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Quinta-Feira 02.jul.2020

Ano VIII - Nº 399

Coluna

‘Podemos sofrer um apagão aéreo por um tempo’, diz especialista em aviação após pedido de recuperação da Latam

Para André Castellini, as companhias precisam de apoio do governo para superar crise. Expectativa é de aumento nos preços de bilhetes

Postado em 27 de Maio de 2020 - Bruno Rosa – O Globo

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André Castellini, sócio da Bain & Company e especialista em aviação, avalia que o país pode enfrentar um apagão aéreo em razão da crise do coronavírus.

Ele ressalta que governos no mundo inteiro estão adotando medidas de resgate para evitar uma quebradeira no setor e teme que a alternativa por uma solução estritamente de mercado no Brasil não seja suficiente para que as companhias atravessem a pandemia.

 

De que forma a crise do coronavírus tem afetado as empresas aéreas?

As companhias aéreas perderam entre 90% e 95% de tráfego em todo o mundo. Todas as empresas aéreas estão inadimplentes, com exceção das companhias cargueiras. Elas não estão pagando financiamentos, parte da folha e aeroportos. É algo sem precedentes na história. No mundo, há vários resgates que estão sendo feitos por parte dos governos. A Lufthansa recebeu bilhões do governo. A Alitalia foi nacionalizada. As companhias nos EUA receberam US$ 61 bilhões do governo.

E como o senhor analisa as iniciativas do governo brasileiro?

O governo que a gente tem acredita muito no mercado e que isso é suficiente. Mas é preciso ficar atento, pois é muito ruim para o país ter as suas empresas aéreas quebrando. O problema é que, se não for feito nada, e deixarmos o mercado resolver, pode haver um desarranjo. Assim, podemos sofrer um apagão aéreo por um bom tempo. Nesse processo, vai sobreviver uma empresa ou talvez sobrevivam duas. Haverá uma indústria mais concentrada e, portanto, com impacto no preço e na competitividade.

E o que se pode esperar em termos de impacto nos preços do bilhete?

Os preços vão subir em qualquer solução. Os efeitos do câmbio e da redução da escala devem gerar uma alta de 15% a 20%. O cenário que temos hoje é que, no fim do ano, vamos ter 50% do número de passageiros que tínhamos antes da crise. E 100% dos passageiros só no fim de 2023. No internacional, vai demorar mais. No fim deste ano, teremos só 25% do que tínhamos no ano passado. Só em 2025 vamos chegar ao patamar anterior ao da crise. Então, as empresas vão ter que reduzir de tamanho. E com isso há uma perda de escala, e os custos de assentos ficam mais altos.

O cenário no Brasil é mais grave do que no exterior?

A recuperação será mais lenta e mais dura que em outros países. Aqui há um desarranjo político que leva a uma baixa confiança de investidores. E, sem investimentos, o Brasil não cresce, e a retomada será mais devagar. Nos últimos anos, para cada ponto de crescimento do PIB, o número de passageiros cresce de 2,5% a 3%. E o mesmo ocorre no sentido inverso. Além disso, o número de casos de coronavírus vai demorar mais para cair e, com isso, as restrições de voos vão durar mais tempo. Com a retomada mais demorada, as companhias vão ter que ter mais fôlego.

Mas como as empresas podem ter maior fôlego?

As empresas precisam do apoio do governo para apagar o incêndio até o fim do ano e cobrir a necessidade de liquidez. Isso está sendo feito em todo o mundo. Seria ruim para o Brasil se elas não recebessem essa ajuda. As empresas precisam ainda reduzir suas malhas, suas operações e custos para lidar com o cenário de demanda menor e crescimento baixo.

A situação da Latam hoje é mais delicada do que a das concorrentes brasileiras?

Não é só a Latam, mas ela tem uma complicação em relação às outras duas empresas por ter um peso internacional mais forte. O fato de uma empresa entrar em recuperação judicial não

As companhias estrangeiras vão ganhar espaço?

Sim, pois elas vão sair desse processo mais capitalizadas. É um processo darwiniano (alusão a Charles Darwin, autor da Teoria da Evolução), mas não de habilidade de se adaptar e sim de ter mais recursos financeiros. É quem tem o padrinho mais rico.


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