Semana On

Segunda-Feira 26.out.2020

Ano IX - Nº 416

Poder

Antifas: quem são e por que lutam

Antifascistas compartilham causas como a luta contra o fascismo, o racismo, a homofobia e a xenofobia

Postado em 05 de Junho de 2020 - Arthur Stabile e Caê Vasconcelos (Ponte), Mark Hallam (DW), Pablo Guimón (El País) – Edição Semana On

Na Av. Paulista, manifestante é alvo de bomba da PM, em protesto pela greve geral em junho de 2017. Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo Na Av. Paulista, manifestante é alvo de bomba da PM, em protesto pela greve geral em junho de 2017. Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

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A luta antifascista, no Brasil e no mundo, é antiga. A primeira vez que o tema foi no 9início do século XX, dentro do Partido Comunista Alemão, em uma época em que a Alemanha nazista, de Adolf Hitler, ainda não existia. Passou pelos anos 1980 com a contracultura dos movimentos Punk e Hip-hop. Hoje, um século depois, o movimento antifascista se modernizou, mas sem esquecer o motivo de seu surgimento: lutar contra o fascismo, o autoritarismo e a segregação de grupos marginalizados pela sociedade.

No Brasil, mobilizações antifascistas também aconteceram nas últimas décadas. Uma delas ocorreu após o assassinato de Edson Neris da Silva, jovem gay espancado por skinheads no começo dos anos 2000, em São Paulo. Antifas também participaram de atos contra o aumento no valor das passagens, a partir de junho de 2013, protestos contra a Copa do Mundo de 2014, levante dos estudantes secundaristas em 2015, manifestações críticas ao impeachment de Dilma Rouseff, em 2016, e por aí vai.

No fim de semana passado, manifestações contra o fascismo e o racismo aconteceram em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte. Não é possível ignorar a influência do gigantesco levante popular ocorrido em diversas regiões dos Estados Unidos na última semana, após a morte de George Floyd, um homem negro, por um policial branco.

Os protestos no Brasil têm tido como foco o combate à escalada autoritária e se colocam em trincheira oposta aos atos puxados pelos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Apesar da pandemia do coronavírus, os manifestantes antifascistas defendem que os grupos bolsonaristas já estão nas ruas e não havia mais tempo a perder. “Só eles estavam nas ruas, então achamos necessário assumir riscos para defender a democracia”, explica Danilo Pássaro, historiador e antifa do coletivo Somos Democracia, de torcedores corintianos.

Os atos tiveram resposta. O presidente Bolsonaro considerou que os grupos são uma ameaça. “São marginais, no meu entender, terroristas”. O vice-presidente Hamilton Mourão os definiu como “delinquentes” que abusam ao ferir “pessoas e o patrimônio”, em artigo escrito no O Estado de São Paulo. Há parlamentares, como o bolsonarista Daniel Silveira (PSL-RJ), que pretende enquadrar os antifas na lei antiterrorismo, criada por Dilma Rousseff (PT). Em São Paulo, o deputado Douglas Garcia, do mesmo partido, tem promovido uma verdadeira “caça às bruxas” divulgando lista com supostos membros de movimentos antifascistas. O dossiê de quase mil páginas tem circulado via Whatsapp em redes bolsonaristas que incentivam a perseguição de opositores.

Nos Estados Unidos, todos os estados americanos registraram mobilizações e o levante com as falas “I can’t Breathe” (“Eu não consigo respirar”, repetido diversas vezes por Floyd ao policial) e “black lives matter” (vidas negras importam). Houve ações antifascistas de saques e ataque a símbolos do capitalismo, como lojas e bancos. O presidente norte-americano Donald Trump pretende criar uma lei para tornar os antifas uma “organização terrorista“.

Mas quem são, de fato, as pessoas que integram esses movimentos, o que elas querem e por que lutam? A reportagem do site Ponte conversou com integrantes da Ação Antifascista SP, um dos movimentos brasileiros que mantém essa luta ativa, e com especialistas que acompanham – e vivenciaram – a luta antifascista.

