Semana On

Quarta-Feira 12.ago.2020

Ano IX - Nº 405

Saúde

Pandemia avança enquanto Governo brinca com números

Ministério da Saúde usa a própria incapacidade de registrar casos como ‘sinal’ de ‘estabilização’ da covid-19. Enquanto isso, amplia-se colapso das UTIs e mortes crescem no interior e periferias. Tudo pode piorar com reabertura de comércios

Postado em 22 de Maio de 2020 - Maíra Mathias e Raquel Torres – Outra Saúde

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Pela segunda vez em uma semana, o Brasil registrou mais de mil mortes em 24 horas. Foram 1.188 entre quarta e quinta-feira, levando a um total a 20.047 óbitos. O número de infecções conhecidas chegou a 310 mil, com 18,5 mil novos casos.

Os registros continuam velhos, o país continua perdido. Na coletiva de imprensa de quinta (21), Eduardo Macário, diretor do Departamento de Análise em Saúde e Vigilância em Doenças Não Transmissíveis, afirmou que até agora a data de 5 de maio foi a que, de fato, teve o maior número de óbitos num único dia: 480. Foi apresentado um gráfico mostrando que, a partir de então, tem havido um decrescimento das mortes.

Ocorre que as investigações não foram todas concluídas. Voltando um pouco no tempo, vemos que no dia 5 de maio o número de óbitos divulgado pelo Ministério foi de 600, mas na época a pasta informou que só 25 deles tinham realmente acontecido nas 24 horas anteriores. Se hoje o governo sabe que houve 480 mortes naquela data, isso quer dizer que outras 455 foram registradas depois. Ou seja: não dá para confiar nem um pouco nessa aparente diminuição das mortes desde o dia 5.

Pelo menos Macário reconheceu que se trata de uma falsa impressão, afirmando que não há “subsídios suficientes” para identificar se o Brasil já atingiu o pico da pandemia. Na verdade, daria para ser bem mais específico do que isso e dizer que, muito provavelmente, o pico não passou. Basta olhar para a sobrecarga na rede de saúde de vários estados e municípios e para a forma como o vírus vem se espalhando Brasil adentro. Fora que o volume de mortes sem diagnóstico fechado não para de crescer, apesar de que, segundo Marcário, “essa demora já foi muito maior no passado, e agora a gente consegue ter uma celeridade nessas investigações”. Acontece que neste momento há 3,5 mil óbitos em investigação. No dia 5, eram 1,5 mil.

Quanto ao número de casos, o Ministério da Saúde tem uma teoria interessante para explicar por que a curva brasileira está crescendo de forma mais acentuada do que aconteceu nos Estados Unidos, no Reino Unido, na Itália, na França e na Espanha (sempre comparando com o dia da entrada do vírus em cada país): é que agora o Brasil estaria correndo atrás de eliminar a subnotificação, com o “aumento na capacidade laboratorial”. De acordo com Macário, estamos “identificando uma curva bem próxima do número de casos real”. O Brasil ainda é um dos países que menos testam no mundo. É preciso muito boa vontade para crer nessa explicação.

Em tempo: sempre ganhando manchetes com farfalhadas, o presidente Jair Bolsonaro disse em sua live de quinta (21) que no Brasil morre “muito mais gente de pavor” do que de covid-19. “No meu entender, houve uma propaganda muito forte em cima disso. Trouxe o pavor para o seio da família brasileira“, insistiu.

O fim do que não começou

Em comparação com outros países e regiões, vários estados brasileiros começaram a adotar medidas de restrição relativamente cedo, em meados e março, quando o país registrou a primeira morte em São Paulo. Ainda assim, as curvas de contágio e morte hoje parecem incontornáveis. Isso tem sido combustível para a ira bolsonarista em suas redes, onde tomou corpo o boato de que o isolamento não tem muita serventia.

Mas as restrições foram quase sempre insuficientes, e, conforme a situação piorava, elas demoraram a ser enrijecidas. Mesmo nos lugares onde se declarou o lockdown, o que seria o confinamento mais duro possível, não necessariamente as medidas são ou foram dignas desse nome. Uma reportagem da Piauí explica como cada estado e município usa uma estratégia diferente e a bagunça que isso gera.

No Maranhão, primeiro estado a determinar o lockdown (o que foi feito quando a ocupação das UTIs estaduais destinadas a pacientes com coronavírus na região metropolitana de São Luís, chegou a 100%), as aulas foram suspensas, o uso de máscaras se tornou obrigatório, os serviços não essenciais foram fechados. Porém, embora tenha sido vetada a aglomeração de pessoas em espaços públicos, a movimentação nas ruas não foi proibida, nem a circulação de carros particulares. Vale dizer que, ainda assim, o quadro melhorou. Mas as medidas foram interrompidas numa situação ainda muito pouco confortável, com mais de 80% das UTIs cheias. Com o mesmo nome – ‘lockdown‘ –, as restrições no Pará foram muito mais pesadas, abrangentes e duradouras. Na capital cearense, também.

