Semana On

Terça-Feira 07.jul.2020

Ano VIII - Nº 400

Coluna

Juntos pra derrubar o Jair

Idelber Avelar fala de protestos, patrulhas, futebol, covis e otras cositas más

Postado em 03 de Junho de 2020 - Idelber Avelar

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Há uma série de bate-bocas, indiretas, perguntas e cobranças atravessando as redes neste momento. O climão está pesado. Então vamos lá.

Em primeiro lugar, eu gostaria de sugerir, com todo o carinho e do ponto de vista de alguém que escreve na internet há 16 anos, que você não seja a pessoa que zanza pelas redes cobrando “posicionamento” dos outros. Isso é chato e contraproducente. Aliás, esse verbo “posicionar-se” funciona de forma invariavelmente policialesca. As pessoas não têm que se “posicionar” sobre tudo, sobre cada manchete, sobre cada coletivo que se forma.

O meu posicionamento está claro desde antes de Jair tomar posse: apoio quaisquer iniciativas pacíficas de retirada do minúsculo do poder, legais ou ilegais.

Isso significa que não vou ficar aqui tecendo considerações críticas sobre o coletivo X ou Y que se formou para bombardear Jair. Se é para bombardear Jair, são meus aliados. A análise crítica da retórica de cada coletivo é coisa que deixo para publicações mais propícias à reflexão calma e pausada, ou seja, os textos acadêmicos e livros. Neles, eu tenho feito esse trabalho há anos, de interlocução crítica com aliados.

O Facebook não serve para isso. Ele não serve porque por mais suave, empática, aliada que seja qualquer consideração crítica que eu teça sobre qualquer iniciativa, eu não controlo a caixa de comentários, e será inevitável que ela vire um mural de críticas às pessoas responsáveis por essas iniciativas. E eu me recuso a transformar minha página, AGORA, em um mural de críticas a iniciativas anti-Jair. Se são anti-Jair, em primeiro lugar eu não quero atrapalhá-los.

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Agora tem a segunda questão, que diz respeito à volta dos protestos de rua no interior de uma pandemia. Sobre isso, lembro a ética que mantenho desde sempre.

Eu só convoco protesto em que há risco de violência quando o meu próprio cu está na reta. Se eu planejo ir à manifestação, eu convoco. Se não, não.

Não sou revolucionário de Facebook. Você nunca viu, na minha página, essa tagarelice vazia sobre “guilhotina” ou “fuzilamento” ou “matar X ou Y” ou coisa do gênero.

Eu escrevo o que banco e banco o que escrevo. São 16 anos sem apagar um post na internet. O que mais tem por aí é revolucionário que escreve X hoje, apaga o X na semana que vem e escreve Y. Aqui o papo é reto, mural aberto, qualquer um pode comentar. Raríssimas vezes eu bloqueio alguém por algo que fez na caixa.

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Isso quer dizer que sou “contra” as manifestações de domingo? Não, não sou. E não vou pedir que ninguém fique em casa. Há uma diferença moral gigantesca entre aglomerações feitas com o exclusivo propósito de quebrar a quarentena e a manifestação desesperada de populares tentando derrubar um presidente criminoso, que está levando o país a um morticínio inédito na história moderna.

Tomo as manifestações de domingo como um dado da realidade mesmo, e peço que todos usem máscaras se forem às ruas. E o meu foco será o de sempre: denunciar a violência policial se ela acontecer.

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Eu sinto muito se isso não é suficiente para os policiais do “posicionamento” alheio, mas é o que banco. Há uma espécie de oportunista que faz carreira assim: desaparece durante 6, 8 meses, e depois aparece anunciando alguma catástrofe Y se X for feito. Como catástrofes sempre estão acontecendo no Brasil, o sujeito sempre parece estar certo.

Na verdade, ele está apenas construindo desonestamente uma relação causal que ele deu como premissa mas não demonstrou, entre o acontecimento X e a catástrofe Y.

Eu não trabalho com esse tipo de filistinismo, que está sempre voltando para dizer “eu avisei”.

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É possível que as manifestações de domingo sirvam como pretexto para repressão e acirramento da ofensiva bolsonarista? É possível. É possível que elas cresçam ao ponto de se transformar no grande pesadelo de Jair, na mola propulsora de sua derrubada? Também é possível.

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Por isso, aos que vão as ruas domingo: força, galera, máscaras, celular na mão, distância física, todo o kit. A quem prefere ficar em casa, mas agitar contra Jair nas redes: está valendo também.

Estamos juntos, vamos derrubar Jair.

ALIADOS

P: Quem é meu aliado na luta para derrubar Bolsonaro?

R: Qualquer um que queira derrubar Bolsonaro.

P: Quais são os requisitos para estar no bloco dos que querem derrubar Bolsonaro?