Em sua essência, o antifascismo brasileiro é anticapitalista, antirracista, contra o sexismo e contra a LGBTfobia. É feito de trabalhadores e trabalhadoras periféricos, negros, LGBTs em sua essência. A luta dos antifascistas não é contra um governo específico, mas contra uma ideologia: o fascismo. A ideologia de controle social, de uma parcela da população ser soberana à outra.

Ainda nos seus primeiros momentos, a luta antifascista aportou no Brasil trazida pelos italianos, que chegavam no país em busca de trabalho. A historiadora Suzane Jardim, mestranda em ciências humanas e sociais, que também é educadora e pesquisadora nas áreas de história negra e criminologia, relembra que, no início, os movimentos negros e antifascistas não se deram bem.

“Imagina o contexto: os europeus vieram aqui pro Brasil exatamente para ocupar as vagas de trabalho que não queriam que os negros ocupassem. Então toda a ideologia trazida de fora, a galera negra tinha receio. Não tinha muita conversa”, conta Jardim.

Mas, explica a historiadora, para falarmos do antifascismo hoje, temos que voltar 50 anos na história. Foi com o movimento punk, entre 1970 e 1980, que o grupo ganhou mais força. Europeus se levantaram contra a política liberal e austera da “dama de ferro”, Margaret Thatcher, ex-primeira ministra do Reino Unido, e norte-americanos contra Ronald Reagan, ex-presidente dos EUA. A cultura, ou contracultura, como o punk se intitula, foi o impulsionador desse pensamento.

“Você vai ouvir as letras dessa época e são letras pela libertação feminina, pela libertação negra, pela liberdade LGBT, e a ideia era essa. E ela começou a circular pelos países, principalmente nos países periféricos”, analisa Jardim.

Com a conscientização através da música, trabalhadores, brancos e negros, das periferias começaram a articulação pela libertação em conjunto. Nessa época, a ideia da contracultura era tirar a lógica capitalista. “Pensar em contracultura dentro do movimento antifascista é cunhar uma arte que seja essencialmente anarquista, comunista, antirracista e que chegue para a abertura de mentes, não para pensar no mercadológico. É uma arte para libertar”, avalia a historiadora.

Antifas brasileiros

A prática ganhou força no Brasil nos anos 1980, com a contracultura punk e, em 1993, com a criação da ACR (Anarquistas Contra o Racismo). Ali havia um marco de ações práticas antifascistas, segundo Acácio Augusto, doutor em ciências sociais e professor de Relações Internacionais da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Em 2001, um caso marcou o “reaparecimento” do movimento antifa no país. “Mataram um adestrador de cães, Edson Neris da Silva, que era gay e foi espancado por skinheads”, explica. Houve uma maior união dos coletivos por ações práticas antifas. “Denunciou-se a ameaça fascista, ainda que partidos de esquerda considerassem uma atuação como gangue de rua”, define Acácio. A união partiu de movimentos periféricos, de jovens e negros.

Renato Alves, 33 anos, profissional que atua no setor do Turismo, é um antifa brasileiro. Teve o primeiro contato nos anos 2000. Ele relembra ter tido dificuldade naquele tempo de receber informações sem haver a internet como existe hoje, de as teorias virem de outros países a partir de quem tinha acesso por morar fora. “Com o passar dos anos, a informação foi chegando de maneira mais clara, as pessoas foram se identificando com essa cultura marginalizada e se tornou política”, cita.

Combate ao capitalismo, ao racismo, LGBTfobia e todo tipo de intolerância são a essência dos antifas. Pensam também em novas formas de política, já que criticam a democracia representativa. “Acreditamos em uma superação, que existem outras formas de fazer política além da institucional e burguesa”, afirma.

Para isso, está na pauta o uso da violência como instrumento político – se necessário. Consideram que a polícia, como agente protetor das elites, reprime quem discorda e ameaça este grupo. “Essas ferramentas de repressão são nossas inimigas e, se houver necessidade, a gente vai enfrentar”, explica. 

Segundo Acácio, há três táticas básicas nas ações: informação e difusão, ao chamar atenção para grupos fascistas e a presença deles na política; exposição, ao descobrir ligação de indivíduos com essas ideias, mas que não são abertamente apoiadores; e táticas de defesa. “Não caracterizo a ação antifa como violência, caracterizo como autodefesa”, sintetiza.

