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Sábado 24.out.2020

Ano IX - Nº 416

Coluna

O cineasta que cobriu o sertão de ouro

Anselmo Duarte: seu lugar é de gala na história do cinema nacional

Postado em 27 de Maio de 2020 - Clayton Sales

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O ínfimo pedaço de terra no interior da Bahia e o burro Nicolau era tudo que Zé do Burro possuía. O naco de chão nas entranhas do Brasil profundo e o animal a quem o humilde sertanejo considerava seu melhor amigo eram seu tesouro. Quando Nicolau adoece, Zé do Burro procura um terreiro de candomblé. Em troca da cura para a enfermidade do animal, deixa para a mãe-de-santo duas promessas: a de que suas modestas terras seriam divididas entre os pobres e a de que carregaria uma grande cruz de madeira até a igreja de Santa Bárbara, na capital baiana. Nicolau se recupera. Então, Zé do Burro começa a jornada para cumprir suas promessas. Ao chegar em Salvador com sua cruz, sua sincera gratidão e sua inocente fé, ele se depara com a intolerância. O padre impede a entrada dele na igreja sob a alegação de que seus compromissos sagrados foram assumidos em um contexto "pagão", já que feitos em um terreiro. Zé do Burro é persistente. Insiste em ingressar na igreja para honrar sua dívida e ganha apoios da população, da imprensa, que o transforma em símbolo da reforma agrária e dos seguidores do candomblé, que o transformam em ícone da luta contra a discriminação religiosa. Mas o ingênuo e pacato sertanejo queria apenas pagar sua promessa e quando a situação descamba para o confronto violento com a polícia, ele acaba morto. O povo revoltado com o padre e as autoridades colocam o corpo de Zé do Burro na cruz e invade a igreja. Promessa cumprida. 

Repleto de elementos culturais brasileiros e construído sob uma narrativa com forte componente do teatro, já que o roteiro foi baseado na peça homônima de Dias Gomes, o filme "O Pagador de Promessas" (1962) tinha tudo para ser apenas um clássico poderoso da cinematografia brasileira, com digitais nítidas do espírito crítico do Cinema Novo. Porém, o longa-metragem foi além. Foi a lugares que nenhuma produção nacional jamais foi até hoje. A lugares que também o colocaram no Olimpo dos grandes trabalhos cinematográficos globais. O maior desses lugares foi a Palma de Ouro do Festival de Cannes, a mais importante conquista internacional do cinema brasileiro. "O Pagador de Promessas" também se tornou a primeira obra da América do Sul a ser indicada ao Oscar de melhor filme estrangeiro. A saga comovente do sertanejo Zé do Burro cativava o mundo. 

O responsável pela façanha de globalizar e laurear histórias tão íntimas da alma do Brasil dos sertões, terreiros, igrejas, povo e pobreza, foi o cineasta paulista Anselmo Duarte, cujo centenário de nascimento foi celebrado no último dia 21 de abril. Pouco celebrado, na verdade. Menos do que merecia, não somente pela proeza de inscrever o Brasil na galeria dos agraciados com a glória máxima de Cannes, mas por toda sua trajetória. Anselmo Duarte iniciou a caminhada pela sétima arte como figurante de "It's All True" (1942), o famoso filme inacabado de Orson Welles. Depois, seu nome seria projetado nacionalmente, não com a vitória em Cannes, mas como rosto bonito que arrebatava os corações em "Carnaval no Fogo" (1949), a partir do qual ganhou a pecha de "maior galã do Brasil". O estrelato rendeu a Anselmo Duarte um rentável contrato com a prestigiada companhia Vera Cruz, pela qual atuou em clássicos musicais como "Tico-Tico no Fubá" (1952), entre outros trabalhos. 

De astro boa pinta a diretor, não tardou. Anselmo Duarte lançou a primeira produção que dirigiu, a comédia romântica "Absolutamente Certo" em 1957, na qual também foi ator principal e roteirista. Desde então, seu talento como cineasta era cada vez mais notável, culminando com "O Pagador de Promessas" e a consagração histórica em Cannes. Embora essa e outras produções como "Vereda da Salvação" (1965) e "Quelé do Pajeú" (1969) contenham traços da veia questionadora do Cinema Novo, alguns expoentes do movimento rejeitavam o cinema de Anselmo Duarte. Até mesmo a Palma de Ouro foi vista como sinal de capitulação ao mainstream estrangeiro, apesar de Glauber Rocha, um de seus críticos, ter dois filmes também indicados ao mesmo prêmio em Cannes. Depois disso, sua carreira entrou em decadência. Mesmo assim, ainda realizou alguns filmes como "Os Trombadinhas" (1979), sua última produção como diretor. Depois, chegou a atuar em "Tensão no Rio" (1982) e "Brasa Adormecida" (1987), mas se afastou definitivamente do cinema. Sua última participação em uma obra audiovisual foi o depoimento no documentário "O Homem que Engarrafava Nuvens" (2009), sobre o compositor Humberto Teixeira. Anselmo Duarte morreu em 2009, aos 89 anos de idade, deixando dezesseis produções como roteirista e doze como diretor, além dos vários filmes em que atuou. 

É possível especular por que o centenário de Anselmo Duarte foi tão escassamente lembrado por parte dos meios de comunicação: os discordâncias com próceres do Cinema Novo, o afastamento precoce do cenário cinematográfico brasileiro ou a armadilha involuntária da expectativa, elevada a níveis tão altos com "O Pagador de Promessas" que causou a cruel espera por outra obra de qualidade equivalente, o que não aconteceu, tornando Anselmo Duarte uma espécie de "cineasta de um filme só", o que seria uma colossal injustiça com sua carreira. O fato é que a saga de fé e luta do Zé do Burro do texto teatral de Dias Gomes ganhou dimensão mundial graças ao poder do cinema de Anselmo Duarte, que deu ao Brasil sua premiação mais destacável, levando ao planeta o coração e o sangue do sertanejo simples. E o planeta o aplaudiu efusivamente, cobrindo sua arte com ouro das palmas e o lugar de gala na história do cinema nacional.


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