O Comitê Científico de Combateao Coronavírus do Nordeste recomendou que mais governadores da região adotem o lockdown em algumas grandes cidades da Paraíba, Rio Grande do Norte, Alagoas e Bahia, onde há curvas ascendentes de casos e mais de 80% de ocupação dos leitos hospitalares. Resta saber que ‘lockdown‘ será este, se for acatado. Em Pernambuco, mesmo com confinamento iniciado no sábado, a taxa de isolamento segue baixa: na quarta, ficou em 54% na capital e na casa dos 53% em Olinda.

“O nosso isolamento social é muito meia-boca. Estamos fazendo uma coisa pela metade. E o que é pior, a gente é como aquele paciente que toma metade do antibiótico, não cura da infecção, mas tem dor de cabeça, dor de estômago e todos os efeitos colaterais”, resumiu, na Piauí, o epidemiologista e professor da USP Paulo Lotufo. E completou: “Nós estamos aprendendo, ninguém sabe exatamente o que tem que ser feito. A questão é achar alguns marcadores. Defendo dois principais: ver se houve alteração no excesso de mortes e aumentar a capacidade hospitalar. Quando você reduzir as mortes e aumentar a sua capacidade de atendimento a quem precisa, tiver mais leitos e dando conta da situação, aí você pode pensar no afrouxamento da medida”.

Como bem sabemos, não é o que acontece. Nem poderia: mesmo onde as curvas diminuem, não dá para saber direito se é por redução nas contaminações ou pela falta de testes e atraso nos registros. Simplesmente não há dados para determinar reaberturas.

O estado do Rio, que tem 32 mil casos e 3,4 mil mortes, anunciou ontem seu protocolo de flexibilização. As decisões vão se basear justamente em dados falhos. Conforme as curvas da doença e as taxas de ocupação de leitos, haverá bandeiras verde, amarela e vermelha indicando a liberação ou fechamento das atividades. Só que se trata do estado com o mais baixo índice de processamento de exames de covid-19. Só 42% das amostras colhidas foram processadas – e isso sem contar os testes que sequer foram feitos.

Na capital fluminense, grande foco das contaminações e mortes do estado (18 mil casos e 2,3 mil mortes), o prefeito Crivella almoçou com Bolsonaro ontem e logo em seguida anunciou já ter pronto um “plano completo” de reabertura do comeŕcio nos próximos dias. Segundo ele, a proposta vem num momento de achatamento da curva. Mas… há mais de 400 pessoas na fila por vagas em leitos de UTI na cidade. Duque de Caxias, segundo município com mais mortes (167, em 1,1 mil casos), já anunciou a abertura do comércio a partir de segunda-feira. Por lá, nunca houve restrições à circulação de pessoas. Em ambas as cidades, a taxa de mortes é altíssima, o que só comprova que há muitas, muitas infecções não registradas.

Já Niterói, com 1,9 mil casos e 65 mortes, começou ontem sua flexibilização do lockdown, após menos de duas semanas do bloqueio. O município tem sido cuidadoso no controle da crise, e o plano foi desenvolvido por técnicos da prefeitura, pesquisadores da UFF e da UFRJ (e também empresários). Algumas atividades não essenciais começam a ser realizadas, mas ainda com restrições.

O presidente Jair Bolsonaro falou a apoiadores sobre a retomada. Comemorou a conversa com Crivella, mas disse que a abertura das escolas vai precisar ser feita “com calma”. Não porque seja perigoso, mas porque as famílias ainda não se despiram do seu ‘pavor’: “A população tem que ir entendendo aos poucos o que é este vírus, que ele realmente é muito perigoso para quem tem certa idade, para quem tem alguma doença. Para a juventude não tem este perigo todo. Estamos analisando aí… Os pais [têm que] afastar aquela ideia de pavor que tinha no tocante ao vírus para a gente poder abrir”, disse.

Donald Trump, ídolo de Bolsonaro, disse ontem que não planeja suspender atividades da economia de novo caso os Estados Unidos sejam atingidos por uma nova onda de covid-19 (não, a primeira não acabou). A verdade é que se houver testagem suficiente para localizar todos os focos e tecnologia para rastrear todos os contatos, talvez bloqueios abrangentes não sejam tão necessários, mas não se sabe o que vai acontecer. De qualquer forma, lá como aqui, não depende do presidente essa decisão. Um estudo da Universidade de Columbia calculou que, nessa primeira ‘leva’, 35 mil vidas poderiam ter sido salvas caso as medidas de distanciamento social no país tivessem sido adotadas apenas uma semana antes.


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