Politicamente, o fascismo brasileiro aparece em figuras ao longo da história, como Getúlio Vargas, os militares da ditadura, Enéas Carneiro e Jair Bolsonaro. “O discurso ultranacionalista é uma das principais armas do fascismo nacional”, resume Suzane Jardim. Ela inclui também a desarticulação de movimentos sociais entre essas ações. “A ditadura fez isso: censurou movimentos sociais, matou e prendeu militantes”, destaca.

A luta antirracista nos movimentos antifas

Se na década de 1980 o punk era o impulsionador da contracultura do antifascismo, hoje o hip hop assume esse papel. É o que afirmam o cientista social Acácio Augusto e a historiadora Suzane Jardim.

“Na Europa, principalmente na Espanha, França e Grécia, existe uma quantidade gigantesca de grupos de rap abertamente antifascistas. No Brasil, a gente tem o Djonga [rapper mineiro], com o álbum Olho de Tigre, que traz a frase ‘Fogo nos racistas'”, analisa Acácio.

“‘Fuck the police’, do NWA, foi um hino nas revoltas de Los Angeles em 1992. Foi uma música censurada porque era totalmente fora da lógica cultural, ela não era para ser tocada. Quando ela começa a ser tocada, ela cria uma abertura de cabeças e movimenta corpos. O espírito antifascista perdura no hip hop”, completa Jardim.

Para a historiadora, não há antifascismo sem antirracismo. “Um dos maiores trunfos do antifascismo, como um todo, é pensar esse diálogo de base, desde organizações comunitárias até as torcidas organizadas. Quando eu vejo a torcida do Corinthians na rua, com uma bandeira antifascista, eu sei que ali eu consigo trocar uma ideia antirracista forte, eu sei que ali estão os meus companheiros”, explica Jardim.

Para ela, com a repercussão do protesto do último dia 31, em que as torcidas de futebol dos clubes paulistas se uniram contra o fascismo, é preciso discutir o racismo nesses espaços. “Ser nazista é feio, ser racista é feio. Hoje em dia, a não ser que você seja da família do presidente [Jair Bolsonaro], você não diz no meio do ônibus que você é racista”, pondera.

“As pessoas não assumem que elas são racistas, por mais que a gente saiba que o racismo é estrutural e todo mundo é infectado por isso, em maior ou menor grau”, completa a historiadora.

Movimentos atuais

Nos últimos tempos, as ideias de ultranacionalismo ganham outra roupagem e saem do armário. Getúlio Vargas, com a Era Vargas, foi o pioneiro de governos fascistas no país. Anos depois, o discurso voltou com força na figura de Jair Bolsonaro (sem partido) e seus apoiadores que passam a propagar ideais preconceituosos e ligados ao fascismo. Mas foi em 2016 que as ações antifas atuais começaram a ser organizadas: a AFA (Ação Antifascista São Paulo) nasceu no impeachment da então presidenta Dilma Rousseff. 

“Começamos a nos reunir e contra-atacar grupos que agrediam pessoas que vestiam vermelho, que estavam se caracterizando enquanto esquerda. Com isso, surgiu a ideia de a gente criar algo mais sólido”, relembra Renato. Naquele ano teve início a Marcha Antifascista, forma de passar os ideais do movimento adiante.

Ao mesmo tempo, e ainda reflexo das manifestações de rua em 2013 adiante, a ligação dos antifas com a tática black bloc cresceu. A tática consiste em atacar símbolos do capitalismo, por exemplo, agências bancárias, como forma de criticar o sistema econômico atual. Essa estratégia se propagou pelo país a partir das manifestações populares de 2013. “Quebrar a vidraça é uma tática anticapitalista”, diz Renato.

No entanto, há que se diferenciar a tática do movimento. “Há um vínculo entre ambas, mas não uma associação automática. Tem antifascista que utiliza dessa tática, mas eu, particularmente, sou contra. Precisamos mudar esse personagem e mostrar o rosto para dialogar com a população”, pondera.

