Semana On

Segunda-Feira 25.mai.2020

Ano VIII - Nº 394

Poder

O país governado por uma gangue ideológica

Vídeo da reunião ministerial mostra que o presidente seus ministros não respeitam a democracia e pretendem impor regime de exceção

Postado em 23 de Maio de 2020 - Semana On, Josias de Souza e Leonardo Sakamoto (UOL), Roberta Paduan (Veja), Carta Capital - Edição Semana On

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Aberto por determinação do decano do Supremo Tribunal Federal, ministro Celso de Mello, o HD externo número 195.1992, patrimônio da Presidência da República, foi tornado público sexta-feira (22) como parte da investigação que pretende descobrir se o presidente Jair Bolsonaro tentou intervir politicamente na Polícia Federal, como denunciou o ex-ministro da Justiça Sergio Moro.

Gravada no dia 22 de abril, quando o Brasil registrava 45.757 casos do novo coronavírus e 2.906 mortes, a reunião ministerial se soma a outros indícios que compõem o inquérito nas mãos da Procuradoria-Geral da República.

Para além dos trechos diretamente relacionados à tentativa de interferência na PF, a divulgação do vídeo expôs outras faces do governo. Bolsonaro chegou a defender que a população se arme para reagir a medidas de isolamento social, enquanto o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, advogou que se aproveite as atenções voltadas à pandemia para afrouxar a legislação ambiental. Nos trechos que foram divulgados, pouco foi falado sobre como reduzir o índice de contágio que seria praticamente multiplicado por dez em pouco tempo.

A expôs ao país as entranhas do governo de Jair Bolsonaro. O que se vê é aterrador: falta de rumo, proteção à família e aos amigos, ameaças aos adversários, ataques às instituições, flertes com a ilegalidade, arroubos armamentistas e desprezo pela realidade. O conjunto da cena revela algo muito parecido com uma balbúrdia. Nela brilha quem aposta no tumulto: o próprio presidente e a banda apocalíptica do governo. Quem opera sem tambor leva pito e passa vexame.

Do lado de fora das vísceras, já ardia a crise do coronavírus. O número de mortos acabara de passar da marca de 2,9 mil. Do lado de dentro, o drama sanitário não compunha as preocupações do presidente da República. Bolsonaro não disse uma mísera palavra sobre UTIs e respiradores. Estava preocupado em cobrar, num timbre colérico, lealdade política dos ministros e informações dos órgãos de inteligência capazes de evitar sacanagens contra familiares e amigos.

Ironicamente, o ministro Celso de Mello, do Supremo, jogou a gravação no ventilador no dia em que a reunião fez aniversário de um mês. Os brasileiros infectados pelo coronavírus agora são contados em mais de 330 mil. Os mortos somam mais de 21 mil. E o Brasil, privado de uma coordenação nacional no enfrentamento do flagelo sanitário, ficou sabendo que o seu presidente xinga em privado governadores e prefeitos que tentam deter o vírus. E trama uma delirante rebelião armada da população contra o isolamento social.

Bolsonaro chamou de bosta e estrume os governadores João Doria e Wilson Witzel, de São Paulo e do Rio; o prefeito Arthur Virgílio Neto, de Manaus. Tratou o isolamento como antessala de um golpe. Cobrou de Sergio Moro e do general Fernando Azevedo e Silva a defesa enfática do armamentismo. "Como é fácil impor uma ditadura no Brasil", disse o presidente. "O povo dentro de casa. Por isso eu quero, ministro da Justiça e ministro da Defesa, que o povo se arme. É a garantia de que não vai ter um filho da puta para impor uma ditadura aqui. Quero todo mundo armado."

Damares Alves, cavaleira do Apocalipse, falou em encarcerar gestores estaduais e municipais. "A pandemia vai passar", ela afirmou. "Mas governadores e prefeitos responderão processos. E nós vamos pedir, inclusive, a prisão de governadores e prefeitos." Ricardo Salles enxergou no vírus uma oportunidade a ser aproveitada para completar o desmonte dos regulamentos da área ambiental e de outros setores. A imprensa "só fala de covid", festejou Salles, antes de sugerir que o "momento de tranquilidade" fosse usado para "ir passando a boiada e mudando todo o regramento, simplificando normas." Regras "do Iphan, de Ministério da Agricultura, de Ministério de Meio Ambiente, de ministério disso, de ministério daquilo."

