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Quarta-Feira 08.jul.2020

Ano VIII - Nº 400

Poder

Escória maldita: Defensoria da União pede a saída de Sérgio Camargo da Fundação Palmares

O presidente da Fundação se referiu ao movimento negro como ‘escória maldita’. Pedido será avaliado pelo STJ

Postado em 05 de Junho de 2020 - Carta Capital, O Globo, Josias de Souza (UOL) - Edição Semana On

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A Defensoria Pública da União (DPU) entrou com um pedido de tutela de urgência pela saída de Sérgio Camargo da presidência da Fundação Palmares. O recurso foi apresentado na quarta-feira 3 ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) para julgamento e endereçado ao presidente da corte, João Octávio de Noronha.

A DPU solicita que, enquanto o julgamento não é finalizado, volte a valer a determinação da Justiça Federal do Ceará que suspendeu a nomeação de Camargo em novembro de 2019. Na decisão, o juiz federal Emanuel José Matias Guerra, proferiu que presidente da Fundação Palmares “ofende” a população negra, a quem deveria defender.

A sua nomeação, no entanto, foi mantida depois que o próprio Noronha liberou a sua nomeação, em fevereiro deste ano, atendendo a um pedido do governo.

No último dia 2, o jornal Estado de S. Paulo divulgou áudios de uma reunião na qual Sérgio Camargo se referia ao movimento negro como “escória maldita”. Na ocasião, ele também afirmou que Zumbi era “filho da puta que escravizava pretos”, criticou o Dia da Consciência Negra, falou em demitir “esquerdista” e usou o termo “macumbeira” para se referir a uma mãe de santo.

Enquanto o movimento negro promove atos globais contra o racismo, impulsionados após o assassinato de George Floyd pela polícia de Minneapolis, nos Estados Unidos, Sérgio Camargo tem desferido ataques via redes sociais às demandas e aos lemas dos membros dessa militância.

No Twitter, Camargo afirmou no último dia 1º que "a influência do movimento negro sobre os negros é perniciosa e deletéria", no sentido de que essa forma de organização social teria efeitos destrutivos sobre as pessoas que pretende representar. Ele também manifestou, mais uma vez, o desejo de revogar a realização do Dia da Consciência Negra no país, celebrado em 20 de novembro. Por fim, ameaçou bloquear das redes sociais aqueles que aderissem ao slogan dos protestos iniciados nos EUA ("Black lives matter", o equivalente a "Vidas negras importam").

"Escreveu 'Vidas negras importam' leva block automático! Vidas importam, sem adjetivação de cor, raça ou etnia", publicou Camargo ontem, quando norte-americanos protestavam por Floyd pelo sétimo dia consecutivo, após ele ter sido morto asfixiado na  rua por um policial.

No mesmo áudio obtido pelo jornal O Estado de SP, Camargo relata que teria contraído cerca de R$ 50 mil em dívidas, e tentaria parcelar o valor do celular em dez vezes, após ter sido impedido pela Justiça Federal de permanecer no cargo e precisar devolver o salário referente ao mês de dezembro do ano passado. A decisão judicial, suspensa em fevereiro pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), foi proferida sob o argumento de que as declarações de Camargo eram incompatíveis com o comando da fundação. Após comentar a ação que tramitou no Judiciário, ele recomendou aos assessores que o ajudassem a promover retaliações contra funcionários de esquerda, culpando o espectro político pelo seu afastamento.

“Esses filhos da puta da esquerda não admitem negros de direita. Vou colocar meta aqui para todos os diretores, cada um entregar um esquerdista. Quem não entregar esquerdista vai sair. É o mínimo que vocês têm que fazer”, recomendou Camargo aos assessores, um deles coordenador de gestão.

Ainda na reunião de 30 de abril, o presidente da Fundação Palmares criticou Zumbi dos Palmares, líder quilombola que dá nome à entidade, a quem se referiu como "um filho da puta que escravizava pretos". Em outro momento, chamou uma mãe de santo de "macumbeira" e disse que não direcionaria verbas a terreiros, os templos das religiões de matriz afro-brasileira.

“Não vai ter nada para terreiro na Palmares enquanto eu estiver aqui dentro. Nada. Zero. Macumbeiro não vai ter nem um centavo – disse Camargo, que também tratou do tema em outro momento da reunião: ‘Tem gente vazando informação aqui para a mídia, vazando para uma mãe de santo, uma filha da puta de uma macumbeira, uma tal de Mãe Baiana, que ficava aqui infernizando a vida de todo mundo’, reclamou, fazendo referência a Adna dos Santos, conhecida como Mãe Baiana, uma das expoentes do candomblé no Distrito Federal.

Em nota, Camargo disse que "lamenta a gravação ilegal de uma reunião interna e privada" e fez ponderações sobre o perfil de sua gestão à frente da Fundação Palmares, afirmando que a implantou um  "novo modelo de comando (...) voltado para a população e não apenas para determinados grupos" que teriam, segundo ele, utilizado o dinheiro público para atuar como representantes autointitulados de toda a população negra.