Segundo ele, a violência é uma ferramenta política usada pelos antifas contra o Estado “que impede a transformação social”. Contudo, os que querem criticar os antifascistas usam justamente a violência como argumento para deslegitimar e criminalizar as ações.

“Sabemos de que lado os policiais estão e a quem estão a serviço. Se são violentos, eu acho muito legítimo a população também se utilizar da violência”, diz. Assim como a tática black bloc, não é obrigatório o uso da violência. “É totalmente possível ser antifascista e ser pacífico. As pessoas ligam as coisas, mas não tem nada a ver. Muitos na organização não são adeptos do confronto”, afirma.

Suzane Jardim analisa da mesma forma. “A polícia, desde o seu surgimento, veio para proteger a família real, os políticos. Não veio para proteger a democracia e nem a vida”, resume. Segundo ela, o braço armado do Estado filtra os momentos em que a violência é legítima. Acácio Augusto vai além: “É muito fácil colar a pecha de violento com essas pessoas. Elas estão usando a violência com a violência prévia [do Estado]”, defende.

Segundo Jardim, é difícil comparar os fascistas do passado, em sua origem na década de 1920, com os do presente. “A história não se repete como ela foi no passado”, defende.

Como exemplos de posturas fascistas contemporâneas, ela cita João Doria (PSDB), governador de São Paulo, que fala em “acabar com a Cracolândia“; e Wilson Witzel (PSC), do Rio de Janeiro, que prometei na campanha “atirar na cabecinha“. “É um discurso bélico típico do fascismo. O fascismo de hoje é impossível de ser pensado sem o liberalismo”, afirma.

E é importante, segundo os especialistas, deixar claro que antifa não é crítica somente ao atual presidente. “Antifa não pode se resumir em oposição ao Bolsonaro, mas ao que constitui o fascismo contemporâneo: o supremacismo branco, autoritarismo governamental e a misoginia”, afirma Acácio. Sua tese é de que o fascismo, mais do que um ator político, se tornou uma prática com o passar dos anos.

O professor da Unifesp vai além: vê nos instrumentos armados do Estado a forma de se impor o fascismo. Como? Pelas polícias. “O fascismo mora nas políticas de segurança. São o locus do fascismo democrático”, afirma.

“Quando polícia entra na casa de um menino de 16 anos, dá um tiro de fuzil e mata, mas a vida segue, essa sociedade está prontinha para o fascismo”, exemplifica, descatando que muita gente, caso houvesse prova de que a pessoa morta é bandida, defenderia essa ação de eliminá-la. “Isso é muito pior do que o fascismo histórico. É esse fascismo que temos de lidar”.

‘Fora Bolsonaro’ não é suficiente

O fascismo não pode ser personalizado em uma figura política. É uma ideia política, que perpetua há décadas. “Ser ‘Fora Bolsonaro’ não é suficiente. O fascismo é um plano que aparece com as crises do capitalismo. O Bolsonaro não foi eleito sozinho, a democracia permitiu isso”, disse uma integrante da Ação Antifascista São Paulo, que pediu para não ser identificada.

A luta do movimento paulista, afirma a militante, que integra o movimento desde 2016, quando ainda era estudante e participou das manifestações dos secundaristas, é também por emprego, por hospitais, pela aposentadoria. “Um governo fascista está pautado na supremacia branca, está pautado no ultranacionalismo, na exaltação do militar, do corpo branco enquanto corpo de poder, de opressão, de violência. Toda essa violência e opressão vai ser voltada para o povo preto, ao povo pobre”, argumenta.

Por isso, o trabalho da AFA-SP começa pela base: “A conscientização ajuda a superar algumas práticas e reprodução de opressões, que são estruturais. O nosso trabalho é de formação. Estaremos onde a periferia estiver, porque nós somos da periferia, e vamos pautar o antifascismo, a luta contra o racismo, a luta contra a LGBTfobia, a luta contra o sexismo, a luta contra a xenofobia”.