Poupado por Celso de Mello, que manteve sob sigilo seus ataques à China, o chanceler Ernesto Araújo deliciou-se com a fala do quarto cavaleiro da ala do fim do mundo da gestão Bolsonaro. "Eu, por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia. Começando no STF", vociferou o ministro da Educação, Abraham Weintraub, deixando no ar a impressão de que prenderia na sequência os vadios do Legislativo.

Quem assiste ao espetáculo encenado dentro das entranhas do governo verifica que a divulgação da fita, combinada com os fatos que vieram na sequência, não deixa dúvidas sobre o desejo de Bolsonaro de intervir politicamente na Polícia Federal, como acusou Sergio Moro ao se demitir. "Eu não vou esperar foder a minha família toda, de sacanagem, ou amigos meus", disse Bolsonaro, responsável por 29 dos 37 palavrões mencionados na reunião.

O problema é que o inquérito sobre a conversão da PF em puxadinho da família mal começou e o país se depara com outro drama de enorme gravidade: o tumulto não segura o vírus nem produz empregos. E o governo não tem nada a oferecer para os brasileiros que enterram seus familiares e amargam os primeiros efeitos da crise econômica dramática que se seguirá à pandemia histórica.

Do ponto de vista criminal, Bolsonaro escora o seu mandato na aparente indisposição do procurador-geral da República Augusto Aras para denunciar o presidente que o indicou. Na seara política, o capitão compra o escudo do centrão. Ou seja: não são negligenciáveis as chances de o Brasil continuar sendo governado pela balbúrdia.

Ao jogar no ventilador a gravação da reunião ministerial, Celso de Mello promoveu um strip-tease do governo.

Comparar o encontro da cúpula da administração Bolsonaro com uma conversa de botequim não seria adequado. Perto do que se vê nas cenas captadas na sala de reuniões do Palácio do Planalto, um boteco de quinta categoria oferece aos seus frequentadores uma atmosfera mais sofisticada.

Observa-se na filmagem uma reunião comandada por um presidente que utiliza linguajar rastaquera, abusa dos modos rústicos e aborda temas que aguçam seus maus bofes. Em certos trechos, o presidente dirigiu-se aos subordinados como se estivesse fora de si. Não conseguiu esconder o que tem por dentro. E o palavrório vertido por Bolsonaro diante das câmeras não o dignifica.

No miolo da fita, surge um presidente preocupado em colocar o aparato do Estado a serviço de interesses privados, para livrar a família e amigos do que chamou de "sacanagens". A cena orna com a denúncia feita por Sergio Moro.

A desqualificação de Bolsonaro contagiou certos ministros. Entre eles Abraham Weintraub, da Educação, que, neste mesmo momento negocia, por ordem de Bolsonaro, a entrega de um cofre de R$ 55 bilhões do Fundo Nacional do Desenvolvimento da Educação para os patriotas do centrão.

As consequências criminais do inquérito que corre no Supremo são ainda incertas. Do ponto de vista político, há em Brasília um presidente nu e um governo esfarrapado.

Durou pouco trégua do capitão com bosta e estrume

Inaugurado na quinta-feira (21), o cessar-fogo entre Jair Bolsonaro e os governadores durou apenas um dia. As línguas estão novamente engatilhadas. Reabriram-se os paióis. Aquele Bolsonaro que tratou com fidalguia os 27 governadores numa videoconferência era de vidro e se quebrou.

O Bolsonaro legítimo, o puro, o escocês estava, por assim dizer, engarrafado numa gravação feita há um mês. Em plena reunião ministerial, o capitão chamara João Doria de "bosta" e Wilson Wietzel de "estrume". Pespegara um "bosta" também em Arthur Virgílio Neto, prefeito de Manaus.

O Bolsonaro real soou na gravação captada pelas câmeras do Planalto mais escatológico do que o presidente que realiza exercícios diários de exacerbação defronte do Alvorada.

"O que os caras querem é a nossa hemorroida! É a nossa liberdade! Isso é uma verdade", declarou Bolsonaro durante a reunião ministerial. "O que esses caras fizeram com o vírus - esse bosta desse governador de São Paulo, esse estrume do Rio de Janeiro, entre outros -, é exatamente isso. Aproveitaram o vírus."

