Semana On

Sábado 11.jul.2020

Ano VIII - Nº 401

Brasil

Desigualdade eleva letalidade da covid na favela, diz estudo

Levantamento inédito mostra que 46 quilombolas já morreram por coronavírus no Brasil

Postado em 28 de Maio de 2020 - Larissa Linder (DW), Igor Carvalho (Brasil de Fato) – Edição Semana On

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Quase todos os dias, com ou sem pandemia, a diarista Joceliane Gomes Santos de Freitas, 29 anos, sai de casa às 7h em Barra do Ceará, comunidade de Fortaleza onde mora com o marido e os dois filhos de 4 e 8 anos. Caminha por uma hora até chegar ao trabalho – "é preciso economizar com a condução", diz. O marido encontrou um emprego mês passado, após três anos desempregado, e agora trabalha como porteiro das 18h às 6h. Sem creche, quem cuida dos filhos é a mãe dela, idosa, que viaja semanalmente de outro município para isso.

Na casa de três cômodos, a torneira é decorativa. É preciso acordar todos os dias às 3h para pegar água, que chega apenas a uma bica do lado de fora, com baldes. O álcool em gel e os produtos de limpeza são garantidos por doações.

Para quem mora em bairros como Barra do Ceará, o home office e a quarentena são ficção. Mesmo com a ajuda de R$ 600 que Freitas tem recebido do governo federal, não é possível abrir mão do trabalho. "A gente tem medo de pegar coronavírus, mas tem que buscar o alimento."

Em Fortaleza, uma das capitais mais desiguais do país e a que tem o segundo maior índice de infectados com coronavírus por 100 mil habitantes, a pandemia escancarou a disparidade socioeconômica e mostrou que quem vive em locais de baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) tem mais chances de se infectar e morrer.

Conforme dados obtidos com exclusividade pela DW Brasil, no bairro Meireles, com IDH próximo da Noruega, com um nível de confinamento de 70% – a meta estadual –, a taxa de infectados é de 6%, e a de letalidade, de 0,5%.

Já em Barra do Ceará, com IDH inferior a países como o Sudão do Sul, se houvesse o mesmo nível de isolamento, a taxa de infectados seria de 16%, e a de letalidade triplicaria, o que mostra que o coronavírus avança mais rapidamente e de forma mais letal em comunidades carentes, segundo os autores do estudo.

O levantamento, feito pelo grupo interdisciplinar de pesquisadores Ação Covid-19, mostra que a necessidade de confinamento é maior em áreas mais pobres – justamente onde é mais difícil manter a população em casa devido a um conjunto de fatores que facilitam a transmissão, como saneamento inadequado, educação deficiente, moradias lotadas e má nutrição, que se refletem no IDH.

Enquanto o nível de confinamento de Meireles se manteve em 70% – ainda considerado insuficiente pelos pesquisadores, que dizem ser necessário atingir 80% –, em Barra do Ceará esse nível foi de 50%, diante de uma necessidade calculada de 86%.

Os números oficiais, mesmo considerando a subnotificação, já dão uma noção da diferença. Barra do Ceará, de 1º de abril até 26 de maio, registrou 400 casos de coronavírus e 58 mortes, ou uma taxa de mortalidade de 14,5%, enquanto em Meireles houve 649 casos e 27 vítimas, ou uma mortalidade de 4,2% nesse período.

O bairro carioca de Copacabana é outro exemplo. Para achatar a curva de infectados, os pesquisadores estimam que o confinamento teria de ser aumentado da meta de 70% para ao menos 80%. Na comunidade Pavão-Pavãozinho, que fica dentro de Copacabana, o índice ideal seria de 92%. 

"Não é fácil conseguir tanto isolamento. Exige medidas integradas, com a cooperação de todas as esferas de poder, movimentos sociais, iniciativa privada e população", diz o cientista da computação Carlos dos Santos, professor da Universidade Federal do ABC (UFABC).

Políticas públicas locais

Esses altos níveis de confinamento não são factíveis, especialmente nas comunidades pobres, onde a maior parte da população precisa sair de casa para trabalhar. "Esse nível de confinamento não é real, mas mostra que é preciso ter ações voltadas especificamente para essas comunidades", diz a física Patricia Camargo Magalhães, da Universidade de Bristol, que faz parte do grupo de pesquisadores.

Segundo o presidente da Central Única de Favelas (Cufa), Preto Zezé, a dificuldade maior é a alimentação. "Como a pessoa vai ficar em casa se ela não tem o que comer e precisa sair para trabalhar e comprar comida?" Além disso, lembra, são os moradores de comunidades como essas que estão em trabalhos hoje considerados essenciais, como supermercados e postos de gasolina.

"O nível de confinamento social é muito difícil para esses territórios, até a noção de casa é diferente, a rua muitas vezes faz parte da casa. O que tem de ser feito é diminuir a chance de transmissão de pessoa para pessoa, dar condições para as pessoas não se contaminarem, ter equipamento individual, renda, porque as pessoas estão saindo de casa para trabalhar", afirma o economista José Paulo Guedes Pinto, professor da UFABC, que também faz parte do grupo Ação Covid-19.

