Semana On

Quarta-Feira 08.jul.2020

Ano VIII - Nº 400

Coluna

Spectreman, infância e os monstros ambientais

Nós somos o planeta. Portanto, a morte não pode ser uma solução

Postado em 03 de Junho de 2020 - Clayton Sales

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Saudosas são as lembranças do cachorro que comeu o pedaço de carne contaminada e se transformou em um titã mortal. Ele foi morto por um super-herói cujas cores e o formato da cabeça vagamente lembram a ginoide de "Metrópolis" (1927), acrescida de uma protuberância que remete a um chifre de rinoceronte. O dono do cão-monstro era tão apegado ao animal que tentou se vingar repetindo o ritual instintivo do bicho: também comeu a carne contaminada e se tornou um monstro. O super-herói o aniquilou também. Saudosas são as lembranças da medusa do tamanho de um edifício nascida as espumas das águas litorâneas infestadas de substâncias tóxicas. O super-herói alienígena que se disfarça na identidade humana de um pacato ativista ambiental a elimina. "Spectreman" foi o primeiro ídolo fantástico que povoou minha infância, do qual eu imitava os trejeitos mais endiabrados, como os frenéticos movimentos com as mãos para lançar seu espectro-flash e o braço estendido para cima temperado com o grito "Dominantes, às ordens!", na fantasia pueril de um raio cósmico me transformar no herói. Como qualquer criança que se deliciava com Homem-Aranha ou Mulher-Maravilha desejava ardorosamente ter seus poderes extraordinários, eu queria ser Spectreman. Queria fazer tudo de sensacional que ele fazia: ficar gigante, voar, atirar laser pelos dedos e matar os monstros criados pelo Dr. Gori, um cientista-macaco do mal que usava a poluição urbana como matéria-prima. No fim das contas, eu aprendi a odiar a poluição. Porque criava monstros. Porque seus monstros matavam. Porque tiranos astutos se aproveitavam dela para matar. Enfim, para a criança que amava Spectreman, a poluição matava. 

Realizado pela extinta produtora japonesa P-Productions, o seriado televisivo "Spectreman" foi veiculado no Brasil nos anos 1980, com enorme sucesso de audiência, o que ajudou o SBT a beliscar os calcanhares da hegemônica Globo. Cada episódio iniciava com a música norte-americana de abertura, na verdade, uma versão de "The First Day Forever" da banda The Misty Moods Orchestra, adaptada para a série. Depois, uma voz em off pronunciava em tom de advertência que as cidades estavam perdendo a luta contra o pior inimigo da humanidade, a poluição, e chegará o dia em que ela tornará as águas, a terra e o ar letais para qualquer forma de vida no planeta. Obviamente, Spectreman era a criatura capaz de evitar a hecatombe ecológica, com seus monstros gerados da ganância autoritária e eugenista, e alimentados pela degradação do ecossistema. Da maneira lúdica que cativa as crianças, eu aprendia que meio ambiente é fundamental porque ele é o todo que nos envolve, os espaços em que estamos inseridos, sobre o qual agimos e que age sobre nós. Somos e estamos no meio ambiente, ele está em nós porque faz parte de nós. Destruí-lo é nos destruir. Não apenas a natureza, florestas, fauna, flora e clima, mas os espaços urbanos, a destinação do lixo, a infestação dos alimentos por toxinas, a poluição sonora, os esgotos mal tratados. Provavelmente, foi meu contato inicial com referências ambientais no audiovisual, pelo qual meu modelo de heroísmo era um alienígena enlatado que se preocupava com essas questões e as enfrentava. 

Décadas mais tarde, revendo alguns dos 63 episódios disponíveis no Youtube, em edições dubladas, reparei que o ponto central de "Spectreman" era o ser humano e sua culpa pela deterioração do planeta. Essa constatação foi possível graças a uma observação mais atenta do vilão da série. Dr. Gori era um cientista brilhante cujo intuito era exterminar a humanidade da Terra por achá-la não merecedora de habitar um planeta tão belo. Para isso, seu ardil consistia em elaborar criaturas assassinas a partir da poluição que o próprio homem produzia, extirpá-lo do mundo e, de certa maneira, "salvá-lo". Não por preocupações totalmente ambientais  e sim para reinar em um lugar idílico sem as criaturas "inferiores" chamadas humanos para maculá-lo. Spectreman representava uma reação heroica ao monstro da poluição ambiental, mas acreditava na humanidade e por isso, a defendia dos seres abjetos que ela ajudava a criar com a poluição. No episódio final do seriado, o embate entre Spectreman e Dr. Gori não termina em uma peleja de superpoderes, mas numa batalha argumentativa. O herói tenta convencer Dr. Gori a usar sua genialidade para ações benignas, como deter a degradação ambiental, mas o vilão prefere o suicídio, considerando-se velho demais para mudar sua consciência. Antes de morrer, ele deixa a frase "o mal é sempre lembrado e o bem é tão difícil de ser reconhecido", seguida de uma silenciosa tentativa de aproximação do herói. Sob o grito "a morte é a solução", Dr. Gori se explode e Spectreman volta a seu mundo, deixando a Terra nas mãos dos humanos, com a tarefa de combater os monstros da destruição do meio ambiente. Monstros paridos da irresponsabilidade humana. 

São muitas as produções audiovisuais que abordam o meio ambiente de alguma forma. Desde obras ficcionais de trama distópica como "O Mundo em 2022" (1973), que imagina um futuro em que a escassez de alimentos leva as pessoas a consumirem um tablete de origem aterrorizante, passando pela fantasia de "Avatar" (2009), que dialoga com a resistência de uma aldeia de seres azuis gigantes à ganância do homem em tomar sua fonte de energia armazenadas numa árvore, até trabalhos documentais como o impactante "Uma Verdade Inconveniente" (2006), sobre os efeitos do aquecimento global causados pela atividade industrial desordenada, o cinema e a TV encontram nos problemas ambientais uma fonte abundante de argumentos para suas produções. No entanto, foi o super-herói japonês que hoje soa caricato, do seriado oriental que parece um teatro de bonecos nas cenas de ação, que inoculou o germe benigno da atenção ambiental em crianças dos anos 1970 e 1980. Imagino que monstros de hoje Spectreman combateria com suas estrelas mortais: um dragão que cospe fogo gerado pelas mudanças climáticas; uma hidra apavorante nascida do aumento do nível dos oceanos; um feroz mico-leão-dourado do tamanho de um Angelim Vermelho originário da destruição da Amazônia; um Godzilla aterrorizante vindo das entranhas da deterioração dos solos. Spectreman não está mais por perto. Logo, cabe à espécie humana frear sua capacidade devastadora, refletir com urgência em ações sustentáveis para as demandas das sociedades e combater os monstros reais que ameaçam o planeta. Porque o planeta também somos nós. E nós somos o planeta. Portanto, a morte não pode ser uma solução.


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