Bolsonaro prosseguiu: "Está um bosta de um prefeito lá de Manaus agora, abrindo covas coletivas. Um bosta. Que quem não conhece a história dele, procure conhecer, que eu conheci dentro da Câmara, com ele do meu lado, né? E nós sabemos a ideologia dele e o que ele prega. E quem ele sempre foi. Está aproveitando agora, um clima desse, para levar o terror no Brasil".

"Lamentável exemplo em meio à maior crise de saúde da história do país e diante de milhares de vítimas", escreveu o governador de São Paulo no Twitter. "Tanto na reunião ministerial quanto em sua live em frente ao Alvorada, Bolsonaro segue de forma destoante", ecoou Wietzel.

Em nota, Virgílio escreveu que Bolsonaro exibe despreparo e vulgaridade que destoam da instituição que deveria saber honrar. Classificou de criminoso o boicote do presidente ao isolamento social. Disse que Bolsonaro é "cúmplice de tantas mortes causadas pelo Covid-19".

Testemunha da conversa de Bolsonaro com os governadores na quinta-feira, o presidente do Senado, definiu o armistício como "um momento histórico". Não se deu conta de que histórico mesmo na conjuntura atual é o zelo com que o presidente da República se abstém de presidir a crise sanitária, potencializando o desempenho do vírus.

Reações

“Depois de tudo o que foi dito neste vídeo, da torpeza dos ataques à democracia e as instituições, da falta de noção básica sobre civilidade democrática, da ausência total de preocupação com a vida dos brasileiros; depois da demonstração tácita de que somos governados por uma gangue ideológica, por um bando de aloprados, por uma turba de oportunistas e mistificadores, torna-se obrigação moral de todos os democratas separar o joio do trigo”, afirmou o jornalista Victor Barone, editor da Semana On.

“A nação assistiu estarrecida ao vídeo da fatídica reunião ministerial que culminou na demissão do ministro da Justiça, Sergio Moro. Foi um festival de barbaridades e palavrões capaz de fazer corar até mesmo Celsinho da Vila Vintém. Tão grave quanto a reunião, ou até mais, foi a nota do general Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional, que ameaçou o ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal, e de resto todo o país, numa defesa despropositada do presidente Jair Bolsonaro. Foi a declaração mais acintosamente antidemocrática de um general desde o fim da ditadura, há 35 anos”, disse o jornalista Ascânio Seleme. (Leia mais)

Para a jornalista Míriam Leitão, o Brasil está à deriva no meio da tragédia. “O mais espantoso na reunião é o conjunto. São duas horas repletas de palavrões e delírios, de escárnio e desrespeito com o país. O Brasil atravessando a sua pior crise em décadas, e em nenhum momento o presidente fala da pandemia como um problema que o preocupasse. Essa ausência choca. Suas falas coléricas são concentradas na defesa da sua família e dos amigos, no insulto aos adversários políticos, e em ordens para que os ministros defendam o governo. E sim, ele claramente quis interferir na Polícia Federal e disse que tem um sistema particular de informação. Na breve fala do ministro Nelson Teich, ele disse ‘a gente não é um barco à deriva’. Engano. Aquela reunião prova que o Brasil não tem governo, está à deriva no meio de uma tragédia”. (Leia mais)

“Um clube de aloprados com uma tremenda dificuldade de governar”. Essa foi a maneira que um dos onze ministros do Supremo Tribunal Federal definiu a equipe de ministros e o presidente, após ler a transcrição da reunião.

“O que se vê é um contrato entre ignorantes. Um presidente sem conhecimento dos temas, que formou um ministério com outros ignorantes, com algumas poucas exceções, justiça seja feita. Veja o ministro da Educação (Abraham Weintraub): ele claramente ainda não conseguiu entender nem a pasta que toca, que é o segundo maior ministério, que administra uma montanha de dinheiro. Tudo o que se vê ali é reclamação, vitimização, como se estivessem sendo perseguidos, quando, na verdade, eles não conseguem fazer trabalhar por desconhecimento da administração pública e do tema que deveriam dominar. Não tem perigo de dar certo”, afirmou o ministro.

