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Sábado 04.jul.2020

Ano VIII - Nº 400

Coluna

As maçãs podres

Uma reflexão sobre o dever moral dos frutos patriotas

Postado em 27 de Maio de 2020 - Rodrigo Amém

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Você conhece a expressão: Algumas maçãs ruins estragam todo o barril. Esta é a imagem que os cidadãos de bem usam para relativizar a responsabilidade da polícia pelos crimes cometidos por seus membros. Não é toda a polícia que é violenta, mas algumas poucas "maçãs ruins" é que mancham a reputação ilibada da honrosa corporação. 

Acho que tal alegoria não se aplica à relação entre serviço público e responsabilidade penal. 

O problema é que a maçã, como qualquer fruto, não é um ser capaz de agência. A maçã não é capaz de realizar ou evitar coisa alguma. A maçã não escolhe cair na cabeça de Newton para dar-lhe um insight sobre a Lei da Gravidade. A maçã não almeja ser integrada a uma deliciosa torta, nem tem culpa dos bichos que crescem dentro de si. A maçã não pode fazer nada para salvar o barril caso uma colega dê sinais de podridão ao seu lado. Seria ridículo esperar que uma maçã defenestre uma colega podre pelo bem maior do barril. Para salvaguardar a imagem e função institucional do barril diante da sociedade que aprecia maçãs. 

É por isso que não damos armas e uniforme a maçãs na esperança de que garantam a ordem pública. É por isso que não treinamos maçãs em táticas de guerra. Não fazemos nada disso porque não esperamos que maçãs sejam capazes de equilibrar obediência à Constituição, profissionalismo, coragem cívica e moral na dificílima função de preservar a paz. 

Por outro lado, também é provável que uma maçã saudável não faça qualquer esforço para esconder a podridão que se alastra no fundo no barril. Não veremos jamais uma maçã dizer que maçã podre é uma "conspiração da mídia" que é incapaz de reconhecer a dura realidade das maçãs que dão a vida pelo barril. Não existe a possibilidade das maçãs torturarem aqueles que reclamarem do seu sabor ácido. Não vejo um cenário possível onde maçãs se tornem, deliberadamente, venenosas.

Apenas poucas maçãs podres são as perpetradoras desses crimes, dirão alguns. Mas a instituição, o barril, está cheio de maçãs boas. E o que estão fazendo as tais maçãs boas? Não deveriam estar combatendo as podres? Denunciando? Prendendo? Faz sentido premiar uma maçã podre acusada de assassinato com um cargo administrativo no ar condicionado do quartel? Quero dizer, do barril?

Por isso eu prefiro outra analogia, atribuída ao comediante norte-americano Chris Rock: "Se 10 pessoas acham normal andar com um nazista, então temos 11 nazistas". Se uma maçã ajoelha no pescoço de um homem algemado e não leva uma coronhada de uma colega, temos duas maçãs racistas. Se uma maçã faz ameaças às instituições democráticas e não termina a aposentadoria na cadeia, é porque todo o barril fede a golpe. E aí fica a pergunta: pra que serve um barril podre?

Por isso, fica a dica: se você é maçã boa e não faz nada para purgar as podres, tenho más notícias pra você, fruta. Conivência também é crime e o cheiro desse barril não engana mais ninguém.


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