R: Querer derrubar Bolsonaro e nada mais.

P: Desde quando a pessoa tem que ter querido derrubar Bolsonaro para ter lugar na frente anti-Bolsonaro?

R: Desde pelo menos um segundo antes de ela declarar que quer derrubar Bolsonaro. Um segundo ou vinte anos, não faz diferença para autorizar ninguém a ajudar a derubar Bolsonaro.

E assim por diante.

Querer derrubar Bolsonaro é hoje um lugar eminentemente performativo. Não há nenhum requisito, a não ser declarar-se disposto a ajudar derrubar Bolsonaro.

A situação é terrorífica, mas apenas é “complicada” nesse sentido, em que complicado é sinônimo de desastroso. A situação é, na verdade, bastante simples. Terrorífica e catastrófica, mas simples. Ela está reduzida à fórmula mais básica possível.

Há que se derrubar Bolsonaro e aliado é quem quiser derrubar Bolsonaro.

ATÉ QUANDO?

Só uma curiosidade: o Flamengo e o Vasco vão ficar passando vergonha até quando, hein?

Rubro-negros, cruz-maltinos, façam alguma coisa! O Vasco tem 16 jogadores infectados e está catando time caça-níquel no interior para angariar apoio ao retorno a campo. O Flamengo é dirigido por bolsonaristas.

FAÇAM. MAIS. ENCHAM. O. SACO. DELES.

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Assinado: Galo Doido, responsável por uma das quarentenas menos ruins do Brasil.

Para quem não conhece BH: o prefeito Alexandre Kalil tem se comportado de maneira corajosa; ele é o ex Presidente mais vitorioso da história do Galo. O candidato da oposição também era Galo, ninguém menos que o jogador que mais vestiu a camisa do clube, João Leite. Na Câmara, entre lideranças populares, na melhor imprensa, é o Time do Povo de Minas Gerais que está protegendo vidas em Beagá, as nossas e as dos rivais azuis e alviverdes (que são os primeiros a reconhecer o protagonismo, aliás).

Está dando orgulho ser atleticano.

LEIAM E CHOREM:

"Os números são vistos como marcos comparativos e originam uma variedade ampla de reportagens e manchetes.

Único problema: não correspondem à verdade. Ou melhor: fornecem um quadro parcial que, se encarado como o real, pode criar problemas seriíssimos. Não dá para usar os números diários do ministério como fonte confiável para fazer previsões ou tomar decisões sobre a pandemia sem levar em conta a distância deles para a realidade.

Os problemas não são necessariamente resultado de alguma intenção maligna para sonegar informações da população. Há dificuldades inerentes ao acompanhamento de uma pandemia, num país continental como o Brasil. Também não se restringem ao expediente popularizado como “subnotificação”. Há questões intrínsecas à definição do que é registrado.

[...]

Ainda que limitada à definição oficial, a contabilidade exigiria das autoridades agilidade e gestão eficiente. Não é o que tem acontecido. Governos locais têm se aproveitado da situação para lidar com os números da forma mais conveniente politicamente.

É o caso da prefeitura do Rio de Janeiro, que mudou no fim de maio os critérios de contabilidade e retirou 1.177 mortes da conta das vítimas da Covid-19. Justificativa: o atestado de óbito não apontava a doença como causa. Obviamente, isso não significa que a epidemia tenha matado menos ou deixado de crescer na cidade.

Há ainda a defasagem entre os totais relatados pelas secretarias estaduais da Saúde e os números divulgados pelo ministério. Um exemplo ilustrativo é o Pará. Quase toda tarde, a secretaria estadual da Saúde tem divulgado um número superior ao do boletim ministerial à noite. Só ontem, havia 52 mortos a menos nos dados federais, de acordo com o acompanhamento do perfil Contagem Coronavírus no Twitter. A diferença tem flutuado diariamente: 68, 99, 103…"

AULA DE GRAMÁTICA:

Filho da puta não é palavrão. A expressão “filho da puta” é adjunto adnominal quando a frase for: “conheci um presidente da república filho da puta”. Mas, se a frase for “o Bolsonaro é um filho da puta”, daí é predicado. Agora, se a gente usar a frase “esse filho da puta não está fazendo nada para combater a Covid-19”, nesse caso “filho da puta” passa a ser sujeito. Porém, se o cara aponta uma arma para a testa do presidente e diz: “agora nega o envolvimento com a milícia, filho da puta”, aí é vocativo. Finalmente, se a frase for “o presidente, aquele filho da puta, retirou o dinheiro da área da saúde”, aí é aposto.

Que língua a nossa, não? Agora, vem o mais importante para o aprendizado.

Se estiver escrito “saiu do exército no passado e ainda se denomina capitão”, filho da puta é sujeito oculto.


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