Perguntado se o Supremo deve tomar alguma atitude em relação à fala de Weintraub, o ministro disse que é preciso perguntar ao procurador-geral da República (PGR), Augusto Aras, se há indícios de crime de injúria e difamação, mas acredita que Weintraub pode alegar que estava apenas fazendo um desabafo.

Um dos aspectos da reunião que mais chamaram a atenção do ministro do STF é a dificuldade de o atual governo lidar com a democracia constitucional. “É um grande obstáculo, eles não sabem conviver com as regras, não sabem o papel de cada instituição de Estado. Por isso, acham que o STF interfere no trabalho do Executivo. O problema é que esse presidente e seus ministros apresentam propostas inconstitucionais. Não querem respeitar, por exemplo, as atribuições de estados e municípios, como tentaram fazer na questão da quarentena, e, aí, não tem jeito, o STF é acionado. Nós estamos aqui para isso: para avaliar se a Constituição está sendo cumprida. Não é o STF que quer atrapalhar o Executivo. É o Executivo que tem de propor medidas dentro do que a Carta estabelece”.

Por fim, o ministro do STF afirmou que é “espantoso” o nível de subserviência que alguns membros da equipe tentam demonstrar a Bolsonaro. “Parece um torneio para ver quem consegue ser mais subserviente. Eles tentam reproduzir o que o presidente gosta de ouvir. Até o Paulo Guedes (ministro da Economia), que eu imagino que seja intelectualmente mais sofisticado, parece se rebaixar para parecer que faz parte do grupo”, concluiu.

Uma nota conjunta foi liberada por partidos de oposição à Bolsonaro ao passo que as revelações da reunião eram mostradas. No comunicado, os partidos expressam repúdio, também, a um posicionamento do general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), que mais cedo liberou uma nota com teor de ameaça ao Supremo Tribunal Federal.

“PT, PCdoB, PSOL, PSB, PDT e Rede – manifestam seu veemente repúdio ao conteúdo de vídeo de reunião ministerial do governo Bolsonaro, bem como à nota divulgada pelo general Augusto Heleno, com um ataque inaceitável ao Supremo Tribunal Federal. […] O vídeo desfaz qualquer legitimidade do atual governo no comando dos destinos da Nação, pois escancara o desprezo à democracia, à vida e às conquistas civilizatórias do povo brasileiro. Ademais, indica a tentativa de formação de milícias em defesa de um projeto antinacional e antidemocrático.”, dizem. No final, o grupo enfatiza que apoia o prosseguimento nos pedidos de impecheament de Bolsonaro.

Quem também se manifestou por meio de nota oficial foi o prefeito de Manaus (AM), Arthur Virgílio Neto, que foi atacado por Bolsonaro na lógica de que governadores e prefeitos estariam implementando uma “ditadura” ao decretarem quarentena para frear o avanço do coronavírus.

“Os insultos do presidente Bolsonaro, dirigidos a mim e a outros homens públicos, representam um verdadeiro “strip-tease moral” feito por quem não tem a mais mínima condição de governar o Brasil. […] Não gosta de mim? Que bom. Sinal de que estou no lado certo da vida. Também não gosto da ditadura que já nos massacrou e que ele gostaria de reviver. Daqui a pouco mais de dois anos, o país estará livre de tão diminuta e mesquinha figura.”, escreveu o prefeito.

O pivô da acusação de que Bolsonaro teria interferido na Polícia Federal, o ex-ministro Sergio Moro, afirmou que “a verdade foi dita, exposta em vídeo, mensagens, depoimentos e comprovada com fatos posteriores” em uma publicação nas redes sociais.

 

O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) interpreta que a liberação do vídeo prova que Bolsonaro visava intervir na PF, motivo pelo qual a investigação foi instaurada em primeiro lugar. O trecho a qual o senador se refere já tinha sido liberado.

 

A deputada federal Gleisi Hoffmann (PT-RS), que também é presidente nacional do Partido dos Trabalhadores, afirmou em uma postagem que Bolsonaro “não tem condições de ser presidente da República”. “É agressão e briga o tempo todo. Proteção do povo, nada! Nenhuma fala sobre assegurar renda, emprego, vida!”, escreveu.

 

O governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), também interpreta que o vídeo “confirma a delação de Sérgio Moro” sobre a interferência de Bolsonaro na PF. Para ele, a reunião interministerial “contém diversos crimes contra a honra; revela planos de “armar a população” para fins POLÍTICOS; mostra inequívocos impulsos despóticos.”, escreveu.

