Semana On

Quarta-Feira 12.ago.2020

Ano IX - Nº 405

Saúde

Brasil passa dos 400.000 casos de covid-19, com projeções de que chegará a 100 mil mortos em agosto

Estudos apontam que país pode superar Estados Unidos no número de mortes

Postado em 29 de Maio de 2020 - Gil Alessi (El País), Maíra Mathias e Raquel Torres (Outra Saúde) – Edição Semana On

Enterro de Izolina de Sousa, 85, que morreu de covid-19, no cemitério da Vila Formosa, em São Paulo. Foto: Amanda Perobelli - Reuters Enterro de Izolina de Sousa, 85, que morreu de covid-19, no cemitério da Vila Formosa, em São Paulo. Foto: Amanda Perobelli - Reuters

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O Brasil, segundo país com mais casos da covid-19 no mundo, passou a marca de 400.000 pessoas infectas pela doença. Só na quinta-feira (28), o país registrou mais 1.156 mortes e 26 mil casos de covid-19. No total, há 26.754 óbitos e 438,2 mil casos conhecidos. É claro que a conta é inexata. Das 1,1 mil mortes registradas ontem, só metade aconteceu nos últimos dias. Mas isso não é uma boa notícia, obviamente, afinal, é péssimo não saber quantas pessoas morreram de fato ontem.

Ao fazer uma análise da situação da pandemia, Eduardo Macário, secretário substituto de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, deixou claro que "a nossa curva [de contágios e vítimas] ainda é crescente”, e que “a situação é de risco e alerta”. De acordo com ele, as regiões Sul e Sudeste devem redobrar a atenção agora no período de inverno, quando aumenta a propagação de doenças respiratórias. Sem políticas de restrição adequadas —o próprio presidente Jair Bolsonaro continua indo às ruas participar de aglomerações— especialistas e institutos internacionais acreditam que o Brasil pode se tornar um dos países com maior número de mortos pela covid no mundo. Atualmente, ocupa o sexto lugar.

Algumas previsões traçam um panorama grave para o cenário brasileiro tendo em vista o crescimento exponencial dos números e a falta de políticas públicas e comando adequados para conter a disseminação do vírus. Um modelo de análise estatística do instituto de métrica da Universidade de Washington, que ajuda a subsidiar decisões da Casa Branca, aponta que o Brasil pode chegar a 125.000 mortes até o mês de agosto. O intervalo de óbitos previsto por eles fica entre 68.311, caso o país adote medidas mais duras de controle, e 221.078. Para efeito de comparação os Estados Unidos, onde a doença se mostrou mais letal, tem atualmente pouco mais de 100.000 mortes. No entanto, lá a curva já começa a dar sinais de achatamento, ao contrário do que ocorre por aqui.

Ainda segundo esta estimativa da Universidade de Washington, o pico de óbitos no Brasil deve se dar em 13 de julho, com 1.526 mortes em 24 horas, e a partir de agosto a curva de mortes começa a diminuir, com cerca de 1.400 óbitos a cada dia (atualmente, o patamar de óbitos registrados chega a 1.000). O diretor da entidade, Christopher Murray, afirmou que o país “deve seguir a liderança de Wuhan, na China, assim como a da Itália, Espanha e Nova York, impondo medidas para o controle de uma epidemia em rápida evolução, e assim reduzir a transmissão do coronavírus”. Todos os casos citados por Murray lançaram mão de quarentenas mais drásticas do as adotadas no Brasil, inclusive com lockdown —quando as pessoas só podem sair de casa para ir ao mercado e à farmácia. O presidente Jair Bolsonaro se opõe a qualquer uma destas medidas, que estão sendo adotadas de forma fragmentada por alguns governadores e prefeitos.

O instituto de métrica da Universidade de Washington não é o único a prever um cenário dramático para o Brasil para os próximos meses. Alexandre Kalache, que trabalhou na Organização Mundial de Saúde e hoje é presidente do International Longevity Centre, afirmou ao jornal Financial Times que “não há dúvidas de que o epicentro da pandemia está migrando para o Brasil”. Segundo ele, se a curva de contágios e mortes continuar a subir exponencialmente o país “alcançará 120.000 mortes”. Kalache não descarta que o Brasil ultrapasse os Estados Unidos dentro de algumas semanas caso não adote as medidas preventivas recomendadas pela OMS e por entidades médicas.

Em meio às previsões negativas para o país, a notícia positiva da entrevista coletiva do Ministério da Saúde nesta terça-feira ficou por conta do Estado do Amazonas. Eduardo Macário destacou a redução da curva de óbitos no Estado, especialmente na região metropolitana de Manaus, que passa por situação de calamidade, com hospitais lotados e caixões sendo enterrados em valas. Mas ele fez uma ressalva: “Não podemos considerar, com base nas informações que nós temos, que o Estado já atingiu o pico. É importante dizer que as ações precisam ter continuidade”.

Perspectivas e fatos

Em pouquíssimo tempo o país certamente vai ultrapassar a França e a Espanha no número absoluto de vítimas fatais. Em relação ao número diário, faz dias que já não há ninguém à nossa frente. Os Estados Unidos, que ontem ficaram em segundo lugar nesse quesito, tiveram 590 mortes registradas.