Reação

A divulgação dos áudios também levou deputados a protocolarem, na Câmara dos Deputados, um pedido para que o Ministério Público Federal (MPF) instaure inquérito para investigar as declarações.

Assinam o pedido parlamentares de partidos de esquerda, como PSOL, PT, PDT e PSB, com a presença de deputados negros, como Áurea Carolina (PSOL/MG), Benedita da Silva (PT/RJ), Talíria Petrone (PSOL/RJ), Bira do Pindaré (PSB/MA), Damião Feliciano (PDT/PB), David Miranda (PSOL/RJ) e Orlando Silva (PCdoB/SP). O PSOL ainda pediu, em requerimento, que Cardoso preste esclarecimentos no plenário da Câmara.

Instituições do movimento negro também reagiram contra a postura do presidente da Fundação Palmares. ONG Educafro (Educação e Cidadania de Afrodescendentes e Carentes) enviou uma representação ao MPF acusando-o pelo crime de racismo.

A Fundação Cultural Palmares foi criada em 1988 para promover e preservar os valores culturais, históricos, sociais e econômicos decorrentes da influência negra na formação da sociedade brasileira. A organização tem entre suas competências a emissão de certidão às comunidades quilombolas.

Camargo também usou sua conta no Twitter para atingir a cantora Alcione. Em dois tuítes escritos no fim da tarde do último dia 4, o jornalista disse preferir a obra de cantoras americanas como Ella Fitzgerald e Jessye Norman, chamando a Marrom de "barraqueira".

"Alcione, vê se enxerga! Admiro Jessye Norman, umas das maiores cantoras de ópera da história da música, não uma barraqueira que incita ao crime e à violência contra um negro que tem opiniões próprias. Desprezo suas declarações, assim como sua insuportável 'música'!", escreveu o jornalista no Twitter.

Camargo respondeu ao desabafo de Alcione na live de Teresa Cristina, na última terça-feira (2), sobre o vazamento do áudio.

Comentando com Teresa Cristina sobre as reportagens a respeito do áudio vazado, Alcione chamou Camargo de "Zé Ninguém da Fundação Palmares" e lembrou atos de racismo ocorridos nos EUA e no Brasil: "A gente vê tanto sofrimento. Você vê os negros americanos naquela batalha, por causa daquele senhor que morreu com aquele filha da mãe com o joelho nele. A gente vê as coisas que acontecem no Brasil, com bala perdida e tudo. Então a gente vê uma pessoa da nossa cor falando uma besteira daquelas, tenho vontade de arrancar da televisão e encher de porrada pra virar gente".

Análise

Os críticos e Jair Bolsonaro se exaurem tentando analisar sua administração sob a ótica da lógica e do bom senso. Querem enquadrar em conceitos clássicos um governo que não se encaixa em nenhum modelo acadêmico. Bolsonaro opera com método próprio.

Na Fundação Palmares, vinculada à Secretaria Nacional de Cultura, a metodologia administrativa de Bolsonaro roça a perfeição. Ali, encontrou-se uma maneira revolucionária de demonstrar a discriminação contra o negro no Brasil. O governo denuncia o crime do racismo cometendo-o.

Bolsonaro quebrou lanças na Justiça para colocar no comando da fundação responsável por zelar pelos interesses da comunidade afrodescendente o jornalista negro Sérgio Camargo. Descobriu-se de saída que ele acredita que escravidão foi "benéfica para os descendentes" dos escravos.

Veio à luz agora uma gravação feita em reunião com assessores sem que o mandachuva da fundação soubesse. Discutia-se o sumiço de um celular de Sérgio Camargo. "Quem poderia ter feito isso?", indagou o presidente da fundação. "Os vagabundos do movimento negro, essa escória maldita", disse o executivo negro.

Na mesma fita, a voz de Sérgio Camargo soa esculhambando o líder negro que dá nome à fundação dirigida por ele: "Não tenho que admirar Zumbi dos Palmares, que também era um filho da puta que escravizava pretos." Desancou uma mãe de santo, chamando-a de "uma filha da puta de uma macumbeira."

Camargo é um gestor rigoroso. Cobra resultados dos subordinados: "Esses filhos da puta da esquerda não admitem negros de direita. Vou colocar meta aqui para todos os diretores: cada um entregar um esquerdista. Quem não entregar esquerdista vai sair. É o mínimo que vocês têm que fazer."

Bolsonaro revela-se uma caricatura do conservadorismo. Confunde-se com o arcaísmo. Tem a missão secreta e inconsciente de expor o atraso do Brasil. Depois da passagem de Sérgio Camargo pela Fundação Palmares ninguém pode duvidar da existência de um racismo estrutural no Brasil.

Só mesmo um presidente revolucionário como Bolsonaro conseguiria executar com tanto êxito um plano de autodesconstrução. Não ajuda na reeleição. Ao contrário, aprofunda a decomposição. Mas escancara didaticamente séculos de hipocrisia.


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