A ação da PM paulista, em manifestações e nas periferias, afirma a historiadora Suzane Jardim, é feita sistematicamente para combater ações como a do antifascismo. “A polícia existe para proteger o Estado, para proteger todas as forças sistemáticas que causam opressão. Não veio para proteger a democracia e nem a vida”, explica.

“A partir do momento que você tiver uma manifestação que vai favorecer o Estado, o sistema, mais a polícia vai fazer vista grossa. Quando as ideias são movimentos e revoltas que questionem o sistema, ela é violenta. Esse é o papel dela: filtrar toda a violência do Estado nos seus braços. Não é um mal treinamento, ela existe para isso. Não é um despreparo. A ideia é exatamente essa, a função principal da polícia é essa”, finaliza.

Origem

A palavra antifa, de acordo com o dicionário Merriam-Webster, foi usada pela primeira vez em 1946, em oposição ao nazismo após o final da Segunda Guerra Mundial. Mas nos Estados Unidos o termo começou a ser mais usado nos últimos anos, para agrupar a constelação de movimentos antifascistas que surgiram após a eleição de Donald Trump em 2016, como um contrapeso à ascensão da chamada direita alternativa que contribuiu para sua eleição e que o presidente e seu ambiente incentivaram durante a campanha e também depois.

Na Alemanha, país onde o movimento nasceu, segundo alguns historiadores, políticos, imprensa e o público em geral há cerca de um século buscam uma forma de se referir a ele, mas sem que tenham se aproximado de uma definição incontestável.

O que "antifa" significa é simples em alemão: é a abreviação de antifaschistisch, ou antifascista. Levado ao pé da letra, o termo poderia se aplicar a quase todos os cidadãos alemães e a políticos.

Mas será que "antifa" se refere a todos aqueles que se opõem ao fascismo ou apenas aos anarquistas e esquerdistas que, vestidos de capuzes e máscaras negras, encaram e desafiam a polícia alemã nas ruas?

O verdadeiro significado da palavra "antifa" é centro de um debate complexo na Alemanha desde que o Partido Comunista da Alemanha (KPD) adotou a frase "ação antifascista" e o logotipo com duas bandeiras para a campanha eleitoral de 1932. Desde o início da década de 1920, eles pressionavam por uma "antifaschistische Aktion" (ação antifascista) interpartidária.

O KPD tentou se retratar como o único partido verdadeiramente "antifascista" na última eleição livre da República de Weimar, a qual o NSDAP de Adolf Hitler não venceria completamente, mas, mesmo assim, levaria os nazistas ao poder.

A incapacidade do KPD, dos social-democratas e de outras forças democráticas de trabalharem em conjunto, apesar de garantirem mais votos combinados do que o NSDAP, ajudou Hitler a tomar o controle da Alemanha. Em pouco tempo, os nazistas desmantelariam e ilegalizariam sistematicamente os dois maiores partidos de esquerda.

Muitas das principais figuras do KPD no período entreguerras iriam, mais tarde, governar a Alemanha Oriental (RDA) durante a Guerra Fria. O partido governista da Alemanha comunista, o SED, usaria "antifascista" quase como sinônimo de socialista quando falava de seu governo.

Até Bernd Langer, autor de um livro simpático ao movimento antifascista na Alemanha, observa que o anticapitalismo sempre foi entendido como um componente central do movimento entre seus apoiadores mais fervorosos.

Guerra Fria

No início da Guerra Fria, na Alemanha Ocidental o movimento perdeu força, mas começaria a se recuperar em cidades tradicionalmente de esquerda, como Hamburgo e Berlim, nos anos 70 e 80. As principais raízes estavam na cena de ocupações de imóveis e no movimento estudantil de esquerda, que se autodenominava a "oposição extraparlamentar".

Com a Reunificação, o movimento retomou o ritmo, ganhando também um impulso de maior filiação a causas modernas como o movimento antiglobalização ou os protestos contra as mudanças climáticas.

Mas pensar no movimento "antifa" como uma coisa única seria errôneo. Muitos grupos de extrema esquerda e autonomistas se identificam em maior ou menor grau com o rótulo "antifa", muitas vezes também abraçando o anarquismo e meios não políticos de oposição e protesto.

