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Quinta-Feira 02.jul.2020

Ano VIII - Nº 399

Coluna

Como Mato Grosso transforma floresta em soja

No o cultivo já devastou área superior a Portugal. O estrategema ‘indireto’ dos sojicultores: primeiro, mata é transformada em pasto, para que as pegadas dos responsáveis não apareçam na devastação

Postado em 27 de Maio de 2020 - Nádia Pontes - DW Brasil

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Nos campos de soja de Mato Grosso, a temporada de colheita da planta está no fim. Parte da safra, com previsão de render 34 milhões de toneladas, já começa a embarcar rumo ao principal consumidor: China. Em Sorriso, norte do estado, o grão enche os silos, as construções mais altas da cidade. De lá até Sinop pela BR 163, lavouras contínuas de soja se estendem por quilômetros, ocupando até terrenos na área urbana – ao lado de restaurantes, casas e centros de compras.

No principal estado produtor do país, o plantio de soja ocupa 10 milhões de hectares, área maior que Portugal. “O Mato Grosso se desponta devido à estabilidade do clima, tem as estações de chuva e de seca”, afirma Tiago Stefanello, presidente do Sindicato Rural de Sorriso e representante da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado de Mato Grosso (Aprosoja).

Em 2019, Mato Grosso também se destacou em outro ranking. Depois do Pará, o estado é o segundo maior responsável pelo desmatamento da Floresta Amazônica. Medições feitas pelo Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe) no programa Prodes, que verificou o desmatamento anual de julho de 2018 a agosto de 2019, mostram um aumento de 25% nas taxas de desmatamento em relação ao período anterior.

A ilegalidade predomina: em 85% das áreas, o corte foi clandestino. “Mais da metade do desmatamento (56%) aconteceu em grandes propriedades rurais. Foram desmatamentos grandes, facilmente detectados pelo sistema de monitoramento via satélite”, comenta Vinícius Silgueiro, coordenador de Geotecnologias do Instituto Centro de Vida (ICV).

Questionado sobre uma possível relação entre desmatamento e expansão da soja, Stefanello diz não acreditar nas taxas divulgadas pelo Inpe. “Tem um monte de parque, de terra indígena que queima e colocam tudo na conta do produtor”, responde à DW Brasil.

Onde o corte da floresta foi autorizado, não há dúvidas sobre a intenção de quem desmatou. “Os municípios que lideram o desmatamento legal estão na zona de expansão da soja. É quem tem dinheiro para viabilizar as emissões de autorizações e licenciamento de forma mais rápida”, complementa Silgueiro.

Relações indiretas

Pesquisadores rastreiam há décadas a ligação entre o sumiço da Floresta Amazônica e a expansão da soja e apontam que, atualmente, a conversão direta da mata nativa em área de cultivo é menos comum que em períodos anteriores à Moratória da Soja. Declarada em 2006, os signatários do acordo firmaram o compromisso de não comprar soja de áreas desmatadas.

“A influência da soja nessa dinâmica pode ser entendida como indireta, porque seu avanço sobre as pastagens pode estimular o avanço da pastagem para as florestas”, comenta Nathália Nascimento, que acaba de publicar um artigo sobre a pesquisa desenvolvida no Inpe.

“Alguns estudos recentes apontam que, com a soja ocupando áreas de pastagens, a pecuária busca novos espaços e leva a mais desmatamento”, pontua Nascimento. “Mas isso também depende do contexto da região”, ressalta.

Stefanello afirma que entre os associados produtores de soja de Sorriso “muito raramente se fala em abertura ilegal”. “O que a gente nota e vê, é que a soja está indo para as áreas que eram de pecuária. As pecuárias extensivas que, nos anos anteriores faziam as queimadas, jogavam pasto para o boi, hoje a viabilidade da agricultura é melhor que a pecuária”, responde.

De uma forma ou de outra, a lavoura segue rumo à floresta. Na safra 2018/2019, 64% das novas áreas plantadas no Mato Grosso foram no bioma amazônico, somando 144 mil hectares, segundo mapeamento feito pela Universidade Estadual de Mato Grosso, disponível para consulta pública.

Avanço pelo portal

Nomeada a capital do agronegócio brasileiro por decreto federal, Sorriso está no chamado portal da Amazônia. Nesta área de transição entre cerrado e bioma amazônico, o projeto de ocupação populacional iniciado no governo militar atraiu majoritariamente agricultores do sul do país.

“Esses colonos foram assentados nessa região, e não teve nenhuma política de assentamento, de treinamento dessas pessoas. O que eles tinham de riqueza era a floresta”, pontua Domingos de Jesus Rodrigues, pesquisador da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). “Então tiraram a madeira, depois veio a pecuária e, mais tarde, a soja.”

A família de Stefanello chegou nessa época. “As famílias eram obrigadas pelo governo a abrir ou perdiam a terra. Hoje a gente é obrigado a preservar”, argumenta.

Foi na década de 1990 que a soja iniciou sua soberania. O trabalho de pesquisa e adaptação de espécies feito pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) foi fundamental para que o estado se tornasse o maior produtor nacional na safra 2000/2001.

Pressão sobre a agroecologia

Na contramão deste cenário, a poucos quilômetros de Sinop – que também se considera capital do agronegócio e está dentro da Amazônia – os moradores do assentamento 12 de Outubro tentam levar a agroecologia adiante.

“Como a gente está nesse local, o portal da Amazônia, a gente tinha mais esperança de produzir de forma saudável”, afirma Marciano Manoel da Silva, assentado ligado ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Produtor de hortaliças e vegetais sem uso de agrotóxicos, Silva diz que o assentamento sofre constantes ameaças. “Nós sentimos o cheiro do veneno que é passado ao redor, nas fazendas, de avião. O assentamento a todo momento está sendo seduzido pelo agronegócio, com falsas promessas de pessoas para arrendar sítio e plantar soja”, detalha.

Futuro de bom senso

Do campus de Sinop da UFMT, a bióloga Ana Lúcia Tourinho acompanha o mapa do desmatamento com preocupação. “Nós estamos vendo a fragmentação da Amazônia, aumento do desmatamento e do fogo. A perspectiva não é positiva, mas de perdas drásticas”, analisa.

Tourinho ressalta que essas perdas acabam reduzindo os próprios serviços prestados pela floresta à economia do país. “A mata nos presta serviços como o de polinização, onde a vida segue acontecendo livremente, sem que a gente precise pagar por isso”, detalha.

Além disso, frisa a bióloga, é preciso considerar a íntima ligação entre floresta e produção de água. “As árvores tiram a água do fundo, de graça, e devolvem para a atmosfera”, explica, fazendo menção à origem de boa parte das chuvas que caem na região.

O pesquisador da UFMT Domingos de Jesus Rodrigues é categórico: “Se a floresta desaparecer, vai ser uma perda muito grande, principalmente para a população humana. Porque nós teremos desertificação, redução de chuvas, aumento de calor, e isso contribuirá negativamente para a sobrevivência dessas populações”, resume as principais conclusões de estudos científicos feitos nas últimas duas décadas.

O bom senso, defende, é que dois lados dialoguem. “Porque precisamos de alimento, mas também precisamos da preservação ambiental”, afirma. “A preservação da floresta garante a sustentabilidade do agronegócio”, resume.


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