações no Brasil.

Bolsonaro ainda faz pose de limpinho. Alega que negocia cargos de escalões inferiores, não ministérios ou estatais. Tolice. No fisiologismo, integridade é como virgindade. Não existe pela metade. Também não dá segunda safra. Perdeu, perdida está.

O presidente comporta-se, de resto, como um gestor idealista que se rende à realidade. Nessa versão, Bolsonaro seria apenas um presidente bem-intencionado forçado a lidar com uma classe política viciada.

Assim, Bolsonaro adotaria os meios dos parceiros apenas para obter suas nobres finalidades. Bobagem. O capitão se rende para evitar que apertem a corda que ele amarrou ao redor do seu próprio pescoço.

Outra alegada diferença entre o toma-lá-dá-cá de Bolsonaro e o escambo dos antecessores seria a "exigência" de que os partidos do centrão façam indicações técnicas. Conversa mole.

Na máquina estatal, não basta ser técnico. É preciso saber a serviço de quem estarão as habilidades técnicas dos apadrinhados. Se Sergio Moro ainda fosse ministro, Bolsonaro poderia chamá-lo para uma conversa.

Moro relataria uma experiência que viveu como juiz da Lava Jato. Deu-se no interrogatório do primeiro depoimento do delator Paulo Roberto Costa. Ex-diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulinho, como Lula o chamava, foi inquirido em outubro de 2014.

Funcionário de carreira da Petrobras, o réu chegou à diretoria por indicação do PP, um dos partidos que agora se achegam aos cofres da gestão Bolsonaro. Antes de dar por encerrado o interrogatório, Moro perguntou se Paulinho gostaria de "dizer alguma coisa".

E o réu: "Queria dizer só uma coisa, Excelência. Eu trabalhei na Petrobras 35 anos. Vinte e sete anos do meu trabalho foram trabalhos técnicos, gerenciais. E eu não tive nenhuma mácula nesses 27 anos. Se houve erro —e houve, não é?— foi a partir da entrada minha na diretoria por envolvimento com grupos políticos, que usam a oração de São Francisco, que é dando que se recebe. Eles dizem muito isso. Então, esse envolvimento político que tem, que tinha em todas as diretorias da Petrobras, é uma mácula dentro da companhia."

Ou seja: em meio a muitas dúvidas sobre o modo como Bolsonaro administra o balcão, só uma coisa é certa: ainda que o centrão retirasse coelhos de suas cartolas, o objetivo do grupo seria transformá-los em gambás.

De acordo com o Datafolha, 64% dos entrevistados disseram que Bolsonaro descumpre o que prometera na campanha de 2018 sobre o modo como se relacionaria com o Legislativo. Esse sentimento coletivo tem um nome na política. Chama-se estelionato eleitoral.


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