Por exemplo, grupos alemães modernos que se identificam como "antifa" incluem antissionistas, para consternação de algumas facções rivais, que argumentam que isso é indesculpável devido à história da Alemanha.

Bandeiras

Para se ter uma ideia da extensão da divisão, os grupos "antifa" não nem mesmo concordam sobre a forma do logotipo. O original do KPD nos anos 30 era formado por duas bandeiras vermelhas (socialistas), soprando para a direita, com os mastros da bandeira à esquerda.

A maioria agora mostra as bandeiras soprando para a esquerda. E provavelmente a versão mais comum agora torna a bandeira inferior preta, e não vermelha, como um aceno para o elemento anarquista do movimento e para o lado socialista.

Alguns preferem usar a cor preta na bandeira maior e na área da borda, com uma bandeira vermelha menor ao fundo. O consenso realmente não é o ponto mais forte do movimento.

A agência de inteligência interna da Alemanha descreve o movimento "antifa" como o "principal campo de agitação" para os grupos autonomistas de esquerda. Ele observa que alguns adeptos do movimento apoiam também "ações militantes, que visam principalmente os adversários políticos, especialmente supostos ou comprovadamente 'nazistas'. Isto pode muitas vezes resultar em danos consideráveis à propriedade, mas também às vezes a indivíduos". 

O tipo de público que toma parte em manifestações ou eventos organizados por grupos "antifa" varia de acordo com a pauta. Protestos menos controversos podem atrair participantes simpáticos que não necessariamente se definiriam como anarquistas ou de extrema esquerda. Muitas vezes os grupos "antifa" alemães conseguem maior adesão ao organizar contraprotestos contra a extrema direita.

Discussão renovada

A ameaça de Trump de classificar os grupos "antifa" dos EUA, muito mais novos e igualmente díspares, como terroristas já provocou um debate político na Alemanha no passado, mas não na medida em que se viu nesta semana.

A deputada Saskia Esken, uma das chefes do Partido Social-Democrata (SPD) alemão, respondeu à ameaça de Trump, descrevendo-se em um breve tuíte como: "58 e antifa. Obviamente". Uma conta do SPD no Twitter respondeu a Esken com um "157 e antifa. Obviamente", em referência à idade do partido.

As declarações Esken encontraram eco em outros nomes do SPD, mas políticos de outros partidos a criticaram duramente.

Paul Ziemiak, secretário-geral da CDU, partido de Angela Merkel, destacou o lado mais polêmico do "antifa" em sua resposta: "Contra o fascismo, a favor da democracia e dos direitos humanos. Sem violência. Obviamente, para mim. É triste que a presidente do SPD não tenha força para se diferenciar". 

A ala jovem da aliança CDU/CSU, de Merkel, a Junge Union (fundada em 1947), deu, sem dúvida, a resposta mais criativa, escrevendo: "73 e horrorizada." 

O político do Partido Verde Konstantin von Notz, por sua vez, preferiu apontar a ambiguidade do debate, ao citar um dos nomes mais famosos dos conservadores, em resposta à Junge Union. "Mesmo [o ministro do Interior Horst] Seehofer já se descreveu, na Comissão Parlamentar de Assuntos Internos, como um antifascista. Como é certo e apropriado. O que você está escrevendo ou é um pouco obscuro ou é revisionismo histórico –  ou possivelmente ambos." 

A resposta posterior de Esken trouxe o debate para um círculo maior. "Antifa não é uma organização. O antifascismo é um ponto de vista que todos os democratas devem obviamente apoiar", escreveu a deputada social-democrata.

Até mesmo o dicionário Duden, referência na língua alemã, mergulhou na ambiguidade. Sua edição online define "antifaschismus" (antifascimo) como "o conjunto dos movimentos e ideologias que se opõem ao fascismo e ao nacional-socialismo".

Procure simplesmente "antifa", no entanto, e seu portal online não fornece exatamente uma definição. Descreve-o apenas como uma abreviação de "Antifaschismus" ou de "antifaschistische Aktion". E a maioria das pessoas na Alemanha, "antifa" ou não, provavelmente concordaria que há uma diferença profunda entre as duas coisas.


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