Semana On

Sábado 11.jul.2020

Ano VIII - Nº 401

Coluna

Dia Mundial do Meio Ambiente

A pauta ambiental é urgente, confluente e indissociável da defesa da democracia

Postado em 03 de Junho de 2020 - Ricardo Moebus

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Esta sexta 05 de junho é o Dia Mundial do Meio Ambiente.

Talvez este 05 de junho de 2020 seja o ano mais relevante para esta data desde que foi criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1972.

Este 05 de junho pode ser o mais significativo por várias razões que confluem neste 2020.

A primeira é o fato de estarmos assitindo à real e inegável melhoria do Meio Ambiente em muitos lugares a partir da desaceleração do cotidiano, do freio imposto a grande parte das atividades humanas pela necessidade do afastamento social decorrente da pandemia pelo novo coronavírus.

Constatar o impacto positivo da desaceleração das atividades humanas, com a proliferação das formas de vida não humanas nos rios, mares, arredores urbanos etc, é tocante. E ainda que não seja surpreendente, ou, pelo contrário, mesmo sendo óbvio e previsível, mesmo assim, poder observar concretamente este efeito pode ser uma lição para todos nós, talvez possa atingir ali onde as palavras dos ambientalistas não atingiam.

Soma-se a isto o fato de que esta desaceleração das atividades e da produção, significa tornar real e notório o que antes parecia impossível, a desaceleração do crescimento econômico.

O dogma máximo do crescimento econômico infinito, antes intocável e inquestionável por governos de todos os matizes políticos, a impossível desaceleração do crescimento, o impossível puxar o freio da produção industrial, a impensável redução da circulação e do consumo de combustíveis fósseis, tornaram-se não apenas viáveis, mas factuais e notavelmente ao alcance das nossas mãos em pouquíssimo tempo; devido à pandemia do novo coronavírus.

A proposta da economia circular, da alternativa ao “crescimento a qualquer custo”, da economia do “donut”, ou economia da “rosquinha”, da limitação do crescimento,  passou a ser vista como uma possibilidade bem mais concreta e possível. Alguns governos como o de Amsterdã já planejam e estudam formas de implantá-la.

Ao mesmo tempo, toda a crise decorrente do novo coronavírus, colocou em cheque não apenas o modelo econômico, mas boa parte da estrutura mundial moldada em um consumo ininterrupto.

Por outro lado, a hipnose causada pela ocupação monotemática da imprensa pelo novo coronavírus tem permitido, pelo menos no Brasil, que a pauta dos direitos sociais, dos direitos ambientais, dos direitos difusos, seja atropelada e perca ainda mais espaço.

Desse modo avança a passos largos, na sombra do noticiário tomado pelo novo coronavírus, a destruição da Amazônia, incluindo aí a devastação dos Territórios Indígenas.

Só no Território Indígena Yanomami cerca de vinte mil garimpeiros invadiram essas terras que pertencem a união, e atuam ali de forma ilegal.

Vale lembrar que este grande desafio que se coloca mais uma vez para a sobrevivência dos povos indígenas, não se resume simplesmente no enfrentamento de “garimpeiros”.

Na verdade, por trás desse exército de vinte mil homens, existe algo bem maior que o garimpo simplesmente.

O que os povos indígenas estão tendo que enfrentar, mais uma vez, é o crime organizado da extração e comércio ilegal de ouro, é a máfia da circulação illegal de metais preciosos, que envolve grandes investimentos, uma frota de aeronaves, aeroportos clandestinos, comércio internacional, venda de armas, lavagem de dinheiro.

Soma-se a isto o fato de além da destruição e devastação da floresta e rios causada pelo garimpo, além dos tiroteios, dos saques às roças dos povos indígenas, os garimpeiros agora representam também a transmissão do próprio novo coronavírus para estes povos indígenas, especialmente vulneráveis.

Não é por coincidência que os Yanomami viveram um pesadelo muito parecido a este nos anos da ditadura militar, quando as grandes obras na amazônia e a política da “integração” dos povos indígenas, trouxeram epidemias “xawaras” como o sarampo e outras que quase levaram os Yanomami ao extermínio.

Agora no governo do capitão esta triste história de genocídio e etnocídio se repete, de maneira especialmente brutal contra os Yanomami, que tiveram a infelicidade de verem os veios do metal precioso descobertos em seus territórios sagrados.  

Os Territórios Indígenas são sabidamente, em todo o mundo, santuários de preservação de mais da metade da biodiversidade do planeta. Esta reserva de vida e de futuro para as próximas gerações está mais ameaçada que nunca no Brasil.

A pauta ambiental é hoje uma grande questão política urgente, confluente e indissociável da defesa da democracia, defesa do Estado Democrático de Direito, defesa do direito inalienável ao futuro.


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