 

João Doria (PSDB), governador de São Paulo e um dos alvos políticos mais contundentes de Bolsonaro na pandemia, afirmou que o País está “atônito com o nível da reunião ministerial”.

 

Wilson Witzel (PSC), governador do Rio de Janeiro que também é xingado na reunião interministerial, diz que sente “na pele” o “desapreço pela independência dos poderes” em uma publicação também feita no Twitter. Sobre a acusação de ser um “estrume”, segundo o presidente, Witzel afirma que “é essencialmente como ele [Bolsonaro] próprio se vê”.

 

Para Guilherme Boulos, coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e pré-candidato à prefeitura de São Paulo, o destaque vai para a falta de menções à saúde pública em tempos de pandemia. “Tem tempo pra xingar ministro do STF, para defender armamento da população e pra acabar com o Ibama. Mas ninguém fala no combate ao coronavírus. Estamos à deriva!”, escreveu.

Fãs de Bolsonaro vibram com o vídeo

“Puta que o pariu! O Weintraub pode ter falado a maior merda do mundo, mas racista? Vamos ter que reagir pessoal." Grupos bolsonaristas já recortaram trechos do vídeo da reunião, e os divulgaram nas redes sociais e no WhatsApp. Para uma parcela dos fãs e seguidores do presidente da República, os xingamentos ali presentes e suas promessas, como armar a população contra o que ele chama de ditadura, soaram como música. Também foram bem recebidas junto a esse público as declarações como a dos ministros da Educação e da Mulher, Família e Direitos Humanos.

Esses seguidores e fãs viram a reunião de cerca de duas horas como uma versão premium da live que o presidente realiza às noites de quinta. Sentiram-se representados. Acreditam estarem em uma batalha contra o "politicamente correto" e defendem o seu direito de não permanecer em quarentena por conta da "gripezinha". Sem contar, a liberdade de ter uma pistola.

Um naco do mercado também festejou a fala do ministro da Economia, Paulo Guedes: "tem que vender essa porra logo", como mostram grupos de investidores. A "porra" no caso era o Banco do Brasil.

E uma parcela do agronegócio e do extrativismo considerou o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, um estrategista por sugerir aproveitar a pandemia para remover regras que balizam meio ambiente, a agricultura e preservação do patrimônio histórico: "nós temos a possibilidade, nesse momento em que a atenção da imprensa tá voltada quase que exclusivamente pro covid (...), de ir passando a boiada e mudando o regramento". "E deixar a AGU [Advocacia Geral da União] de stand by pra cada pau que tiver", completou.

Não há dúvidas. O vídeo alimentará e fortalecerá seus seguidores. Em pronunciamentos de rádio e TV, Bolsonaro já se dirige sistematicamente a eles, como forma de garantir proteção ao seu mandato. A transformação desse conteúdo em material de guerra política de forma tão rápida mostra que haverá disputa de narrativa.

Enquanto contar com bolsonaristas fieis, a popularidade do presidente não cairá a ponto de criar um incômodo para os deputados do centrão que negociam cargos em troca de votos. Não vai cometer um "autogolpe", mas também dificilmente sofrerá impeachment com aprovação de 36%, segundo o Datafolha.

Em entrevista à rádio Jovem Pan, após a divulgação do vídeo, Bolsonaro afirmou: "É uma reunião em que eu posso falar com coração o que eu sinto. Tem palavrão? Tem. Lamento, quem não quiser, que vote em um engomadinho no futuro, que não fala palavrão mas mete a mão no bolso de todo mundo".

O problema não são os palavrões, mas os ataques às instituições, as estratégias para redução de direitos, o preconceito contra grupos sociais e o crime de interferir na Polícia Federal para defender familiares e amigos. Tudo presente no vídeo.

Tudo isso não importa aos seguidores fieis do presidente. Pelo contrário, como disse um deles em uma mensagem em rede social: "pelo tanto que nosso presidente e seus filhos fazem pelo país, a polícia tem mesmo é que fazer tudo o que ele precisar".

Não é possível saber se essa frase foi postada por um seguidor ou alguém contratado para parecer que é. Mas, sinceramente, isso pouco importa.


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