Segundo o economista, o sucesso do Brasil no controle da epidemia dependerá das gestões locais. "O governo federal já colocou um pouco o limite de onde vai atuar. O Brasil vai sair dessa dependendo muito do poder local, com o município levando água para a comunidade, por exemplo, deixando de podar árvores em bairros ricos para levar o essencial para bairros pobres."

Para o professor e pesquisador da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, que trabalha com projeções no grupo de pesquisadores Covid-19 Brasil, é necessário estabelecer metas distintas de confinamento para bairros diferentes. "Fortaleza tem claramente duas pandemias", diz, em referência ao estudo.

No caso de Fortaleza, a prefeitura afirma estarem sendo realizadas ações voltadas especificamente para combate à covid-19 em bairros e grupos mais vulneráveis socioeconomicamente, o que inclui a distribuição de 130 mil cestas básicas e a transferência de R$ 200, em parcela única, para feirantes, autônomos e ambulantes cadastrados no município.

Organizações sociais têm feito parte do trabalho. Em Barra do Ceará, a Cufa auxiliou 4 mil famílias com 300 mil reais distribuídos em vale-gás, vale-alimentação – com um voucher digital que só pode ser usado no comércio local –, auxílio em dinheiro a mães, que representam quase metade das chefias de família no bairro, entre outras ações. A verba vem principalmente de doações de empresas.

No dia 17 de março, a prefeitura de Fortaleza decretou situação de emergência em saúde pública e definiu medidas como a suspensão de aulas e eventos públicos. Mas somente em 8 de maio estado e município  decretaram um isolamento social mais rígido, com restrição na circulação de pessoas e veículos em espaços públicos, permitida somente com justificativa, como busca a serviços essenciais.

Quilombolas

Dados levantados pela Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Quilombolas (Conaq) e o Instituto Socioambiental (ISA) revelam que houve, até o momento, 46 óbitos e 197 casos de contaminados por coronavírus nos quilombos do Brasil. Isto significa que, desde a primeira morte, dia 11 de abril, morreu um quilombola por dia.

Os números fazem parte do “Observatório da Covid-19 nos Quilombos”, uma plataforma online que será lançada nesta quinta-feira (28) pela Conaq e o ISA. As entidades farão o acompanhamento diário dos casos de pessoas monitoradas, contaminadas e mortas por coronavírus nos territórios quilombolas.

De acordo com o levantamento, o Pará é o estado que mais óbitos registrou entre os quilombolas. Foram 15 mortes no estado. Em seguida, vem o Amapá (9), Pernambuco (7) e Rio de Janeiro (6). Os números comoveram Sandra Maria, coordenadora executiva da Conaq. “Recebi esses dados com muita tristeza e desolação, pois nosso povo está morrendo e ninguém, ninguém liga.”

De acordo com a Conaq, há 16 milhões de quilombolas em todo o Brasil e o Pará é o estado com a maior concentração dessa população, com cerca de 70 mil famílias divididas em 62 comunidades. Sandra Maria afirma que o governo federal não tem se preocupado com a saúde das pessoas que vivem em quilombos e eles “estão por conta própria.”

“Neste momento, no qual as comunidades quilombolas precisariam ser assistidas pelo governo federal, ele nada está fazendo para ajudar e proteger as comunidades. Estamos desolados com este governo, que não nos reconhece como sujeitos de direitos, nem como seres humanos e que acha que nossas vidas são descartáveis”, assevera a dirigente da Conaq.

Ausência

Milene Maia, assessora do Instituto Socioambiental (ISA), criticou a condução da pandemia feita pelo Estado brasileiro. “O que temos visto é que não há uma ação do governo federal que dê um aporte às comunidades. A Fundação Cultural Palmares disponibilizou cestas básicas, mas elas não chegaram nas comunidades. Em relação ao auxílio emergencial, é algo que não está circulando nas comunidades, até porque eles têm dificuldade para acessar celulares e internet.”

Para o Conaq e o ISA, a contaminação tende a se agravar com o deslocamento das famílias em busca de ajuda, quando apresentam os sintomas que identificam o coronavírus.

“Uma outra situação grave é o acesso das comunidades aos serviços de saúde, uma vez que os territórios não possuem nenhum tipo de atendimento médico e precisam acessar as capitais para serem atendidos. Muitas vezes, o atendimento não é satisfatório, mas não há testagem dessas pessoas, que voltam para casa sem orientação ou medicação, o que tem levado alguns ao óbito. Isso ressalta e escancara o racismo estrutural do nosso país”, explica Maia.

Segundo Sandra Maria, sem o apoio do Estado, as comunidades recorrem aos conhecimentos tradicionais. “Estamos fazendo nossa própria proteção, como nossos ancestrais faziam antigamente. Mas, se não obtivermos ajuda, vai morrer muito quilombola. Precisamos dos testes para saber quem está contaminado e ajudar a prevenir essa pandemia. Continuaremos resistindo, com nossos chás, ervas e benzeções. Continuaremos lutando e revelando ao mundo a falta de apoio que as comunidades quilombolas tem nesse país.”


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