A taxa de contaǵio está acima de 1 praticamente no país inteiro, segundo estimativas do grupo Covid-19 Analytics, do qual participa a PUC-Rio. O único estado que se salva é o Ceará, que está com 0,92 (e entra em fase de ‘transição’ para a reabertura na segunda-feira). A média da taxa no Brasil é de 1,9, o que significa que 10 infectados passam o vírus para outras 19 pessoas. Para lembrar: a Alemanha anunciou sua reabertura econômica quando essa taxa estava em 0,7, e deu meia volta quando chegou a 1,1…

Os dados do Infogripe – que acompanham as internações por Síndrome Respiratória Aguda Grave e são importantíssimos diante da subnotificação de covid-19 –, apontam que os casos continuam crescendo, especialmente nas regiões Centro-Oeste e Sul. No Sudeste e no Nordeste também há crescimento, mas menos acelerado.

Apenas na região Norte parece haver uma redução. Aliás, depois de protagonizar algumas das mais terríveis cenas da pandemia no Brasil, o Hospital 28 de Agosto, em Manaus, zerou pela primeira vez uma de suas salas dedicadas a pacientes com o novo coronavírus.

Em relação aos dados oficiais de covid-19, o estado de São Paulo ainda é o pior em números absolutos, com quase 96 mil diagnósticos e sete mil mortes. O Rio ultrapassou a China em número de óbitos, chegando a 4,8 mil ontem. Já o número de casos é quase metade do chinês, reforçando a tremenda subnotificação. Mesmo assim, ambos os estados caminham para a flexibilização do isolamento.

De um isolamento que já não acontece de forma satisfatória, aliás. No Intercept, há o impressionante relato de uma funcionária da Ceasa, no Rio, onde a movimentação é intensa, e a fiscalização, precária. “Quando pedimos respeito às regras de distanciamento, eles nos olham com cara feia, até riem e deixam de levar a mercadoria por conta de um simples pedido de ‘por favor, mantenha a distância’. As pessoas falam na sua cara que já tiveram sintomas de coronavírus e estão na sua frente, sem máscaras. São pessoas que nem sequer seguem a quarentena. Dizem que só ficam em casa se estiverem morrendo. Enquanto isso, pessoas infectadas circulam livremente. Isso nos dá uma sensação horrível. Teve dias que fui ao banheiro chorar, porque além de medo, existe essa pressão psicológica de conviver com esse assédio diário”.

Em São Paulo, a pressão por incluir a capital na lista de municípios que poderiam começar a reabertura a partir da próxima segunda-feira veio do prefeito Bruno Covas, segundo a apuração do Estadão. Isso porque as subprefeituras da capital começaram a alertar para o risco de ‘desobediência civil’ caso a situação se mantenha como está, com medidas que geravam críticas e ao mesmo tempo eram frouxas, não aumentavam o isolamento. Concluíram que algo deveria ser feito: ou o lockdown de verdade ou a abertura “controlada”. A opção que venceu foi a segunda, embora a ameaça de lockdown siga como uma constante nas falas (e só nas falas) de Doria.

Mais ‘livres’

O governo federal revogou uma portaria publicada pelos ex-ministros Sergio Moro e Luiz Henrique Mandetta que previa prisão para quem descumprisse medidas de isolamento social contra a covid-19. A anulação foi assinada pelo ministro André Mendonça, e pelo ministro interino da Saúde, general Eduardo Pazuello. A justificativa até poderia ser a necessidade de não colocar mais gente possivelmente infectada nas prisões nesse momento em que se luta justamente para reduzir a superlotação e as chances de contaminações e mortes em massa. Mas foi outra: em nota, o Ministério da Justiça responde a “notícias de prisões possivelmente abusivas de cidadãos, as quais não podem ser objeto de anuência por parte das autoridades federais”.

Passou de todos os limites

Era questão de tempo para que o incentivo federal  à cloroquina e hidroxicloroquina no tratamento da covid-19  fosse contestado… E, sim, é o Supremo quem deve julgar mais essa parada. Ontem, a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Saúde e a Federação Nacional dos Farmacêuticos pediram a suspensão da nota técnica do Ministério da Saúde. As entidades afirmam que o governo baseia o uso da substância em estudos clínicos defasados, ignorando os mais recentes que concluíram tanto a falta de eficácia do tratamento, quanto os riscos das drogas no organismo dos doentes.

“A politização que tem sido feita em torno desse assunto está, em verdade, atrapalhando o combate à pandemia e fazendo médicos, gestores públicos, técnicos, juízes e ministros perderem tempo valioso na definição de outras questões que, seguramente, contribuiriam muito mais para a definição das ações de enfrentamento de momento tão duro do nosso país”, lamentaram as entidades que querem que a Justiça proíba o presidente e outros agentes públicos de fazerem propaganda das substâncias.

Enquanto isso, num planeta chamado ‘setor privado desregulado’, a operadora de saúde Hapvida resolveu demitir um médico que se recusou a receitar hidroxicloroquina no tratamento de pacientes com sintomas leves de covid-19. Não só: a empresa teria ameaçado outros trabalhadores de demissão também. A Folha ouviu profissionais e teve acesso a mensagens trocadas no WhatsApp. Em uma delas, um chefe de uma dos serviços próprios da Hapvida caracteriza os médicos que não querem prescrever o medicamento como “ofensores” e anuncia que está fazendo um “ranking”. De acordo com essa revoltante metodologia, quem aparecer duas vezes no ranking é demitido. Outro chefe basicamente proíbe os médicos de informarem aos seus pacientes os riscos da medicação.


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